Dog days are over
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Chapter 110 min read

Capítulo 1

Os dias de cão terminaram

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“Vende-se sonhos” — o anúncio entalhado em madeira estava meio torto, sobre a fachada de uma loja estreita, espremida entre uma padaria e uma floricultura especializada em plantas venenosas. A porta do estabelecimento rangeu quando Adam entrou. Lá dentro estava quente. O lugar cheirava a uma mistura estranha de cerveja e flores. Cada canto disponível estava abarrotado com frascos empoeirados, cristais e incensos, e as paredes pintadas de preto faziam o ambiente parecer ainda menor do que era.

Adam sentiu como se a loja se fechasse ao redor dele, envolvendo-o, mas a sensação era mais acolhedora do que opressora. Como um abraço.

Um garoto estava sentado atrás de uma mesa, usando roupas pretas muito bem ajustadas e uma máscara de corvo. Ele pareceria muito solene se não fosse a maneira como estava sentado, com uma postura desleixada, equilibrando-se nas duas pernas de trás da cadeira. A pele do seu pescoço estava descoberta e deixava entrever as bordas de uma tatuagem. Ambos se encararam por um segundo sem dizer nada, até que o rapaz sorriu como se aquele olhar fosse tudo o que ele precisava para conhecer todos os segredos de Adam.

— Pode se sentar — ele disse numa voz firme e rouca, fazendo um aceno para a cadeira à frente dele.

Adam hesitou, mas, céus, já tinha ido até ali. Sentou-se na cadeira com as costas muito retas, meio que para mostrar ao outro como alguém normal devia se comportar. O sorriso dele se alargou, e era óbvio que ele tinha percebido o desafio no seu gesto. Por trás da máscara, os olhos dele eram muito azuis.

A máscara de corvo era assustadora, porém Adam não se intimidou. Ele já tinha visto aquele rosto de corvo nas cartas de tarot uma centena de vezes. O animal estava firmemente atado ao seu destino. Além disso, Adam também tinha sua máscara. Em um movimento quase inconsciente, tocou o próprio rosto. A pele da sua face direita estava quente, inchada e terrivelmente dolorida. Um hematoma se estendia da sua bochecha até olho.

— Sua loja só vende sonhos, ou você também serve pesadelos?

O outro piscou duas vezes. Adam observou o olhar dele acompanhar suas mãos. O rapaz se inclinou para frente, voltando a apoiar a cadeira sobre as quatro pernas.

— Depende.

Adam sabia que o contrato que estava buscando seria sobre sangue. Ele até sabia que seria o seu sangue. Ele apenas não se importava. Encolheu os ombros.

— Eu não tenho muito dinheiro, mas existe um pouco de mágica correndo nas minhas veias.

Não muito, porém Adam esperava que fosse o suficiente. Ao menos, sua magia era o bastante para que ele pudesse sentir que o garoto à sua frente se parecia com o último suspiro antes de adormecer e com a luz da manhã depois de uma noite muito, muito fria; com buscas desesperadas e castelos escondidos e histórias de fantasmas à luz do fogo. Se o rapaz fosse uma música, seria o tipo de canção que faz alguém desejar criar uma tempestade. Adam também suspeitava que o outro se pareceria com a sensação de aconchego ao voltar para casa depois de um longo dia, mas não conhecia esse sentimento para ter certeza.

As penas de corvo que adornavam a máscara reluziram quando o garoto balançou a cabeça num gesto compreensivo.

— Chegue mais perto — ele pediu, estendendo a mão.

Adam obedeceu. Os dedos do rapaz tocaram sua bochecha exatamente da mesma forma como ele mesmo tinha tocado antes, sobre a carne machucada. Ele contornou sua face, passando a ponta dos dedos pelo maxilar e desenhando o formato da sua sobrancelha. Adam fechou os olhos. Não se lembrava da última vez que alguém tinha tocado nele com gentileza. O gesto parecia muito com uma carícia.

