Último Romance
2 Eu encontrei-a
Chovia muito naquela manhã. Os pombos, talvez, ficariam com fome. Caminhei lentamente pelo corredor da casa que divido apenas com minhas lembranças, até chegar à janela. A chuva escorria pelo vidro como lágrimas calmas. Preparei uma xícara de chá de erva-doce — o mesmo que Lilica preparava para mim nos dias frios. Ela dizia que o cheiro de erva-doce “abraça por dentro”. Eu sorria toda vez que ela falava isso. Hoje, sorrio e sinto um aperto.
Meus dias frios têm sempre esse perfume. O aroma que traz saudade — a outra companhia constante, junto com a solidão, desde que minha Lilica partiu.
Sim, tivemos filhos. Um rapaz e uma moça. Moram perto, mas distantes… Só nos vemos nos feriados importantes. No Dia das Mães, o almoço é sagrado. Preparamos a receita de lasanha que Lilica inventou e jurava que era “melhor que de restaurante”. Ninguém ousa mudar um ingrediente sequer. É como se, assim, ela ainda estivesse à mesa.
Aos filhos, dei tudo que pude, mesmo trabalhando muito e ganhando pouco. Com o tempo, alcancei minhas pequenas vitórias — como esta casa, onde passo a velhice. É a mesma casa onde Lilica pendurou cortinas floridas e insistiu em plantar roseiras no quintal, mesmo eu dizendo que não iam pegar. Até hoje florescem, teimosas, como ela.
Mas os filhos cresceram, seguiram a vida. Não faço parte dos planos deles. E não lhes tiro a razão. Quando se é jovem, a gente pensa no futuro, mas não no fim.
A chuva cessou.
Antes de sair, cumpri meu ritual: penteei meus ralos cabelos brancos diante do espelho de bordas laranja que ficava pendurado na porta. O mesmo espelho em que, certa vez, Lilica me pegou ajeitando a gravata e disse: “Ficaria mais bonito se sorrisse”. Guardei o sorriso e o velho pente no bolso da calça caqui.
Apanhei a bengala — mais responsável por me manter de pé do que a prótese da perna direita. Costumo dizer aos netos que sou dez por cento robô, mas aviso: “Não tentem isso em casa. Diabetes não é brincadeira.”
Saí pelas ruas não asfaltadas de Felicidade. Nome bonito, mas nem sempre verdadeiro. Naquele dia, os pombos comeriam migalhas de pão. Eles gostam mais do que milho — e minha aposentadoria agradece.
Era sexta-feira. A primeira do mês — dia do Baile da Terceira Idade. Um dos raros eventos da cidade que animavam o meu calendário. À noite, vesti minha melhor roupa. A dificuldade para pôr a calça me lembrou das vezes em que Lilica, rindo, dizia: “Para que esse drama todo? Vem cá, que eu ajudo”. Hoje, foi só eu e o silêncio.
Sapatos engraxados, camisa azul, perfume — porque ninguém é de ferro — e gel no cabelo. No salão, tocava Elvis Presley. Casais dançavam abraçados. Juvenal, o bebum simpático, rodopiava com uma garrafa de cachaça como se fosse a noiva. Ri sozinho, lembrando da vez que Lilica me arrastou para dançar, mesmo eu dizendo que não sabia. Ela me convenceu: “Dançar é só abraçar e deixar o corpo ir”.
Foi nesse riso solitário que a vi. Do outro lado do salão, uma senhora encostada na parede, bolsa dourada nas mãos. Talvez tenha pensado que eu sorria para ela, e retribuiu. Virei o rosto, disfarçando. Quando olhei de novo, ela tinha sumido.
E então, estava ao meu lado.
— Boa noite. Eu sou nova na cidade. Me chamo Morgana. Confesso que achei que, até o fim da noite, não encontraria ninguém simpático por aqui — disse, com uma risadinha tímida.
— O povo de Felicidade não costuma ser receptivo. Mas, com o tempo, a gente se acostuma, dona Morgana — respondi.
— Então não vai me dizer seu nome?
— Prazer. — estendi a mão. — Me chamo Joaquim.
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