Aeroporto da cidade de Takamatsu — Japão — ano 2025

Yuki Fujioka estava sentada em uma das mesas, seus olhos castanhos fixos na xícara de café que segurava com as duas mãos. As lágrimas caiam silenciosamente, misturando-se ao líquido escuro, como se sua dor pudesse se dissolver ali. Com apenas dezenove anos, ela sentia o peso de um mundo que parecia desmoronar ao seu redor. Sua blusa de frio preta contrastava com a delicadeza da saia rosa que vestia, e seus sapatos brancos, agora sujos do chão do aeroporto, mal pareciam refletir a luz ao seu redor. Ao seu lado, as malas estavam organizadas, prontas para o destino que ela temia: Hinode, a cidade onde nasceu e cresceu.
A viagem que a levaria de volta às raízes também a levaria de volta aos braços da irmã mais velha, Sakura Fujioka. Um reencontro inevitável, mas cheio de incertezas. Como ela encararia Sakura depois de tudo o que aconteceu? A vergonha, a tristeza, o arrependimento... sentimentos que a consumiam por dentro, folheava as fotos no celular. Imagens do homem que ainda amava, Caleb Seiji, enchiam a tela, cada uma delas uma lembrança de momentos felizes agora amargos. A dor da separação recente era uma ferida aberta que doía a cada respiração, a cada batida de seu coração frágil.

Yuki estava perdida em seus pensamentos, o mundo ao seu redor parecia distante, como se ela estivesse em uma bolha de tristeza e arrependimento. O murmúrio dos viajantes no aeroporto, os anúncios intermitentes no alto-falante, tudo isso era apenas um ruído de fundo enquanto ela lutava para reunir forças para o que estava por vir. Ela não sabia como encarar Sakura, não sabia como seguir em frente, mas sabia que não podia mais fugir.

Yuki saiu do café do aeroporto com passos lentos, quase arrastados, segurando firmemente a alça da mala de rodinhas. O aeroporto de Takamatsu estava movimentado, mas ela parecia imune à agitação ao seu redor. Seu semblante depressivo contrastava com o vai-e-vem frenético dos outros passageiros, seus olhos castanhos, cheios de tristeza, mal prestavam atenção no caminho que percorria até a saída. O ar frio da noite tocou seu rosto, fazendo-a estremecer levemente, ela esperava o Uber que a levaria de volta à pacata cidade de Hinode. Quando o carro preto encostou suavemente na calçada, ela suspirou, reunindo o pouco de energia que lhe restava para abrir a porta e entrar no banco de trás. Ao se acomodar no assento, puxou a porta com delicadeza, como se qualquer movimento brusco pudesse fazer com que sua fachada de força se desmoronasse.

O motorista, um homem de meia-idade com um semblante amigável, olhou para Yuki pelo retrovisor. Ele notou o rosto dela, machucado e inchado, com marcas que contavam histórias de violência. As palavras saíram de sua boca antes que ele pudesse evitar: "Você está bem, moça?" Yuki ergueu o olhar, forçando um sorriso que não alcançava seus olhos. "Estou sim, obrigada," respondeu ela, a voz baixa e entrecortada. O sorriso que ofereceu ao motorista era frágil, uma máscara desesperada para esconder a tempestade interna que rugia dentro dela. O carro deslizava pelas ruas, Yuki se permitiu relaxar um pouco no assento, embora o conforto físico fosse um luxo que sua mente perturbada não conseguia acompanhar. Ela passou a mão suavemente sobre uma ferida em seu corpo, uma cicatriz fresca deixada pelas garras afiadas de Caleb. O recente abuso ainda estava vivo em sua pele, mas mais ainda em seu coração, que batia com um medo constante, uma lembrança dolorosa do homem que ela amava e que havia se transformado em um monstro.

