Último Vinho

1 Único capítulo.


Eu o vi saindo do bar de cabeça baixa, olhar perdido e respiração desregulada. Não havia bebido. É óbvio que não...

Me sentei num banco e me apoiei no balcão. Pedi um triplo do "de sempre" acompanhado de um cigarro...

— O que uma dama como você faz aqui? — Ele riu, e tragou do meu cigarro.

— Venho paquerar os copos de uísque.

— Doçura. — Se sentou ao meu lado, se curvou sobre o balcão e sorriu para mim — Sorte dos copos...

— Seu humor me dói no útero.

— Quanto drama.

— Quanta graça...

Eu estava para afundar sua cabeça contra a madeira velha que se estendia ponta à ponta do bar.

— Ele esteve aqui.

— Sei que esteve. Ele sempre está — Puxei um cigarro da carteira, saquei um isqueiro do bolso e ameacei ascender.

Ele me encarou...

— Ele ama minhas filosofias de merda.

...e puxou o cigarro

— Filosofias de bar superam muitas filosofias que são ejaculadas de mentes brilhantes.

Ele gargalhou, como se tivessem lhe contado a piada do ano. Respirou fundo e ergueu as sobrancelhas. Apontou com o cigarro para um vinho da prateleira...

— É francês, daqueles caros que não são tão bons assim, eu acho.

— Parece bom.

— É, não entendo muito de vinhos.

— Se eu descobrir que o líquido na taça de vinho é vinho, considere milagre — Ele riu — Pois é.

— Dificilmente vejo alguém escolhendo daquela garrafa.

— Talvez porque seja cara, ou não esteja num bom lugar para que a vejam.

— Ou talvez porque tenham medo de arriscar alto num copo de prazer.

Ele se ergueu, foi até a prateleira e puxou o vinho. Sacou a rolha e bebeu direto da garrafa.

— Continuando — Me passou a garrafa, e logo a virei...— Você é esse vinho. Esse mesmo; estranho e que poucos arriscam. O que se esconde no mar de tentações e que, sem sombra de dúvidas, dá água na boca quando é visto.

— Sou deliciosamente seca.

— Concordo.

Coloquei dinheiro sobre o balcão, e um copo suado sobre as notas para que não voassem.

— Onde vai? — Ele perguntou, correndo atrás de mim pelas calçadas.

— Vou encontrar meu apreciador. Não é sempre que algum maluco escolhe o ultimo vinho do bar...

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