狐女神 A deusa raposa

1 狐女神 A deusa raposa


Notas iniciais
Olá pessoal. Espero que gostem. ^^ PS: Não coloquei tradução das palavras e das frases escritas em japonês (perderia a graça hahaha). Brincadeira à parte; quero que se sintam, ao menos um pouco, como o protagonista se sentiu em relação ao idioma. E aos que sabem japonês, podem ler, é legal mesmo assim. ♥

狐女神

A deusa raposa

— Não quero ir ao Japão. — Proclamou Teodoro. — Não sei falar japonês.

— Estudarás em uma escola lá. Seu último ano do colegial. Aquiete-se, logo chegaremos. — Refutou o pai.

Apesar de Teodoro estar disposto a detestar o país, encantou-se com a paisagem, via por cima das nuvens e admirava o solo quando elas não apareciam. Pôde ver o contorno arredondado da terra.

Seus olhos verdes brilhavam e seu cabelo vermelho-alaranjado refletia uma luz carmesim. Seu rosto pálido era sardado e levemente rosado. Apesar de tudo, não poderia esconder a euforia do voo.

Logo adormeceu. Quando acordou, saiu do avião e pegou sua bagagem. Entrou no carro junto de sua família e partiram à Nagiso, era no interior. De lá seguiram a uma casa; era grande por fora, paredes brancas e os detalhes em madeira escura. Entraram; estava sem mobília.

— Escolha um quarto, Teodoro. — Disse o pai.

Sem pensar duas vezes; talvez vislumbrado com a imensidão da cada tenha se empolgado em ficar, saiu a correr ao segundo piso a fim de escolher seu espaço. A casa rangia. Apesar de boa, era velha; a madeira delatava os movimentos noturnos. O quarto que escolheu era grande e com a porta era de correr; havia uma grande e ampla janela. O tatame era macio e emborrachado. Não havia cama alguma, mas não se importou muito com isso, ele sabia como os nativos dormiam. Largou sua bagagem ali mesmo e retornou ao quarto. No final do dia haviam liberado a água do encanamento e ligaram a eletricidade. Após o banho e a janta, foram dormir. No dia seguinte Teodoro deveria ir à escola fazer a matricula.

A escola não era grande, um colégio que abrigava cerca de trezentos alunos. Entraram no pátio e dirigiram-se à direção. Lá realizaram a matricula. Ele iniciaria as aulas em uma semana, era tempo suficiente de conseguir material novo e um uniforme. Quando saíram do colégio, sua mãe lhe deu dinheiro.

— Vá comprar teu material; tome esse dicionário. — Deu-lhe um pequeno dicionário que mais era um guia de conversação simples. Não respondeu. O que ele deveria fazer era não falar com ninguém, ao menos achou que era.

Encontrou uma papelaria no centro da pequena cidade. Havia uma porta de ferro e suas vitrines ao lado, tinha inúmeros materiais escolares. Os preços eram em iene e ele não tinha entendimento sobre o valor da moeda.

Dentro da loja, escolheu um caderno simples, uma caneta, um lápis e uma borracha, não precisaria deles senão para as aulas de matemática, já que teriam números latinos algumas vezes.

Dirigiu-se ao caixa e pagou pela mercadoria. Sem dizer uma palavra saiu da loja e ligou para sua mãe para que o buscasse, afinal, ele não conhecia a cidade. Ficou à deriva por alguns momentos até sua carona chegar. Voltaram para casa e ele seguiu diretamente ao quarto. Estava ansioso para começar a estudar; pela noite teria aulas de japonês e de dia aulas normais.

Após uma semana, lá estava ele na sala de aula. Os alunos o fitaram espantados, não esperavam que fosse alguém ruivo de olhos verdes. Teodoro escreveu seu nome no quadro, curvou-se sem dizer uma palavra e sentou na carteira do fundo, encostada na janela. Logo na primeira aula ele dormiu. Um professor; de história talvez, parou ao seu lado e deu-lhe um peteleco na orelha.

— O que está fazendo?

— 馬鹿外勤。

Não apresentou reação, não entendeu uma palavra que o professor proferiu. Apenas fitou-o com semblante delineado confuso.

