— E aí? Como termina a história? — Deidara inclinou-se para ele discretamente, sorvendo um gole do champanhe.

— Termina assim, oras. Ela pediu para que a deixasse um quarteirão antes — Itachi deu de ombros, observando o movimento atarefado dos garçons pelo salão.

— Uou, que garota difícil — Hidan riu. — Como é não ter alguém caindo de amores por você logo no primeiro olhar, Uchiha?

— Não ofereci carona com segundas intenções — ele fingiu ignorar a pergunta, bebericando sua taça de vinho.

Sua vida amorosa era uma constante na conversa com os amigos. Sempre havia alguma piada sobre como as mulheres caíam de amores por Itachi, ou como ele não conseguia sossegar com uma namorada por mais de dois meses.

Suas desculpas sobre o trabalho e a falta de preparo para dividir uma vida a dois eram já conhecidas pelos mais próximos, sempre na ponta da língua. Mesmo assim, não deixavam de ser honestas. Com a Akatsuki ganhando cada vez mais espaço no mercado de eletrônicos, as conferências internacionais surgindo praticamente do nada e o trabalho exigindo cada vez mais de sua força de vontade, Itachi não se sentia disposto a ter de conseguir um tempo extra para dedicar a um relacionamento sério.

— Claro que não — Deidara deu um riso sarcástico, terminando a taça de champanhe. — Senão não seria você.

Itachi revirou os olhos, suspirando.

— Aliás, desde quando você é um frequentador da Biblioteca Municipal? — Alfinetou, rodando o vinho na taça. — Se alguém tivesse me contado, eu dificilmente acreditaria.

— Você numa biblioteca? — Hidan ergueu uma sobrancelha. — Com certeza não foi pelos livros.

— Olha, eu tinha motivos realmente bons, ok? Tem uma atendente lá que é super gracinha, a Yamanaka-chan. E ela me recomendou esse livro, então...

— Do que o livro tratava? — Itachi o desafiou. — Você nem chegou a ler a sinopse, não é?

— Isso é só um detalhe — Deidara gesticulou como se não fosse nada demais. — Vão dizer que não fariam a mesma coisa?

— Acho que eu não iria até uma biblioteca em primeiro lugar — Hidan coçou o queixo, realmente ponderando se se sujeitaria a tanto.

— Vocês deveriam estar mais preocupados com seu discurso — Itachi indicou o palco, onde a prefeita se preparava para fazer o primeiro pronunciamento da noite. — Já deveriam estar a postos.

Os convidados começavam a se aproximar do palco ou reunir-se nas mesas, enquanto as luzes eram ajustadas para manter a atenção focada na prefeita. Um assessor acenou ao longe para os três de maneira afetada, claramente nervoso para que o cronograma não fosse atrasado.

— Merda — Deidara murmurou, agarrando a manga do fraque de Hidan e correndo para as escadas laterais do palco.

Itachi meneou a cabeça negativamente, observando os amigos costurando seu caminho pelo salão apressadamente. Com tranquilidade, fez sinal para um garçom, estendendo-lhe a taça de vinho para outra dose. Caminhou até a periferia da aglomeração de convidados e posicionou-se para prestigiar os discursos.

Bailes de caridade eram uma novidade em sua agenda, mas ele já estava torcendo para não ser escalado para os próximos. Quando a prefeitura de Konoha enviou o convite para a Akatsuki, solicitando, com palavras cheias de floreio, uma singela contribuição para os eventos culturais da cidade, a perspectiva de ser um patrocinador local tinha parecido empolgante. Porém, depois de ter passado metade da noite sustentando sorrisos e cumprimentando uma porção de investidores com conversas simplesmente tediosas, Itachi sentia inveja de Kisame e dos outros sócios, que estavam representando a empresa numa feira tecnológica do outro lado do país.

— Itachi-san?

Ele girou nos calcanhares, virando-se para encontrar Sakura Haruno com sua própria taça de vinho e uma expressão tão entediada quando a sua. Ela usava um vestido vede-azulado e trazia os cabelos róseos presos. Estava bonita de um jeito simples, com as bochechas coras da bebida.

— Não pensei que fosse te encontrar num evento desses — ela sorriu, colocando-se ao lado dele.

— Apesar de a equipe da Biblioteca Municipal constar na lista de convidados, devo dizer que também não esperava por isso — Itachi propôs um brinde discreto, erguendo os cantos da boca com elegância.

— A bibliotecária geral não pôde vir, então eu e mais uma colega estamos representando a equipe — Sakura explicou, bebendo seu vinho. —Nós precisamos fazer o lembrete do primeiro evento do programa da prefeitura esta noite. Não podíamos simplesmente deixar o baile de lado.

Naquele momento, a prefeita terminou seu discurso, passando o microfone para uma garota de longos cabelos loiros que, de longe, lembrava Deidara.

— Aquela é a minha colega — Sakura gesticulou para o palco com a taça, tomando mais um gole.

— Yamanaka-san? — Itachi chutou, percebendo a afetação com qual Deidara cutucava Hidan no canto do palco.

— É... — Sakura encarou desconfiada. — Você a conhece?

— Eu, pessoalmente, não. Mas digamos que meu amigo que me pediu para devolver o livro sim — ele riu, pensando em como Deidara podia ser previsível.

— Pequenas coincidências.

— Algo assim — Itachi concordou.

