Mary tirava sua franjinha de cabelos negros dos olhos e observava o relógio, ainda eram 10:20 da manhã, faltavam vinte minutos para seu intervalo das aulas e ela estava faminta. A aula chata de matemática não a chamava a atenção e a professora parecia uma múmia balbuciando besteiras ali na frente com sua bata cheia de babadinhos, muito brega na opinião de Mary. Ela fechava os olhos, os abria e olhava novamente para o relógio, maldito ponteirinho que não se mexe!
De repente uma voz masculina a chama a atenção, levantando a mão á 2 carteiras na sua frente, um garotinho de cabelos negros em forma de tigelinha, Tomy, fazia uma pergunta para a professora:
— Professora, não poderia extrair a raíz de 16 depois passá-la para o outro lado?
"Ah como ele é inteligente, sempre participa de todas as aulas, faz perguntas e sugestões, que aliás estão sempre corretas! É um aluno exemplar, bonitinho..." — Mary juntou as mãos no peito, sentindo o coração bater mais rápido. Ela nunca havia visto um garoto tão legal e interessante quanto Tomy, mas só começara a notar isso há uns dias, quando teve sua primeira conversa com ele, pedindo ajuda na matéria.
O intervalo finalmente começou, todos saíram correndo da sala com suas lancheiras e guloseimas, todos menos o Tomy. Ele parecia não ligar muito para o intervalo, sempre ficava sozinho e nunca comia, apenas se sentava em frente a sala e esperava os quinze minutos de descanso acabarem.
— Vamos Mary! — A amiguinha de Mary, Laura, a puxava pelo braço enquanto ela ainda permanecia sentada em sua carteira, pegando em sua mochila duas maçãs bem vermelhinhas embrulhadas em um papel, ela ainda olhava para Tomy que guardava seu livro de matemática debaixo da carteira.
— Não... Pode ir indo na frente que eu falo com você depois Laura...
A garotinha percebeu que Mary observava Tomy, colocou a mão na boca com uma expressão meio sarcástica e saiu da sala, soltando risinhos.
Mary se aproximou de Tomy vagarosamente, que agora se dirigia á porta da sala, a garota agarrou o braço dele com uma das mãos e o chamou.
— Hey! Tomy, hoje eu não estou com muita fome — mentira, a garota estava faminta — e trouxe duas maçãs, será que você não quer uma delas? Olhe — ela mostrou as maçãs para o garoto, desembrulhando-as — Estão vermelhinhas e você não trouxe nada para comer, né?
— Oi Mary! — o garoto olhou para as maçãs, sorrindo gentilmente — Ah! Muito obrigado! Justo hoje que eu estava com fome, vou aceitar uma sim!
Ele pegou uma das maçãs e deu uma mordida com gosto, Mary sentiu-se tão feliz que dava vontade de entregar a ele a outra maçã, mas ficaria com muita fome, então pegou a outra fruta e a mordeu também.
— Quer ir comigo lá no pátio? – Perguntou o garoto, o que fez com que o coraçãozinho juvenil de Mary acelerasse.
— Claro, Tomy, vamos sim!
Os dois saíram da sala juntos comendo suas respectivas maçãs, quando chegaram no pátio sentaram-se em um banco, Mary olhava atentamente para Tomy, achava magnífico o quanto ele era interessante, mais ainda comendo uma maçã.
— Sabe, eu gosto muito de maçãs... — Tomy dizia, entre uma mordida e outra.
— Eu também! — Ela sequer mordia a fruta, preferia ficar olhando para ele.
— Você sabia que graças a uma macieira, que deixou uma de suas frutas caírem na cabeça de Isaac Newton, que ele descobriu o que era a gravidade?
— Nossa! Sério? Que interessante, eu não sabia!
Os dois conversaram por um bom tempo e um descobriu muitas coisas sobre o outro, Mary descobriu que Tomy sempre quis ser um cientista, adorava matemática e física e adorava testar experimentos. Tomy descobriu que Mary adorava também matemática e física (mentira) e também queria ser uma cientista (outra mentira, Mary sempre quis ser veterinária), e seu grande objetivo era ser a primeira cientista-mulher famosa, Mary descobriu que ela estava mentindo muito sobre si, mas era para um bem maior, apenas para deixar Tomy interessado em conversar mais com ela.
