Eu estava sentado ali olhando aquele corpo dançando na minha frente. Eu dividia meu olhar entre ela e o fundo do meu copo de whisky, tão bem servido com um sorriso e um beijo alcoólico. Não sei se o beijo era realmente alcoólico ou se eu me sentia embriagado pela beleza ou amor, não sei.

Só sei que ela estava ali, dançando ao som do rádio que tocava Smiths, uma melodia tão angelical quanto ela mesma, vestida com a minha camisa meio aberta. Seu cabelo loiro escuro caía até a altura dos ombros num movimento sincronizado com os quadris que me faziam querer tocá-la cada vez mais. Ela mexia os braços e as mãos como se só existe a música e a dança ali. Ela me encantava, me seduzia e eu não sabia se me apaixonava ou não.

A música cessou e neste instante, ela me fitou com os olhos verdes, como se a minha observação constante a assustasse de algum modo. Eu desviei o olhar para não cair naquela armadilha feminina que ela tinha e quando pensei em olhar de volta, ela me olhava penetrantemente, com um sorriso no rosto.

Eu observei, ela observou. Olhamo-nos, nos sentimos enamorados, mas era tudo falso. Era tudo do momento, fogo que se apaga com um simples sopro do tempo. Mas não ligávamos, era o momento que importava. Então ela percebeu que não havia música tocando e foi colocar alguma outra coisa para ela continuar dançando. Parecia que tinha mais prazer nisso do que quando eu a tocava de todas as maneiras.

Ela colocou algumas músicas aleatórias e deitou na cama para ouvir os suaves toques de Mad Sounds. Seu corpo estava parado, mas sua mão continuava a se mexer, os dedos batendo na lateral da cama com a música, os olhos fechados absorvendo os acordes. Deixei o meu whisky na cômoda ao meu lado e cheguei perto dela, encostando meus lábios de leve em pescoço e meus dedos acariciando a lateral do seu tronco.

Ela se arrepiou e me arranhou, logo estávamos colados novamente, ela gemia no meu ouvido e eu mordia seu ombro. Quando paramos, nos deitamos lado a lado sem proferir uma palavra sequer. Não falávamos muito um com outro, uma coisa estranha demais. Depois de certo tempo, ela disse alguma coisa.

“Não faz sentido”, ela disse quase sussurrando para si mesma, “nós ficarmos nisso, só sexo. Tão errado, tão errado...”. Ela repetiu isso enquanto se levantava e sentava de costas para mim.

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“Você sabe que não é só sexo”, ele me disse enquanto beijava minhas costas. Mas eu não sabia. Pra mim era só aquilo, naquele momento. Nós não tínhamos mais o que falar um com o outro. Eu o olhei por cima do ombro, seus cabelos pretos bagunçados e os olhos que eu já sabia que eram escuros estavam fechados enquanto ele me beijava suavemente.

Eu me levantei e coloquei de volta a camisa dele, que ficava grande em mim, mas era muito confortável. Fui até a janela do quarto alugado para passarmos só uma noite e acendi um cigarro enquanto ouvia os acordes de Together, do The xx. E eu podia sentir que ele me olhava mesmo estando de costas.

Apaguei o cigarro depois de um tempo e me virei para ele, que ainda me olhava incessantemente. Por que me olhava tanto com aquele olhar confuso? Eu sorri e ele desviou como sempre fazia. Ah, o que meu coração estava fazendo comigo... Era quase cruel. Eu sabia que não podia me apaixonar, e não havia por que me apaixonar por ele. Mas cada vez que ele me olhava, me dirigia a palavra ou me tocava, meu coração batia mais rápido.

Eu parei de sorrir logo que pensei na crueldade que seria comigo mesma se eu me apaixonasse por aquele homem. Comecei a pegar minhas roupas do chão e ele me observava ainda deitado na cama. “Já vai? Eu aluguei aqui pra noite toda.”

“Só vou me vestir pra ir comprar alguma coisa pra comer”, disse, tentando encontrar alguma desculpa pra sair do quarto e não cair na tentação eminente. Sentei na beira da cama para colocar minhas meias e ele colocou as mãos na minha cintura. Meu Deus, aquele sentimento que eu tinha quando ele me tocava. Ele não disse nada, não me beijou, não me acariciou, só colocou as duas mãos na minha cintura, como se pedisse para eu ficar até o fim da noite.

Eu suspirei e mordi meu lábio, resistindo à vontade de virar e beijá-lo, e então me livrei das mãos quentes dele e saí pela porta. Não esperava encontra-lo sentado na cama me esperando quando eu voltasse. Apertei o botão do elevador e esperei um tempo até ele chegar e eu apertar o botão do térreo. O elevador estava quase fechando quando ele entrou.

“Por que você foge de mim?”, ele me perguntou enquanto colocava as mãos na minha nuca, quase que me forçando a olhar naqueles olhos que olhavam fundo nos meus. E me beijou suavemente, mas pressionando seu corpo contra o meu, e aquilo era tão bom. Eu me entreguei.

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Ela cedeu nos meus braços que agora envolviam todo seu corpo, que era pequeno em relação ao meu. Senti cada pedaço da sua boca, eu não queria parar de beijá-la nunca, mas ela se separou de mim, arfando. “Não fugi. Só não quero sentir nada por você.”

Aquilo me atingiu de uma maneira que eu não esperava que atingisse. Foi como uma flechada no meu coração e eu quase soube que foi aquele anjo cego que havia me acertado em cheio no coração. Ah, merda. “Por que não sentir nada por mim? Fiz algo de errado?”

“Não”, ela disse seca, rápida e sem me olhar, “não posso sentir nada por você. Nada me garante que seria recíproco, nada me garante que eu não vou cair de cabeça e me machucar novamente. Não quero passar por nada assim novamente.”

O elevador parou térreo e ela saiu. Eu a segui quase que involuntariamente, querendo mais respostas e querendo falar que eu não ia deixar alguém tão perfeito se machucar... Ou deixaria? Então parei. Ela parou mais à frente naquele hall vazio e me olhou. Eu já não sabia se a aquele anjo cego havia realmente me acertado ou se só havia esbarrado em mim.

Ela veio até mim e me abraçou. “Não sei até quando eu posso ficar só assim. Uma vez eu te disse que pra mim, sexo não envolvia sentimentos. Mas eu sou mulher, e o que eu te disse para de ser verdade em certo ponto.” Eu sentia suas lágrimas na minha camisa enquanto ela me abraçava mais forte. Eu queria tanto acalmá-la e dizer que a amo, que vou estar com ela não só para o prazer carnal, mas eu simplesmente não podia.

Ela parou de me abraçar e me olhou. Olhou fundo nos meus olhos, na minha alma, senti como se ela tivesse procurando algum amor lá e não achou. Sorriu estranhamente e eu não sabia como responder àquele sorriso, mas eu desviei o olhar. Já tinha me acostumado a fazer isso, aquele sorriso era a armadilha. Mas então pensei... Deixei-me levar pela armadilha.

Olhei para aquele semblante sorridente, os olhos brilhando pelas lágrimas, uma maquiagem meio borrada, o cabelo levemente bagunçado. Ela já não era tão perfeita, já não era a mulher ideal, já não era mais a perfeição feita humana. Ela era minha. E eu era dela, a partir daquele sorriso. Eu a beijei e falei o que eu sabia que ela queria ouvir e o que eu queria falar há tanto tempo e finalmente consegui. Eu sabia que não era pra sempre, era do momento, era fogo que se apaga com o sopro do tempo... Mas que seja. E que ela seja minha.

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