Capítulo 01: Prólogo
A maioria de nós pensa que este universo é o único. Mas o ser humano não sabe de muita coisa, na verdade, não sabe nem metade da metade da metade do que ocorre em seu próprio universo. Não existe apenas mais de um mundo, existem infinitos mundos possíveis. E alguns deles estão conectados ao nosso. É o caso do Mundo Mágico ou Mundo da Magia. Talvez você tenha visto algo parecido com isso em algum conto (os contos de fadas que todos amamos, por exemplo. Ou talvez naquela história do baixinho que queria destruir um anel...). Muitos retrataram esse mundo das mais diversas maneiras, mas a verdade é que o Mundo da Magia não é tão diferente assim do nosso mundo. Não é algo tão medieval e tão arcaico quanto você acha. É verdade que é muito comum ver unicórnios pastando em algumas áreas rurais e alguns duendes mal intencionados podem deixar sua voz mais fina apenas por travessura quando você deixa a janela de seu quarto aberta enquanto dorme, mas ainda assim as coisas são bem mais modernas do que você pensa. A começar por aquela ação policial em que um grande grupo de agentes estava pronto para capturar um suspeito em um pátio de conexão dimensional com o nosso mundo. Sim, o Mundo Mágico pode se conectar com o nosso facilmente. É relativamente fácil para os seres daquele mundo visitarem o nosso.
Mas a recíproca não é verdadeira. Pelo contrário, quase ninguém de nosso mundo desconfia da existência daquele lugar, apenas um ou outro indivíduo mais sortudo (a maioria deles são crianças que conseguem ver fadas com bem mais facilidade quando as mesmas nos visitam para buscar algum ingrediente mais raro de graça em nosso território). Apesar disso, a burocracia necessária para romper as barreiras do mundo mágico e do mundo “comum” (vamos chamá-lo assim) é altíssima. Atravessá-la legalmente é um empreitada tão enfadonha que a maioria dos habitantes do mundo mágico prefere continuar seguindo sua vida tranquilamente ao invés de sonhar em visitar o outro lado. Como a diferença cultural é gritante e quase ninguém aqui está preparado para receber visitantes tão peculiares (costumava ser mais fácil séculos atrás...os gregos e os nórdicos, em especial, até que se davam bem com os visitantes), o turismo para o mundo comum é quase inexistente. Por conta disso, a maioria das visitas mais atuais ao nosso mundo é clandestina. Seres mágicos mais espertos conseguem barrar a segurança. Mas quando um humano, sem muito conhecimento de magia (nem todo mundo do mundo mágico é mago, que fique bem claro) tenta ultrapassar o sistema, é claro que o barulho é bem maior. Esse era o caso daquele jovem de óculos e longos cabelos lisos compridos que, com seu terno cinza, uma gravata vermelha e sua maleta marrom, tentava passar pelo portal dimensional. Graças a ação de alguns capangas, ele estava prestes a embarcar naquela viagem arriscada. Tudo que precisava fazer era ficar de pé naquele círculo, aguardar alguns instantes e ativar um feitiço pré-preparado. A não ser que algum dos vários agentes o impedisse, é claro.
—Parado! — gritou uma jovem agente, não muito alta, cabelos castanhos levemente ondulados e lisos, bem vestida e segurando uma varinha (bem, ainda era o meio mais versátil de se invocar magia. Certas coisas são difíceis de mudar). Ela se enquadraria no sonho de muitos marmanjos do nosso mundo, se quiser colocar dessa maneira, embora pudesse ganhar de todos eles em uma luta justa por conta de seu árduo treinamento – Já prendemos seus subordinados! Você está acabado, Sr. Smartville!
O homem apenas esboçou um leve sorriso. A agente, por sua vez, estava bem séria e disposta a atirar alguma magia de impedimento nele.
—Calma, calma – disse ele, sem tirar o sorriso do rosto e colocando as mãos para o alto – Não precisamos ser violentos, precisamos?