— Puxa Mary, temos tantas coisas em comum, como é que nunca conversamos assim antes? – Ele já tinha terminado a maçã, mas Mary ainda não tinha comido nem a metade.
— Ah... Você sempre foi muito quieto, mas eu sempre quis ser sua amiga! – Ela sorriu, com o coração mais acelerado ainda.
— Bem... – Ele olhou para os dois lados, como se estivesse dizendo algo que mais ninguém além dele e Mary poderia ouvir, e disse bem baixinho – Eu vou fazer uns experimentos científicos sexta-feira de tarde em um lugar muito secreto que eu sempre vou, se você quiser ir comigo...
— EU QUERO! – Mary se exaltou, e tapou a boca com a mão quando Tomy arregalou os olhos, e agora estava falando tão baixo quanto ele – A gente vai direto da escola?
— Vamos sim, mas você tem que prometer que não vai contar nada á ninguém! – Tomy estendeu o dedinho, para que Mary cruzasse o seu dedinho com o dele, como uma promessa
— Eu prometo! – Ela o fez, e seu coração acelerou, ela tinha um segredo com Tomy!
Era terça-feira, e Mary já sonhava com o final da semana, o dia em que se encontraria com seu amado aprendiz de cientista, ela chegou em casa com sua irmã mais velha, Mirian, suspirando com seus cadernos na mão, largou a mochila e seus materiais no sofá e foi para seu quarto. A mãe de Mary, Lilian, estranhou a atitude da filha, que sempre conversava com todos e contava seu dia na escola, preocupada, Lilian decidiu perguntar á Mirian:
— Filha, o que aconteceu com a Mary? Ela está triste ou algo assim? – Ela arrumava a mesa para o almoço, a família de Mary era pobre, e todos os móveis eram muito simples, pois apenas o pai de Mary trabalhava como agricultor, e o dinheiro não dava para muita coisa.
— Não sei mãe... Ela veio o caminho todo suspirando com um sorrisão na cara, não quis nem conversar comigo... – Mirian coçava o queixo, já desconfiando da atitude peculiar da irmã.
— Hum... Isso está me cheirando á paixonite – Lilian deu uma risadinha, e disfarçou logo que viu Mary saindo do quarto, indo até a mesa e se sentando em seu lugar.
— Oi mamãe, o que tem pro almoço? – Mary parecia normal agora, sorridente olhava para a irmã e a mãe.
— Tem macarronada filha, espere seu pai chegar que já vou servir, ele já está vindo, só vai colher as ultimas folhas de alface. – o pai de Mary trabalhava em casa, eles tinham uma terra não tão fértil, mas que era o instrumento de trabalho de toda a família, que ajudava no plantio.
Não demorou muito e o pai de Mary, Carlos, chegou, ele era um homem robusto que tinha uma aparência cansada e a roupa sempre suja de terra, mas tinha um coração enorme e sempre colocava a família em primeiro lugar.
— Olá meus amores! – Ele deu um beijo em todas, apesar da roupa suja o pai de Mary cheirava á lavanda, e sempre estava arrumado e com as mãos lavadas para o almoço.
— Olá querido, sente-se, hoje teremos um almoço muito agradável, — Todos já haviam se acomodado em seus respectivos lugares na pequena mesa de madeira desgastada, e a travessa de macarrão com molho já estava no centro da mesa – Acho que Mary tem algo para nos contar, não é filha?
Mary corou, lembrando do dia que tivera, mas também lembrou-se da promessa que fez á Tomy, não podia contar para a família tudo que havia acontecido, mas poderia contar o que aprendeu, já que a família parecia tão interessada.
Ela contou as teorias e as descobertas que Tomy a explicou, disse que fez um novo amigo e que ele é muito inteligente, sonha em ser um cientista e...