O professor pegou Teodoro pelo braço e levou-o até fora da sala, onde permaneceu até a saída do carrasco que dava aula.

Duas alunas que passavam no corredor avistaram-no. Iniciaram sussurros de fofocas. Quando passaram por ele, fitaram-no e disseram.

— 狐のご主人。

— Kitsune no go...? — Não conseguiu repetir o resto da frase.

Ainda atordoado pela repentina e brusca mudança de vida, ele recolheu-se em seus pensamentos. No intervalo, sentou-se no gramado logo abaixo de uma arvore, pegou um papel e escreveu em letras grandes "Alguém fala português?” Como já era esperado, ninguém entendeu a placa.

Quando chegou em casa, fora diretamente ao quarto. Era final da tarde; a janela apresentava-lhe uma paisagem verde dos pastos, o vento sibilava e as flores dançavam com a brisa. Teodoro admirou a paisagem, escorou-se sobre a beirada da janela e suspirou profundamente.

Não demorou e a noite tomou o céu. A lua ascendeu ao seu trono e iluminou as pétalas brancas das flores, cedendo-lhes assim, uma luz prateada. As estrelas granuladas no céu apresentavam-se bordejantes.

Teodoro saiu do seu quarto e desceu as escadas.

— Onde vai? — Perguntou o pai.

— Darei uma volta. As ruas aqui são seguras.

— Não volte tarde.

— Ok.

Saiu de casa trajado com um kimono negro e sandálias. Subiu um pequeno morro. Lá sentou-se e fechou os olhos.

A brisa passava pelos seus cílios. O oloroso aroma doce das flores fizera-lhe sorrir. O fulgor do leite de hera esparramado pelo céu, fazia Teodoro vislumbrar a escuridão noturna. Fora a primeira vez que ele viu como a noite realmente é; constatou ser mais bela que o dia. Deitou sobre a grama e contemplou o solo.

Havia um bosque atrás do pasto; não eram arvores grandes, porém, não se podia ver o interior do lugar, pois nela jazia o breu em meio aos galhos.

Inebriado pela curiosidade, caminhou em direção à floresta e parou em frente. Sua curiosidade tomou posse do corpo. Com cautela entrou em meio à escuridão. Era primavera, a flora mostrava-se exuberante e colorida. Com dificuldade Teodoro ia avançando mais e mais.

Parou diante de uma clareira. Havia uma cerejeira no centro; o tronco era grosso, as pétalas rosas e inundavam os galhos. Ele nunca vira uma arvore tão bela quanto aquela. O tronco quase negro era abraçado por uma corda amarrada, e na corda havia pendurado algumas tiras de tecidos branco. Por cima da raiz havia algumas rosas vermelhas que tentavam apoiar-se no tronco.

Teodoro caminhou mais perto, mas quando deu a volta ao redor da bela arvore, avistou uma pessoa. Estava sentada encostada com as costas no tronco, em uma parte sem rosas ou espinhos; estava dormindo. Vestia um kimono de sacerdotisa. Seu cabelo era vermelho-alaranjado, era lustroso e polido como cobre; assim como seus cílios e suas sobrancelhas finas e desenhadas.

Algo chamou a atenção de Teodoro, as orelhas dela eram pontiagudas como as dos Elfos mitológicos. Havia também, sobre as pernas dela, algo que parecia um grande manto de pele de raposa, da mesma cor de seu cabelo, porém, as pontas eram negras. A pele da moça era tão branca quanto mármore, o rosto oval e fino, maxilar levemente largo, sua boca era pequena com lábios finos e rosados, seu nariz era fino e delicadamente empinado, as maçãs do rosto eram levemente coradas. Seu pescoço fino e sua clavícula estavam visíveis. O kimono quase lhe mostrara o corpo, pois estava solto, mesmo assim, apresentava uma parte dos seios pequenos e redondos. Ela usava um colar de pérolas de duas voltas. Suas mãos seguravam uma à outra, e sobre elas descansava uma pétala da Sakura. Parecia dormir tranquilamente no atônito ambiente da floresta.

O rapaz sentou-se à sua frente a alguns metros de distância e pôs-se a admirá-la. A lua fazia as pétalas da cerejeira refletirem uma luz rosa e singela; a clareira misteriosamente não era escura, pelo contrário, era clara e iluminada.

