犬の花嫁 Inu no Hanayome [Re-up]
10 十 かごめ Kagome
O interior da cabana estava silencioso, envolto apenas pelo som baixo da respiração e pelo calor acumulado sob as cobertas. A luz da lua atravessava as frestas da madeira em linhas suaves, desenhando sombras irregulares sobre o tatame, como se o próprio tempo ali dentro corresse mais devagar.
Kagome estava deitada de lado, parcialmente apoiada sobre o peito de Inuyasha, sentindo o movimento lento e constante da respiração dele sob sua bochecha. O calor do corpo dele era firme, presente — quase reconfortante demais para alguém que, por tanto tempo, vivera entre dois mundos igualmente hostis, sem jamais pertencer completamente a nenhum deles.
O braço dele estava ao redor de sua cintura, a mão repousando baixa demais para ser casual, mas natural demais para soar como novidade.
— Você tá pensando demais de novo… — ele murmurou, a voz baixa, rouca de sono.
Kagome não respondeu imediatamente.
Os dedos dele se moveram devagar, traçando um caminho distraído ao longo da lateral do corpo dela — agora sem as pontas que tinham quando ele estava em sua forma hanyou, e, ainda assim, tão familiares, tão conhecedoras daquelas curvas, que já não havia hesitação em seus gestos. Não havia pressa, nem intenção declarada até então. Apenas hábito. Intimidade construída no tempo.
Ela fechou os olhos por um instante. Normalmente, isso bastaria. Normalmente, ela se deixaria levar.
— Kagome…? — ele chamou de novo, mais baixo, puxando-a um pouco mais para cima.
O rosto dele se inclinou contra o dela, e ela sentiu o toque leve, quente — quase distraído... Mas não distraído. Nunca era.
Kagome soltou o ar devagar.
— Inuyasha…?
Não havia recusa na voz, mas também não havia entrega. Ele percebeu. Claro que percebeu. E se estivesse com suas orelhas de Akita, elas teriam se movido levemente naquele instante, denunciando o incômodo silencioso. A mão dele parou por um segundo antes de continuar — mais lenta agora, mais cautelosa, como se estivesse testando um limite invisível.
— Que foi? Você não quer...? — perguntou, sem se afastar.
Kagome abriu os olhos e logo encontrou os dele, castanhos no momento. O teto de madeira ainda estava ali, sobre eles. O mesmo de sempre. Mas a mente de Kagome não.
— A vila está sentida demais… — disse, por fim.
Inuyasha bufou baixinho, o ar quente contra o rosto dela.
— De novo isso?
— Não é “de novo isso” — ela retrucou, virando um pouco o rosto para encará-lo. — Você viu o jeito que estão falando nos últimos dias.
— Humanos sempre falam demais.
— Não é só conversa, Inuyasha.
Ele fez um pequeno som de desinteresse, mas não se afastou. O braço ainda estava firme ao redor dela, como se aquela proximidade ainda fosse algo óbvio, inquestionável.
— Eles estão com medo e inconformados por agora serem súditos de um senhor youkai. Nada além disso.
Kagome se apoiou um pouco melhor, afastando-se o suficiente para olhar para ele de verdade, sem o conforto do contato constante entre os dois.
— Eles estão hostilizando a Rin, cada vez mais. Agora alegam que ela está noiva do Sesshoumaru. Eles acham que ele a quer.
O silêncio mudou. Sutilmente, mas mudou. Inuyasha não respondeu de imediato.
— Ela vai superar isso... — disse por fim, embora já soubesse que aquela resposta não era suficiente.
Kagome sustentou o olhar.
— Você não acha estranho?
— O quê?
— O Sesshoumaru.
Só o nome já bastava para Inuyasha fazer uma careta leve.
— Aquele idiota sempre foi estranho.
— É mais do que isso — Kagome insistiu. — Ele apareceu, declarou domínio sobre a vila inteira, foi embora como se fosse demorar como sempre, e agora retorna com um presente ainda mais caro para a Rin.
— Porque pra ele isso não é nada!
— Mas não é “nada”, Inuyasha! — ela disse, mais firme agora. — Não para a gente. E principalmente não para ela.
Ele ficou em silêncio por um segundo, como se ponderasse — ou evitasse.
— Tem medo de que ela ache que está sendo cortejada. Eu não a acho tão boba assim.
— Não é bem disso que eu estou falando.
— E do que é, então?