No palco, Ino lembrou aos convidados que o primeiro evento do novo programa cultural seria uma oficina de artes na Biblioteca Municipal. Sakura deliciou-se ao pensar nos estudantes das escolas mais próximas aproveitando o ciclo de atividades que ela mesma tinha preparado. Era um projeto que tinha em mente há muito tempo e que finalmente tinha conseguido encaixar em algum lugar.

— Uau, parece que vocês vão ter um cardápio bem diversificado — Itachi elogiou quando a listagem das atividades oferecidas foi encerrada. — Um bocado de trabalho.

— É só por um dia, acho que vai estar tudo sob controle — Sakura procurou sustentar um tom de voz seguro, mas ainda havia uma porção de detalhes sobre o evento que precisavam ser acertados.— E o que a sua equipe vai fazer? — Terminou sua taça, colocando-a na bandeja de um garçom.

— Pode parecer um tanto fútil, mas fazemos parte da equipe que entra com o dinheiro — ele explicou logo antes de Deidara assumir o microfone para anunciar a quantia exata pelo sistema de som. — Não é nada tão direito quanto o que você vai fazer, mas é uma parte importante também.

— Sem dúvidas.

Quando os discursos acabaram e os convidados ficaram livres para comer e beber antes do próximo round, os dois caminharam até uma das varandas para apreciar o ar fresco da noite. Sakura ainda remoía a relação de assuntos pendentes sobre a oficina de artes, refletindo se uma semana seria mesmo tempo suficiente para resolver todos eles. Fracassar na organização do evento significaria fracassar em seu objetivo pessoal de fazer as coisas do jeito certo.

— Sabe, talvez as coisas já não estejam tão sob controle assim — suspirou, apoiando os cotovelos no guarda-corpo da varanda. — Não sei se vamos realmente conseguir oferecer todas as atividades divulgadas e isso é um grande problema, se quer saber. Faz dois meses que fechamos o programa e eu ainda estou enrolada com isso.

Ela pensou na agenda abarrotada de folhas avulsas, boletos de contas, contratos de aluguel em Veneza e planilhas do programa cultural. Sentiu-se exausta e um tanto traída, como se todo o universo sempre conspirasse para que sua vida se tornasse uma bagunça sempre que decidisse fazer uma grande mudança para lhe mostrar que não se pode abraçar o mundo de uma vez.

Uma necessidade de desabafar seus problemas e frustrações entalou-se em sua garganta, impelindo-a a colocar tudo para fora. Sakura raramente se dispunha a ser consolada — evitava esse tipo de conversa até mesmo com Ino, que diria com um estranho —, mas, talvez pelo vinho ou pela sensação de estar de saco cheio de como o acaso a embromava, decidiu que podia contar a ponta do iceberg para Itachi e livrar-se um pouco do peso.

— Meu plano é ir para Veneza dentro de um mês e meio, só que preciso resolver as coisas na biblioteca e achar um lugar para morar lá primeiro — começou, observando a suave mudança de expressão no rosto de Itachi. — Se essa oficina for um fracasso, vou ter de compensar de algum modo, e isso significa ficar mais tempo por aqui. Eu gosto de Konoha e tudo, mas a vida parece escorrer mais depressa depois que você se forma na faculdade. Preciso arriscar minhas chances agora, enquanto tenho pouca coisa que pode me prender — ela endireitou-se, olhando para as luzes das cidade além da varanda.

— Veneza? — Itachi entortou os lábios, procurando por alguma referência sobre o lugar que pudesse ligar ao pouco que sabia sobre Sakura. — O que te espera em Veneza?

— Inspiração, eu espero — ela sorriu de maneira contida, como se estivesse tentando manter as especulações baixas.

— Você quer ser uma escritora?

— E com isso são dois pontos! — Ela brincou, jogando uma mão para o alto numa comemoração. — Você é realmente bom no jogo de adivinhar, hein.

— Faço o que posso — Itachi sorriu galanteador, dando de ombros. — Mas acho que já vi pelos uns três filmes sobre escritores que decidem viajar em busca de um nova fonte de inspiração.

— É, acho que já vi alguma coisa assim — Sakura riu, pensando que estava realmente tentando se colocar no lugar de uma personagem sonhadora de algum romance clichê. Em sua mente literária, as coisas ficavam mais empolgantes assim. — Mas por enquanto Veneza ainda está longe.

Dentro do salão, o baile continuava com uma apresentação levemente animada de uma banda de jazz. Os convidados circulavam com taças e aperitivos, conversavam com velhos conhecidos ou novos parceiros de trabalho e gargalhavam aqui e ali sem muita emoção por uma piada fajuta. Itachi preferia a atmosfera da varanda, regada ao farfalhar das folhas e à voz suave de Sakura.

— Então, há alguma coisa em que eu possa te ajudar sobre a oficina? — Ele pousou a taça sobre o guarda-corpo de pedra. — Eu não sou lá muito dado às artes da vida, mas acho que posso dar uma mão.

Sakura o fitou com aquele olhar analisador do qual ele começava a achar certa graça.

— Bom, se você conhecer alguns artistas que possam disponibilizar um dia para ensinar coisas novas a algumas crianças...

Itachi pensou em como Deidara e Sasori se comportariam com um grupo de crianças. Embora seu pressentimento não fosse exatamente dos melhores, era uma situação de emergência.

— Talvez eu conheça — ele declarou, mantendo os olhos no salão com um sorriso discreto nos lábios.