Endless night
Endless night
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Noite sem Fim

Podia se ver poucos pontos brilhantes no céu naquela noite, o ar era fresco como de costume, ali longe da grande cidade em meio a grama verde lima um casal corria sobre o parque de mãos dadas, a luz em seus olhares era pura e única entre aqueles que estão apaixonados, o casal corria para entre as arvores lutando para conter seus sorrisos, até que o rapaz puxou a menina pelo braço pressionando-a contra a arvore mais próxima e fitou o olhos da mesma. Os lábios mal podiam se conter de ansiedade para se unirem, para os íntimos naquele singelo instante foi possível ouvir um sussurro, um sussurro que era um grito para a menina, um te amo em silencio foi dito, de novo e de novo. Não demorou muito até as arvores começarem a balançar com força, o vento mudar de direção e um som aterrorizante ecoar ali. O casal interrompeu seus beijos, a menina aterrorizada buscou os braços do amante, um ranger estridente tomou conta do local, uma respiração falhada como um grito quase sussurrado.

— Ah por deus, arrumem um quarto. – Disse o homem com sobrancelhas prateadas intimidantes que acabará de sair da caixa azul que surgiu bem na frente deles.

— Esse é o planeta deles Doutor, tecnicamente é o quarto deles e você está invadindo, seu pervertido. – Uma menina saiu da caixa azul em seguida saltitando com um longo vestido amarelo e casaco azul marinho.

O casal permaneceu estático com a situação sem dizer uma palavra sequer, apenas se permitiram apontar em direção a cidade após o Doutor perguntar onde a mesma ficava. Seguindo pelo gigantesco e vasto campo verde lima existe uma cidade colossal, poderia ser descrita como uma enorme pintura em tons de cinza se não fosse por seus prédios iluminados do primeiro ao último andar, as torres cinzas se tornavam um show de cores de todos os tipos, mesmo na escuridão da noite onde todos deveriam estar dormindo a cidade estava mais acordada do que nunca. Acima da cidade a vasta escuridão abraça carinhosamente todo o lugar com exceção das duas luas que orbitavam o planeta, uma em cada hemisfério abençoando aquela terra com sua luz.

— Já pode dizer o que viemos fazer aqui? – Clara descia o parque franzindo a testa se arrependendo por ter vindo de sapatilha ao invés de tênis.

— Eu já disse, viemos visitar, conhecer, não é isso que a gente faz? – Doutor vestia os óculos sônicos e fitava o horizonte intrigado. – Estamos no planeta Llidaria, pioneiros na escavação de mineiros no espaço, a primeira raça a aprender a usar os componentes do diamante como combustível! Uma raça EXTREMAMENTE avançada, e com um senso de família irritante, consideram cada ser desse planeta como um irmão, dizem estar todos conectados de alguma forma, e ah, eles são azuis, como você pode notar. Adoro gente azul.

— Quando eu vou ganhar um também? Um óculos sônico desses, algo sônico, tipo um batom sônico! E o que viemos fazer aqui, mesmo?

Doutor tirou os óculos encarando as lentes e apertando a lateral do mesmo, fazendo surgir um zumbido constante da armação. – Você não ouviu nada do que eu disse? Estamos viajando, relaxa ao menos uma vez, sem monstros, sem Daleks, só eu e você juntos. E nada sônico para você, não são utensílios fashion Clara, são aparelhos científicos. –Ele terminou a sentença e pôs o óculos de volta no rosto dando de ombros e sorrindo sarcasticamente.

— Bom, você parece bem fashion com esses óculos. – Clara abraçou o braço do Doutor pondo o rosto repousado no seu ombro e suspirou fundo. – três anos viajando com você e nunca fomos para um lugar que não tivemos que salvar o mundo ou coisa parecida, eu duvido muito que agora vá ser diferente.

— Vamos salvar o mundo então Clara Oswald.

Longe dali, no topo de uma torre, um homem envolto em mantos escuros de seda observa a cidade, o vento forte batia contra seu rosto. O ar é puro mas respira-lo já é a muito difícil para ele, a contemplação da cidade era um hobby para o homem, ficar horas ali de pé olhando a vastidão dos prédios iluminados, ouvindo o som da vida comum abaixo, vendo seu povo despreocupado com o amanhã, vivendo o hoje como se ele fosse eterno. Ao fechar os olhos era possível ouvir a música que vinha do concerto no teatro próximo dali, a voz da cantora encantava e acalmava almas que se permitiam ser tocadas pela canção, a voz angelical dava uma ternura única aquela cidade, purificava aqueles que a ouviam, lavava o pecado daqueles que tanto o haviam cometido.