Toda vez que fechava os olhos, as imagens voltavam como um pesadelo interminável. Caleb, com sua pelagem cinza-escura e olhos vermelhos flamejantes, sua voz encharcada de ódio e possessividade. Ele havia gritado com ela, dizendo que ela não iria embora, que nunca poderia seguir seu sonho, que ela pertencia a ele e a mais ninguém. As palavras dele ecoavam na mente de Yuki como uma sentença que parecia impossível de escapar. No banco de trás do Uber, ela lutava para conter as lágrimas, respirando fundo, tentando se agarrar a qualquer vestígio de força que ainda possuía. Ela sabia que estava a caminho de Hinode, um lugar onde poderia tentar se recompor, mas o caminho parecia tão longo e cheio de dor. O medo, a culpa, e a sombra do que Caleb havia se tornado a acompanhavam, como um espectro sombrio que ela não conseguia afastar.

A cada quilômetro percorrido, Yuki sentia o peso de sua experiência recente, um peso que ela sabia que teria que carregar por muito tempo. Ela desejava, com todo o seu ser, que pudesse se livrar dessa dor, mas no fundo, sabia que a cicatriz que Caleb deixara não estava apenas em sua pele, mas cravada profundamente em sua alma. Yuki chegou em casa, a familiaridade do lugar oferecendo uma breve sensação de conforto que logo se dissipou. A casa estava silenciosa, a presença de Sakura, sua irmã mais velha, ausente. Provavelmente estava no hospital, envolvida em mais um dos intermináveis plantões que a medicina exigia. Yuki não se demorou na sala; a exaustão física e emocional pesava sobre seus ombros, empurrando-a diretamente para o refúgio do seu quarto.

Ao entrar, largou a mala em qualquer lugar, sem se preocupar onde cairia. A desordem externa refletia o caos interno que ela mal conseguia controlar. O quarto, que antes lhe trazia paz, agora parecia sufocante, carregado das memórias recentes. Sem pensar muito, ela se dirigiu ao banheiro, desejando apenas um banho quente que pudesse lavar, ao menos temporariamente, a dor que carregava. A água quente começou a cair, envolvendo-a em um manto de vapor. Quando as gotas atingiram as feridas profundas que Caleb havia deixado em seu corpo, Yuki gemeu baixinho, mordendo os lábios para conter o som. As marcas de garras ainda estavam frescas, ardendo com a intensidade da dor física e emocional. O sangue que se misturava com a água era um lembrete cruel da violência que havia sofrido, descendo pelo ralo como uma sombra do que ela havia perdido.

Terminando o banho, Yuki saiu do boxe com movimentos lentos, cada passo um esforço. Fez um curativo com bandagens improvisadas, as mãos tremendo levemente, envolvia as feridas, tentando proteger o que restava de sua integridade. O secador de cabelo zumbiu suavemente enquanto ela secava os curtos fios castanho-escuros, mas o som não conseguia abafar o tumulto em sua mente. Descendo para a cozinha, preparou um lanche rápido, algo simples que mal tinha sabor em sua boca. A fome não era a questão; era a necessidade de preencher o vazio, de ocupar as mãos e a mente com qualquer coisa que não fosse as lembranças recentes.
De volta ao quarto, Yuki se sentou na cama, o corpo ainda doendo, mas a dor emocional se tornando mais insistente. O notebook estava ao seu lado, um convite silencioso para escapar para o mundo virtual. Mas quando ela o abriu e entrou em sua rede social, a realidade a golpeou com força. Mensagens de Caleb. Seu nome, repetido várias vezes nas notificações, causava uma dor física no peito de Yuki, como se uma mão invisível apertasse seu coração. Com relutância, ela abriu os textos, cada um deles carregado de desespero, arrependimento e pedidos de perdão. As palavras de Caleb estavam cheias de contrição, promessas de mudança, juras de amor eterno. Ele dizia que estava arrependido, que nunca quis machucá-la, que faria qualquer coisa para tê-la de volta.

Mas para Yuki, as palavras eram vazias. O dano já estava feito, e as marcas em seu corpo e em sua alma eram provas vivas de que aquele amor, que um dia fora doce, agora era venenoso. As lágrimas que ela tentou conter no carro agora ameaçavam transbordar. Ela fechou os olhos, tentando se afastar do tumulto interno, mas as lembranças de Caleb, transformado em um lobisomem, a dominavam. Yuki sabia que precisava ser forte, mas naquele momento, tudo o que conseguia sentir era o peso esmagador do que havia perdido e a sombra do que temia jamais poder recuperar.

