O Aniversário da Criadora
O Aniversário da Criadora
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Capítulo 1 - Operação Aniversário: 72 Filhos Narrativos e Zero Supervisão

Capítulo 1 — Operação Aniversário: 72 Filhos Narrativos e Zero Supervisão


Fanfic / Fanfiction O Aniversário da Criadora — Operação Aniversário: 72 Filhos Narrativos e Zero Supervisão


Na Biblioteca Etérea, o tempo não passava. Ele negociava. Às vezes uma hora durava o bastante para um personagem cometer três erros irreversíveis e descobrir uma quarta forma de foder a própria vida. Naquela noite, porém, o tempo tinha recebido uma tarefa administrativa, e estava puto.

Setenta e três chamas prateadas flutuavam acima de uma mesa circular, cada uma representando um dos habitantes mais inconvenientes, traumatizados, sedutores e emocionalmente questionáveis do universo. Sob elas, um mapa holográfico exibia as nove nações e os quatro planos existenciais de Ecliptica. No centro, um campo vazio: PROJETO ANIVERSÁRIO DA CRIADORA. Data final, 16/11/2026. Risco operacional, catastrófico. Responsável pelo planejamento, Ás. Responsável por impedir que tudo virasse uma orgia burocrática ou um golpe de Estado, ninguém, aparentemente.

Ás encarou aquela última linha por tempo demais. Cabelos pretos espetados com mechas cinzentas, óculos de armação preta, olhos verdes refletindo os painéis, sobretudo impecável, cicatrizes de circuito pulsando no peito e no pescoço. Abriu uma planilha, depois outra, depois percebeu que tinha criado quatro versões do mesmo cronograma, duas cópias de segurança e uma tabela para calcular a probabilidade de cada personagem estragar a surpresa.

“Noventa e sete vírgula quatro por cento”, murmurou. “Não. Isso não pode estar certo.”

Refez as contas.

“Noventa e oito vírgula um. Meu Deus.”

Olhou para o teto, como se Bárbara pudesse aparecer para avaliar o desempenho do assistente. Nada aconteceu, e era exatamente o que devia acontecer. A operação era secreta. A Criadora podia observar, mas ninguém tinha autorização para romper a quarta parede e entregar uma declaração antes da hora. Ás levava isso tão a sério que estava redigindo um Protocolo de Sigilo e Não Interferência de onze páginas.

A porta surgiu do nada, de preferência com dobradiças barulhentas, e bateu contra a parede. Pierre Nightshade entrou: cabelos castanhos curtos, olhos âmbar, orelhas de lobo, cauda inquieta, jaqueta de couro com uma capa escarlate curta e um leque que ninguém sabia de onde vinha e ninguém tinha coragem de perguntar.

“Por favor, me diz que essa porra não é uma reunião de condomínio.”

“Pierre! Você devia ter recebido o comunicado há quarenta minutos!”

“Recebi.”

“Então por que está atrasado?”

“Preservando a saúde mental do universo.”

Ás olhou para ele, olhou para o relógio, olhou para ele de novo.

“Você estava ensaiando sua entrada.”

“Eu estava ensaiando com excelência. São conceitos diferentes. E, ainda assim, cheguei mais cedo que a maioria das decisões ruins da Criadora.”

O silêncio caiu sobre a mesa. Pierre fechou o leque devagar. A piada perdera a graça antes de terminar de nascer, não por ser falsa, mas porque os dois sabiam que em Ecliptica o amor convivia com a raiva, e que a ternura dividia espaço com aquelas decisões narrativas que faziam personagens inteiros quererem protocolar uma reclamação contra a autora. Aquilo ali, porém, não era sobre sofrimento ou destino. Era o aniversário dela.

Pierre olhou o espaço vazio no centro do mapa e sua expressão teatral sumiu.

“Então vamos fazer isso direito.”

“Você está de acordo com o protocolo?”

“Não se acostuma.”

Uma projeção reconheceu sua presença e exibiu a ficha: PIERRE NIGHTSHADE, NARRADOR OFICIAL. Função adicional, causar problemas. Confiabilidade, depende do humor, do café e da quantidade de atenção recebida.

“Quem escreveu essa merda?”

“Eu.”

“Ás, meu servidor de dados, minha planilha com pernas, vou te dar a chance de corrigir isso antes que eu descubra onde você guarda os registros confidenciais.”

“São criptografados.”

“Adoro quando você fala sujo em linguagem técnica.”

