Coward
Coward
Chapter 15 min read

medo e covardia

Ele parou. Sentiu sua respiração parar junto de seu corpo, seus joelhos fraquejarem e logo seu corpo estaria no chão. Ele não queria esboçar reação — ele não tinha reação para esboçar -, não queria assusta-la, apesar de tudo, não queria que ela se machucasse ou algo assim — não queria ser culpado por nada. Sua voz soava como um par de unhas longas arranhando a porta, como passos que nunca terminavam, sibilavam alguma coisa, mas que não representavam coisa alguma. Era agonizante — suas mãos suavam, nervosas, seu corpo todo estava em estado de tensão -, sentia-se traído. Sentia-se, mais ainda, num conto de terror no qual ele era a verdadeira vítima — ah! Se você estivesse no seu lugar, não ousaria por palavras de perjúrio, ou chegar a pensar que ele tinha um caráter ruim; -, tal como Little Red Riding Hood, que saíra na inocência de seus dias para fazer algo bom e fora enganada por um lobo gigante e amedrontador; Merope era maior do que isso. Sentia-se, por mais infantil que soasse — Deus! Ele havia sido deportado de sua inocência — como a doce Sleeping Beauty, acordado depois de tanto tempo, sem saber em quem confiar. Mas, mais do que qualquer outra coisa, ele queria ir para casa.

Ela repetiu seu nome entre lágrimas — ele não queria escutar, levou suas mãos para tapar os próprios ouvidos, era praticamente uma criança de novo -, balbuciava perdão. Era isso mesmo ou algum tipo de piada? Perdão? Continuou por falar, falava sem parar, tentava de alguma forma enfiar na cabeça do jovem Riddle que não, ela não era uma bruxa sem escrúpulos; não, ela não era uma louca, uma maníaca, uma mulher sem sentimento algum — mas ele sabia que ela era, via isso nela a cada palavra que dizia, soando como uma prece por engana-lo novamente; ele não cairia de novo.

Não sentia ódio por ela, ou algo assim, porque Tom não era de sentir essas coisas pelas pessoas. Suspirou. “Adeus,” foi tudo que ele conseguiu dizer, caminhando devagar até a porta da casa — que ficava bem visível, porque por si mesmo não lembraria, já que tinha passado todo aquele tempo com praticamente uma venda em seus olhos azuis. Seu coração sentia dor, remoía-se em si mesmo, agonizando, sentindo uma onda de desespero dominar seus instintos danificados. Agora, ele não era absolutamente nada.

“Como assim...?” Merope gaguejou, correndo atrás dele — pelo que conseguiu escutar do barulho desagradável de seus sapatos -, tocando-lhe o ombro. “Você vai me abandonar?” murmurou, em lamúria, seus olhos marejando.

Não respondeu nada. Não tinha o que responder — ele não queria pensar em algo para responder -, então apenas deixou o corpo guiar a sua mente e suas direções para fora da casa da mulher, enquanto escutava ela berrar coisas como ‘covarde’, esperando que Thomas girasse os calcanhares e voltasse para lá.

Covarde. Uma palavra estúpida usada para qualificar pessoas estupidas — mas ele era, de fato, estupido? Não... Tom não chegava nem aos pés da estupidez, porque não se considera uma criança com medo de alguma coisa por perto, ou até um adulto que se encontra em estado de pavor por algo que acontecerá, estupido; ele era só mais um alguém com medo, medo de ser enganado, medo de confiar em alguém mais uma vez, medo de tudo ao seu redor. Não era covarde, tampouco estupido. Medo e covardia são coisas bastante diferentes.

Sentou numa esquina, coçou os olhos; agora podia, de fato, enxergar. Espirrou, sentindo um frio eriçar seus pelos do último dedo do pé até o fio mais longo de seus cabelos. Desejava poder estar em algum lugar seguro agora — como na casa dos pais, em Little Hangleton, onde sabia que, de verdade, poderia confiar nas pessoas. Sentia falta da família — era óbvio que sentia -, dos dias calmos, dos dias verdadeiros... Dos dias em que Tom Riddle era Tom Riddle sem precisar de feitiçaria ou encanto algum coordenando suas ações.

De fato, não havia fugido, tinha ido embora por livre e espontânea vontade — mas não porque era ruim, não! -, e agora estava perdido numa cidade enorme. Se pudesse ao menos se lembrar de alguma coisa — do endereço do escritório imobiliário de seu pai, talvez -... Sua cabeça doía demais, seus olhos; ele mesmo, todo ele, estava num colapso de dor interminável.

Imaginou-se, por poucos segundos, um monstro; de todos, poderia ser o primeiro a levantar o indicador e apontar na própria face, se fosse possível, ao pensar que a Gaunt estava grávida. Sentiu raiva de si, como detestava suas atitudes sem sequer pensar — Tom confiava demais. Seu pai diria que as coisas em nossa vida acontecem como lição para que nós não as façamos novamente — sentiu falta do pai. Todavia, pouco depois, imaginou-se alguém digno de proteção; uma vítima. Não havia planejado encontrar Merope naquela tarde quente, não. Tampouco confiar em seu sorriso, que parecia tão inofensivo.

Pensou na mãe, antes de pensar em Cecilia; na mulher tão inteligente que era. Como sentia falta dos seus abraços, das suas conversas e da sua risada gostosa, que lhe dava a sensação de estar sempre seguro, protegido pelos olhos dela. Pensou em como ela deveria sentir um ódio profundo por ele — mas então parou... Sua mãe também não era de sentir aquelas coisas.

E, então, sentiu falta da amiga Wright. Estava prestes a tomar alguma decisão mais séria com ela — algo como noivado — antes de... Ele não gostava de pensar naquilo, não ainda. Sentiu falta de vê-la correr, de falar da Escócia, de contemplar seus cachos loiros e o seu sorriso combinados junto com os seus olhos azuis sempre expressivos, que passavam para ele que sim, ela sempre o compreenderia, por mais difícil que as situações viessem a se apresentar, um dia.

Sentiu vontade de chorar — e então buscou Cassiopeia no céu.


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