Ela abriu uma a uma as mensagens de Caleb, os olhos marejados, absorvia cada palavra desesperada que ele havia digitado. Suas mãos tremiam levemente ao clicar nas fotos que ele enviara, tiradas durante a viagem que haviam feito juntos em Inverness, na Escócia. Aquelas imagens capturavam momentos de pura felicidade e intimidade, onde o mundo parecia pertencer apenas a eles dois. Fotos dos dois em um campo congelado, com o sol escocês brilhando suavemente ao fundo. Eles sorriam, os braços entrelaçados, os olhos brilhando com amor. Outra foto mostrava Caleb segurando a mão de Yuki, seus dedos entrelaçados exploravam as ruas de pedra de uma vila pitoresca. Yuki podia quase sentir o toque dele novamente, a maneira como ele a fazia sentir-se segura e amada, como se nada pudesse separá-los.
Mas agora, essas mesmas fotos eram um tormento. Cada sorriso, cada gesto de carinho, parecia uma mentira cruel em contraste com o que Caleb havia se tornado. A realidade da violência que sofreu, as feridas que ele deixou em seu corpo e em sua alma, eram uma prova irrefutável de que aquele homem das fotos não existia mais. O peso dessas memórias, o contraste entre o passado e o presente, finalmente quebrou Yuki. Ela desabou, o choro vindo em ondas avassaladoras que a deixavam sem ar. As lágrimas escorriam pelo rosto, quentes e amargas, ela soluçava de forma incontrolável. Seu peito subia e descia rapidamente, tentando, em vão, puxar o ar que parecia escapar de seus pulmões.
Ela chorou tanto que mal conseguia respirar, a dor interna se manifestando em cada fibra do seu corpo. O som do seu choro encheu o quarto, ecoando a tristeza e o desespero que ela tentava conter desde que havia deixado Caleb. Cada lágrima era uma gota de dor, cada soluço uma tentativa fracassada de libertar-se do sofrimento. No auge de seu desespero, o som da porta da sala abrindo interrompeu bruscamente seu choro. Yuki se calou instantaneamente, os olhos arregalados e o coração disparado ao perceber que sua irmã mais velha, Sakura, havia chegado.

Sakura entrou na casa com o semblante sério e cansado, seus passos lentos e pesados. Os cabelos escuros estavam presos de forma desleixada, e seu pijama cirúrgico verde-claro estava coberto por um jaleco branco manchado. Ela soltou um suspiro profundo, sentindo o peso de mais de 72 horas de plantão no hospital. A exaustão estava evidente em seus olhos castanhos, mas sua mente ainda estava afiada, sempre alerta. Quando Sakura viu os sapatos brancos de Yuki na entrada da sala, algo dentro dela despertou. "Por que diabos os sapatos da Yuki estão aqui? Ela só deveria voltar mês que vem de Inverness..." Pensou Sakura, a preocupação já se formando em sua mente. Ela largou a bolsa e subiu rapidamente as escadas, cada passo aumentando a ansiedade que sentia.