A brisa calma em um momento tornou-se vento e fez com que inúmeras pétalas começassem a cair. A garota sob a chuva rosa mexeu as mãos e abriu calmamente os olhos e logo pôs-se a admirar o que caia sobe ela. Pôs-se depois a olhar ao redor e os olhos dela se encontraram com os dele. Não houvera palavras ou suspiros, talvez por eles os perderam por alguns segundos. De repente a pele de raposa que lhe era o cobertor caiu ao chão, Teodoro pode ver que na realidade era dela, algo como uma cauda, porém, mesmo notando esse fato, não conseguiu desviar os olhos; e, viu sua beleza feérica ser agraciada pelas pétalas.

O tempo passou lentamente nesse momento, os olhos da moça inundaram-se e destacavam seu fulgor azul da íris. Quando ela se levantou, deixou seu kimono abrir um pouco mais; com isso, ficara amostra seus seios brancos e pequenos. Apesar de sua beleza branca e pura, no tecido de suas vestes havia uma grande mancha vermelha nas costas, era sangue.

Tentou fugir de Teodoro, entretanto, fora seduzida pela gravidade e deitou sobre a grama. Teodoro correu em sua direção e pegou-a pelos braços. Rasgou kimono negro que ele vestia, retirou a parte superior do kimono da moça, enrolou o tecido ao redor de seu fino quadril e vestiu-a novamente. Ela respirava pesadamente. Segurou-a firmemente pelo braço, em meio ao seu arfar, ela olhou-o tristemente. Teodoro devolveu um semblante aterrorizado, não queria que tal imagem; que beirava a perfeição, sucumbisse à morte.

— O que posso fazer para ajudar-te? — Perguntou ele esquecendo que ela não o entendia.

A moça possuía unhas pontiagudas e afiadas. Pegou o pulso do jovem e cortou-o com a ponta unha. Sem demora ao aparecer o sangue, ela bebeu-o.

Teodoro estava aterrorizado. — O que está acontecendo? — Pensava ele.

Quando os lábios da mulher se separaram do pulso do rapaz, retirou um lenço e amarrou sobre o ferimento. Ela o fitou e lagrimas surgiram de seus olhos, escorriam em sua face e caiam ao chão. Enxugou-as, levantou-se e tentou fugir. Teodoro segurou-a pela mão e puxou-a sutilmente.

— Fique, fique. Não se vá.

Ela sabia que não possuía forças. Acatou o pedido dele, viu a suplica em seus olhos, a qual a linguagem falada não poderia dizer. A mulher soltou sua mão, pegou uma de suas nove caudas e acariciou-a. Ela sentou-se novamente onde estava quando ferida e ele pôs-se ajoelhado diante dela.

— あなたはだれか?

— Desculpe-me. Não entendo o que diz.

Seu semblante delineava surpresa. Não apenas por não o entender, mas também, por reparar na cor de seu cabelo, dos olhos e da pele sardada. Ela estendeu a mão direita e passou levemente pelo rosto dele.

Novamente, as pétalas começaram a cair e ele sentiu seu coração bater mais rápido do que já batera por outra mulher.

Pegou uma pétala que caíra sobre a cabeça dela e fitou-a. Estava extasiado pelo momento. Guardou a pétala rosa num bolço no kimono.

— 私は狐です。— Disse apontando a ela mesma.

— Kitsune? — Perguntei apontando a ela.

Consentiu com a cabeça.

— Eu sou Teodoro. — Disse ele apontando a ele mesmo.

— テオドロ?

Consentiu com a cabeça também.

Ela abriu espaço para que ele pudesse sentar ao seu lado. Assim o fez, sentou-se ao lado dela. A moça descansou a cabeça sobre o ombro dele, fechou os olhos e adormeceu novamente.

Teodoro admirava tal imagem, não conseguia acreditar no que via. Pegou o celular e escreveu uma mensagem a seu pai dizendo-lhe que havia encontrado um amigo e que não voltaria naquela noite. Como todo pai responsável deu-lhe um sermão escrito, porém, consentiu, quiçá achara melhor para o filho começar a gostar do país.