—Está preso por anos de contrabando, uso ilegal de itens mágicos ilegais, pirataria, estelionato e talvez muitos outros crimes que só saberemos depois de ouvir o testemunho dos seus cúmplices! Não se mexa! — a moça falava tudo isso em tom sério. O homem não perdia a calma em momento algum.
—Crimes, você diz. Eu vejo apenas como meios para alcançar um fim mais nobre.
—Não sei do que está falando – ela continuava a se aproximar.
—Tudo que quero é conhecer um outro mundo...e levar um pouco de diversão para eles.
—Cale-se! Não sabe as consequências terríveis de se entrar em contato com aquele lugar?
—Está me chamando de irresponsável? Como você é cruel, cara agente.
—Isso não importa. Agora você está preso!
—Mesmo? Sabe qual a maior diferença entre nós, agente? É que eu...tenho sempre um plano B!
Nesse momento, tudo parece ter ficado escuro. Antes que a agente reagisse invocando um rápido feitiço de luz, o meliante já havia escapado. A explicação foi simples: um feitiço de blecaute havia sido preparado dias antes para o caso de uma situação dessas. Mas Smartville também já havia pedido para seus cúmplices deixarem um feitiço de transporte preparado, capaz de ser ativado mesmo diante de uma situação de blecaute. Consequência: o mundo comum receberia um novo visitante. Para a polícia do Mundo Mágico, era uma situação para lá de grave. E a agente Cecilia Violet, que quase havia capturado o criminoso naquela ação, foi a mais culpada pelos superiores por isso.
—Não acredito que deixou aquele salafrário escapar, Agente Violet! — gritava o velho homem de barbas brancas também conhecido como o chefe imediato de Violet, enquanto fumava um grande cachimbo com ervas desconhecidas de nosso mundo em uma mesa de escritório onde as penas escreviam sozinhas (canetas existiam no Mundo Mágico, mas eram esteticamente inferiores às penas).
—D-Desculpe – foi tudo que a garota disse.
—É verdade que você é uma excelente feiticeira, sabe lutar bem e conseguiu passar por todo nosso processo de seleção com apenas 16 anos, mas...não poderia deixar algo assim acontecer!
—Senhor – um amigo dela, um rapaz de aparência normal para os nossos padrões, resolver intervir – Devo dizer que a agente Violet fez um excelente trabalho. Mas Willhelm Smartville estava um passo adiante de nós.
—Como não previmos uma ação daquelas? Nossa equipe de inteligência deve estar dormindo – reclamava o chefe – Não temos escolha. Teremos que enviar alguém para o Mundo Comum e evitar que aquela raposa cometa alguma loucura.
—Será que temos tempo para isso? — perguntou o companheiro de Violet, um garoto franzino que acompanhou toda a ação.
—Smartville não é nenhum bandidinho. Seja lá o que ele estiver tramando, deve ser algo grande, bem grande. Não irá executar seu plano de uma hora para outra – disse o chefe, sem parar de resmungar — Mas precisamos mandar alguém do nosso pessoal o quanto antes.
—Eu irei! — disse a agente Violet – Quero compensar meu erro de alguma forma. Gostaria de me infiltrar no Mundo Comum e pegar o Smartville o quanto antes!
—Não será tão fácil assim – disse o chefe do departamento – Primeiro, precisamos de mais informações.
—Oh, sim...informações são importantes – destacou o parceiro.
Assim como o nosso mundo preza cada vez mais pela informação, investindo pesado em computação e bancos de dados, o Mundo Mágico também o faz. Na verdade, eles tem desenvolvido magias cada vez mais voltadas para isso: obter informação. Conhecimento é poder. Magias de dano até existem, mas o mundo se desenvolveu absurdamente de modo que as aplicações mágicas se voltaram para o controle de dados. Bibliotecas inteiras já conseguiam ser condensadas em poucos grimórios. Algo que nossos computadores também fazem, mas, naquele mundo, era algo mais...err...mágico. Havia dados sobre quase todo tipo de magia ou criatura. Obviamente, muitas das informações eram bem sigilosas e a circulação de livros de acesso mágico à informação eram altamente restritos, mas se você é da polícia, era bem mais fácil de conseguir o acesso.