Kagome hesitou por um instante, sentindo o peso do que estava prestes a dizer, então decidiu falar:
— Não é sobre a Rin entender errado. É sobre o que estão colocando na cabeça dela.
Silêncio.
Ele não gostou daquilo, dava pra ver.
— Keh… — ele soltou, virando um pouco o rosto. — Rin não é dessas.
— Sim, eu sei — Kagome respondeu na mesma hora. — Ela não é boba, nem ingênua. Eu nunca achei isso.
— Então qual é o problema?
Kagome respirou fundo, organizando o pensamento antes de continuar.
— O problema é que ela está sendo isolada por isso — a frase veio mais baixa, mais direta — E quando alguém começa a ser tratado como “diferente” o tempo todo… Isso muda a forma como a pessoa começa a se ver.
Inuyasha não respondeu imediatamente, mas também não rebateu.
— Eles não estão só com medo do domínio de Sesshoumaru — Kagome disse, agora mais calma — Eles estão projetando isso nela.
— Normal. As pessoas, quando ficam com medo, acabam fazendo isso.
— E você acha isso normal?
— Acho é irrelevante — ele respondeu, direto.
Kagome fechou os olhos por um segundo.
— Para você, talvez seja...
Inuyasha soltou um pequeno suspiro irritado e disse:
— Kagome, você tá complicando uma coisa que é simples de entender.
— Não é simples — ela rebateu, sem elevar a voz. — Não para ela. E também não foi para você, lembra? Você também cresceu com a ideia de que era diferente de todo mundo...
Mais silêncio.
O ar entre os dois ainda estava quente, mas agora de um jeito diferente.
— O Sesshoumaru não tá “cortejando” ninguém — Inuyasha disse por fim, mais firme. — Isso não é do feitio dele.
— Eu também acho que não... — Kagome respondeu.
Ele virou o rosto de volta pra ela e completou:
— Ainda mais uma humana... Ele nunca se interessaria por uma. Ele tem... Nojo dos humanos! Sempre teve. Por que acha que ele me odeia tanto?
Kagome não respondeu imediatamente. Ela manteve o olhar nele por alguns segundos, como se estivesse medindo até onde podia ir.
— E mesmo assim… — disse, por fim.
— “Mesmo assim”?
— Ele se tornou o protetor de uma.
Inuyasha franziu o cenho e ficou em silêncio por alguns instantes.
— Não foi “uma humana qualquer” — retrucou, rápido demais. — Foi a Rin. Uma fedelha muito corajosa.
— Isso muda alguma coisa?
— Eu acho que sim.
Kagome inclinou levemente a cabeça.
— Por quê?
Inuyasha abriu a boca para responder, parou, franziu mais o cenho e claramente ficou irritado por não ter uma resposta imediata.
— Porque… — começou, então bufou. — Porque sim! Ele sempre disse que humanos são fracos e patéticos. Inúteis. Covardes. Sem nenhum valor, a não ser pra servir de comida... E, aí, veio a Rin, que tentou salvá-lo em um momento de vulnerabilidade. É totalmente o que o deixaria chocado porque, normalmente, um humano aproveitaria para matá-lo.
— Matá-lo...? É isso... O que ele pensava? — indagou Kagome.
— É o que todo youkai pensa, oras! Não é de hoje que humanos coletam cabeças e outras partes de youkai como espólios de batalha.
Ela abriu a boca e fechou. Pensou por alguns segundos, absorvendo aquilo, e então perguntou:
— Isso meio que aconteceu com você... Não é?
— Hunf...
— As pessoas viam as suas orelhas e tentavam... Matá-lo...?
— Ninguém me queria por perto. Porque eu era uma aberração. Algo que não deveria existir...
O silêncio que veio depois não foi leve. Kagome não respondeu imediatamente. Ela apenas continuou olhando para ele, como se, pela primeira vez naquela conversa, estivesse enxergando algo além da resposta impulsiva.
— E mesmo assim… — disse, mais baixo agora.
Inuyasha fez uma careta leve.
— O que?
— Mesmo assim — ela repetiu, sem recuar — Você não se tornou aquilo que esperavam de você.
Ele desviou o olhar.
— Keh... Eu só sobrevivi.
— Não — Kagome disse, calma — Você escolheu.
Ele voltou a encará-la.
— Escolhi, o quê?
— Não tratar a todos como inimigos declarados.
Ele ficou em silêncio novamente, sem responder de cara, mas também sem negar. Então Kagome continuou, agora mais firme:
— Você poderia ter feito isso. Ter se afastado de tudo. Ter se tornado o demônio que diziam que você era. Você tinha motivos para isso.
