A mulher suava demasiadamente, o corpo estava exausto e já haviam se passado horas e horas desde que o trabalho de parto havia começado. A criança que ela estava trazendo ao mundo era especial, não havia dúvidas em relação a isso. Mas o quanto ela era especial ninguém tinha ideia, nem mesmo a fada que fizera questão de estar precensiando o momento do nascimento.
Um choro fraco, que aos poucos foi ganhando altura preencheu o local com alegria. Um sorriso bobo chegou ao sorriso da mais recente mãe, lágrimas preenchiam os seus olhos de forma que faziam a visão ficar até um pouco embassada. Tudo que queria era segurar aquela pequena criança que vinha do amor dela e de seu marido, um amor construido com o tempo, de forma forçada, mas bem aceita. Queria sentir o peso do bebê, ver a cor dos olhinhos, dos cabelos e até mesmo contar os dedinhos.
A fada que ali estava presente, tomou o recém-nascido das mãos da parteira e sorriu. Parecia querer analisar cada feição, o que a mãe achava extremamente injusto já que ela esperara oito meses para fazer isto. Com o passar dos minutos a moça começou a ficar impaciente com tamanha demora e irritou-se. Mesmo o cansaço a tomando por completo ela pôde ouvir o ser com asas murmurando algo.
- Então é mesmo uma menininha. Tão doce e frágil, é uma pena que o destino seja tão cruel. — A fada parecia estar realmente lamentando. Contudo estava completamente encantada com a criança, não conseguia ficar um minuto sequer sem tirar os olhos dela.
Uma filha. Ela havia tido uma filha, deveria ser a mais bela das criaturas que já havia visto. A mulher aproximou-se com o pequeno embrulho envolto em seus braços e lhe sorriu, assim garantindo que a criança era perfeita. A moça completamente suada e cansada, não poderia estar mais feliz. Ao sentir a filha tão perto de si conseguiu finalmente entender o significado da palavra que ouvira tantas e tanta vezes. Amor. Achava que amava o marido, mas não tinha ideia de que um pequeno e frágil bebê poderia ser a chave para descongelar o seu coração.
- Ela é linda, Azul.
- Eu sei, realmente um encanto de criança. Entretanto, eu presumo que seus poderes tenham sido passados para ela. Sinto muito. — Um olhar preocupado tomou o rosto da fada.
- O meu cordão pode ser transferido?
- Como forma de proteção? — A moça acenou. — Temo que não, pode haver resquícios de magia em você. Se der à ela não posso lhe garantir que ficarás protegida, você sabe que não damoraria até chegarem nela.
- Terei que escolher entre proteger a mim ou ela... É isso?
- Talvez seja melhor eu levá-la. Assim você e o rei podem ter outra criança, quem sabe um herdeiro? Um menino completamente normal.
- Não. Quero ela perto de mim, quero estar ao lado dela sempre. Eu tive alguém que me ajudou e que infelizmente por motivos tolos, que você tem conhecimento, não possuo mais junto a mim, ela é minha. Agora responda-me, Azul. Posso dá-lo à ela?
- Sim. — Disse em um sussurro. — Mas recomendo que espere até a menina chegar a uma certa idade. Oito ou nove anos, assim que os poderes começarem a se manifestar, como ocorreu com você.
- Está bem... Mais uma vez muito obrigada e faria-me outro favor?
- É claro. — Disse pensando em um modo de proteger mãe e filha, sem precisar sacrificar uma delas. Mas parecia ser tudo tão impossível. — O que é?
- Avise ao rei que Belle nasceu.
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A pequena menina de cabelos castanhos e brilhantes olhos azuis estava sentada em sua cama nos braços da mãe, tinha apenas uma colcha sobre as pernas e estava, como todas as outras vezes, com a atenção totalmente voltada para um livro, claro que ainda não lia, ao invés disso ouvia com cuidado as palavras que a mãe dizia. O homem as observava com um sorriso bobo no rosto, se a perfeição tivesse forma, peso ou tamanho, seria do jeitinho exato de Belle. A garota era uma mistura sua e de sua esposa, uma pequena criaturinha que ganhara seu coração.
Maurice pigarreou para chamar a atenção da filha e ela só pôde retribuir o sorriso sincero. Ele a chamou para ensinar-lhe algo e obviamente ela relutou, mas logo Elsa a convenceu do contrário. Belle foi o seguindo até o salão de baile, ela nunca havia ido lá, olhou cada lugar com uma certa curiosidade, um brilho nos olhos inexplicável.
- O que fazemos aqui, papai?
- Você já tem quase cinco anos.
- Eu sei disso. Digo, eu sei quantos anos tenho, mas essa não foi a minha pergunta.
- Logo você participará de seu primeiro baile, Belle.
- Logo? Mas a mamãe me disse que eu só terei que ir a um baile quanto chegar o meu décimo quinto aniversário. E pelas minha contas ainda faltam dez anos para que isso ocorra. Posso voltar ao me quarto e terminar de ler o livro com a mamãe?
