— Tord, você tem visto o Matt? — perguntou Edd, escondendo algo atrás de si.

— Não, Edd. Na verdade, já faz alguns dias que ele não aparece. O que é isso aí?

Edd olhou em volta. Suspirou de modo culposo.

— Eu queria pendurar um quadro na parede, mas a furadeira se descontrolou e passou pro outro lado e... — Ele mostrou uma sacola cheia de estilhaços. — ...quebrei um espelho. Não sei como vou contar isso ao Matt ainda.

Tord revirou os olhos.

— É só um espelho e ele tem muitos. Nem vai notar. Você não precisa contar.

— Tord, eu não acho certo esconder isso dele. Você sabe como ele valoriza esses espelhos.

— Ele valoriza qualquer lixo que encontra por aí. Pode acreditar, Edd, não faz diferença. Mas se isso te impedir de dormir a noite ou qualquer coisa assim, vá lá e conte a ele. Agora, com licença, eu preciso sair um pouco. Meus charutos andam sumindo, logo vão acabar. — Tord acendeu um e saiu porta afora.

Edd suspirou. Sim, Matt iria notar o sumiço do espelho, mas Edd não queria assumir a culpa por quebrá-lo e deixar seu amigo triste.

— E aí, Edd? Escuta, eu esqueci alguma garrafa aqui na cozinha? — disse Tom, entrando.

— Tom, o que você faria pra consertar um erro sem que ninguém notasse que você errou?

— Eu sei lá. Por quê? — Ele abriu o armário e inspecionou o grande nada que lá havia.

— Eu quebrei um espelho e não quero que o Matt descubra.

— Torce pra não ter sete anos de azar. — Ele riu e começou a abrir as outras portas. — Sério que não tá aqui? Já procurei na casa toda!

— Tom, é sério! O que eu devo fazer?

— Ahn... Por que você não pega um igual e põe no lugar?

— Eu já fiz isso antes e não deu certo.

— Então conta pra ele e deixa ele comprar outro. — Tom começou a contar moedas em cima da mesa.

— É, acho que vou fazer isso, mas e se...

— Olha, eu não dou a mínima. O amigo é seu. Eu vou comprar outra Smirnoff. E se você achar alguma perdida pela casa, leva no meu quarto, ok? — Ele juntou as moedas na mão.

— ...Ok. — Edd sentiu-se desconfortável pelo descaso que Tom fazia.

Os quatro rapazes moravam na mesma casa há um bom tempo, mas Tom parecia não ligar para ninguém mais ali. Ignorava Matt e sempre discutia com Tord. Edd começou a se perguntar se Tom continuava morando ali por sua causa.

— Vou ver isso direito depois... Agora eu preciso falar com o Matt.

Edd deixou os restos do espelho sobre a mesa e se dirigiu ao quarto do ruivo.

— Matt. — chamou Edd, batendo na porta. — Você está aí?

Sem resposta.

— Matt?

— Vai embora, Edd... — disse Matt, dentro do quarto, com a voz rouca.

— Matt, eu... — Edd tentou abrir a porta, mas ela estava trancada. — Ei, abre a porta. Deixa eu entrar.

— Eu não quero falar com você, Edd, me deixa em paz.

Edd estranhou a atitude do amigo. Matt não costumava fazer isso.

— Ei cara, você não parece bem. Sai daí e vamos falar sobre isso, ok?

Novamente sem resposta.

— Matt, eu não vou sair daqui enquanto você não abrir essa porta! Entendeu, Matt? Matt? Matt! Abre a porta, Matt! — Edd começou a repetir o nome do amigo sem parar.

Matt suspirou pesadamente, aquilo já estava o deixando bastante irritado. Ouviu-se uma chave girando.

Matt abriu a porta.

Ele estava deplorável.

— Matt, como...

— Diz logo o que você quer e vai embora.

— Eu vim te contar que... bem, o espelho da sala, ele... — Matt revirou os olhos e começou a fechar a porta. Edd a segurou. — Espera, cara! Ei, o que foi? Por que você tá assim?

— Não te interessa. — Ele já ia fechando a porta quando Edd a empurrou com força e invadiu o quarto de Matt.

— Matt, mas o que... — disse Edd, vendo o estado do cômodo. O quarto de Matt sempre foi uma bagunça, mas estava bem pior. Havia cinzas em vários cantos, roupas e fotos rasgadas no chão e coisas quebradas em toda parte. Edd reconheceu um rótulo de Smirnoff no meio de uma montanha de cacos.

Ele imediatamente entendeu porque as coisas estavam sumindo dos quartos de Tom e de Tord.