Ás ficou vermelho até as orelhas. “Isso não foi apropriado para uma reunião de planejamento!”

“Foi perfeitamente apropriado. Você é que está administrando uma festa como se fosse contenção de ameaça biológica.”

“Considerando os participantes, a diferença é estatisticamente desprezível.”

Pierre abriu a boca, fechou, e começou a rir. Uma risada de verdade, alta e desorganizada, que ecoou entre as estantes com a cauda balançando atrás dele.

“Caralho! Eu sabia que você tinha potencial!”

“Eu não estava tentando fazer piada.”

“Os melhores comediantes nunca estão.”

Ás esperou a risada acabar e girou o holograma principal. Precisavam definir a estrutura da surpresa, a contribuição de cada um e a preservação do sigilo.

“Quarto”, acrescentou Pierre. “Impedir que alguém dê à Criadora uma lembrança tão traumatizante que ela resolva apagar o personagem do cânone.”

Ás ficou pálido. “É uma possibilidade real.”

“Em Ecliptica, meu anjo, até uma cesta de frutas vira tragédia familiar em três capítulos.”

Ás registrou a prioridade, e Pierre, espiando por cima do ombro dele, soltou um suspiro dramático. “Você anotou mesmo. Eu adoro esse homem.”

Aos poucos o deboche cedeu espaço à seriedade. Pierre não queria setenta e três presentes comprados às pressas, com fita dourada e cartões que dizem “parabéns, muitas felicidades”. Se alguém fizesse isso, ele atravessaria as nove nações para enfiar o embrulho no cu do responsável. Cada um tinha de escolher algo que significasse alguma coisa, não necessariamente caro, nem grandioso, nem sensual. Uns fariam com as próprias mãos, outros ofereceriam uma memória, uma música, um ritual, um encontro reservado. Alguns diriam o que escondiam havia séculos. E haveria quem aparecesse com algo tão simples que ninguém entenderia por que importava.

“Mas a Criadora vai entender.”

Ás olhou para o campo vazio, para a data e para o nome que ele continha. BÁRBARA. A garganta apertou.

“Eu quero preparar um registro. Não um relatório, porque haverá um relatório, preciso controlar entregas e horários, mas outra coisa. Quero reunir as setenta e três vozes, não só as fichas, as técnicas e os vínculos, mas o que cada um escolher fazer por ela. Uma página para cada um. Quem não souber escrever registra de outra forma, uma assinatura, um símbolo, uma melodia. Eu organizo, mas não escrevo as palavras no lugar de ninguém. Um volume fechado até dezesseis de novembro, que só se completa quando todos tiverem contribuído. Não para provar o quanto somos gratos por existir, mas para mostrar o que fizemos com a oportunidade.”

Pierre abaixou o leque. Por trás de toda a extravagância, conhecia a necessidade quase dolorosa de Ás de ser útil, o medo de que, se parasse de organizar e carregar responsabilidades, alguém concluísse que ele não tinha valor.

“Escuta aqui, meu nerd de neon. Pode organizar esse livro, cuidar dos prazos, fazer seus gráficos piscarem até a Biblioteca pedir aposentadoria. Mas não transforma o presente numa obrigação de ser perfeito.”

“Eu preciso garantir que tudo dê certo.”

“Não. Você precisa garantir que tudo seja feito com carinho. Não é a mesma coisa.”

“E se eu cometer um erro?”

“Alguém corrige. Se um pacote se perder, a gente acha. Se Pierre Nightshade derrubar uma garrafa de tinta sobre as setenta e três páginas, o que obviamente jamais acontecerá...”

“Pierre.”

“...a gente refaz as páginas.”

“Você vai derrubar tinta?”

“Estou tentando mostrar um princípio filosófico, porra.”

Ás soltou uma risada pequena, quase involuntária, e Pierre sorriu, vitorioso. O registro ganhou forma na projeção, sem categorias obrigatórias, sem ranking de intimidade, sem placar de devoção. No centro, em letras brancas, uma regra: NÃO EXISTE PRESENTE PEQUENO QUANDO ELE CARREGA UMA PARTE DE QUEM O OFERECE.

“Ficou bonito”, admitiu Pierre. “Um pouco sentimental. Quase suspeito. Estou orgulhoso. Não espalha, tenho uma reputação a manter.”

Foi quando a temperatura mudou. As páginas pararam de virar, as borboletas etéreas se afastaram da mesa, e uma fenda prateada se abriu no ar como uma página que reconhecia a mão responsável por atravessá-la. Do outro lado, montanhas escuras de Silver Moon sob luz lunar. Taishou Seiji passou pela abertura sem precisar anunciar nada. O espaço fazia isso por ele.