Ao chegar ao quarto de Yuki, Sakura parou na porta, seus olhos arregalados ao ver a cena diante dela. Yuki estava sentada na cama, o notebook ainda aberto, o rosto inchado e marcado por lágrimas. Mas o que realmente fez o coração de Sakura apertar foi o estado físico de sua irmã mais nova. O olho roxo, as marcas de agressão no rosto, o semblante quebrado. "Yuki..." A voz de Sakura quase falhou, um misto de choque, raiva e dor tomando conta de seu tom. Ela deu um passo à frente, tentando processar o que via. "Que porra aconteceu?" perguntou, a voz mais firme do que se sentia, mas carregada de uma fúria silenciosa e uma necessidade desesperada de proteger Yuki.
Yuki não conseguiu responder de imediato, o choro preso na garganta. A vergonha e a dor em seus olhos eram evidentes, mas naquele momento, tudo o que ela queria era o conforto que só sua irmã poderia oferecer. Sakura correu até Yuki, os passos apressados ecoando pelo quarto. Quando alcançou a irmã, a envolveu em um abraço apertado, tentando oferecer o conforto que ambas precisavam desesperadamente. Mas o gemido de dor de Yuki a fez congelar, e ela imediatamente percebeu que os machucados de sua irmã eram mais graves do que imaginava. Sakura recuou ligeiramente, seu olhar clínico avaliando cada detalhe. Com um movimento cuidadoso, levantou a blusa de Yuki e o que viu fez seu coração quase parar. As marcas de garras, profundas e vermelhas, estavam cobertas por um curativo improvisado com bandagens que já começavam a soltar. A imagem de sua irmãzinha ferida, coberta de cortes e hematomas, era algo que ela nunca esqueceria. "O que houve?" A voz de Sakura saiu fraca, incrédula, como se as palavras não pudessem se encaixar na realidade que seus olhos testemunharam. Ver Yuki naquele estado era um pesadelo que ela nunca quis enfrentar.

Yuki desviou o olhar, a vergonha e a dor estampadas em seu rosto. Ela sabia que havia decepcionado Sakura, que havia ignorado todos os avisos. Finalmente, com a voz embargada, ela murmurou, "Foi... Caleb." Essas duas palavras foram como um gatilho. Sakura explodiu de raiva, uma fúria que vinha de um lugar profundo, de anos de preocupação e amor pela irmã mais nova. "Eu avisei, Yuki! Eu avisei tantas vezes para você!" A voz de Sakura tremia, misturando raiva e desespero. "Eu te disse que se envolver com Caleb era perigoso! Que ele era um lobisomem que poderia ferir você seriamente! E você me ignorou! Agora olha para você! Está toda machucada!"

Yuki tentou segurar as lágrimas, mas o peso das palavras de Sakura era insuportável. Ela sabia que sua irmã estava certa. Sakura havia alertado várias vezes sobre os perigos de namorar alguém como Caleb, um lobisomem cuja natureza selvagem e imprevisível poderia causar estragos. Mas Yuki, apaixonada e teimosa, acreditava que o amor poderia superar tudo. Agora, sentada diante de Sakura, coberta de feridas físicas e emocionais, ela sentia o peso das consequências de suas escolhas. "Ele teve um ataque de fúria quando eu disse que passei no vestibular para medicina veterinária," Yuki explicou, a voz frágil e entrecortada pelas lágrimas. "Estava tudo bem, estávamos nos divertindo no hotel..." Seus olhos se voltaram para o notebook, para as fotos que agora pareciam tão distantes da realidade atual. "Mas era noite de lua cheia, ele estava mais...selvagem… descontrolado..."

Yuki respirou fundo, lutando contra o tremor em sua voz, mas ela precisava contar tudo a Sakura. "Ele me atacou, irmã, e começou a me bater... exigindo que eu deveria largar tudo, toda minha vida, meus sonhos, para ficar com ele em Inverness. Ele disse que não aguentava mais esse namoro à distância. E não suportaria viver mais cinco anos longe de mim, que eu iria esquecer dele quando estivesse na faculdade." As palavras de Yuki pairavam no ar, carregadas de dor e arrependimento. Sakura ouviu tudo em silêncio, mas a raiva em seus olhos era evidente. Ela não sabia se a raiva era por Caleb, por Yuki, ou por si mesma, por não ter conseguido proteger sua irmã mais nova. O peso da situação parecia insuportável, mas no fundo, Sakura sabia que precisaria ser forte, tanto por ela quanto por Yuki.
Sakura respirou fundo, tentando controlar a tempestade dentro dela. Ela se ajoelhou na frente de Yuki, segurando as mãos trêmulas da irmã. "Yuki," disse ela, a voz agora mais suave, mas carregada de determinação, "nós vamos superar isso juntas. Eu estou aqui, e não vou deixar que ele te machuque de novo. Vamos cuidar de você, e você vai realizar seus sonhos, quer Caleb queira ou não." As palavras de Sakura, apesar da raiva e da dor, eram um bálsamo para Yuki. Ela sabia que, apesar de tudo, sua irmã estava ao seu lado, pronta para enfrentar o que viesse. E naquele momento, isso era tudo o que ela precisava.

