犬の花嫁 Inu no Hanayome [Re-up]
14 十四 かごめ Kagome
O cheiro veio antes de qualquer outra coisa.
Arroz recém-feito. Molho de soja. Algo doce — talvez anko*.
Kagome fechou os olhos por um segundo quando seus pés tocaram o fundo do poço. Era estranho como aquilo ainda funcionava. Ou talvez… Como voltara a funcionar.
— Kagome…?
A voz veio atrás dela, desconfiada.
Ela abriu os olhos e virou o rosto. Inuyasha estava dentro do poço com ela, olhando ao redor como se esperasse que aquilo desaparecesse a qualquer momento.
— Estamos… — ele começou — No seu mundo mesmo?
Kagome sorriu.
— Estamos.
Ele fez uma careta leve, cruzando os braços.
— Keh… Dá pra perceber pelo cheiro estranho.
— É comida.
— Eu sei disso!
Ela riu.
— Então para de reclamar.
Ele pulou para fora do poço logo depois de Kagome, pousando ao lado dela com leveza. Os olhos dele percorreram o templo com atenção — o poço, as árvores, o céu… Como se estivesse conferindo se tudo ainda era o mesmo.
— Então… — ele murmurou — Você realmente consegue abrir isso quando quer?
Kagome hesitou.
— Eu… Acho que sim.
— “Acha”?
— Inuyasha, eu não tenho um manual para isso!
Ele bufou.
— Keh. Então você entrou, desejou voltar… E pronto?
— Não foi tão simples assim — ela respondeu, cruzando os braços. — Eu precisei querer muito.
— Hmm.
Ele olhou de volta para o poço.
— E agora?
Kagome seguiu o olhar dele.
— Agora… Eu não sei.
— Ótimo.
— Ei! — Ela deu um leve empurrão no ombro dele. — Eu trouxe você até aqui, não trouxe?
— Trouxe.
— Então confia em mim.
Ele não respondeu imediatamente, mas não discordou.
— Vamos — Kagome disse, já começando a subir o caminho do templo. — Antes que a minha família apareça por conta própria.
— Tá bom.
— E comporte-se!
— Por quê?
Kagome virou o rosto, encarando ele, que sustentou o olhar, e então... Silêncio.
— Táaa bom... — resmungou Inuyasha.
— KAGOME?!
A porta abriu antes mesmo que ela tivesse tempo de anunciar a própria chegada. Mamãe. Exatamente como Kagome lembrava. Talvez mais emocionada.
— Kagome!!!
Kagome mal teve tempo de reagir e logo foi puxada para um abraço apertado demais.
— M-mãe...!
— Você voltou!! — ela disse, a voz embargada. — Você realmente voltou!!!
Kagome riu, mas meio sem ar.
— Voltei…
— E você está bem?! Está se alimentando direito?? Está dormindo???
— Mãaae…
— E... Inuyasha!!! Você também está de volta!!
Inuyasha piscou, pego de surpresa pela recepção.
— Hmm?
A mãe de Kagome se aproximou sem qualquer cerimônia, segurando o rosto dele com as duas mãos como se estivesse conferindo se ele estava inteiro. Ao menos, não estava mais perguntando se as orelhas de Akita eram reais.
— Você está bem?? Não se machucou; não está com fome; está dormindo direito???
— Keeeh! Eu tô bem!
— Está mais magro!
— Não tô!
Kagome cruzou os braços.
— Está sim, olhando bem.
— Não, eu não tô!!
Souta apareceu atrás, encostado na porta, olhando a cena com um sorriso torto. O queixo de Kagome caiu.
— Você sempre diz isso.
— Sou... ta... — ela deixou escapar, espantada. — Como você... Cresceu...?!
— Como “como você cresceu”? Mana, já faz nove anos! Você não pensou que eu ficaria criança pra sempre... Pensou?
Inuyasha curvou as orelhas para trás.
— Báa, impossível você ser aquele moleque!
Souta cruzou os braços, claramente se divertindo.
— Claro que sou! Enquanto vocês estavam brincando de Japão Feudal, o tempo continuou passando normalmente por aqui.
— “Brincando”?! — Inuyasha retrucou, irritado.
— É brincadeira! — Souta respondeu com um sorriso torto. — Mais ou menos.
Kagome ainda encarava o irmão.
— Nove anos… — ela repetiu, mais baixo, quase para si mesma. — Souta, você... Já deve estar terminando o colegial.
— Sim.