‘’Esse sonho deve acabar
E o mundo deve saber, quando nós erramos o tempo veio nos salvar, quando o tempo acabar
só os puros iram viver. ‘’


-
Só os puros... – O homem tossia enquanto sorria de alegria ouvindo a canção. —

— Senhor, temos invasores no perímetro, alguém cruzou a brecha temporal e adentrou o planeta.

O homem de seda abriu os longos braços azuis cerrando os punhos ainda de olhos fechados ouvindo a música. Se virou para o guarda e consentiu com a cabeça. – Ele chegou enfim. A décima segunda hora se encontra em seus últimos minutos.

— O que o senhor deseja que façamos Governador? – O guarda fitou o chão evitando contato visual com o mesmo em sinal de respeito. —

— Encontre-o para mim, há muito alguém me avisou que esse dia chegaria, o dia que o Doutor viria como um arauto da destruição sobre a nossa raça... E esse alguém me disse como impedi-lo.

O guarda bateu continência e se retirou da sacada do prédio chamando unidades para se reunir a ele na busca do Doutor. O governador retornou a fitar a cidade suspirando lentamente, as nuvens já haviam começado a se aglomerar no céu, pequenas gotículas de agua começavam a cair, uma foi de encontro com o rosto do Governador, escorreu pelo seu rosto junto de muitas outras que agora caiam sem parar lavando os céus, ruas e prédios. Há muito não chovia ali, anos talvez. Pondo a seda de lado o homem fitou o céu deixando a chuva lavar seu rosto. — Todos esses dias, horas que nunca existiram, todos esses momentos, vão ser perdidos, como lagrimas na chuva. – O Governador sorriu. – Chegou a hora.

As ruas da cidade eram lotadas, pessoas de todos os tipos espalhadas nos corredores, entradas de prédios, em singelas barracas montadas nas calçadas, vendedores ambulantes gritando suas mercadorias. O cheiro era indescritível, todos os tipos de comidas eram feitas na hora para todos os lados, apesar da população toda do planeta possuir sua pele azul cada um ali era completamente diferente do outro, cada ser ali possuía um estilo próprio, sua própria ideia de quem é você mesmo, cabelos diferentes, roupas, tatuagens, piercings, havia aqueles que viriam a cena e a chamariam de um show de horrores, mas na verdade era uma real obra prima, seres iguais por natureza, distintos por escolha, juntos como um só, como irmãos com o próprio Doutor havia dito. Ninguém se deu ao trabalho de estranhar dois seres com roupas tão “comuns” e peles claras caminhando pelas ruas da cidade, todos estavam ocupados e entretidos com suas vidas e meios sociais, comendo, rindo, vendendo, comprando. A maioria das pessoas presentes divergiam para o centro da cidade ansiosas e sorridentes, as ruas possuíam aspectos familiares a Clara, lanternas chinesas nos postes, pubs ingleses nas esquinas, barracas de comida indiana espalhadas por ai, até mesmo um gigantesco Mc Donalds existia ali chamando atenção com seu M gigante.
Clara já havia visitado outros planetas com civilizações do gênero antes, mas cada vez que ela via povos e cidades assim era como a primeira vez para ela, seu sorriso se destacava de toda a multidão, para o Doutor na verdade não existia multidão alguma, só ela, ao lado dela era como se fosse a primeira vez também, ao lado dela a imensidão do universo, todos os monstros, todas ameaças, todos os horrores da vastidão do infinito se tornavam maravilhas, até aquele planeta, ao lado dela por uns segundos o Doutor foi capaz de esquecer de tudo que aconteceu ali e se permitiu vê-lo como ela o via, como algo maravilhoso.

— Esse lugar é inacreditável, eu realmente espero que não tenha nenhum deus antigo adormecido aqui para derrotar por que eu não tenho outra folha daquela. – Clara comentou com as bochechas inchadas enquanto mantinha um sorriso constante maravilhada ao ver tudo ao seu redor. – É tudo tão alienígena mas ao mesmo tempo tão...

— Humano? – Doutor completou a frase presunçoso. – Depois do quarto grande império humano a nossa raça se espalhou pelo universo, por acaso o planeta terra tem uma das culturas mais interessantes no universo para os olhos de outras raças, esse fato só aumentou o ego dos humanos, coisa que eu nunca imaginei que fosse possível, você vai ver, daqui a alguns anos vocês se tornaram mais insuportáveis ainda. Enfim, tudo do nosso planeta, fast-foods, filmes, livros, religiões, vestígios da sua cultura se espalharam pelas estrelas, tem um pouco de vocês em todo lugar, da sua própria e única forma vocês conquistaram o universo.