Três meses se passaram, O amanhecer em Hinode, uma pequena e serena cidade no interior do Japão, é um espetáculo de delicadeza e serenidade. À medida que a noite lentamente se despede, o céu começa a se iluminar com tons suaves de rosa e laranja, como pinceladas cuidadosas de um artista sobre a tela escura da madrugada. O ar fresco e puro, carregado do aroma de pinheiros e pétalas, enche os pulmões dos primeiros madrugadores, trazendo consigo a promessa de um novo dia.
As ruas de Hinode, ainda adormecidas, começam a ganhar vida aos poucos. As tradicionais casas de madeira, com seus telhados curvos e jardins bem cuidados, refletem a luz suave do sol nascente. O som suave do vento, que balança as folhas das cerejeiras, mistura-se com o distante canto dos pássaros que começam a saudar o novo dia. No horizonte, o Monte Hinode, majestoso e imponente, começa a emergir das sombras, seu pico coberto de neve cintilando sob os primeiros raios de sol. Aos seus pés, o rio que serpenteia pela cidade reflete as cores do amanhecer, suas águas calmas movendo-se lentamente, como se não quisessem perturbar a paz daquele momento.
Os habitantes de Hinode começam a acordar com o nascer do sol. As portas shoji das casas deslizam silenciosamente, e o cheiro de chá verde recém-preparado começa a se espalhar pelo ar. No templo ao centro da cidade, os sinos de oração ressoam, seu som ecoando pelas colinas ao redor. As primeiras luzes do dia revelam os detalhes das pequenas lojinhas e cafés que, em breve, abrirão suas portas para receber os moradores. As flores de ameixeira começam a desabrochar, espalhando suas pétalas pelo chão, como uma saudação silenciosa ao sol. A cidade de Hinode desperta, não com pressa, mas com a tranquilidade que lhe é característica, abraçando o amanhecer como um velho amigo que traz consigo a renovação e a continuidade da vida.

Yuki se levantou da cama com uma determinação renovada. Apesar das dores físicas e emocionais, ela sabia que precisava continuar com sua vida. O caminho para a cura era longo, mas o primeiro passo era seguir adiante. Dirigiu-se ao banheiro e tomou um banho quente, a água escorrendo pelas cicatrizes que Caleb havia deixado em seu corpo. A água caía, Yuki fechou os olhos, tentando encontrar força nas profundezas de sua alma. Ela precisava enfrentar o dia, mesmo que seu coração ainda estivesse em pedaços.
Depois do banho, Yuki se arrumou cuidadosamente para a faculdade. Colocou o uniforme que havia preparado na noite anterior e, ajeitando os cabelos curtos e castanho-escuros em frente ao espelho, sentiu o peso do celular em suas mãos. Com um suspiro, ela o pegou, já antecipando o que encontraria. s mensagens de Caleb. Era sempre assim. Ele não conseguia deixar de lhe enviar textos, cada um mais desesperado que o outro, pedindo desculpas e prometendo que nunca mais a machucaria. Yuki fechou os olhos por um momento, tentando manter a calma. As palavras dele ainda tinham um efeito sobre ela, mas ela sabia o que precisava fazer.
Finalmente, com um coração pesado, Yuki respondeu a Caleb. Escreveu com firmeza que entre eles havia acabado, e que ele precisava seguir com a vida dele. Cada palavra doía, mas era necessário. Quando terminou, ela bloqueou Caleb em todas as redes sociais. O ato final foi como cortar o último fio que os ligava, e embora soubesse que era o certo, a dor era palpável. As cicatrizes físicas que ele havia deixado nela ainda não estavam completamente curadas, e as emocionais provavelmente ficariam para sempre. Suspirando profundamente, Yuki guardou o celular e desceu para tomar o café da manhã.

