Último Adeus
1 One-Shot
Notas iniciais
Caso queiram escutar...
"https://www.youtube.com/watch?v=vQVeaIHWWck"
“(...) Vou perguntar às três Moiras, Como vai ser o meu final, Vou partir com muitas mágoas
Ou serei muito cordial. Vou perguntar às três Moiras, Qual será o meu destino, Eu voarei como um condor
Ou pularei qual um felino. Vou perguntar às três Moiras, Se o meu destino é cruel, Se o futuro será, amargo, Ou será doce tal o mel. Vou perguntar às três Moiras, Qual será a minha verdade, Vou descer às profundezas, Ou viverei à eternidade.”
João Marino Delize
“Onde eu estou? Que lugar é esse? Em qual tempo será?” Sentia-me fora do meu ser. Como se passasse uma retrospectiva de toda a minha vida. E nesse sonho excêntrico o aparecimento de uma pessoa chamava-me atenção.
— Vovô? – Tentei falar, mas minha voz era inaudível. Ele parecia não me notar. Mas estava feliz e bem mais jovem do que me lembrara. – Isso é real? Mas como? Pareço ter oito anos... Como?
— Oi meu filho... Quer ouvir alguma canção? – Meu avô surgiu de repente ao meu lado me deixando um tanto confusa. Ele parecia tão saudável e forte. Seu cabelo esbranquiçado estava bem arrumado e trajava suas antigas roupas de quando era novo, um paletó marrom com um chapéu alinhado de mesma tonalidade. Suas feições eram alegres, apesar de não enxergar ele conhecia aquele lugar. Ele cantou para mim como costumava fazer quando eu era mais nova... Mas como? Aqui eu sou nova?
Eu estava dormindo quando minhas cavidades auditivas detectaram as primeiras lamurias naquele entorno. Encontrava-me no meu quarto junto com meu avô. Era um entorno simples e aconchegante com espaço para duas camas, um guarda roupa embutido e minha mesa para o notebook junto de uma estante projetada na parede com minhas coleções de livros.
“Foi tudo um sonho?” – Pensei enquanto sentava em minha cama.
Rapidamente me levantei pegando o meu celular para identificar que horas eram.
“São três da madrugada... Queria que uma parte daquele sonho fosse real”
Dirigi-me até onde as lamurias vinham e era dele. Meu querido e amado avô estava gemendo encolhido em sua cama hospitalar com um aconchegante edredom. Senti um aperto em meu peito. Vê-lo tão debilitado fazia-me sentir impotente. Queria fazer alguma coisa por ele. Seus lindos cabelos alvos cintilantes estavam opacos devido à idade. Não era mais robusto como outrora, sua derme era delicada e um tanto ressecada. Não importava quantas vezes passasse hidratante sempre voltava a se ressequir. Acariciei sua mão suavemente e aos poucos as lamurias diminuíam. Presumi que deveria esta tendo um sonho ruim.
- Vô? Esta tudo bem? – Falei e ele me respondeu com algumas palavras embaralhadas. Coisa que entendi como um “estou sim graças a Deus”. Sua dicção não era a mesma muitas frases saiam roucas e embaralhadas. Fazíamos um enorme esforço para Traduzir o que ele dissera. Apesar do estado debilitado continuava a ser um varão esguio e alto apesar de estar acamado. Andaria pelos 99 anos no mês que vêm. Encarava-o com um olhar cúmplice e tênue, lembrando-me de como fora a minha infância graças aquele homem.
Todos possuem um herói e a maioria costuma dizer “meu pai” Será que estaria sendo ingrata por não pensar assim? Se me perguntasse quem fora meu herói diria sem hesitar “Meu avô”. Meu pai é um bom homem, honesto, trabalhador e sempre dava tudo que precisávamos. Porém, nunca fora de conviver comigo e minha mãe. O papel masculino sempre foi do meu querido avô, Apesar de quando nascera ele já fosse idoso. Pude desfrutar de brincadeiras e ouvir inúmeras histórias e canções da sua própria autoria. Achava que o tempo nunca passaria para ele e que sempre seria o meu alicerce, meu eterno alicerce.
Pobre ilusão que construí com aparato rúptil. Meu arcabouço começara a se ruir, junto de um coração pulverizado por tamanho padecimento. Sentia aquela mesma apreensão, ácida que corroia minhas entranhas. Estava em um oceano de incertezas e a maré sugava-me para o fundo. Aquela mesma lamuria retornaram e tentei ameniza-las contando-lhe uma estória de muito tempo atrás.