Ele respondeu com um sorriso mais largo e natural, o que a fez sentir orgulho. Mamãe bateu palmas uma vez, como se quisesse reorganizar o momento.
— Certo! Nada disso agora! — disse, animada demais. — Entrem logo! Vocês devem estar cansados da viagem no tempo!
— Eu não tô cansado — murmurou Inuyasha.
— Está sim — Kagome respondeu automaticamente — Mamãe, ele está muito cansado.
— Kagomee, precisa de muito mais pra algo me cansar!
— Está sim. Sem questionamentos.
— Keh!!
Souta riu.
— Algumas coisas realmente não mudam.
...
A mesa foi montada rápido demais.
Ou talvez Kagome só estivesse percebendo tudo com intensidade demais: o cheiro do arroz, o vapor subindo das panelas e tigelas, o som dos pratos sendo colocados um a um. Era tudo igual e completamente diferente.
— Então — começou Vovô, ajeitando-se com uma expressão séria demais para o momento — Como vocês conseguiram voltar?
— O poço não estava fechado? — Souta emendou.
— Kagome, isso não foi perigoso? — Mamãe perguntou, já servindo comida.
— Vocês estão bem lá? — Vovô continuou.
— Estão comendo direito? — Mamãe insistiu.
— Ainda tem muito youkai? — Souta perguntou, curioso demais.
Kagome piscou algumas vezes, tentando acompanhar tudo.
— Eu… Eu acho que o poço responde à minha vontade.
Silêncio.
— “Acha”? — repetiu Vovô.
— Eu sei que não parece muito confiável!
— Pelo contrário! — ele respondeu imediatamente. — Trata-se claramente de um fenômeno espiritual ligado a...
— Vovô.
— À conexão entre eras, ao fluxo do destino...
— Vovô!
Ele parou.
— Exatamente isso!
Souta revirou os olhos. Kagome suspirou.
— Eu só… Quis muito voltar — disse, mais simples dessa vez. — E funcionou.
A mãe dela suavizou o olhar.
— Então você pode ir e voltar quando quiser, é isso?
Kagome hesitou.
— Eu… Não sei.
O clima mudou um pouco.
— Então não dá pra ficar abrindo o poço toda hora… — Souta comentou.
— Provavelmente não — Kagome respondeu.
— Hmm — murmurou Inuyasha, já comendo. — Melhor assim.
— Inuyasha!
— O quê?!
— Isso é importante!
— Eu sei!
— Não parece!
— Keh…
Ele continuou comendo, com muito entusiasmo por sinal, mas estava ouvindo. Kagome sabia.
— E por que só agora vocês resolveram vir? — Mamãe perguntou, mais calma.
Kagome abriu a boca e fechou. Virou o rosto. Inuyasha percebeu e imediatamente ficou rígido.
— Porque... — Kagome começou.
— Keh.
Ele a interrompeu.
Silêncio.
Todos olharam.
Inuyasha não olhava para ninguém.
— Eu vim pra falar uma coisa...
Mamãe inclinou levemente a cabeça.
— Pois então fale.
Ele respirou fundo.
Uma vez.
Duas.
— Eu não entendo bem essas coisas... — disse de uma vez. — Essas regras sociais. Essas formalidades. Isso de vir aqui e falar com todo mundo.
Souta segurou o riso. Kagome chutou ele por baixo da mesa.
— Mas ela entende — Inuyasha continuou.
O tom dele mudou. Agora, estava mais firme.
— E isso importa pra ela.
Kagome ficou imóvel.
— Então… Eu vim por causa disso.
Ele levantou o olhar, direto.
— Eu não sou bom com palavras.
— Isso a gente já percebeu — Souta murmurou.
— Souta!
— O quê?
Inuyasha ignorou completamente, e prosseguiu:
— Mas eu não vou deixar outra pessoa decidir isso por mim.
Vovô piscou, interessado.
— Nem por ela.
O silêncio ficou mais pesado.
— Eu decidi que vou ficar com a Kagome. Pra sempre. — Ele apertou levemente os punhos antes de continuar: — Isso é o que eu escolhi.
Kagome sentiu o coração acelerar.
— E se isso precisa de um pedido… — respirou fundo. — Então, eu tô pedindo.
Agora, ele olhava diretamente para a Mamãe.
— Eu quero me casar com a Kagome.
Silêncio absoluto.
— Vim aqui pedir a permissão de vocês.
Ninguém respondeu imediatamente.
Nem o Vovô.
Nem Souta.
Mamãe apenas… Olhou.
Primeiro para Inuyasha.
Depois para Kagome.