— E ele é tão bonito... – Ela suspirou, não era exatamente para ter falado aquilo, mas acabou saindo, Mary ficava muito desligada quando pensava em Tomy, e quando percebeu a cara de sua família, principalmente a de seu pai quando ela falou aquilo, corou mais ainda.
— Bonito, Mary?! – O pai dela parecia surpreso, mas não era o tipo de pai que ficava bravo com essas coisas, só era estranho ver sua filhinha de 10 anos pensando em meninos bonitos.
— Er... Er... – Ela não conseguia falar.
— Ah! O Tomy da sala dela, eu conheço, todo mundo na escola chama ele de nerd, ele é muito inteligente... E até que é um pouco bonitinho sim... Mas... Mary! Você está apaixonada! – A ultima palavra saiu cantada da boca de Mirian, e Mary ficou um pouco irritada com isso, pois a deixava muito constrangida.
— Que bonitinha, minha filhinha apaixonada! Boa sorte, querida! – A mãe de Mary dava todo o apoio, e o pai ficava um pouco emburrado, mas era muito compreensivo.
A família começou a fazer uma série de questionamentos para a pequena Mary, que não sabia responder a maioria deles, afinal, ela tinha acabado de conversar realmente com o garoto, e antes apenas o amava á distancia, mas a mãe e o pai dela fizeram questão que ela convidasse o garoto pra almoçar lá um dia, para eles saberem um pouco mais sobre ciência.
O dia passou e a outra manhã se iniciava, Mary se arrumou mais que o normal para ir á escola, sua irmã ajudou a fazer um belo penteado e passou uma loção cheirosa em sua pele, a mãe delas deu alguns conselhos á Mary, para que ela pudesse saber o que falar nas horas certas, e o pai infelizmente saia de casa antes das meninas acordarem para ir á escola, mas desejou sorte e boa aula antes de sair.
Mary e Mirian iam caminhando para a escola e logo chegaram, se separaram e foram cada uma para sua sala, quando Mary estava chegando percebeu um certo tumulto na mesa dos professores, dentro de sua sala; uma multidão de alunos estavam olhando para algo que jazia em cima dela, e Mary se aproximou para ver melhor. Lá estava Laura, amiguinha de Mary, com um belo rádio-gravador, gravando e mostrando as vozes de todos. Tomy também estava lá, tão entretido com o aparelho que nem notou que sua boca estava entreaberta.
— Como vocês podem ver esse é o rádio-gravador mais bonito de todo o mundo! Meu pai trouxe ele da Europa e ele disse que não vendem rádios assim aqui!
Mary tentou se aproximar, empurrando os amigos, mas todos estavam tão impressionados que nem reparavam a pequena presença da garota passando no meio deles.
— Laura! Que lindo! Você ganhou ontem? – Mary finalmente chegara à ponta da mesa, e podia ver sua amiga com ar de exibida mostrando o rádio.
Mas para a surpresa de Mary, Laura apenas olhou para a amiga e virou o rosto, como se a desprezasse completamente. Mary tentou de novo, chamou pela amiga mas todos olharam para ela, menos Laura, que agora debruçava nos braços de Tomy, olhando para ele com carinho.
— Tomy, eu deixo você mexer no rádio o quanto quiser, mas isso vai te custar um beijinho... – Tomy olhou para ela um pouco assustado, mas pareceu não ouvir direito, e continuou olhando o rádio, entusiasmado.
Aquilo chocou Mary; Laura sabia que ela era apaixonada por Tomy, e porque fez aquilo? Além de ignorá-la ainda pediu um beijo ao garoto que ela amava, o que havia acontecido com Laura? Os olhinhos de Mary se encheram de lágrimas, e ela se sentou em seu lugar, segurando o choro.
As aulas passaram e a expressão no rosto de Laura não mudou, ela sentou perto de Tomy e conversou com ele o dia todo, ele também ficou ao lado dela, mas não era por causa de sua companhia, e sim pelo rádio. Mary ficou muito magoada, ela havia trazido duas maçãs para o intervalo, mas quando viu que Tomy pegava o pedaço de chocolate que Laura oferecia, jogou uma das maçãs no lixo.