Em seguida, o garoto segurou sua mão. Os dedos dele estavam quentes em contraste com os seus. Ele percorreu os vincos nas suas palmas. Adam se sentiu muito consciente da sua pele seca e do fato de que não havia nenhuma marca nos seus nós dos seus dedos, denunciando que ele nunca havia revidado os golpes que marcavam seu rosto. Bem, ele tinha ido até ali para mudar isso. Só o fato de ter as mãos de um garoto sobre as suas já parecia um pouco com vingança. Seu pai realmente o mataria se o visse naquele instante.

Ainda assim, Adam se perguntou se o outro o achava um covarde. A máscara de corvo fazia com que ele parecesse prestes a arrancar os olhos de alguém; certamente ele era do tipo que teria lutado de volta com os punhos, custasse o que custasse.

Ele deixou os dedos deslizarem lentamente por sua pele ao se afastar. Adam assistiu, surpreso, enquanto ele desatava o laço que prendia a máscara de corvo. O rosto por baixo das penas negras era muito bonito, com feições fortes e traços afiados.

— Ronan Lynch — ele se apresentou, finalmente. O nome soou como um encantamento no ar empoeirado da loja.

Adam sentiu um arrepio correr por sua espinha. Uma inexplicável sensação de felicidade preencheu seu peito, como ele se houvesse acabado de encontrar algo que tinha passado a vida inteira procurando.

— Adam — informou em troca, mas não disse seu sobrenome. Ele estava esperando se livrar tanto do seu pai quanto do seu sobrenome ao comprar um sonho naquela loja.

— O que você está me pedindo é muito grande, Adam.

Ronan disse seu nome como se o conhecesse desde sempre. A sensação de felicidade rapidamente se transformou numa mistura de medo e decepção. Adam estava acostumado a não ter as coisas que queria, mas realmente achara que dessa vez seria diferente.

— Você pode tomar toda a minha magia.

Ronan sacudiu a cabeça, como se não fosse esse o problema.

— A questão não é o preço... Eu nunca matei alguém antes — ele disse num tom baixo e chiado, parecendo achar que aquela confissão era algo vergonhoso.

De repente, Adam se deu conta de que o outro era muito novo. A consciência desse fato fez florescer um lampejo de raiva sob sua pele. Não importava o quanto Adam tentava se manter sob controle, aquela ira parecia firmemente entranhada no seu sangue, sempre pronta para borbulhar até a superfície diante dos estímulos mais imprevisíveis. Os dois deviam ter quase a mesma idade, mas Ronan possuía seu próprio lugar no mundo e tinha tanta magia que Adam podia senti-la espiralando em volta dele. Enquanto isso, tudo que Adam conhecia eram machucados que mal tinham tempo de sarar antes de serem substituídos por outras feridas e um ouvido que não funcionava.

Ele deu um soco na mesa. Alguns dos cristais nas prateleiras reverberaram com a sua fúria.

— Eu não quero que você mate o meu pai!

Ou talvez quisesse, lá no fundo, e tinha sido isso que Ronan havia visto. Mas Adam não era tão irracional.

Além disso, matar Robert Parrish seria um trabalho que poderia fazer por si mesmo. Adam tinha imaginado inúmeras vezes como seria o sentimento de atingir a cabeça do pai com a pá que ficava no quintal. Provavelmente era por isso que ele nunca levantava os punhos para revidar — um instinto de sobrevivência mais refinado —, pois, se começasse a bater no pai, nunca pararia. E ter o sangue dele nas suas mãos era a última coisa que Adam queria. Robert ganharia se ele fizesse isso, manchando-o para sempre.

— O que você está pedindo, então? — Ronan perguntou com uma expressão um pouco incrédula.

— Quero que ele me deixe em paz. Que ele nunca mais toque em mim ou na minha mãe. Estou comprando uma chance de escapar.

Era estranho, mas Adam achou que viu um pouco do próprio ódio brilhar nos olhos de Ronan. Ele parecia irritado e triste quando voltou a tocar sua pele, afastando a manga da camisa até o cotovelo e percorrendo um conjunto de queimaduras de cigarro que formava uma espécie de constelação no seu antebraço. Adam não tinha ideia de como Ronan sabia que encontraria aquelas cicatrizes ali.