E, então, sorriu.
— Bem, isso demorou um pouco, não?
Inuyasha travou.
— Hãa?
Souta riu alto.
— Finalmente, mana!
— Cala a boca!
Vovô abriu a boca:
— O destino...
— Vovô, não!
Kagome cobriu o rosto com as mãos.
— Mãe...
— O quê? — ela respondeu, rindo. — Nove anos, Kagome! Vocês já estavam apaixonados há mais tempo que isso, não?
— Mãae...
— Pensávamos que vocês já estavam casados e com ao menos dois filhos! Já até imaginávamos como eles deviam se chamar.
Inuyasha ficou completamente vermelho.
— Como é que é?!
Souta já estava rindo, sem nem tentar disfarçar.
— Dois filhos foi até modesto — ele acrescentou. — O vovô já tinha planejado cinco.
— Souta!!
— O nome do primeiro já estava decidido! — Vovô entrou, empolgado demais. — Algo que representasse a união entre eras...
— Vovô, não!
Kagome praticamente afundou no próprio lugar.
— Eu vou embora… — murmurou, entre os dedos.
— Aah, mas agora é que não vai mesmo! — Mamãe respondeu, tranquila, já servindo mais arroz para Inuyasha. — Primeiro, vocês comem.
Inuyasha ainda parecia travado no mesmo ponto.
— Dois… Filhos…?
— Comam — Kagome disse, sem olhar pra ele.
— Eu não disse que...
— Comam.
— Keh…
E ele obedeceu, em silêncio. O que, por si só, já era suspeito.
A conversa continuou, mas mudou de tom. Mais leve, mais solta. Como se algo tivesse finalmente se encaixado no lugar certo.
— Então... Vocês vão ficar aqui por quanto tempo? — Souta perguntou, apoiando o queixo na mão.
Kagome hesitou.
— Eu… Não sei.
Inuyasha levantou o olhar.
— Hmm?
— O poço… — ela continuou — Eu ainda não entendo como funciona agora.
Mamãe franziu levemente o cenho.
— Você não consegue voltar quando quiser?
— Eu consegui vir... — Kagome disse — Mas não sei se consigo ir e voltar várias vezes seguidas, ou quantas vezes.
O silêncio foi rápido, mas perceptível.
— Então vocês não podem abusar disso — Vovô concluiu.
— Provavelmente não — Kagome respondeu.
Inuyasha apoiou o cotovelo na mesa.
— Keh… Melhor não ficar testando.
Kagome olhou de lado.
— Você também não quer ficar preso aqui, quer?
— Não falei isso.
— Mas quis falar.
— Mas não falei!
Souta riu de novo.
— Vocês são exatamente iguais.
— Cala a boca! — responderam Kagome e Inuyasha, em uníssono.
Mamãe foi para a cozinha organizar as coisas. Kagome acabou ficando do lado de fora da casa.
O ar da noite era diferente. Mais frio. Mais silencioso. Mais… Conhecido. Ela caminhou alguns passos até o pátio, olhando para o céu. Luzes. Postes. Nada de estrelas como antes. Ou talvez… Só diferentes.
— Keh.
A voz veio atrás dela. Kagome não precisou se virar.
— Você demorou.
— Sua família fala demais.
— Você que falou mais do que todo mundo hoje. — Ela sorriu de leve. — Obrigada.
Inuyasha não respondeu imediatamente. Ele estava ali, com os braços cruzados, evitando olhar diretamente para ela.
— Keh… — murmurou.
Kagome se aproximou um pouco.
— Você fez certinho.
— Eu não fiz nada “certinho”.
— Fez.
Ele bufou.
— Foi irritante.
— Foi.
— Estranho.
— Muito.
— Desnecessário.
— Nem um pouco.
Então Kagome inclinou levemente a cabeça.
— Mas você fez. Estamos oficialmente noivos agora, e eu estou muito feliz.
Inuyasha desviou o olhar.
— Eu disse que ia fazer direito.
Ela sorriu pequeno.
— Disse.
O vento passou entre os dois e, por um instante… Ficou quieto demais.
— Inuyasha…
— Hm?
— Vamos tentar voltar amanhã.
Ele franziu o cenho.
— Amanhã?
— Eu quero entender se o poço funciona de novo… Ou se foi só… — ela hesitou — Uma vez.
Ele olhou para ela com mais atenção agora.
— E se não funcionar?
Kagome não respondeu. Ela olhou de volta para o céu e pensou.
— Então… — disse, por fim — A gente descobre o que fazer depois.
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