The loneliest man in the world
The loneliest man in the world
Kapitel 110 min Lesezeit

Capítulo único

Você já conheceu a pessoa mais solitária do mundo? Acho que eu já.
Foi sem querer, na verdade, não que estivesse procurando. Eu só tinha entrado no ônibus, querendo que ele desse partida logo pro ár condicionado me livrar daquele dia tão quente. Mesmo sabendo que depois de seis horas e meia de viagem minha cabeça estaria latejando, naquele momento eu tinha acabado de sentar e não podia estar me preocupando menos com qualquer coisa que fosse.
O homem estava sentado ao meu lado. Não posso chamá-lo de moço, ele não tinha nada de moço na idade, nem na aparência. Talvez sua idade mental, mas não era o bastante. Quando coloquei meus fones de ouvido não esperei que fosse tentar puxar assunto comigo. Não queria. Queria só me sentar no maldito assento e ficar ouvindo música até a bateria do celular acabar, mas parece que pelo jeito que eu fechei a cara isso não ficou claro o suficiente. Era realmente solitário, parecia. Quase como se tivesse uma urgência de conversar com a pessoa ao lado.
Perguntou o nome da cidade de onde eu tinha saído. Respondi baixo. Era uma cidadezinha pequena, daria pra rodá-la de carro em menos de uma hora com o tanque de gasolina quase intácto. Só tinha ido ver meu pai. O ônibus estava deixando a cidade quando o homem me perguntou, e achei que fosse chorar. Não tinha mais idade pra isso, era besteira. Mas ver meu pai na plataforma enquanto eu ia embora pra tão longe dele me fez sentir como se fosse uma criança de cinco anos e tivesse sido deixada na escolinha com a professora que me amedrontava.
Mas não tinha mais cinco anos. Não era mais criança. Não era ainda adulta. Não era nada, só uma passageira dando play na música.
- É grande aqui? — O homem perguntou. Tinha acabado de começar a primeira música da lista e tive de tirar um dos fones e perguntar o que ele tinha dito. Ele repetiu.
- Não, bem pequena, na verdade.
Então ele quis saber de onde eu era. Disse que era de São Paulo. Haviam milhares de pessoas em São Paulo e aquilo não deveria fazer diferença nenhuma pra ele. Mas fez, porque aquele homem vinha de uma cidade de interior ainda mais distânte de onde meu pai morava. Tinha saído de casa aos vinte anos, me contou, pra procurar emprego. Não queria saber, não tinha perguntado nada, mas o homem apenas começou a falar e fiz o que fazia de melhor na vida: Escutei.
Na primeira parada, uma hora e meia depois, ele desceu e eu não, coloquei a música no último volume, e quando voltou fingi que estava dormindo. Não queria ser mal educada, não queria conversar com ele, então apenas virei para o lado e tentei me manter imóvel. Mas o caminho era longo, e não consegui fingir por seis horas e meia que estava cochilando.
Na segunda parada, o homem perguntou se eu ia descer, disse que havia um ótimo restaurante logo ali, um self service. Assenti, sem me importar, e deixei-o ir primeiro porque estava no corredor e não dava pra eu sair se ele ainda estivesse lá.
Vinte e cinco minutos, o motorista gritou para os passageiros. Tínhamos vinte e cinco minutos. Eu demorei sete, comprei qualquer besteira pra não passar fome e voltei para o ônibus. Estava desligado e quente ao sol de meio dia.
O homem ao meu lado voltou apenas quando o tempo já estava se esgotando, e me ofereceu um chiclete de menta. Peguei, e depois disso me senti obrigada a ser gentil porque ele tinha me dado o chiclete, então respondi as perguntas dele e fiz mais algumas.
- Você viaja muito? — Eu não queria saber. Não me importava, de verdade. A gente nunca se importa realmente com estranhos a menos que eles chamem nossa atenção, e aquele não era o meu caso. Minha cabeça começava a doer, mas mesmo assim esperei pela resposta dele, mastigando o chiclete e me lembrando de ser educada.
- Eu trabalho muito, mas sempre que dá eu venho. Sabe, eu me mudei pra Campinas em 1989, e a gente quando saí de cidade pequena nunca imagina como é nas cidades grandes, sabe. — Ele gesticulava bastante. Não de forma espalhafatosa, mas abria e fechava os dedos das mãos demais, cruzando-os e descruzando-os apenas para cruzá-los de novo. Escutei, assentindo. — E quando se olha assim, parece que a gente tá em uma gaiola, sabe.
- É por causa dos prédios. — Disse, sem me abalar. Era nascida e criada em São Paulo, amava os prédios altos e amava me sentir cercada por eles. Amava os centros da cidade, a Paulista num dia de semana nublado ou como era atravessar o Viaduto do Chá e parar pra comprar qualquer coisa com os vendedores ambulantes. Eu tinha nascido na correria, e não suportava ficar sem ela.
Mas aquele homem não. Estava há vinte anos morando em uma cidade grande sozinho. Ainda não sabia se virar direito, pelo que me disse. Perguntei se ele gostava de lá, de Campinas.
Ele riu, mas achei que fosse chorar. Tinha pés de galinha nos cantos dos olhos que se fizeram bem presentes quando ele começou a rir. Uma risada abafada, controlada, triste. Os olhos dele marejaram. Olhei direito e juro que nunca tinha visto, na minha vida, olhos tão tristes. O homem já não era jovem, e parecia carregar consigo tantos arrependimentos.
Queria perguntar porque ele não voltava pra sua cidade natal se estava tão infeliz, tão solitário. Se não, não estaria me contando tanto sobre sua vida. As pessoas não fazem isso.
— Quando eu fui embora, meu pai disse: “Olha, meu filho, eu sei que você queria ficar mais, mas não dá, fazer o que?” — Ele não me olhava quando falava, olhava pra frente, perdido em devaneios. Eu não era uma pessoa com quem ele estava interessado em conversar, era só uma estranha educada o suficiente para ouví-lo, e o homem aproveitou a chance para não parar mais de falar.
Senti pena dele, o que era ruim. Principalmente quando ele me perguntou aonde eu tinha passado o meu ano novo. Era a primeira semana do ano, por isso a pergunta.
- Com meu pai. — Respondi, checando a paisagem da janela.
- Viu os fogos?