O rei ficou alguns minutos apenas fitando a pequena sábia a sua frente. Talvez isso fosse coisa de pai, mas ele estava realmente impressionado com a sabedoria da menina. Maurice continuou ainda um pouco extasiado.
- O que tem no seu quarto que aqui não tem?
- Livros. — Ela lhe disse com um olhar traquinas.
- Bem, não. Você ainda não pode voltar. Porque, agora eu vou lhe ensinar a dançar.
- Dançar? — O rosto dela se iluminou de forma tão repentina, fato este que fez seu pai animar-se ainda mais. — E o que estamos esperando?
O velho Murice riu com entusiasmo da menina, poucas vezes a viu assim. Era claro que ele não pretendia ensiná-la a dançar, ao menos não como ela aprenderia anos mais tarde, contudo ele sentia precisar passar mais tempo com a filha. Levantou-a em seus braços e começou a rodopiar no salão com a pequena. Belle apenas ria e tentava imaginar o ritmo da música, pois o pai não pensara em realmente tudo.
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O que aconteceu foi muito rápido na verdade, eles deslisavam pelo salão e de repente a camada de gelo começou a se formar nas paredes. Demorou um pouco até perceber, no entanto quando o chão já estava bem escorregadio e o rei caiu com a menina em seus braços ele viu o que estava acontecendo. Belle esperou o pai lhe perguntar se estava tudo bem, mas nada ocorreu.
- Venha, sua mãe precisa saber o que aconteceu aqui.
- E o que foi? — Perguntou-lhe de forma curiosa como sempre.
- Algo muito ruim.
Maurice pegou a mão da criança, que estava extremamente gelada e caminhou apressado para o quarto quase arrastando-a. Belle nunca tinha visto o pai de forma tão zangada, talvez ele só estivesse assustado, contudo a menina sabia que algo muito estranho estava acontecendo. E, sem dúvidas estava relacionado a ela. Decediu não fazer nenhuma pergunta até chegarem a Elsa, ao entrarem nos aposentos da garotinha, ela só pode correr em direção a mãe.
- O que houve, meu amor?
- O salão de baile, se transformou em puro gelo. Está acontecendo, Elsa. Eu lhe disse que precisavamos tomar medidas sérias em relação a isso.
Enquanto Maurice quase gritava com Elsa, a filha deles chegava mais perto da mãe, agarrando-a com os pequenos bracinhos e enterrando a cabeça no pescoço dela. A moça que cuidara dela desde que era um bebê, viu que a discução iria se prolongar e a tirou dos braços da mãe com urgência pois a menina já estava assustada demais. Os dois continuaram, agora um pouco mais calmo o rei tentava compreender a situação.
- Sabíamos que este dia chegaria, Maurice. Procure se acalmar.
- Me acalmar? Eu não quero te perder, Elsa. Também não quero perder nossa filha.
- Já conversamos a respeito disso, hoje mesmo eu darei o colar para ela.
- Podemos esperar um pouco mais de tempo? — Ele tentava parecer sensato, mas a verdade era que estava apavorado.
Não houve tempo para resposta, a senhora que cuidava da menina entrou apressada nos aposentos, estava pálida e com um olhar apavorante, até tentara chamar algumas palavras, mas elas não sairam. Recuaram-se todas, sem poder dizer nenhuma. O rei e a rainha correram o mais de pressa possível até o jardim onde Belle brincava com um boneco de neve, a menina lhes olhou sorrindo.
- Olhe mamãe, como o que nós construimos no inverno passado.
Não havia problema, ela era só mais uma criança que adorava a neve, mas a questão era simplesmente que no verão não havia neve. Os flocos começaram a cair rapidamente e sem controle algum, a progenitora a pegou em seus braços lhe sorrindo, tentando esconder as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto. Ao contrário de todos os outros presentes que sofriam com o frio, as duas não se importavam. A menina nem notara tal fato, só sabia que havia algo muito errado com sua mãe.
- Estás bem, mamãe? Parece triste. — Disse-lhe assim que adentraram a residência.
- Sim, minha princesinha. O que me importa é que você ficará bem. Limpe o cabelo e troque-se, já passa da sua hora de dormir.
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Passados alguns minutos Belle retornou ao quarto vestindo uma camisola. Travessa com sempre correra até o armário e abrira uma parte falsa, que só ela e a mãe tinham conhecimento.
- Venha, mamãe. Eu quero saber como acaba, a senhora me prometeu.
- Sim, deite-se...
Assim Elsa começou a leitura, faltavam pouquíssimas páginas e quando chegou na última frase a criança parecia indgnada.
- Como assim, mamãe? Acabou?
- Sim. O que há de errado?
- Mas a Odette não ficou como cisne?
- Não, meu amor. Ela teve o seu final feliz. Você não gostou?
- Não entendo. Por que ela não podia ser feliz como cisne? Afinal, ela tinha asas e estava livre, não é?