Na saída da escola Tomy se lembrou de Mary finalmente, e disse a ela que não se esquecesse de sexta-feira, por curiosidade e um pouco de medo, Mary perguntou á Tomy o que ele ia fazer agora, depois da aula.
- Ah, eu vou na casa da Laura, nós vamos usar um pouco o rádio – ele sorriu, e o coraçãozinho de Mary se partiu.
Ele vai na casa dela, eles vão acabar ficando juntos, Laura é bem mais interessante que Mary com seu gravador, ela vai conquistá-lo...
Ela sentiu vontade de sair correndo chorando, mas segurou o sentimento e sorriu, dando tchau para Tomy e seguindo até a sala de sua irmã. Ao chegar lá disse á Mirian que não ia direto pra casa, que queria passar na mercearia e fazer um trabalho de escola ao ar livre para refrescar as idéias, Mirian disse que ia avisar a mãe delas, e voltou sozinha para casa.
Mary passou a tarde toda chorando, próxima de uma cachoeira, olhando os peixinhos e imaginando o que Laura e Tomy estariam fazendo, mais tarde, perto do pôr-do-sol, Mary foi para casa, e não contou nada do que havia acontecido para ninguém, apenas disse que estava cansada e dormiu bem cedo.
No outro dia Mary foi pra escola desanimada, não se arrumou direito e saiu na frente, dizendo que tinha que chegar cedo para apresentar um trabalho. No caminho da escola ela viu Laura e uma outra amiga chegando juntas, mas não conseguia ouvir o que elas diziam.
— Ele vai ser meu! Nem que eu tenha que apelar! – Laura parecia muito irritada, seus cabelos cacheados e loiros balançavam sem parar.
— Calma amiga, todo mundo sabe que ele é um intelectual que não se interessa por mulheres, só pela ciência... – A amiga dela tentava acalmar a situação.
— Ciência, ciência, odeio essa palavra! – As duas estavam se distanciando, Mary não conseguia ouvir direito o que elas diziam, então acabou apertando o paço, o que fez com que elas a percebessem e virassem de costas.
— ORA! Mary, mas que susto que você nos deu! – Laura parecia normal, chegou e deu um abraço em Mary, como se fosse aquela antiga amiga. – Desculpe por ontem... Por ter te ignorado e não ficado com você... Para me desculpar eu deixo você ir na minha casa hoje, usar o meu gravador! Tudo bem?
— P-Pode ser! – Mary ficou animada com o convite, juntou-se as duas e foi para a escola acompanhada.
Chegando lá, Mary ficou o tempo todo com Laura, Tomy faltou, o que era muito raro, mas Mary não teve tempo de pensar nisso, Laura deixou seu dia atarefado, ela tinha de cuidar do rádio-gravador e levá-lo para todo o lado que Laura ia, até que chegou o final das aulas e as duas foram até a mansão de Laura, que ficava distante da escola, e por isso o pai dela veio buscá-las, de carro.
A casa de Laura era magnífica, tinha todos os móveis de ultima ponta, muito bonitos e sofisticados, o quarto dela mais parecia uma casa, era todo branco e a cama era rosa, parecia uma cama de princesa. As duas deitaram juntas na cama e ficaram brincando com o gravador, quando de repente Laura ficou séria.
— O que foi Laura? – Mary parecia preocupada.
- Eu queria que você me contasse uma coisa... – A mão de Laura foi sorrateiramente até o botão “gravar” do rádio-gravador, sem que Mary percebesse.
— Diga...
Laura deitou de lado, olhando fixamente para Mary.
— Você ama o Tomy não é?
— A-A... A... O Tomy? – Mary corou como nunca, estava totalmente vermelha e as palavras não saiam de sua boca.
— Pode falar, Mary... – Laura se ajeitava para esconder o gravador – Nós somos melhores amigas, não somos?
— S-Somos... B-Bem... – Ela respirou fundo e finalmente conseguiu falar – Eu amo o Tomy sim...
— Que bonitinho! Conte mais, como você se sente quando está com ele?