— Não importa quantos anos passem o nosso ego nunca vai chegar aos pés do seu ego Doutor. – Clara correu até uma barraquinha que vendia batata frita e puxou o Doutor junto pedindo para ele comprar um pouco.

Caminhando pelas ruas da cidade junto da multidão até o centro o Doutor retirou um lenço do casaco e entregou a Clara tentando dizer algo. – Seus dedos estão cheios de gordura, o óleo que eles usam aqui para fritar a batata pode ser cancerígeno, não que o que vocês usam na Terra também não seja... – O Doutor fitou o chão caminhando lentamente para longe da Clara entregando a ela o óculos sônico. – Fique com isso por perto, eu preciso encontrar um velho amigo, não vou demorar muito, conheça a cidade, e fique longe de comidas que não sabe o nome.

— Ei. – Clara pôs a mão no rosto do Doutor encarando-o e sorrindo. – Sua testa, você não sabe não franzir elas quando está preocupado. Nunca é só uma viagem né?

— Você está fazendo aquilo de novo. – Doutor evitou contato com os olhos de Clara enquanto cerrava os punhos agoniado. – Está sorrindo mas seus olhos estão tristes, sabe como eu fico quando você faz isso, Clara pare.

— Não estou triste, só preocupada. Se você demorar muito eu vou ir atrás de você ok?

— Ok.

— Eu vou atrás de você de qualquer forma, por que você não vai me levar junto? Doutor... – A expressão de Clara mudou para uma irritada de imediato. – Você está preocupado, eu não gosto de você preocupado com algo, não pode simplesmente me deixar aqui e ir resolver seja lá o que tem para resolver.

— Eu não posso levar você comigo, mas depois de todo esse tempo eu sei também que não posso impedir você de vir. – Doutor segurou a mão de Clara e guiou-a pela multidão até o centro da cidade. – Quando chegarmos lá eu só peço que me deixe ir ver esse homem sozinho, preciso falar com ele a sós um pouco, eu preciso que você confie em mim Clara, e preciso que seja... Você mesma.

— Ok, você mudou de ideia rápido agora. – Clara franziu a testa seguindo ele. – E tudo bem, mas, aonde nós vamos?



A multidão a frente começa a abrir passagem enquanto homens fardados caminham em direção ao Doutor e Clara, poucas pessoas parecem se importar com a cena quando os soldados seguram ambos pelos braços caminhando até o centro. – Doutor, o senhor e sua companheira foram requisitados na presença do Governador.

— Acho que vamos ver o Governador. – Doutor comentou para Clara, obedecendo aos guardas seguindo para o centro.

No centro da cidade reside um gigantesco prédio cinza pouco iluminado, prédio esse que se destoa completamente do resto da cidade. Ao redor dele pessoas animadas caminhavam juntas e se reuniam no teatro próximo para se amontoar na entrada do mesmo e ouvir um pouco da música que vinha de dentro. Os guardas seguiram para a entrada do prédio cinza central, passaram os cartões no portão principal abrindo-o e seguiram pelo corredor prateado.

— Só preciso falar com ele, pode deixar a menina esperando na outra sala. – Uma voz rouca falou através do comunicador de um dos guardas.

Doutor bufava agoniado enquanto seguia o guarda, cruzou um corredor e viu a porta se fechando atrás dele, ficando lá Clara junto de outro guarda, ele olhou para trás por uns segundos e forçou um sorriso que para ambos significava um: Vai ficar tudo bem, eu acho.
Bem no centro de um gigantesco salão residia o homem envolto em seda, o Governador, segurando uma taça de vinho e arrastando os pés nus pelo azulejo frio, tocando os dedos pelo mármore da parede branca, sentindo o calor da lareira abençoar aquele lugar frio, um último suspiro foi dado pelo mesmo, o relógio batia pela última, porem primeira vez. – Temos muito o que conversar não é. – A porta do salão se abriu adentrando ali o Doutor.

— Você sabe o que eu vim fazer aqui, suas palavras não vão me impedir, você definiu seu próprio destino. – Doutor sentou no sofá vermelho sangue perto da lareira e passou as mãos no rosto erguendo as suas grandes sobrancelhas prateadas com pesar. –Eu pensei que eu nunca veria em toda minha vida um ser mais terrível do que um Dalek, mas você, você é muito pior que um Dalek, você não nasceu para isso, não foi moldado para o mal, não age pelo ódio, você o faz porque quer e porque pode.