—Não sabemos o plano dele. O canalha conseguiu apagar tudo que dizia respeito a ele antes de sair. Mas, pelos dados da central de transporte, podemos deduzir o lugar do Mundo Comum para onde ele desejava ir.
—E para onde foi? — perguntou agente Violet.
—Aqui...Brasil? Planeta Terra...- disse o chefe.
—Ah, a Terra é um lugar hospitaleiro daquele universo, mas com conhecimento de magia praticamente nulo – observou o parceiro de Violet — Temos muitas informações sobre ele, só que a diferença cultural pode tornar a infiltração bem complicada.
—Coisa que o Smartville vai saber fazer bem...aquele cara é terrível – reclamou o chefe – Agente Violet. Se vai mesmo aceitar essa missão, temos muito trabalho pela frente!
—Ótimo. Senhor, considere Willhelm Smartville capturado! — disse Violet, batendo continência e com um olhar confiante. O chefe sabia que ela era competente, mas também sabia que o contato com aquela região do universo comum não seria tão simples. Mas, afinal, o que Smartville queria em nosso mundo? Melhor vermos isso com nossos próprios olhos. Vamos mudar nosso cenário para um ambiente mais familiar, mais precisamente, na sala de um dos grandes chefes de empresa de brinquedos de um país hospitaleiro chamado Brasil. Lugar onde Willhelm Smartville visitou após conseguir uma identidade falsa sem o mínimo de dificuldade.
—Então...você tem uma proposta para a nossa empresa? — disse o gordo bigodudo que atendeu Smartville – Espero que seja boa. A coisa tá feia para o nosso lado, ainda mais com essa crise!
—Justamente – explicou Smartville – Tenho algo aqui que fará sua empresa decolar.
—O que é? Não vai me dizer que são bonecas. Bonecas não vendem mais nada ultimamente!
—Não são bonecas. São...cartas.
Ele mostrou algumas cartas com figuras fantásticas.
—Um...card game? — estranhou o homem.
—O nome do jogo é Batalha de Feitiços – disse Smartville – O que acha?
— Já temos alguns desses no mercado, mas o público é bem restrito. Vamos ter prejuízo, ainda mais desse jeito, sem nenhuma marca famosa por trás. Como acha que esse negócio vai engrenar?
—Simples – disse Smarville, arrumando os olhos – Estou disposto a arcar com as despesas iniciais e tornar esse jogo de cartas colecionáveis o mais barato do mercado. Teremos um número imenso de pessoas jogando em poucos dias.
—Está falando sério?
—Se duvida... — e ele coloca mais uma enorme mala cheia de dinheiro na mesa do homem que apenas arregalou os olhos, sem palavras – Só preciso da sua empresa para produzir o jogo. Essas cartas são apenas amostras.
—C-Claro...por que não? Vamos tentar! Hehe! — disse o homem, simplesmente hipnotizado pela imensa quantia em dinheiro, o suficiente para salvar aquela empresa por anos, mesmo que tudo desse errado. Para Smartville foi muito fácil vender algumas pedras comuns no Mundo Mágico, mas raras no Mundo Comum. Dinheiro é o que manda no nosso mundo, mas o que manda no Mundo Mágico é outra coisa..
“Esse é só o primeiro passo”, pensou Smartville. “Quando esse jogo se difundir, poderei recolher toda a magia implícita dele com o artefato especial que trouxe...e quando voltar ao Mundo Mágico serei o homem mais poderoso daquele lugar!”
Sim, tudo tem magia implícita, mas precisa de uma certa dose de imaginação para ser ativada. A imaginação gera um campo de magia implícita que pode ser captado por algum item especial. Obviamente, cada centelha de imaginação gera uma quantidade ínfima de magia implícita, mas se isso for acumulado, não demoraria muito para conseguir uma forte quantidade de poder. Quanto mais poder mágico acumulado, mais prestígio se tem no Mundo Mágico. Mesmo que você não seja um mago, pode ter itens mágicos com magia interna. Parece que os planos de Smartville eram mesmo grandes. A agente Violet poderá impedi-lo?
