Nunca pensamos que isso poderia ter acontecido conosco. Uma árvore caiu sobre um pedestre? Que triste, mas esse tipo de coisa não acontece comigo. Um ônibus foi assaltado durante a semana? Absurdo, sinto muito pelos passageiros mas esse tipo de coisa não acontece comigo. Um novo viaduto desabou causando enormes danos, matando e ferindo diversas pessoas? Que tragédia, mas esse tipo de coisa não acontece comigo.

25 anos de vida tendo a sorte de nunca quebrar um osso, presenciar ou sofrer um assalto, cujo maior transtorno vivido no trânsito foi embarcar em um ônibus que quebrou no meio do caminho para a faculdade acabou me dando uma falsa noção de realidade, uma falsa sensação de segurança que, apesar de ser percebida pela minha mente, não foi sentida em meus instintos, afinal é ridículo esperar que o mundo seja um lugar seguro quando se tem acesso a veículos de informação 24 horas por dia, mas também é ridículo pensar que quem nunca viveu uma tragédia sabe ver os sinais a tempo de evitar o perigo.

Bastou um momento de distração. Coloquei meus fones de ouvido só para ouvir um áudio no WhatsApp ao mesmo tempo em que um idiota sacou a arma e anunciou o assalto na cafeteria, entre todos os lugares, e eu não ouvi a ordem clichê de “todos no chão” e então fui baleada para servir de exemplo. Uma situação de assalto à mão armada que evoluiu para um assalto com reféns com duração de cerca de três horas que culminou posteriormente com troca de tiros com a polícia e os jornalistas anunciavam a morte do assaltante no local e uma refém morta a caminho do hospital.

É o que acontece quando você presta mais atenção às fofocas do que à própria vida.

Demorei muito para processar minha morte, como uma mulher com TDAH eu já tenho dificuldade em processar meus sentimentos, muito menos uma situação tão traumática quanto sangrar até a morte, entre outros danos ao meu corpo que não consegui compreender. Fiz faculdade de moda, não de medicina.

Nem senti dor, imagino que tenha sido o último golpe de sorte que me acompanhou durante duas décadas e meia trabalhando para me confortar no final da minha vida ou simplesmente a adrenalina me proporcionando uma anestesia muito apreciada, seja lá o que for, permitiu que eu me concentrasse nos batimentos do meu coração, batendo forte nos meus ouvidos no início e enfraquecendo lentamente, de modo que só notei a diferença quando a minha visão seguiu o exemplo e começou a falhar também.

Não me lembro do que comi, não me lembro com quem dividia a conta no café, nem me lembro sobre o que era a fofoca que me deixou tão distraída do mundo e não lembro-me do momento exato em que senti meu coração bater novamente, ou quando pude ouvir sons de novo e não me lembro quando minha visão voltou a clarear.

O som de vidro quebrando foi o que trouxe foco à minha mente entorpecida, o som alto de gritos e móveis caindo me fez pensar que estava de volta à cafeteria e continuei encolhida esperando por tiros que nunca vieram, o som alto da luta fora do meu esconderijo apertado e escuro, onde não me lembro de ter entrado, parece ter durado uma vida inteira e, eventualmente, os sons das sirenes se juntaram ao aparente inferno lá fora e os sons aumentaram de volume por alguns momentos antes de morrer e tudo o que restou foram gritos que soavam masculinos se afastando cada vez mais e um choro doloroso ainda próximo, com mais vozes soando em um tom mais suave, e passos pesados se aproximando cada vez mais.

Uma mulher de uniforme azul abriu a porta do meu esconderijo e seus braços gentis me puxaram para um abraço tão necessário, murmurando em tom calmo e gentil palavras que eu não conhecia. Mas nem toda a calma, paciência e gentileza do mundo conseguiram afastar o pânico que tomou conta de mim quando ela passou os braços em volta de mim e me levantou sem dificuldade.

Como essa mulher pôde ser tão grande e tão forte e, o mais importante, como eu pude ser tão pequena e tão leve? Ninguém me carregava há anos e ela fez isso com tanta facilidade, carregando meu corpo soluçante (e quando foi que comecei a chorar?) para fora do meu esconderijo, que agora vejo ser um armário, para o outro lado da casa revirada para cozinha destruída onde estavam mais pessoas uniformizadas, presumo que fossem algum tipo de paramédicos e policiais que cuidavam de uma mulher ferida no chão, a origem do choro e que gritava uma palavra sem parar até que ela a voltou seus olhos para mim e uma estranha mistura de medo e alívio apareceu em seu rosto.

Minha mãe. Essa mulher não se parece em nada com a mulher que me criou, mas as lembranças dessa mulher continuavam surgindo em minha mente, fui colocada ao lado dela para que pudéssemos nos acalmar e receber cuidados dos paramédicos, e eu só sei que esta é minha mãe, e não sou mais a filha da minha mãe, não sou mais a orgulhosa dona do meu diploma universitário, não sou mais dona de um pequeno negócio lutando para tornar minha marca de roupas conhecida e popular, posso nem ser mais brasileira , o que me leva a uma conclusão absolutamente aterrorizante.

Não bastasse eu ter morrido, eu renasci como um bebê de 2 anos. E eu sou um homem branco.

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