Governador junta os lábios cerrando os olhos, envergonhado demais para olhar na cara do Doutor. – Eu fiz o que eu fiz acreditando em um bem maior, não me orgulho da minha escolha, mas não me arrependo dela... Um homem deve ter uma raça, um povo, uma família, filhos... – Governador se permitiu sorrir criando coragem para virar para o Doutor. – Você mais do que qualquer um deve entender isso.

Na sala onde Clara ficou os guardas se dispersaram de volta aos seus postos deixando a menina sentada em um banco com algemas tecnológicas presas no pulso da mesma. A sala em questão consistia basicamente em um corredor que levava aonde o Doutor foi, o corredor de volta a entrada e uma porta para as escadas no canto próximo ao bebedouro. Clara olhou para os lados procurando os guardas e pôs a mão no bolso do casaco retirando os óculos sônicos e pondo no rosto formando um sorriso presunçoso no rosto e encarando as algemas falando mentalmente – Abra. – O mecanismo da algema cedeu abrindo-a de imediato. – Doutora Clara está no caso. – A menina pôs as algemas no banco e andou em direção porta por onde o Doutor foi tentando abri-la, mas os óculos sônicos não pareciam funcionar ali, então ela foi em direção a porta que dava para as escadas. O som dos guardas ecoando no corredor começou a ficar mais alto e Clara se apressou entrando na porta vendo escadas que seguiam para cima e para baixo. – Ah... É só fingir que eu sei o que eu estou fazendo que tudo vai ficar bem né. – Clara pôs o dedo no meio da armação do óculos pondo-o mais preso no rosto e seguiu confiante para as escadas para baixo.

Descendo quase três levas de escada Clara encontrou outra porta e usou os óculos para entrar na mesma, ali ela se deparou com um salão escuro e extremamente frio, os passos da sua sapatilha ecoavam pelo salão e a cada passo que dava ia mais fundo na escuridão do lugar. Pôs as mãos nos ombros tentando se esquentar puxando as golas do casaco mais para perto caminhando, até que deu um passo em um tipo de piso diferente e todo o salão se iluminou. – O que... – Corredores e corredores se erguiam a sua frente, de comprimento inimagináveis e em cada um deles existiam incontáveis cabines, cabines incubadoras com crianças prontas para nascerem ali expostas, sendo alimentadas por cordões umbilicais tecnológicos, algumas se mexiam, como se tivessem espasmos em seus sonos profundos. Clara parou diante a uma cabine pondo a mão contra ela fitando a criança indefesa, sendo criada, feita, gerada por algo ou alguém. O desespero tomou conta e Clara começou a puxar os fios da cabine da mesma tentando tirar ela de lá até que foi interrompida por uma voz. – NÃO, não puxe os fios, você vai matá-lo. – Uma mulher surgiu entre Clara e a cabine pondo os fios de volta no lugar e acariciando a cabine gentilmente, sorrindo para a criança e fazendo um singelo “shh” acalmando-a. – Elas vivem pelas maquinas, não podem ser soltas antes do tempo. – A mulher encarou Clara serenamente e pensativa. – Você... veio com ele né? Veio com aquele que irá encerrar o nosso tempo, o Doutor?

Clara franzia a testa com os óculos agora na mão encarando a mulher confusa e as crianças nas cabines. – Encerrar o nosso tempo? Quem é você e o que vocês vão fazer com essas crianças?

— Elas estão aqui sendo preparadas para nascerem quando o tempo voltar a girar, e assim vão ter uma chance de viver livres pelo planeta, livre a luz que encontrou a todos nós .Essas crianças são meus filhos, viemos preparando-as para o dia que o Doutor viesse, o dia que ele viesse encerrar o nosso tempo e nos fazer pagar pelos nossos pecados, nesse dia todos os meus filhos irão nascer e viver, puros e livres do fardo de seus pais...

— Eu não entendo, vocês tem esperado o Doutor? – Clara se acalma e inspira fundo olhando ao redor tentando buscar algum sentido naquilo tudo. – O que você quer dizer com ele vai fazer vocês pagarem pelos seus pecados, que pecados vocês cometeram?

No salão principal o ar frio deu lugar ao caloroso e convidativo ar quente que vinha da lareira, a taça de vinho era novamente enchida. – A proclamação das sombras chamou você então?