— Nossa... É uma sensação muito boa... Eu sinto como se não houvesse mais ninguém perto, em pouco tempo que nos falamos eu já acho ele tão interessante e tão bonitinho – Mary começara a se abrir – Eu até disse pra ele que queria ser uma cientista, mas na verdade nem gosto muito disso...
— Ah é? – Laura fingia se interessar – Tem algo que vocês já fizeram? Tipo um beijo? – Ela levantou as sobrancelhas.
— N-não... M-mas bem que eu queria... Só que... – Mary arregalou os olhos, lembrando-se de algo — Ah! Não posso falar, é segredo.
— Fala Mary! Por favor, somos amigas, não vou contar pra ninguém!
— T-Ta bom... não conta pra ninguém! – Mary abaixou a voz e chegou mais perto de Laura – Nós vamos fazer um experimento científico amanhã! É secreto, em um lugar muito secreto também!
— Só vocês dois?! – Laura parecia surpresa, e no fundo estava com muita inveja.
— S-Sim... Só nós dois – Mary sorriu, radiante.
— Que legal... – Laura parecia meio seca – Bem, Mary, preciso estudar um pouco, você poderia voltar pra sua casa? Amanhã temos uma apresentação de ciências, lembra?
— É verdade! Quase me esqueci disso... O que você vai apresentar?
— Vou mostrar para a sala o meu gravador, sei que todo mundo já viu, mas quero mostrar algo mais legal, que você vai ver amanhã – Laura sorriu.
— Ah, eu vou fazer uma pesquisa sobre Issac Newton, vou indo pra casa pra começar a pesquisar nos livros, até amanhã, Laura! – Mary a beijou no rosto e saiu do quarto da amiga, logo depois saindo da casa.
No dia seguinte todos os alunos chegaram cedo para se prepararem para a apresentação de ciências, alguns com trabalhos de pesquisas, outros com objetos interessantes. Tomy havia trazido um vulcão para explicar a erupção deles, e quando viu que Mary havia trazido uma pesquisa de Isaac Newton, ficou muito orgulhoso.
— Nossa Mary! Que belo trabalho!
— Obrigada Tomy, você ajudou muito também! – ela sorria corada, enrolava o cabelo com o dedo, sem saber bem como lidar com tantos elogios.
Laura chegou depois que todo mundo, como sempre com seu rádio-gravador, logo depois a professora de ciências chegou, todos sentaram-se em seus lugares e a primeira a apresentar foi Mary.
— Mary! O que trouxe para seus coleguinhas hoje? – A professora olhava com atenção o trabalho de Laura, que tinha 4 páginas escritas á mão.
— Um trabalho sobre Isaac Newton, professora! – Mary parecia confiante, e sabia que Tomy estava olhando para ela, então ficava mais orgulhosa de si ainda.
— Ótimo! Pode começar a ler para a classe.
-A história mais popular é a da maçã de Newton. Se por um lado essa história é mito, o fato é que dela surgiu uma grande oportunidade para se investigar mais sobre a Gravidade. – Ela não gaguejava, e Tomy a olhava com orgulho, o que trazia os nervos de Laura á flor da pele — Essa história envolve muito humor e reflexão. A maçã bateu na cabeça de Newton, quando este se encontrava num jardim, sentado embaixo de umamacieira, e que seu impacto fez com que ele ficasse ciente da força da gravidade, como se perguntasse:"Eu como essa maçã ou não?". A pergunta não era se a gravidade existia, mas se ela se estenderia tão longe da Terra que poderia também ser a força que prende aLuaà sua órbita. – Alguns alunos riram nessa parte, talvez por acharem que a lua ficava dançando pelo universo - Newton mostrou que, se a força diminuísse com o quadrado inverso da distância, poderia então calcular corretamente o período orbital da Lua. – Eles pararam de rir logo em seguida, não haviam entendido nada, só Tomy, que concordava com a cabeça, orgulhoso — Ele supôs ainda que a mesma força seria responsável pelo movimento orbital de outros corpos, criando assim o conceito de "gravitação universal”.
— Muito bem, Mary! Vai ganhar um 10!