Cabelos negros lisos até a cintura, olhos escuros de quem já vira reinos inteiros ruírem por decisões mais estúpidas, túnica e sobretudo pretos com detalhes de prata, tatuagens tribais, a asa negra marcada no peito, a coleira no pescoço que ali não era mero enfeite. O Alfa olhou para Pierre, para Ás, para o mapa.

“Quem está responsável por isso?”

“Boa noite para você também, majestade do mau humor”, disse Pierre, abrindo o leque.

“Estou esperando uma resposta.”

Ás ergueu a mão e explicou a divisão: ele na organização, Pierre na apresentação, e os demais personagens convidados a preparar os próprios presentes.

“Convidados?” A palavra pareceu ofendê-lo.

“Ninguém será obrigado a nada. Mas todos terão a oportunidade.”

“Melhor.”

Taishou pousou sobre a mesa um estojo de madeira escura, simples, com uma faixa de prata nas bordas. Pierre estreitou os olhos. “Isso tem aparência suspeita de presente.”

“É uma peça de trabalho.”

“Parece uma caixa feita para guardar um coração, uma aliança ou um segredo capaz de destruir três dinastias.”

“Você costuma falar tanto quando está nervoso?”

“Falo tanto quando estou respirando. Nervoso, fico criativo.”

Dentro do estojo havia um pedaço de madeira escura ainda bruto, limas pequenas, pó prateado e um desenho feito à mão: um círculo envolvendo uma lua crescente, e ao redor dela setenta e três marcas aguardando conclusão. Taishou passou os dedos sobre o papel com a paciência do antigo restaurador, aquele que sabia reconhecer uma rachadura e entendia que uma obra não se conserta à força.

“Ela já tem objetos suficientes, e já recebe palavras suficientes de gente que quer algo dela. Não vou entregar mais uma coisa que exija resposta ou obrigação. Vou terminar uma obra que só terá sentido completa. Cada marca representa alguém que ela criou. Nenhuma será maior que as outras, e nenhuma poderá ser removida sem deixar um espaço visível.”

Ás entendeu antes que ele terminasse. “Os setenta e três personagens, num único objeto, feito à mão.”

“Foi o que acabei de dizer.”

Pierre, que tinha perdido a capacidade de produzir ofensas, olhou o desenho. As marcas não eram números nem posições, eram espaços para símbolos distintos: uma folha, uma estrela, uma garra, uma runa, uma asa, uma gota de tinta. Taishou não exigia que todos oferecessem o mesmo afeto, só que cada um tivesse onde caber.

“Caralho”, murmurou. “Estou tentando decidir se elogio sua sensibilidade ou finjo que não vi nada para manter minha reputação de canalha profissional.”

“Faça o que quiser.”

“Vou elogiar e depois negar.”

“Como sempre.”

Ás ofereceu ferramentas, materiais e um cronograma, e foi cortado com um simples “Ás”. Taishou não fazia aquilo para terminar rápido. Queria que cada marca fosse responsabilidade dele, do primeiro corte ao último polimento. O vínculo entre ele e Bárbara era um dos mais profundos da saga, feito de amor, posse simbólica e uma linguagem que só os dois entendiam, mas o presente não era uma tentativa de reivindicá-la. Era reconhecer a dimensão do que ela construíra. Uma borboleta luminosa pousou sobre a tampa do estojo.

“Se essa borboleta cagar na madeira, eu considero presságio e suspendo o projeto”, disse Pierre.

Taishou fechou os olhos por um instante. “Às vezes entendo por que a Criadora escreve tragédias.”

“Porque eu sou fascinante?”

“Porque você oferece material de sobra.”

“Quase um elogio. Vou guardar com carinho.”

Ás pigarreou e formalizou as responsabilidades. Ele cuidaria do registro e do cronograma, Pierre da apresentação e da sequência da celebração, Taishou de sua obra e da participação de Silver Moon, sem transformar a alcateia numa linha de produção e sem obrigação disfarçada de homenagem.

“O lobo descobriu o princípio de uma festa saudável”, disse Pierre.

“Você nunca organizou uma festa saudável.”

“Organizei uma excelente.”

“Você incendiou o salão.”

“Ele já precisava de reforma.”

Ás anotou: Pierre não deve ficar responsável por velas, tochas, fogos ou qualquer coisa que dependa de combustão.