Doutor torceu o rosto batendo o pé contra o chão repetidamente agoniado. – Eles me contaram o que aconteceu aqui, pediram a minha ajuda eu era teoricamente o único que poderia entrar no bloqueio temporal que vocês criaram, eu me senti na obrigação moral de vir e.... Sinceramente, por que estamos fazendo isso? Você acha que iria ficar aqui vivendo sua noite eterna pelo resto da sua vida? É modo de dizer, eu sei que o tempo não passa aqui e sua vida nunca acabaria enfim. – Ele caminhou até ficar ao lado do Governado e fitou o mesmo nos olhos. – Suas horas acabaram, o relógio vai voltar a girar, já voltou só de eu por meus pés aqui, ao menos enfrente seu destino com honra, me diga POR QUE VOCÊ FEZ O QUE FEZ. – Doutor gritou franzindo a testa furioso, socando a bandeja de prata onde se encontrava a taça de vinho.

O Governador se sentiu envergonhado e se afastou acariciando os panos de seda repetidamente. — Eles são a minha família, o meu povo, eu tinha uma chance de salva-los. Eu não me importei com as consequências, eu fiz e você sabe por que, você tem o direito de vir aqui me condenar, mas nunca vai ter o direito de me julgar Senhor do Tempo. – Governador se esforçou para esboçar um sorriso com os olhos cheios de lagrimas lutando para mantê-las ali. – Eu tenho me olhado no espelho desde aquele dia e me perguntando se eu sou um bom homem. Sempre que eu subo até a sacada desse prédio e ponho meus olhos sobre a cidade, sobre o meu povo, eu sei qual a resposta, você sabe qual é a sua? -

O som do ponteiro do relógio se movendo ecoou pelo salão estremecendo a alma do Governador, o tempo estava voltando, lentamente, o tempo voltava a cair sobre eles assim com a chuva. Os dois homens que haviam enfrentado uma escolha impossível se encontravam diante um do outro com o pressentimento de que logo teriam de fazer outra.

A mulher caminhava junto de Clara pelos corredores a levando até um computador no centro, as cápsulas se estendiam até mais a frente delas ainda, fios ligavam o computador até cada um dos corredores de cápsulas, em algumas das telas do computador mostrava sinais vitais e dados analisando a vida daqueles dentro das mesmas. – Sente-se. – A mulher disse puxando a cadeira para Clara enquanto teclava alguma coisa no computador. – Você não sabe o que o Doutor veio fazer? —

— Não, mas agora eu estou mais interessada no que vocês estão fazendo com essas crianças.

— Estamos garantindo um futuro para a nossa espécie.

A mulher passou sutilmente os dedos por baixo da mesa ativando um alarme silencioso, o pesar em seu rosto era notável, os lábios roxos tremiam enquanto ela tentava formar suas palavras, esboçar um falso sorriso era a única saída para manter o controle ao comentar sobre a tragédia que se abateu sobre seu povo, sobre a sua família. – Há um tempo atrás uma das nossas expedições havia voltado para nosso planeta, eles tinham ido até o limite do universo, nos planetas escuros, pensamos que seria uma boa ideia por que ninguém havia antes ido neles, fomos os primeiros a explorar uma terra nova, coletar seus minérios e suas riquezas. – A mulher sentou na cadeira juntando as mãos fitando Clara. – A equipe voltou com muitos minérios, materiais raros e... E outra coisa, um vírus, o chamamos de SomariumMoff, significa A Marca da Morte no nosso vocabulário antigo, quando esse vírus chega no seu hospedeiro final ele começa a se espalhar, não tínhamos ideia do que estava acontecendo até começarem a aparecer os primeiros mortos.

O Doutor pegou uma taça de vinho na mesa e jogou o mesmo no arranjo de plantas ao lado dele. – Você tem chá? -

O Governador tocou um aparelho no pulso e logo um guarda adentrou o salão com uma jarra de chá servindo o Doutor.

— Obrigado, bom, eu gostaria de perguntar como você fez isso? Prender o planeta fora do tempo foi algo inteligente, até mesmo salvou vocês do buraco negro. – Doutor deu um gole na taça com chá e ergueu as sobrancelhas prateadas para o Governador – Eu só conheço um povo em toda a galáxia capaz de manipular o tempo dessa forma. -

— Tecnologia dos Senhores do Tempo. – O Governador tocou o aparelho no pulso novamente fazendo uma tela surgir na parede mostrando uma sala com fios ligado a uma pequena máquina e uma enorme quantidade de luz sobrevoando a mesma. – Você mudou tanto.

O Doutor largou a taça na mesa e correu até a tela analisando-a de mais perto boquiaberto, as marcas no aparelho, a energia que residia ali, energia essa forte o suficiente para destruir uma frota Dalek inteira, forte o bastante para dobrar o espaço e o tempo a sua vontade, aquele aparelho transbordava com essa energia, expirava e inspirava essa energia. – Esse aparelho ele está.... Vivo. – Doutor voltou os olhos para o Governador intrigado. – É uma TARDIS.