Sakura já estava na cozinha, preparando o Asagohan, o tradicional café da manhã japonês. Quando Yuki entrou, sua irmã mais velha a cumprimentou com um "bom dia" que, apesar de cansado, trazia um toque de calor familiar. Elas se sentaram juntas, e a conversa fluiu naturalmente para a faculdade de Yuki. Apesar da turbulência interna, Yuki tentou manter um ar doce nos olhos. "Eu não vejo a hora de começar a aprender a parte clínica, aprender sobre medicamentos. Seremos duas mulheres fortes na área da saúde, Sakura!" disse ela, tentando trazer um pouco de alegria ao momento. Mesmo que o recente término com Caleb ainda fosse uma ferida aberta, ela queria se concentrar em seus sonhos. Mas, ao começar a comer o Asagohan, algo estranho aconteceu. O estômago de Yuki começou a embrulhar, e a bile subiu rapidamente por sua garganta. Sem pensar, ela se levantou e correu para o banheiro, mal conseguindo segurar o conteúdo do estômago. Sakura, que assistiu à cena, ficou imediatamente preocupada e a seguiu, vendo Yuki curvada sobre o vaso sanitário, com lágrimas nos olhos e tentando se recompor da experiência desagradável.

"O que é isso, Yuki?" perguntou Sakura, a preocupação nítida em sua voz. Mas quando Yuki se virou, o pânico era evidente em seus olhos. Sakura olhou para a irmã mais nova, seu olhar clínico captando os detalhes que Yuki talvez nem tivesse notado. "Você tem se sentido estranha este mês? Com vômitos, fraqueza, apatia?" Sakura começou a listar os sinais clínicos de uma possível gravidez, o coração de irmã mais velha se apertando com a preocupação. Yuki, ainda tentando se recuperar, olhou para Sakura com medo. "Irmã, eu não faço sexo desde que voltei de Inverness, da viagem com Caleb!" disse ela, a voz trêmula com a possibilidade aterrorizante que começava a surgir em sua mente.

Sakura, com a precisão de uma médica, pediu que Yuki a acompanhasse até o hospital naquele dia. Lá, elas coletaram uma amostra de sangue para um teste de Beta hCG quantitativo, o exame que confirmaria ou descartaria a possibilidade de uma gravidez. O caminho até o hospital foi silencioso, ambas imersas em seus pensamentos, e o peso da situação parecia sufocante. Dois dias se passaram desde aquele momento tenso, e Sakura estava no consultório onde trabalhava, prestes a verificar o resultado do exame de Yuki. Quando abriu o computador e viu o teste positivo, seu coração quase explodiu. A realidade da situação era esmagadora. Como médica, ela sabia exatamente o que isso significava, mas como irmã, a notícia era devastadora. Sakura voltou para casa naquele dia em silêncio, a mente rodando com mil pensamentos. Quando entrou, encontrou Yuki sentada na cama, lendo um livro de anatomia veterinária, uma tentativa evidente de distrair-se com seus estudos. Sem dizer uma palavra, Sakura caminhou até a irmã e jogou o papel com o resultado do teste à sua frente. "Você está grávida!" disse, a voz carregada de uma mistura de pânico e raiva.
Yuki ficou em choque. "Grávida?" repetiu, incrédula. Como isso era possível? Ela tinha sido cuidadosa, usado proteção em todas as relações que teve com Caleb. E ele foi o último homem com quem ela esteve. O mundo pareceu girar ao seu redor, a realidade a atingia como um soco no estômago.