Mary sorriu, com os olhos brilhantes recebeu uma salva de palmas da sala e foi se sentar.
— O próximo trabalho é o de Laura, por favor venha até aqui.
Laura sorriu sarcástica
— Professora, eu trouxe o meu rádio-gravador para mostrar uma coisa muito interessante para a sala!
— Ótimo, querida, pode começar...
Laura tocou no botão “tocar” e a fita começou a rodar.
“- Diga...” Era a voz de Mary! A garotinha olhou espantada para Laura, mas ainda não havia entendido, Laura estava com um sorriso sarcástico no rosto, olhando diretamente para Mary.
“- Você ama o Tomy não é?” A sala toda ficouem silêncio. Tomyarregalou os olhos, olhando para Laura, o gravador e Mary.
“- A-A... A... O Tomy?” Mary estava começando a tremer, não podia ser, Laura não ia fazer isso!
“- S-Somos... B-Bem... Eu amo o Tomy sim...” Mary quase desmaiou, seus olhos se encheram de lágrimas, mas ela não percebeu que Laura havia cortado uma parte da gravação, a parte em que dizia que eram melhores amigas. Laura ria, junto com a sala toda. A professora estava horrorizada.
“- Que bonitinho! Conte mais, como você se sente quando está com ele?
— Nossa... É uma sensação muito boa... Eu sinto como se não houvesse mais ninguém perto, em pouco tempo que nos falamos eu já acho ele tão interessante e tão bonitinho... Eu até disse pra ele que queria ser uma cientista, mas na verdade nem gosto muito disso...” A partir daí Mary já não estava mais na sala, ela havia largado as folhas de seu trabalho no chão e acabara de sair correndo para fora da sala, chorando muito. A professora correu atrás da pequena garota.
— LAURA CAMPBELL, DESLIGUE ISSO JÁ! – A professora não teve tempo de desligar ela mesma, correu atrás de Mary.
Laura não desligou o gravador, claro, todos estavam rindo e se divertindo com a situação. Tomy parecia não saber o que fazer, ele ficou pasmo, pálido.
“- Ah é? Tem algo que vocês já fizeram? Tipo um beijo?
— N-não... M-mas bem que eu queria... Só que... Ah! Não posso falar, é segredo.
— Fala Mary! Por favor, somos amigas, não vou contar pra ninguém!
— T-Ta bom... não conta pra ninguém! Nós vamos fazer um experimento científico amanhã! É secreto, em um lugar muito secreto também!
— Só vocês dois?!
— S-Sim... Só nós dois”
E a fita acabava naquele ponto. Laura desligou o gravador e sentou-se na mesa, ao lado de sua amiga. Tomy ainda estava lá, petrificado, os amigos e amigas dele riam e faziam piadinhas: “Tomy e Mary casados tendo filhinhos!!” e coisas do tipo.
Mary não foi para casa e todos estavam preocupados, a professora não conseguiu alcançá-la então decidiu procurar o pai da garota, que pegou o cavalo mais veloz que possuía e saiu para procurá-la, a professora voltou á escola mas todos os alunos já haviam ido embora, pois ela demorara. Mas Laura precisava pagar pelo que fez, então a professora decidiu ir ela mesma á casa de Laura. Ao chegar lá o pai de Laura atendeu a porta.
— Pois não, professora...
— Senhor Campbell, sua filha hoje mostrou á turma da sala uma conversa particular dela com Mary Wingols, a constrangendo muito na frente de todos... Eu sei que não estamos em horário de aula por isso não posso castigá-la, mas gostaria que o senhor fizesse isso...
O pai de Laura parecia muito surpreso.
- Pode deixar, senhora – Ele já retirava a cinta – obrigada por visitar – ele sorriu e se despediu da professora, que voltou para sua casa.
O pai de Mary, depois de muito cavalgar, encontrou a garotinha perto de uma cachoeira, chorando muito. Ele desceu do cavalo e se aproximou devagar. Sentou-se ao lado da filha, olhando a bela cachoeira que brilhava com a luz do sol poente.
— P-Papai... Ele... Ele vai me odiar... P-Papai... – A menina falava baixo, entre soluços e suspiros.