A cauda da Kitsune chamou a atenção do jovem. Aos poucos, sua mão se aproximou delas e tocou-as com cautela. Ele esperou uma reação de susto por parte da moça, entretanto, o contrário ocorreu; involuntariamente suas caldas o envolveram num abraço, aproximando os dois. Apesar de ser primavera, a brisa esfriava um pouco. A cauda cobria-lhe o tecido rasgado que fizera o curativo.

Logo após a aconchegante aproximação, Teodoro pode sentir o cheiro da moça, era adocicado e fraco, como uma fresca leva de maçãs e uvas. Pegou sutilmente uma das caudas e aproximou do rosto, cheirou-a e suspirou por ter apreciado o cheiro.

Degustou daquele momento tão íntimo, tão apaixonado e tão impossível que mal acreditava ser real; que não era obra de um sonho ou miragem. Abraçou-a com mais força, mantendo a delicadeza ao lembrar de seu ferimento.

Após refletir sobre o ocorrido com o seu sangue, concluiu que poderia ser uma oferenda a ela para que melhorasse. — Mas como ela, um espirito, poderia ter sofrido tal ferimento? — Pensou ele. Todavia esqueceu isso, ainda estava encantado por ela.

Era quatro horas da manhã quando Kitsune despertou, Teodoro não havia dormido com o receio dela ir embora sem dar-lhe adeus.

Não era preciso palavras para dizer o que eles conversaram com os olhos. Logo quando acordou, espreguiçou-se apertando mais o jovem, que reagiu e acariciou seu rosto levemente. Aos poucos virou o rosto dela e deu-lhe um beijo suave na testa. Ela sorrira, seus olhos brilhavam e esboçavam reciprocidade. A moça segurou-o pela nuca e beijou-lhe a boca, seus lábios eram quentes e úmidos; beijou-o uma, duas, três, incontáveis vezes; e, ele devolveu todos. O kimono da Kitsune aos poucos fora abrindo novamente, mas sem preocupações, e, sem preocupações descobriu os braços e desatou o nó do hakama. Fez assim com o dele também. Ela deitou sobre o tecido no chão. Abraçou-o com força e o beijou mais e mais.

Quando quase amanhecia, lá estavam eles, deitados sobre a flora aos pés da cerejeira. Teodoro descansava sua cabeça sobre os seios da Kitsune. Ambos adormecidos em meio ao início do dia. Mas logo os raios da manhã os acordaram.

O olhar de Kitsune estava distante, submersa em devaneios, mas sorria singela e carinhosamente.

Eles levantaram e deram as mãos, Teodoro pretendia leva-la para casa. Porém, ela negou-se a sair da floresta.

— Eu voltarei. — Disse ele. — Me espere.

Kitsune abaixou a cabeça e logo lagrimas surgiram. Segurou as mãos de Teodoro firmemente e puxou-o a ela. Deu-lhe um abraço apertado e deu-lhe inúmeros beijos.

Retirou uma perola do colar e entregou a ele.

— 愛してる、本当に愛してるよ、けれど私はもうあなたに会えません。— Disse ela ajoelhada sobre a grama.

— Não fique assim, não chore. — Pediu ele.

De repente a moça se levantou, deu alguns passos para atrás e soltou as mãos de Teodoro. Mesmo sem poderem entender um ao outro, eles sabiam que não poderiam ficar juntos.

Teodoro deu as costas e disse.

— Eu te amo. — Não conteve as lagrimas.

Começou a andar pela mata e perdeu Kitsune de vista. Saiu da floresta e seguiu até sua casa. Os pais ainda dormiam. Dirigiu-se ao quarto e arrumou-se a fim de ir à escola. Tomou o café da manhã e saiu. Caminhando pela rua, lembrou da noite que passara.

— Será que fora um sonho? – Pensou.

Olhou seu pulso, jazia um lenço. Desamassou e segurou com as duas mãos, levou ao rosto e sentiu o aroma dela. Não demorou para lagrimas aparecerem de seus olhos.

— Por quê? Por que não pode me ver mais?

Pegou a perola que ela havia lhe dado e fitou-a.

Quando chegou no colégio, dirigiu-se à sala de costura. Lá fez um cordão e passou-o por dentro do furo da pérola. Vestiu seu novo colar. Olhou-se no espelho e sorriu.

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