Matt não saiu do lugar. Pegou um cigarro do bolso do moletom roxo e o acendeu.

— Matt, como isso ficou assim? — perguntou Edd, preocupado.

— Você não se importa que o Tord fume, não quero saber de bronca. Eu não ia te deixar entrar, mas já que entrou, senta aí, sei lá. — Matt foi andando até a cama.

— Não é isso, é que... — Edd permaneceu próxima a porta. — O que houve com você? Você não aparece há um tempo e quando eu te vejo, está assim?

Matt se sentou e resmungou baixo. Soprou círculos de fumaça.

— Tanto faz. — suspirou. — Anda, diz logo o que tem pra dizer e sai. Não estou com muito tempo.

— Aonde você vai? — perguntou Edd.

— Não te interessa. O que quer?

— Eu... vim me desculpar por ter... quebrado um espelho.

Matt segurou um riso.

— Só isso?

— Só isso.

— Tá bem. Já pode ir.

— Matt, você não está nada bem! Agora eu quero saber porque você está assim! Como seu amigo, não posso ignorar o que...

— Cala boca, Edd! Você não é meu amigo. Eu não tenho que te dar nenhuna explicação sobre a minha vida! — Ele deu uma longa tragada no cigarro. — Sai do meu quarto.

— Não saio! Uma hora ou outra você vai ter que me contar o que está acontecendo! Eu só quero te ajudar, Matt!

— Não, você não quer! Sai!

— Matt, onde você esteve esses dias? Quando pegou essas coisas? Ninguém te vê faz um tempo, sabia?

— Ah, você quer saber onde eu estava, Edd? — Matt falou, de modo cínico. — Olha em volta! Eu estava aqui! E nem você, nem ninguém se importou se eu estava bem, doente ou morto. Eu poderia apodrecer aqui e vocês só iam notar quando restasse os ossos!

— Aqui? Então por que você não...

— Porque eu já percebi que eu não passo de um incômodo pra vocês! Enquanto eu estava aqui, me perguntando porque ninguém sequer me chamava, eu ouvia seus risos felizes atrás dessas paredes. Aquilo soava pra mim como se comemorassem o meu desaparecimento. Eu já estou cansado disso! De ser aturado! De ser o último em tudo! De ninguém se importar comigo, isso porque moramos na mesma casa!

— Matt, a gente se importa com você! Você fica aqui trancado sem fazer um ruído, nem sabíamos que você estava em casa! Se tivesse dito, a gente podia...

— O quê? O que fariam? Iam comprar um espelhinho pra eu ficar feliz? Acorda, Edd! Admite que falavam comigo por medo de eu ficar triste ou sei lá. Acharam o que, que eu ia fazer birra? Eu posso sim ser meio infantil às vezes, Edd, mas se não notou, eu não sou uma criança! Eu tenho a mesma idade que vocês, e não sou tão inocente quanto pareço! E vocês continuavam me tratando como um... cachorro abandonado! Nem o Ringo vocês tratam assim!

Matt respirava descompassadamente. Edd deu um passo pra trás.

— Eu não sabia que você se sentia assim...

— Você não sabe de nada. — O cigarro estava acabando de queimar. — Saia do meu quarto.

— Matt, se a gente puder fazer qualquer coisa pra tentar consertar isso, nos diga...

— Não se faça de vítima, Edd. Saia.

— Eu não estou me fazendo de vítima, Matt, eu...

Matt se levantou.

— Se não sair do meu quarto agora... — Matt deu uma ênfase ríspida na última palavra.

— Matt, para com isso, cara! Escuta, eu sinto muito, mas eu quero te ajudar! Porque eu sou seu amigo!

Matt segurou Edd pelo moletom, assustando-o.

— Para de ser tão falso, Edd! Se é que isso é possível! — Matt gritava. — Você só não quer se sentir culpado por não ter feito nada quando podia! Sabe qual é o problema, Edd? É tarde demais! — Matt o empurrou, fazendo Edd bater com as costas na parede. — Pela última vez, Edd. Saia do meu quarto!!

Edd estava muito assustado. Levantou-se com um pouco de dificuldade e correu. Assim que Edd saiu, Matt bateu a porta com tanta força que Edd pensou que ela se partiria em pedacinhos. Edd correu, correu e não sabia para onde estava correndo, apenas que não queria voltar para casa tão cedo. Por que aquilo aconteceu?

Matt. Matt! Matt!!

Edd o havia perdido.

Ele sentiu algo gelado em seu rosto. Enxugou com a manga do moletom. Ele estava chorando.

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