Eu poderia terminar com isso. Poderia expulsá-lo da minha cama, do meu apartamento, da minha vida. Poderia mandá-lo para outro lugar, outro país talvez... Poderia esquecê-lo, da mesma forma que ele iria me esquecer. Poderia fazer várias outras coisas também. Mas não faço.
Meus amigos falavam que eu não era mais o mesmo, que havia algo estranhamente diferente em mim. E eu sabia disso. Eu podia sentir toda essa diferença que eles tanto falavam. Eu a sentia em casa milímetro da minha pele. Dizem que mudar não é ruim, mas será que essa mudança não é? Quero dizer... Perdi alguns amigos, perdi algumas oportunidades, e uma meia dúzia de outras coisas... Tudo por causa dele. Tudo por causa dessa mudança que ele causou em mim. Isso não é ruim?
Eu deixei de fazer muitas coisas que eu gostava por que ele não queria. Por que ele não gostava. Parei de falar com algumas pessoas por que ele não se dava bem com elas. Parei de fumar por que ele havia parado. Parei de ir a baladas por que ele as achava barulhentas demais. Parei de correr de manhã por que ele não queria acordar cedo, muito menos sozinho. Eu estava vivendo a minha vida ou era apenas um complemento da dele? Quem seria capaz de me responder com a verdade? E quem se importa com a resposta?
Ele podia ser mimado e briguento às vezes, podia mandar e desmandar na minha vida, podia mudar as coisas de lugar, podia jogar fora minhas coisas que ele julgava “velhas” e “inúteis”. Ele podia fazer o que quisesse. Simplesmente por que ele era tudo.
Ele chegou na minha vida, virou-a de ponta cabeça e sabe o que eu fiz? Nada. Apenas assisti às mudanças e me adaptei a elas. Ele tinha o poder. Sabia como me convencer. E eu sabia que ele sempre usaria as mesmas armas; as armas que eu havia lhe dado. E ainda assim não conseguia resistir. Não conseguia evitar. Mas também devo confessar que nunca tentei.
Eu nunca tentaria.
Não o queria fora da minha cama. Não o queria fora do meu apartamento. Não o queria fora da minha vida. Não o queria longe, de forma alguma. Quanto mais perto, melhor. Quanto mais ele me dominasse, melhor. Quanto mais dele eu fosse, melhor.
E sabe por quê? Por que eu o amo. Por que ele me ama. E isso é tudo.
Ele mexe em tudo que me pertence, quer saber de tudo, conhecer todos. Tem ciúmes de toda e qualquer pessoa que me falar bom dia. Ele é temperamental e possessivo; se irrita com minha calma e gentileza. Água e vinho. Era essa a definição que nossos amigos nos davam. Até mesmo aqueles que nos apresentaram. Água e vinho. Eu era a água ou o vinho?
O vinho. Eu era o vinho. Simplesmente por que se pode viver sem o vinho, mas não sem a água. Ele era a minha água. Meu oxigênio. Meu corpo. Minha mente. Minha vida. Por isso ele era dono de tudo, por isso ele mudava tudo. Ele sempre poderia mexer e mudar o que bem entendesse.
E eu apenas sorriria. Eu apenas o amaria. Sempre.