Dei de ombros. Os fogos não tinham tido graça naquele fim de ano. Preferi ficar olhando as estrelas. Não há nada como o céu noturno do interior no verão. Parecia que todas as estrelas tinham resolvido ficar grudadas umas nas outras, todas juntas. E a lua estava cheia, enorme e linda. Porque demônios eu estaria vendo fogos de artifício ao invés daquilo?
Mas não disse isso ao homem, só disse que os fogos tinham sido sem graça mesmo. Ele sorriu como uma pessoa mais velha sorri a uma mais nova que não sabe ainda de nada.
- Sabe aonde eu tava?
- Aonde?
- Na estrada.
Não tinha resposta para aquilo. Tinha achado meu fim de ano sem graça, e agora aquele homem estranho tinha me feito sentir mal por achar aquilo. Fiquei em silêncio, e ele também, mas era claro que estava pensando em algo, lembrando da família, provavelmente. Depois me contou que tinha um monte de sobrinhos, mas ele mesmo, aonde morava, não tinha ninguém, só alguns amigos com quem trabalhava.
Enquanto isso uma mulher discutia no celular com sua irmã sobre qualquer coisa ligada a dinheiro, mas eu não conseguia ouvir bem o que era, apesar de ela estar gritando, porque minha música estava ligada. Mas de repente parou. Xinguei mentalmente. A bateria do celular tinha acabado. Eu devia saber que não aguentaria a viagem inteira mesmo. Faltava uma hora para chegarmos em Campinas. Só queria chegar logo em casa, mas o ônibus fez outra parada.
O homem me perguntou se eu queria alguma coisa da parada, e quase ri. Que tipo de pessoa se oferecia para comprar coisas para um estranho só porque a pessoa estava sentada ao seu lado no ônibus? Ele devia ser uma boa pessoa, pensei, ou talvez só esteja sendo educado, igual eu estou fazendo. Talvez aquilo fosse normal de onde ele vinha, mas pra mim soava estranho. Aquele homem daria um personagem bom pra uma história, achei, pensando em transformá-lo naquilo mesmo enquanto recusava a sua oferta, dizendo que não estava com fome.
- Nem com sede? Nem uma água?
- Tenho água aqui, obrigada.
Ele voltou depois de um tempo, falando que tinham uma comida gostosa naquele lugar também. Encarei-o por um momento pensando se ele achava as comidas de todos os lugares gostosas, como estava parecendo.
Era uma pessoa simples, aquele homem. Com uma camisa xadrez aberta sobre uma regata branca, jeans envelhecidos, o cabelo curto, a barba por fazer, sapatos velhos, magro e de altura normal. Pele da cor de quem tinha pego sol a vida toda. Parecia ter por volta de quarenta anos, alguns fios grisalhos entre o cabelo preto. Me lembrava meu pai, o jeito que ele olhava para o nada e pensava.
Ainda me perguntou o que eu queria ser quando e formasse, disse que queria escrever. Ele comentou que uma de suas amigas trabalhava com assistência social, mas não sei porque disse aquilo. Talvez fosse educado demais para me dizer que ser escritora não era trabalho de verdade, mas pra mim era.
Quando o ônibus parou em Campinas ele pegou suas coisas bem devagar, ficou de pé, soltou um suspiro e se esticou para apertar minha mão.
- Tchau. Foi um prazer. — Eu disse, tentando soar como as pessoas gentís soavam. Aquelas atendentes de loja que sempre parecem de bom humor. Não duraria um dia num emprego daqueles, pensei.
O aperto de mão do homem era firme, a mão áspera. Lembrei do meu pai de novo, a dele também era assim.
- Tchau. Obrigado. — Ele parecia realmente grato, o homem. Não sabia porque estava me agradecendo, não tinha lhe feito nada. Ele ainda tinha me dado um chiclete mas a única coisa que eu fiz foi escutar. Talvez fosse por isso.
E foi embora. Desejei que ele pudesse voltar pra casa dele, com a família, que não precisasse se sentir sozinho em uma gaiola. Ninguém devia se sentir assim.
Fiquei ainda pensando por certo tempo na história dele, no “Obrigado”. Eu é quem tinha de agradecer, achei que ele daria um bom personagem e deu mesmo. Um personagem que durou seis horas e meia e me fez pensar um pouco em quantas outras tantas pessoas no metrô não se sentem da mesma forma que ele se sentia. Essas pessoas com quem a gente cruza o olhar sem querer.
Me rendeu bastante coisa pra pensar, e pra mim, ele é o homem mais solitário do mundo. Talvez alguém conheça uma pessoa mais solitária ainda, mas pra mim é ele.
Precisava ser um personagem. E assim se tornou. Qualquer um que nos inspire o bastante para nos querer fazer escrever merece virar um personagem. Afinal, só pessoas especiais conseguem.
Aquele homem é uma dessas pessoas, e é para ele e para as outras pessoas solitárias que escrevo isso. Contem como uma dedicatória.
E agora, só para retribuir, Homem mais solitário do mundo:
Obrigada também.

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