Alejandro
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Capítulo Único

Alejandro

Alemanha, 1940

− Eu o amei mais que tudo... dei meu coração a ele e, tudo que recebi, foram decepções. Sou uma tola – disse a garota loura de pele branca como osso, usando hábito preto sobre o corpo a dois militares numa sala do governo. – Ele nunca me amou... mas não o culpo – ela olhou de relance para o militar mais velho – Era eu, uma dama da noite.

− E era ele, um maldito transviado sodomita – conclui. A moça fitou o chão com um frio na barriga. – Conte-me mais sobre ele – ela engoliu seco.

− Éramos tão jovens... e ele precisava da minha ajuda. Eu era a única que poderia protege-lo do destino que o aguardava. Alejandro tinha gostos muito diferentes dos seus, senhor, mas sabia como persuadir e apaixonar uma mulher. Ele parecia ser diferente dos outros, dizia que me amava tantas vezes quanto ele respirava. Mas ele mentiu. Alejandro era um mentiroso. – ela disse com uma expressão de medo – Eu soube de cara que ele não gostava de mim verdadeiramente... conheço bem os homens, Senhor Hans, mas me deixei enganar de propósito. Nunca havia sido amada.

− Quem amaria uma mulher da noite?

− Alguém que queria ser amado, talvez. Mas ele não queria ser amado por mim... ele queria que eu o amasse e que todos soubessem disso. Devia ter desconfiado, todas as noites que ele fazia questão de me acompanhar ao... ao...

− Bordel.

− ... – ela se calou e suspirou – Eu, às vezes, saía mais cedo do trabalho e ficava o esperando perto da fachada... onde muitos outros como eu, homens e mulheres, trabalhavam, pela rua de cabo a rabo... a cada beco e viela, na escuridão, oferecíamos prazer a quem quer que fosse e, acredite, quando um de seus soldados apareceu causou grande medo a todos. Menos a mim – ela sorriu – Só entra na noite quem quer ter prazer... ou quem tinha dívidas a pagar. Ele veio até mim, com aquele perfume doce, me contratou para lhe satisfazer... e mais do que isso. Ele queria proteção dos olhares maldosos das pessoas com quem convivia.... Todos desconfiavam sobre seus gostos e ele precisava dar um fim nisso. Antes que alguém desse um fim nele. – ela sorriu e juntou um terço entre suas mãos. O militar deu um soco na mesa, irritado.

− Está fazendo rodeios! – bradou irritado – Diga logo o mais importante... – a freira sorriu, deixando mais possesso o homem.

− Descobri que ele não me amava em um desses dias em que deixei meu trabalho mais cedo... estava muito frio e eu não ia aguentar esperar por Alejandro.... Sozinha, caminhei pela rua escura, no sereno gelado da madrugada, quando percebi gemidos em um beco estreito. Iria deixar os barulhos e seguir em frente, pois lá, naquela rua, eles eram muito comuns, mas, um gemido em especial me chamou a atenção. Adentrei na escuridão e encontrei lá, meu amado Alejandro, se divertindo com dois outros rapazes – a freira limpou uma lágrima em seu rosto e alisou uma das contas do terço. – Fiquei desolada e a primeira coisa que pensei em fazer foi o denunciar as autoridades, não porque era o certo a se fazer, mas sim porque estava com o ego marcado... escrevi duas cartas: uma com a denúncia anônima, endereçada aos senhores e outra para Alejandro, dizendo todas as minhas mágoas e decepções. – ela sorriu forçadamente – Foi a pior decisão que tomei... a consciência me consumiu em dor. Eu o amava e mesmo assim fui capaz de entrega-lo a morte. – e seus olhos ficaram melancólicos. – Entrei em um convento, acreditando que o senhor nosso Deus era a chave para que essa dor acabasse... não era, mas me tornar freira me trouxe paz. Mas a dor de sua morte... nunca passou – e as lágrimas despencaram pelo rosto, enquanto os militares conversavam entre si. O que estava calado olhou para a moça com fúria.

− Você devia saber... – ele começou – que nenhum oficial alemão se chama Alejandro.

Ela não pareceu surpresa.

− Sim, eu sabia – e sorriu, olhando para o terço.

− Então como pode dizer que sua consciência pesa pela morte desse sodomita? – ela encarou o rapaz, com um sorriso radiante.

− Ele morreu, mas não por suas mãos... – os homens trocaram olhares, poucas palavras e o que ficou bastante calado se retirou, deixando Hans junto da freira. Ele se sentou na cadeira a seu lado, com a aparência bem mais calma e envolveu suas mãos na dela, que por sua vez envolviam o terço. Ela riu. – Devia trocar esse perfume doce... Alejandro.

− Você não me matou, querida Stephanie – ele disse sorridente. Ela apertou suas mãos.

− Matei sim... matei meu coração... – ela disse convicta – E, como lhe contei no dia que você me pediu em namoro, não podia responder mais sobre meu coração, pois ele não pertencia mais a mim. Ele pertencia a você. Matei o meu amor, para que um homem pudesse amar...

− E eu amo...

− Obrigado, Alejandro.

− Pelo que, querida Stephanie?

− Por me mostrar que o amor não se resume a paixão de um homem e uma mulher.

Eles se abraçaram, enquanto o sereno da noite caía, como em todas as vezes que estiveram juntos.

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