- ACORDA! — Grita Ma, entrando no nosso quarto.
- Mais cinco minutinhos, Ma! — Eu digo, cobrindo-me até a cabeça.
- Não, não, mocinha. E o meu nome não é Ma, e sim, Maria ouviu dona Melanie! — Ela diz a mim — As outras garotas já levantaram, só falta á senhorita, preguiçosa! — E ela retira as cobertas de cima de mim.
- Bom dia pra você também, Ma... Maria! — Eu falo a abraçando.
- Pare de fingimento! Arrumem-se logo! — Ordena ela.
- Por quê? — Perguntam as outras meninas.
- Hoje virá um casal, muito rico por sinal! Virá conversar com cada uma para escolher apenas uma para ser adotada. — Diz ela — RÁPIDO MENINAS! É PRA HOJE! — Grita ela e sai do quarto.
(...)
Coloquei uma camiseta estampada, uma calça jeans e fiz um rabo de cavalo torto no meu cabelo. Quando entrei na cozinha, dei um giro e perguntei:
- Como estou?
- De chinelos, Melanie! — Reclama Ma — A diretora virá vê-las daqui a pouquinho.
- Já volto! — Digo e dou meia volta, para ir em direção ao quarto.
(...)
Desculpa, me esqueci de dizer que me chamo Melanie do Vale, todos me chamam de Mel e tenho 16 anos. Sou a segunda garota mais velha desse orfanato. A primeira é a Clara, ela tem 17 anos e é minha melhor amiga. A Clara tem uma irmãzinha de 08 anos, a Melissa que também está aqui no orfanato. Tem mais algumas crianças e há quase um mês chegou um bebê, a Anna, ela é muito linda.
A questão não é essa. A questão é que mais um casal está vindo para adotar alguém, ou melhor, eles querem adotar uma menina. Eu já perdi as esperanças de ser adotada. Afinal, quem vai querer uma adolescente de 16 anos? Claro, que vão preferir bebês como a Anna.
(...)
Coloquei um tênis e voltei para a cozinha tomar café da manhã. Sinceramente, estou de mal-humor. Poxa, não deu pra dormir mais porque um casal resolveu adotar uma menina. Que saco!
- Voltei! – Falei.
- Ótimo, agora senta aí e toma café.
- Não estou com fome! — Menti.
- Trate de comer, ou então ficará de castigo!
Revirei os olhos:
- Ma, eu não posso ficar de castigo.
- E por que a mocinha não pode? — Ma pergunta e cruza os braços.
- Já pensou, eu limpando esse orfanato. O que o casal que virá adotar uma de nós dirá? — Falei e coloquei um cotovelo no ombro direito da Ma.
- Essa passa! Mais pelo menos finge que está comendo, porque a diretora está vindo aí! — avisou.
Eu gosto da Maria, por mais que ela seja às vezes chata. Sempre quando ela coloca alguém de castigo, ela não aguenta e tira rapidinho, pois tem dó da gente. E eu sempre faço algo pra isso acontecer. Já com a diretora Pérola, é bem diferente. Um dia, quando eu era criança aprontei com ela e ela me pôs de castigo mesmo, trancada num quarto escuro, cheio de bichos. Barata! Ai que nojo... Até hoje tenho pavor desse bicho. Depois dessa nunca mais fiz algo pra ficar de castigo.
- Meninas! Bom dia. — Cumprimenta dona Pérola.
- Bom dia — Dizemos nós.
- Daqui a alguns minutos, o senhor e a senhora Gonçalves chegarão para falar com cada uma de vocês. Sejam educadas, está bem?
“Deus que fiz pra merecer isso, de novo?" – Pensei.
É muito chato ficar falando, ou melhor, sendo entrevistada por duas pessoas que você nunca viu na vida. Ainda mais eu que tenho certeza que ficarei nesse orfanato até completar 18 anos.
(...)
Entremos na sala, e sim tinha um casal... De velhinhos! Bem, o homem com a cabecinha branca deve ter uns 60 e poucos anos já a mulher uns 56 no máximo, ela até que é bonita.
- Olá garotas, tudo bem com vocês? — Pergunta o velhinho.
E todas nós se olhamos.