- Cada final feliz é de uma maneira, muitas vezes pode não ser o que se quer ou o que se espera. Mas ela queria este, então sim, este é o final feliz dela.
- Eu preferia que ela continuasse como cisne. — Disse de maneira sincera, como a mãe bem conhecia.
- Belle?
- Sim.
- Queria lhe dar um presente.
- Um presente? — Elsa acentiu. — E o que seria?
A loira tirou de seu pescoço o colar que usara durante praticamente a vida inteira, sentiu uma onda de magia percorrer o corpo, mas muito menos forte do que havia sido anos atrás. Talvez Cora não viesse atrás dela com mais ambição, talvez ela pudesse viver com a família em paz e visse Belle crescer, talvez. Ela colocou cuidadosamente o colar na menina a sua frente, tentando arrumar os cachos de forma delicada sobre ele.
- Por que razão está me dando isto, mãe?
- Para você ter sempre um pouquinho de mim. — Ela sorriu e alisou o rosto da filha, o momento foi interrompido por uma forte ventania vinda de uma das janelas o que fez com as velas se apagassem. Logo ela checou a menina e percebeu que a mesma entrara de repente em um sono profundo. — Belle, querida acorde.
- Olá, Elsa. — Cora, que mesmo depois de tudo ainda tinha um pequeno espaço em seu coração, cominhava até a cama de Belle com um sorriso irônico nos lábios . Ela havia mudado muito desde a última vez que se viram, alguns bons anos atrás, isso não importava no momento, ela só precisava manter o controle e proteger a filha.
- Que fazesses aqui? Vá embora, não és mais bem-vinda!
- É a sua filha? — Ignorou a rejeição e aproximou-se da menina que ainda dormia, observou as feições da princesinha e por segundos lembrou-se da criança que um dia ela tivera que amparar, a criança que mesmo sendo da realeza a tratava de forma indiferente, foi apenas um rápido lampejo de luz. — A pequena é realmente encantadora. O nome lhe cai muito bem.
- Por que veio até aqui?
Cora fez algum movimento difícil de identificar e algumas das velas se acenderam. Elsa sabia o motivo, até mesmo porque ela já tentara fazer aquilo antes, mas agora era diferente, ela quase não tinha poderes e o pinjente que a protegia estava com Belle.
- Perguntas, perguntas... — A mais velha apenas suspirou enquanto posicionou as mãos no pescoço de Elsa. — Agora que está sem ele, você facilita o meu trabalho.
Cora falava do colar logicamente, sem ele era muito mais fácil ferí-la ou até mesmo roubar seus poderes, sendo o último a razão pela qual a amizade acabara e agora ali estava ela, tentando absorver os poderes que a mulher de Maurice possuia ou que ela acreditava ainda possuir, entretanto não teve êxito algum. Não consiguia nem ao menos sentir a magia nela, só algum resquício, o que não serivia para nada. A rainha não tinha mais poderes.
- O que houve com você? Foi aquela maldita fada, ela finalmente conseguiu tirá-lo de você, não é? Ou você o transferiu para alguém? — O olhar de Elsa a entregou de imediato, aquilo não não podia estar acontecendo. — Foi para a criança, é claro, por isso você não precisa mais do colar, não importa mais. — Então, de repente ela começou a rir e se aproximou ainda mais de Belle.
- Não faça nada com ela. Cora, você também tem uma filha, por favor. — Ela suplicava, sua filha não merecia nada daquilo, na verdade nem ela merecia.
- Acalme-se, ela não irá morrer por nada. É uma boa causa, querida.
- Cora...
Então o quarto encheu-se de uma luz roxa que se misturou com outra de tonalidade azul, sendo que a última vinha da criança dormindo, frustrando qualquer plano que a futura Rainha de Copas tinha.
- O que você fez? Como a protegeu? — A mulher verificou o pescoço de Belle e não demorou a perceber o colar, na raiva tentou retirá-lo e logo sua mão queimou. — Você o deu a ela? Pois bem, eu farei o seu destino, se eu não posso ser a mais poderosa de todas essa criança também não será. Consigo ver a escuridão rodiando ela, e sabe o que é pior?
- Cora, por favor pare. — Não havia dor física, mas a tortura psicológica estava quase matando Elsa. Saber que coisas ruins cercavam a menina que ela tanto ama e que ela fez tantos planos não era algo bom, não era nada bom.
- O pior de tudo é que você não poderá ajudá-la. Você foi boa demais para mim, as pessoas não tem esse seu doce coração. — Com essas palavras a mulher enterrou a mão no peito dela e retirou o coração de Elsa, no exato momento em que Maurice adentrava o quarto extremamente apavorado, então ela esmagou-o lentamente enquanto dava o seu adeus a pessoa que mais lhe ajudara no mundo. — Só uma de nós pode vencer e eu presumo que seja eu. Um dia ela vai retirar o colar e eu vou me certificar de estar bem perto quando isso ocorrer. — Assim Cora desapareceu em uma nuvem de fumaça roxa, deixando um rei apavorado e uma pequena princesinha órfã.