— Acho que se eu tirar isso do seu pai — a violência, a raiva, a força — não sobrar quase nada dele, mesmo que ele continue vivo.

— Eu pareço me importar?

Ronan sacudiu os ombros, dando um último aperto nas cicatrizes no seu braço.

— Você parece não querer matá-lo.

— Não quero que ele me faça um assassino, além de tudo. Mas o encantamento que eu estou pedindo... Violência e raiva não deveriam ser a única essência que meu pai tem.

Adam também esperava que raiva e violência não fossem as únicas coisas que sobrassem para ele no final.

O outro o avaliou por um longo instante. No fim, Ronan ainda não parecia entender muito bem os seus limites morais, mas o ímpeto de contestá-los sumiu. Ele segurou sua mão mais uma vez.

— Sinto muito que você tenha passado por tudo isso.

Adam esperou que aquelas palavras trouxessem de volta o nojo por si mesmo que sempre acompanhava qualquer expressão de pena, mas nada veio. Adam inspirou, obrigando-se a aceitar o sentimento de Ronan. Quando expirou, sentiu-se mais leve, como se o outro tivesse levado embora um pouco da sua amargura.

— Está tudo bem. Eu pude aguentar até agora.

Ronan bufou diante dessa resposta. As tatuagens dele se tornaram mais visíveis com um gesto.

— Eu tenho sonhado com você — Ronan disse. O rosto dele ficou vermelho.

Adam tinha certeza que o outro não havia planejado dizer aquilo. No entanto, a declaração não era uma surpresa. Fazia sentido, considerando o tanto de vezes que Adam vira a mascara de corvo nas suas previsões do futuro — infiltrando-se nas suas leituras de tarot e encarando-o do fundo de toda xícara de chá.

— Eu também vejo você nas minhas visões. — Adam só percebeu que admitir isso seria constrangedor depois que as palavras escaparam. Ronan sorriu de uma forma muito mais inocente do que tinha sorrido antes. Adam achou que ele parecia ainda mais bonito assim.

De repente, se deu conta de que Ronan ainda estava segurando sua mão. O outro pareceu perceber isso ao mesmo tempo que ele e afastou-se, deixando um formigamento cálido no lugar do toque. A sensação não era desagradável. Adam sentia como se tivesse acabado de segurar pó de estrela cadente.

— O que acontece agora? — perguntou baixinho.

Ronan suspirou.

— Vou pegar um pouco da sua magia; não tudo. Sua capacidade mágica deve voltar totalmente depois de algum tempo — ele assegurou. Adam deixou que o alívio afundasse em seus ossos. — Também vou precisar de você, Adam. Sua essência. Mesmo sem uma morte, o que você está pedindo ainda é um grande pesadelo. Mas também vou dar algo meu em troca.

— Como?

Ronan encarou a máscara de corvo em cima da mesa em vez de Adam. O rubor subiu até as orelhas dele.

— Nós dois nos deitamos — ele hesitou, tomando fôlego para continuar a falar — juntos. Depois, dormimos, e eu sonho. Quando acordarmos você vai estar livre.

Adam compreendeu. Uma onda de vergonha passou por ele, mas também houve uma quentura agradável correndo por suas veias. Adam lembrou-se da sensação de beber vodka no inverno, o calor da bebida enchendo seu peito.

— Você não precisa fazer isso... — falou, mas foi interrompido por um grunhido exasperado de Ronan.

— Eu disse que vi você. Estava esperando por isso.

E, então, pareceu simples e certo, como se cada soco que Robert Parish havia dado nele tivesse levado àquele momento, até Ronan.

Dessa vez, foi Adam quem estendeu a mão para o outro. Ronan devolveu o toque com cuidado, traçando o relevo de uma cicatriz em seu pulso.

— Vou te dar um pesadelo — Ronan prometeu.

Era estranho como algumas previsões chegavam até Adam às vezes — abruptas, dominando seus sentidos, repletas de uma sensação de incontestabilidade. Naquele momento Adam pôde sentir que a vida que o aguardava cheirava a manhãs de chuva, flores, cerveja e lençóis recém lavados.

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