As duas irmãs ficaram em silêncio, o pânico crescendo em ambos os corações. Para Yuki, a notícia era o começo de um pesadelo que ela nunca havia imaginado, e para Sakura, a situação se tornava ainda mais complexa. O que fariam agora? Como lidariam com isso? As perguntas permaneciam sem resposta, o peso da situação pairava sobre elas como uma sombra. A tensão no quarto de Yuki era palpável. Sakura, ao ouvir as palavras que confirmavam a gravidez da irmã, sentiu uma onda de raiva tomar conta de seu corpo. Desde que seus pais haviam falecido, Sakura assumira o papel de mãe e protetora na vida de Yuki, cuidando dela com um zelo quase obsessivo. A ideia de que sua irmã mais nova estava grávida, e pior ainda, grávida de Caleb, a enchia de fúria. "Como você pode deixar uma porra dessas acontecer, Yuki?" gritou Sakura, o rosto ficando vermelho de raiva. "Você é burra?" Suas palavras eram duras, cortantes, cada sílaba carregada de frustração e desespero. Era como se o controle que sempre mantivera estivesse se desfazendo diante de seus olhos. Yuki, por sua vez, tentou se defender, a voz trêmula, mas firme. "Sakura, eu usei proteção em todas as relações com Caleb! Isso não faz sentido nenhum!" Ela sabia que as palavras de Sakura vinham de um lugar de preocupação, mas a acusação ainda doía.

"Não faz sentido?" Sakura retrucou, aproximando-se de Yuki com passos rápidos. "Você se lembra de algum momento em que a camisinha estourou, ou algo parecido? Alguma coisa que possa ter dado errado?" Yuki balançou a cabeça vigorosamente, sentindo as lágrimas começarem a se acumular em seus olhos. "Não, Sakura! Eu me lembro de tudo, e nada disso aconteceu!" Ela estava começando a entrar em pânico, a mente correndo em círculos, tentava entender como isso poderia ter acontecido. Mas Sakura não parecia interessada nas explicações.

"Você só tem dezenove anos!" Sakura gritou, a voz cheia de raiva e desespero. "Está começando uma faculdade agora! Caralho, Yuki, grávida do Caleb? Porra... Você destruiu sua vida, Yuki!" As palavras saíram com uma crueldade que Sakura não conseguia controlar, cada frase como uma faca cravada no coração de Yuki. Ela tentou manter a calma, uma característica que sempre a definira, mesmo que por dentro estivesse em pânico. A ideia de ser uma mãe jovem e solteira era assustadora, mas o que a aterrorizava ainda mais eram as implicações de estar grávida de um lobisomem. "Eu... eu sei que é difícil, Sakura, mas... precisamos pensar nas implicações. Caleb é um lobisomem, e... e se isso afetar o bebê? O que isso significa para a minha vida? Para a vida dessa criança?"
Sakura revirou os olhos, impaciente. "Não comece com esse misticismo agora, Yuki! Quem gostava dessas porcarias era a Akane!" As duas se lembraram da amiga de infância que sempre foi fascinada por criptozoologia e lendas urbanas. "Eu não falo com a Akane há mais de três anos, desde que ela se mudou para Inverness para viver junto com 'Taishou... Caleb... e... Kenji...'" A voz de Sakura diminuiu, a menção de Kenji trazendo uma sombra de dor em seu rosto. Kenji, seu ex-namorado, que havia deixado Hinode para viver uma vida de aventuras sobrenaturais ao lado de Taishou. A lembrança dele era um ponto sensível, uma ferida que ainda não cicatrizou completamente. Sakura mordeu o lábio amargamente, tentando afastar as memórias. "Não!" Ela balançou a cabeça, como se quisesse afastar o peso da realidade. "Porra, Yuki, isso não pode estar acontecendo..."

Sakura lutava contra seus próprios demônios, Yuki tentava não perder a sanidade. Ela se aproximou da irmã, tentando encontrar uma maneira de resolver a situação. "Eu bloqueei Caleb nas redes sociais," começou ela, a voz trêmula mas resoluta. "Mas... eu preciso contar para ele. Ele tem o direito de saber, Sakura." "Não!" A palavra saiu como um grito, e Sakura se virou para Yuki com uma expressão de pura determinação. "Você não vai contar nada para Caleb! Esse filho... essa criança, vai crescer longe de toda essa porra de lobisomem!" O tom dela era implacável, decidido. "Eu não vou deixar ele ou qualquer um desses monstros se aproximar de você ou desse bebê!"
O choque das palavras de Sakura atingiu Yuki em cheio. Ela sabia que sua irmã estava tentando protegê-la, mas a decisão de esconder a gravidez de Caleb parecia radical demais. "Sakura, eu sei que você quer me proteger, mas... isso não é justo. Ele tem o direito de saber que vai ser pai. E eu... eu preciso resolver isso de uma maneira ou de outra." Sakura bufou, frustrada. "E o que você vai fazer, Yuki? Vai contar para ele, e depois o quê? Vai deixar esse filho ser criado no meio dessa loucura? Vai arriscar sua vida e a vida dessa criança por causa de um maldito lobisomem?" Ela estava tentando ser racional, mas a raiva ainda estava lá, borbulhando sob a superfície. "Você precisa pensar no que é melhor para você, Yuki. E o melhor é ficar longe dele, longe dessa merda toda!"