— Odiar, Mary? – Ele falava calmo, abraçava carinhosamente a menina, depois limpava o rostinho molhado da pequena. – Como um garoto inteligente como ele vai odiar uma garotinha tão doce como você?
— Eu... Eu contei que go-gosto d-dele...
— Eu sei, eu sei... Isso não é motivo para ele te odiar meu amor... Eu, se fosse ele, estaria muito feliz em saber disso... E tenho certeza que é o que ele sente, Mary, não precisa chorar...
— E-Ela me traiu papai... Ela contou o nosso segredo...
— E é por isso que ela não merece essas lágrimas. – ele continuava limpando com a camisa as lagrimas de Mary – Pessoas como a Laura não sabem o que é o amor... O que é esse sentimento senão algo que precisamos declarar? Você não deve ter vergonha de nada do que fez, de nada do que foi mostrado... Pelo contrário, ele deveria saber disso, um dia ou outro, e já que soube dessa maneira, encare da forma que deve, como uma garota apaixonada...
— M-Mas... V-Vão rir de mim...
— Newton não levou uma “maçanzada” na cabeça? Mas isso o ajudou a entender a gravidade...
A garotinha finalmente sorriu, e com força abraçou o pai, que retribuiu o abraço na mesma maneira. Ele a pegou no colo e a levou até o cavalo, os dois foram juntos para casa, onde explicaram o ocorrido para Lilian e Mirian, que deram conselhos e forças para Mary.
No dia seguinte Mary foi para a escola apreensiva. Apesar de todos os conselhos ela ainda estava insegura. Quando chegou na sala, todos riram, como deveria ser. Ela tentou ignorar mas uma lágrima caiu de seu rosto. Ela se sentou em seu lugar, Laura estava na sala, sentada também, mas havia levado uma surra do pai por isso não ria junto com os outros. Tomy estava lá também, parado, olhando para a lousa.
“Tomy❤Mary” era o que estava escrito na lousa, bem no meio. Todos riam mais ainda quando olhavam para aquilo. Logo a professora chegou, e notou o rostinho triste de Mary.
— Podem parar de dar risadas! Ou alguém aqui quer levar suspensão?!
Todos se calaram e sentaram-se em seus lugares. A professora ia começar a escrever na lousa quando notou o recado.
— Quem escreveu isso?! – Todos ficaram quietos – Vamos! Respondam!
Mary chorava, não conseguiu agüentar o constrangimento e até agora não conseguira olhar para Tomy, que estava pálido olhando para a professora.
— Laura! Por que você escreveu isso na lousa?! Já não foi o bastante a surra que você levou de seu pai, quer levar suspensão?
— Professora, não fui eu!
— Como não!? Então quem foi? – A professora parecia muito irritada e Mary chorava ainda mais.
Todos continuavam calados, quando surge uma mão levantada no meio da sala, e uma voz baxinha.
— Professora... F-Fui eu... – Tomy se levantava, indo até a frente, ficando ao lado da professora.
— T-Tomy... V-Você? – Ela estava espantada, assim como todos os alunos na sala, inclusive Mary, que parava de chorar.
- Sim, professora... E-Eu amo a Mary... E eu queria que todo mundo soubesse... Desculpa por ter te feito chorar, Mary... – Ele olhava para ela, colocando a mão no peito. – Eu também sinto como se não houvesse mais ninguém perto quando estamos juntos, e em pouco tempo que nos falamos eu também já te acho tão interessante e tão bonitinha... – Ele corou, e se aproximou de Mary – E-Eu... Eu te amo...
Todos bateram palmas, agora ninguém mais ria, até mesmo Laura achara isso uma prova de amor linda.
Mary chorava mais ainda, mas agora era por felicidade.
- E... Eu trouxe duas maçãs, para comermos no intervalo! – Ele sorriu, pegando a mão de Mary.
- Eu adoro maçãs! – Seus olhos brilhantes agora estavam encharcados de felicidade, a sala e a professora aplaudiram, enquanto os dois davam um leve selinho, sabor maçã.