O Governador pôs o pano sobre a boca tossindo sangue na mesma se apoiando na cadeira. –Um dia, um dia horrível, talvez o pior dia de toda a minha vida. – Governador limpou a boca contendo a sua tosse enquanto fitava o Doutor – Nesse dia eu conheci um homem muito muito velho porem muito gentil, esse homem tinha em seus olhos o peso de saber o que é ver a sua raça inteira morrer e não poder fazer nada, esse homem viu o desespero do meu povo e nos deu algo quando não tínhamos mais nada. Você nos deu esperança Doutor.

— O que esse vírus faz? – Perguntou Clara a mulher.

— Uma leve gripe. – A mulher riu ouvindo a própria resposta. – O pior é isso, o real sintoma dele é só isso uma leve gripe... Mas como eu disse, quando o vírus encontra o seu hospedeiro final ele precisa se espalhar e para isso ele se liga a você, na sua saliva, seu sangue, você pode até mesmo passar o vírus para outra pessoa pelo ar, mas só para alguém da sua própria raça, quando ele encontra seu hospedeiro final ele reconhece, analisa, entende e muda o DNA do mesmo. – A mulher teve de conter as lagrimas olhando para as crianças nas capsulas ao lado dela. – Todo mundo que você ama, até mesmo os seus filhos vão nascer com esse vírus. -
— Mas você disse que ele causa só uma leve gripe, como ele pode ser tão fatal como diz o nome dele, eu não entendo. – Clara se inclinava para a frente franzindo a testa confusa. -

— O vírus veio de um planeta escuro, no limite do universo, lá não existe sol, o vírus não sobrevive ao sol e quando ele muda seu DNA o vírus se liga a você por inteiro como eu disse, então quem o tiver também não consegue sobreviver ao sol. Tivemos que matar o nosso sol para que ele não matasse a nós. – A mulher se levantou olhando para a porta por onde a Clara veio. – Mas nós não éramos o único planeta nesse sistema. -

Antes que Clara pudesse responder os guardas entraram a sala caminhando até ela apontando armas. – Lady Myr você está bem?

Myr consentiu com a cabeça e olhou envergonhada para a Clara. – Seu amado Doutor não é uma pessoa melhor do que nós somos, escolhemos o que pensamos ser o melhor para o nosso povo assim como ele escolheu o que pensou ser o melhor para o dele, nem sempre podemos nos dar ao luxo de pensar nas consequências. Levem-na para o Governador. -

Lady Myr acompanhou Clara e os guardas pelo elevador principal até o salão principal.
Clara adentrou o salão encontrando o Doutor e o Governador.

— Eu? – Perguntou o Doutor.

— Quando matamos o Sol você veio a nós, nos deu o coração de uma TARDIS, disse que ela pediu para que você vir até nós, que ela queria nos salvar. – o Governador riu olhando os olhos do Doutor. – Seus olhos são tão mais novos do que eram quando eu conheci você.

O Doutor esboçou um sorriso bobo ponderando a história do Governador. – Essa não é a minha TARDIS, eu a reconheceria, mas definitivamente é uma TARDIS. – Doutor correu até ao lado do Governador e se ajoelhou olhando para ele. – Isso que você está me dizendo, é verdade? Por que se for quer dizer que eu... Eu encontrei meu povo, eu achei Gallifrey. -

— Um homem precisa do seu povo, precisa de um lugar para chamar de casa, você encontrou a sua, vai encontrar e salvou a nossa. – O Governador tossiu mais forte sentindo o interior do seu peito queimar dolorosamente. – Ah, o tempo está voltando.

Doutor esqueceu toda a raiva daquele homem naquele instante e segurou sua mão em um espontâneo ato de carinho, lembrando que as vezes, em um dia bom ele não é só um homem maluco em uma caixa, ele é Doutor. – Eu preciso voltar o tempo ao normal, a doença vai matar vocês e.... Eu sinto muito, eu sinto muito mesmo. – O Doutor fitava o chão procurando uma saída para aquilo, procurando um cenário onde ao menos dessa vez todo mundo pudesse viver.

O Governador segurou a mão do Doutor de volta e se esforçou para falar. – Quando eu era bem pequeno meu pai morreu e eu herdei o planeta, as responsabilidades começaram a bater à porta e eu cumpri todas por que havia sido treinado para tais desde quando eu nasci, foi só nó dia que o vírus tomou conta, no dia que a nossa raça estava por um fim que eu me tornei o Governador, ninguém votou para que eu me tornasse isso, ser o Governador é uma promessa que eu faço a mim mesmo e ao meu povo uma promessa de fazer as escolhas que ninguém poderia fazer, eu fiz a minha escolha Doutor, dei ao meu povo uma nova chance, mesmo que com isso eu tenha sujado as minhas mãos de sangue eu posso encarar meu fim sem arrependimentos. – O Governador sorriu para o Doutor. – Eu salvei o meu povo e você salvou a minha alma.