“Eu vi isso! Está me difamando em documento oficial!”

“Estou evitando incêndios.”

Taishou observava a discussão com um rosto que, para qualquer outro, seria indiferença. Quem o conhecia teria notado os ombros relaxando. Era seu jeito raro de se divertir.

Pierre sugeriu uma progressão, porque não dava para enfiar setenta e três pessoas numa sala e torcer para o universo sobreviver. Começariam na Biblioteca, depois Silver Moon, as cortes vampíricas, Lycaria, Nekharia, Hinode, a Metrópole, e os planos também contribuiriam. Nem o Vazio escaparia de reconhecer a data.

“Não transforme o Vazio em atração de entretenimento”, disse Taishou.

“Eu não disse que ia contratar o Vazio para tocar saxofone.”

“Você acabou de pensar nisso.”

“Não posso ser responsabilizado por todos os meus pensamentos.”

Ás digitou: Não permitir que Pierre negocie com entidades do Vazio sem supervisão. Dessa vez Taishou nem escondeu o sorriso mínimo no canto da boca.

O selo prateado da alcateia surgiu no centro do mapa, junto de um comunicado sem ordens e sem exigências de afeto, apenas a data, a intenção e a liberdade de cada um contribuir com o que achasse significativo. A única regra incontornável era o sigilo: até 16 de novembro, ninguém mandaria mensagem à Criadora pela quarta parede, nem apareceria diante dela para antecipar parabéns. O aniversário seria uma jornada, não uma enxurrada de declarações numa única noite. Taishou fez duas alterações e autorizou o envio. A carta cruzou a rede narrativa como uma pequena estrela, e outros pontos começaram a brilhar no mapa.

Antes de partir, Taishou parou junto à mesa. “Ás. Se alguém tentar transformar isso numa competição, interrompa. Se alguém achar que um presente só vale se for extravagante, lembre que a intenção importa mais. E se Pierre tentar organizar uma apresentação com explosivos...”

“EI!”

“...interrompa também.”

“Fui injustamente incluído nessa categoria. Isso é traição.”

“É prevenção.”

Ele atravessou o portal levando o estojo ainda incompleto. Restavam vinte e cinco dias, setenta e três marcas e um trabalho que não podia ser apressado.

Pierre ficou mais um tempo. Quando achou que Ás estava distraído, tirou da jaqueta um caderno de capa escarlate e escreveu na primeira página: Manual de Sobrevivência Afetiva para a Criadora que Inventou Todos Nós e Ainda Assim Não Tem Descanso. Embaixo, anotou que era preciso não transformar carinho em espetáculo, não fazer piada quando alguém falasse sério, não se esconder atrás do leque e, pelo amor de qualquer divindade ainda funcional, não deixar a Criadora acreditar que precisava merecer cada gesto de afeto. Releu, franziu a testa e acrescentou, em letras menores: Se alguém perguntar, isto é apenas material narrativo. Fechou o caderno depressa, como se a Biblioteca pudesse denunciá-lo.

“Ás. Não registre o que eu estava escrevendo.”

“Não registrei.”

“Está mentindo?”

“Não. Registrei apenas que você solicitou sigilo sobre uma atividade pessoal.”

“Ás, meu querido, você é a razão pela qual eu ainda acredito em milagres e na necessidade de destruir computadores.”

Ás sorriu, discreto, e a Biblioteca guardou o segredo. Às 23h32, o mapa confirmou o primeiro avanço. Não havia festa, mesa posta ou presente concluído, só três compromissos: um registro que não substituiria as vozes de seus autores, uma apresentação que não transformaria afeto em competição e uma escultura feita devagar, marca após marca, até que setenta e três presenças coubessem num único objeto.

Um inimigo podia ser enfrentado, uma guerra podia ser vencida, uma profecia podia ser contestada. Mas como se dava um presente a alguém que podia criar qualquer coisa? Como se agradecia a quem dera nomes aos seus medos, rostos aos seus sonhos e histórias aos seus amores? Aquela noite não trouxe a resposta completa, e pela primeira vez em muito tempo isso não pareceu defeito.

No alto da tela, a data continuava piscando. 16/11/2026. O universo que sobrevivera a guerras, traições e deuses falsos tinha acabado de entrar na missão mais delicada de sua história: preparar uma festa, sem a Criadora descobrir, sem transformar a homenagem em obrigação e, acima de tudo, sem deixar o amor se perder no meio da porra da organização.