Yuki ficou em silêncio por um momento, absorvendo as palavras de sua irmã. Ela entendia as preocupações de Sakura, mas também sabia que essa era uma decisão que ela teria que tomar por si mesma. A tensão entre as duas era quase insuportável, um conflito entre o desejo de proteger e a necessidade de enfrentar a verdade. Finalmente, Yuki falou, a voz calma, mas firme. "Eu vou pensar no que você disse, Sakura. Mas, no fim, essa é a minha vida, e eu preciso decidir o que é certo para mim e para esse bebê." Ela encontrou os olhos de sua irmã, tentando transmitir a determinação que sentia. "Eu não quero brigar com você, mas também não posso simplesmente ignorar o que está acontecendo. Eu vou fazer o que for necessário para proteger essa criança, mas preciso tomar essa decisão por mim mesma."

Sakura olhou para Yuki, o conflito interno evidente em seus olhos. Por mais que quisesse proteger a irmã, ela sabia que não poderia controlar todas as situações. Com um suspiro profundo, ela assentiu, mesmo que relutante. "Só... por favor, pense bem antes de fazer qualquer coisa, Yuki. Eu só quero o melhor para você." A sala ficou em silêncio, as palavras carregadas de emoção ecoando entre as duas. Yuki sabia que o caminho à frente seria difícil, mas, com ou sem a aprovação de Sakura, ela estava determinada a seguir seu próprio caminho. Sakura olhou para Yuki por mais um longo momento, antes de suspirar profundamente. Sem dizer mais nada, ela se levantou e saiu do quarto, fechando a porta com um leve clique atrás de si. Yuki ficou sozinha, o silêncio se instalando no espaço ao seu redor como um peso invisível.
Ela suspirou, o som carregado de exaustão e incerteza. A discussão com Sakura havia sido intensa, e agora que estava sozinha, Yuki se viu perdida em seus próprios pensamentos. A questão de contar ou não a Caleb sobre a gravidez pairava sobre ela como uma nuvem negra. Ela se aproximou do notebook, que ainda estava sobre a cama, e o abriu, navegando até a rede social onde Caleb estava bloqueado. Seus dedos pairaram sobre o teclado, hesitando. Por um instante, ela considerou desbloqueá-lo, contar a ele a verdade. Talvez ele merecesse saber. Talvez ele tivesse o direito de ser parte da vida dessa criança.

Mas então, como um soco no estômago, as memórias daquela noite horrível voltaram com força total. A violência, o terror, o olhar bestial de Caleb quando ele a atacou. Ela podia sentir novamente as garras dele em sua pele, a dor intensa das feridas que ainda não haviam cicatrizado completamente. O medo que ela sentiu, a impotência... tudo voltou, como uma onda que a arrastava para as profundezas da escuridão. As mãos de Yuki tremeram, ela fechava o notebook com um estalo decidido. Ela respirou fundo, tentando acalmar o coração acelerado. Olhando para o nada, tomou sua decisão. "Eu não vou deixar meu filho crescer nessa merda toda de lobisomem..." murmurou para si mesma, a voz baixa, mas carregada de firmeza. "Eu... sinto muito, Caleb... vai ser melhor se você nunca souber que essa criança é sua..." Ela sabia que essa escolha não seria fácil, mas naquele momento, Yuki estava convencida de que era a melhor decisão para proteger seu futuro e o futuro de seu filho.