A porta do salão principal de abriu entrando Clara e Lady Myr. Myr correu até o Governador se ajoelhando ao lado dele também com os olhos cheios de lagrimas balbuciando algumas palavras. Clara andou até o lado do Doutor e arrastou seus dedos na palma da mão dele até entrelaça-los com os do Doutor. – Ela me contou tudo, o que aconteceu, o que seu próximo você fez. – Clara olhou com ternura para o Doutor mantendo um sorriso cujo qual ela sabe que é tudo o que o Doutor precisa ver as vezes para lembrar quem ele é, qual a promessa que ele fez a si mesmo. – Mas e o você agora, o que ele vai fazer? —

Doutor fitou os lábios de Clara enquanto pronunciavam aquelas palavras e se perdeu em seus pensamentos por alguns segundos até voltar a si e levantar caminhando pela sala com uma expressão triste. – Esperança é tudo que eu dei a eles, e esperança é tudo que eu posso dar ainda. – O Doutor pegou o console no pulso do Governador que mal conseguia respirar na cadeira e tocou uns botões enquanto pedia a Clara para que colocasse o óculos sônico nele. – Eu vou dar um salto no tempo para o planeta, quando o tempo voltar ao normal não irá existir mais rastros alguns de radiação solar ou raios ultra violetas no sistema de vocês ou nesse planeta, a próxima geração vai poder viver, a sua raça irá ter uma outra chance, seus filhos terão uma vida Lady Myr. -

Clara pôs os óculos no Doutor e após alguns segundos de zumbido sônico vindo da mesma todo o planeta estremeceu, o mármore do salão rachou, o relógio se partiu ao meio e o arranjo de plantas na mesa apodreceu em segundos. O tempo bateu contra o lugar, todo de uma vez. A energia da TARDIS do planeta explodiu em um show de luzes, podia-se ver nos céus fios dourados cruzando as nuvens como estrelas, percorrendo ruas, rios, parques e vales, luzes dançando entre as pessoas, tocando-as dando tempo, tempo em sua forma mais pura e única, a energia do tempo manteve todos naquele planeta como estavam no dia que foram presos em sua interminável hora. Chegou o momento de um novo dia no planeta onde agora sempre seria noite.
As crianças em suas capsulas começavam a se debater, ansiosas todas sentiam que já era hora de acordar. Costumam dizer que os dias são curtos e terminam cedo demais, e as noites para o bem ou para o mal podem parecer sem fim.

— Obrigado meu amigo. – O Governador tampou a boca em volto aos braços de Lady Myr dizendo isso.

Doutor acenou com a cabeça contendo um sorriso e caminhou junto de Clara até de volta as ruas da cidade. Nada havia mudado, algumas estruturas haviam envelhecido, barracas haviam cedido, tudo estava um pouco sujo mas ninguém parecia se importar, a mesma alegria de antes ainda existia no rosto de cada um ali, comemorando a vida, comendo suas comidas gordurosas e fazendo suas danças típicas. Não vai demorar muito até eles começarem a sentir os sintomas da doença, todos tiveram contato com o sol, a suspensão do tempo os manteve vivos e saudáveis por muito tempo mas agora o tempo voltou a correr, alguns vão viver mais do que os outros, tempo o bastante para guiar a nova geração que nasceu sem um sol, para ensiná-los a manter o legado do Governador, manter o espirito daquele povo, lembrando a cada um, cada dia ou cada noite, que não existe nada melhor em todo o universo do que estar vivo.

Ao voltar a TARDIS o Doutor se apoia no console da nave frustrado, o som da máquina ecoava no interior enquanto engrenagens se moviam sozinhas na nave. – O Governador disse que ele salvou o povo dele mas eu salvei a sua alma, o que ele quis dizer com isso...

Clara jogou seu casaco na cara do Doutor e em seguida se apoiou no console ao lado dele. – Isso foi por você ter mentido para mim, acredito que você se achava o máximo com as suas outras meninas bancando o misterioso com esse papo de ‘’ Regra número um: O Doutor mente ‘’ mas ai de você se mentir pra mim, idiota. – Clara manteve a feição de brava por mais alguns segundos até se jogar em cima do Doutor abraçando-o enquanto fechava os olhos. – Isso é por ser quem você, não é um bom homem, não é uma pessoa boa, mas você é o meu Doutor. É o Doutor e salva pessoas.