— Eu não sou como a maioria dos youkai...
— E o Sesshoumaru é?
A pergunta veio rápida e direta. Inuyasha travou por um segundo.
— Ele… — começou, então fechou a boca.
Kagome não desviou o olhar.
— Você disse que ele sempre desprezou os humanos — continuou ela — Que achava todos fracos, covardes, inúteis.
— E acha.
— Então, por que ele não a deixou morta? Porque usou a Tenseiga? Ele não tinha um motivo forte para salvá-la, pois ela não o salvou de fato... Muito menos tinha razões para mantê-la ao lado dele.
Inuyasha apertou levemente o maxilar.
— Ele só ficou curioso, foi isso.
— Por tantos anos?
Isso pegou.
— Curiosidade não mantém a atenção de um youkai tão poderoso e importante por 9 anos — Kagome disse, mais firme agora. — Nem o faz voltar de tempos e tempos. Nem o faz trazer presentes de alto valor. Nem… Declarar proteção à uma vila inteira que nem é de youkai.
O olhar dele desviou por um segundo.
— Como sempre, você tá exagerando...
— Estou mesmo? Você mesmo disse — ela continuou — Que um humano, na posição da Rin, teria aproveitado o momento para matá-lo.
— Sim.
— E a Rin fez o contrário disso. Ela cuidou dele... Mesmo sem ter motivo. Mesmo com medo. Mesmo sem entender quem ele era e o que estava acontecendo.
O silêncio entre os dois se alongou por mais alguns instantes, então Kagome perguntou:
— Isso não te lembra nada?
Inuyasha franziu o cenho.
— Do quê?
Kagome não respondeu de imediato.
— Do seu pai.
O nome não foi dito, mas não precisava. O efeito foi imediato. Sempre era.
— Keh, não começa com isso agora... — Inuyasha retrucou, mais seco.
— Por quê?
— Porque não tem nada a ver.
— Não tem mesmo? — ela se apoiou um pouco mais, mantendo o olhar firme no dele. — Um daiyoukai que despreza humanos, e mesmo assim escolhe proteger uma?
Inuyasha endureceu o olhar.
— Você acha que ele “engoliu tudo” o que sempre disse? — perguntou, com um tom quase defensivo.
Kagome inclinou levemente a cabeça.
— Eu acho que é exatamente o que ele está fazendo. Ou… Está começando a perceber que estava errado.
— Keh, Sesshoumaru nunca admitiria que está errado!
— Mas isso não significa que ele não possa mudar.
Inuyasha soltou um suspiro irritado, passando a mão pelo rosto.
— Você que gosta de sempre ver o lado bom dos outros.
— Eu espero que sim.
Ele olhou de volta pra ela e ela continou:
— Mas, se não estiver… — Kagome continuou, mais baixo — Então a Rin não está no meio de um boato. Ela está no meio de uma mudança.
A frase ficou no ar. Pesada. Difícil de ignorar. Inuyasha ficou quieto por mais tempo do que o normal.
— O meu velho… — ele começou, mais baixo — Fez uma escolha.
Kagome não interrompeu.
— E isso custou tudo pra ele.
O tom não era raiva. Era só... Uma constatação.
— Você acha que o Sesshoumaru faria o mesmo? — ela perguntou.
Inuyasha a olhou como se qualquer resposta que desse agora fosse ruim.
— Keh… — ele soltou por fim, mais baixo, menos convencido — Aquele idiota não é o tipo de fazer escolhas assim. Escolhas boas. Principalmente as que custam muito.
Kagome sustentou o olhar.
— Você tem certeza?
Silêncio. Longo.
— Eu… — ele começou, mas parou e desviou o olhar. — Báa, eu não sei!
Foi quase inaudível, mas foi honesto. Kagome relaxou levemente os ombros, não porque estava certa, mas porque ele finalmente estava olhando para o problema.
— Eu só não quero que a Rin seja esmagada no meio disso — disse ela, mais suave agora.
O clima a dois tinha mudado completamente. Mas o calor ainda estava ali, só que distante. Inuyasha não a puxou de volta, nem tentou novamente. Mas o braço dele continuou ao redor dela. Sem força.
— Hunf… — ele murmurou, olhando para o teto. — É melhor a gente dormir agora…
E Kagome sorriu e fechou os olhos.
É, desta vez, não iria acontecer... Mas isso não era ruim.
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