Doutor ergueu as sobrancelhas prateadas contendo um grito enquanto olhava ao redor na TARDIS. – Eu sou o Doutor e salvo pessoas. Ah Clara Oswald por que ao seu lado eu sou tão burro! – Ele correu pela nave puxando as alavancas para baixo, apertando botões e movendo as engrenagens fazendo a TARDIS dar partida com seu icônico som de sempre.

Clara se segurou enquanto a nave viajava e olhava intrigada para ele. – Eu sei que eu faço você enxergar o obvio as vezes e já estabelecemos aqui a muito tempo o quanto eu sou mais inteligente que você, mas será que você pode me explicar o que vamos fazer agora?

A TARDIS sobrevoou o planeta sugando toda a energia que sobrou da explosão da TARDIS do mesmo após interromper a suspensão do tempo. – A TARDIS está recarregando. – Doutor sorriu puxando a alavanca novamente dobrando o espaço e o tempo cortando caminho entre estrelas que a muito já nasceram, que há mais ainda estão para nascer e encontrando aquelas que logo estarão para morrer.

— A energia da TARDIS daquele planeta é o bastante. – Doutor franziu a testa concentrado puxando a tela da TARDIS analisando os números. —

Clara caiu sentada no chão da nave com a viagem e continuou tentando se segurar. – O BASTANTE PARA O QUE?

— Ah Clara levante, não seja preguiçosa, eu preciso de outra mão aqui! – Doutor sorria sem parar enquanto pegava Clara e colocava suas mãos uma em cada botão da TARDIS

— Vamos salvar a alma do Governador.

O tremor no interior da nave parou, no lado de fora da TARDIS um sol queimava imponente, ao seu redor uma vastidão de estrelas de todos os tipos e cores, meteoros cruzavam à paisana. Uma pequena nave cortava a escuridão, uma pequena nave ia de encontro ao gigante vermelho, a gravidade do mesmo abraçava-a, suas chamas o davam boas vindas, quando a pequena nave estava para se chocar contra o gigante vermelho a TARDIS voou para o planeta mais próximo. – Dozaria 5, que tal levarmos ele para a constelação de Zhopaius? – A TARDIS envolveu sua energia que transbordava a mesma agora no planeta e viajou com ele para outra constelação e voltou a constelação do gigante vermelho em seguida indo para perto de outro planeta. – O Planeta dos cafés! Foi onde eu tentei te comprar aquele expresso capaz de te manter acordado por uma semana inteira, eu não sabia que ele ficava aqui, bom agora ele vai ficar... – Doutor sorria encarando a Clara enquanto gritava. – PARA A CONSTELAÇÃO DE ANDROMEDA.

A TARDIS continuou indo e voltando buscando cada planeta um a um até sobrar apenas o planeta onde sempre seria noite naquela constelação. O Doutor pilotou a TARDIS para longe da zona de impacto e caminhou até as portas da mesma abrindo-as admirando o gigante sol vermelho.

— Salvamos todos os planetas... – Clara olhava maravilhada para o gigante sol vermelho enquanto o mesmo diminuía de tamanho rapidamente até não restar nada e esse mesmo nada explodir em um gigantesco buraco consumindo tudo ao seu redor, estrelas, cometas, luz e o tempo. – Estão todos salvos, você conseguiu, dessa vez todo mundo viveu.

— É preciso consumir a energia de uma TARDIS inteira para mover tantos planetas assim de uma vez, parece que eu tive tempo o bastante para pensar nisso no futuro e deixei a energia de uma ali naquele planeta me esperando para quando eu fosse lá e pudesse salva-lo, salvar a todos. E prender o planeta no tempo fácil, quando desloquei Gallifrey no tempo eu precisei tirar ela do meio do fogo cruzado para outro lugar no tempo onde pudessem viver, aqui eu só precisei para-los no tempo para que eles tivessem tempo, para que tivessem esperança. – Doutor sorriu orgulhoso enquanto cruzava os braços admirando o buraco negro. – Eu estou tão perto de encontrar Gallifrey Clara, você vai amar lá, não tanto, mas vai, a paisagem é ótima no verão.

— Você vai encontrar a sua casa logo, e eu vou estar lá com você, eu sempre vou estar com você velhote. – Clara sorriu virando o rosto para o Doutor.

Ele fitou os olhos da mesma, para os íntimos naquele singelo instante foi possível ouvir um sussurro, sussurro esse que era um grito de um para o outro, um te amo em silencio foi dito entre dois viajantes à beira de um buraco negro.



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