- Gostaria de ouvir um conto? – Eu o perguntei e interpretei que fora um sim dito.
- Fora a muitos e muitos anos atrás, época dos deuses da mitologia grega. Em um lugar indeterminado, havia três irmãs deusas um tanto lúgubres, responsáveis por fabricar, tecer e cortar o fio da vida dos deuses e dos seres mortais. Seus nomes eram: Cloto, a fiandeira que representava a que tecia a teia da vida. Átropos, a que cortava o fio da vida; e, Láchesis, responsável pela distribuição da parte que cabe a cada alma. Filhas dos deuses Moro e Nix, o destino. Durante o trabalho, as moiras, como foram chamadas faziam uso da Roda da Fortuna, que é o tear utilizado para se tecer os fios. Elas também eram responsáveis pela sorte e o “Azar” de cada ser, quando posicionava a parte do fio de um individuo em local privilegiado, ele teria sorte caso contrario, azar. Em um dia, após a morte de todos os deuses do olimpo, as três moiras viram-se sozinhas no mundo moderno. E assumiram o papel do nascimento e partos –Cloto-, enquanto Láchesis os quinhões de atribuições que recebíamos em vida, Átropos continuava a que colocaria o fim. Então a cada nascimento, atribuições e mortes que ocorrem em nossas vidas. Sentimos uma leve presença de uma das três moiras ao nosso lado –dependendo da situação-
Eu terminei o conto e ele voltara a dormir docemente, voltei para minha cama em buscar de acalmar meu coração. Desde o último mal estar que ele tivera uma presença emanava em nosso quarto. Dor, angustia, frio... Eu podia sentir cada um deles. Sentia que alguém me observava. Sentia o fim próximo. E isso me causava uma dor impetuosa.
Durante toda a noite não conseguira dormir por uma ocasião sequer. Velei pelo sono do meu querido avô. Não tardou à alvorecer, os raios do vasto astro adentravam aquele entorno fazendo meus olhos estreitarem. Sentei-me espreguiçando lentamente cada juntura do meu corpo. Verifiquei se ele estava bem e constatei que o mesmo repousava graciosamente e logo fiz minha higienização matinal. Tudo ocorrera bem naquela manhã agradável e rotineira. Dirigi-me para o meu quarto afim de nutri-lo como costumeiramente.
- Garotinho? Esta na hora de alimentar-se, o que acha de acordar e comer tudo como uma boa criança? – Sua respiração estava fraca pensei por um breve momento que estava em um sono profundo já que outrora ele teve uma pequena dificuldade em dormir. Ele nada respondeu, apenas dormia.
- Lena? – Chamei minha irmã por um breve momento, ela possuía os cabelos mais loiros que os raios solares, andaria na casa dos 31 anos, mas velha do que eu por 10 anos.
- O que passa Victoire? – Dirigiu-se para mim. – Precisa de alguma ajuda?
- Sim, Queria sentar vô poderia me dar uma mãozinha lora? – Sorri gentilmente, enquanto ela retribuía. Estávamos no quarto, enquanto ele ainda dormia.
- Ei rapaz, vamos sentar? – Ela dizia para ele que apenas fez um gesto que iria responder sem sair nada da sua voz. Senti aquele energia negativa pairando no ar daquele entorno, era forte e chegava até me sufocar, me analisando. Eu não entendia o que era, Mas angustiava-me.
Ele estava quieto em sua cama, respirando tranquilamente, porém, de um modo fraco e lento. Preocupamo-nos e decidimos chamar os paramédicos, afinal naquela idade à atenção merecia ser triplicada. Lena retirou-se daquele ambiente, enquanto eu ficava ao lado do nosso avô, observando-o. Analisei sua respiração lentamente, podia sentir seu pulso, estava fraco mais ainda batendo... Até que... Os Sinais diminuíram, diminuíram e... Pararam.
- Lena!
- O que foi? – Ela disse enquanto estava ao telefone.
- Venha aqui! – Exclamei em choque sem entender. Ela apareceu e quando observou ele todo em si.
- Vic... Ele... Ele faleceu! Mas... – Ela disse enquanto lagrimas surgiam em seus olhos deixando o rosto outrora alvo, rubro.
- Não! Ele... Ele esta dormindo... Fale com o paramédico para vir aqui agora! – Eu não saia do seu lado, segurei sua mão forte – Você não pode descansar agora, tenho tantas coisas para te contar ainda, tantas histórias. Quem vai me chamar à noite perguntando se já são horas de comer? Ou quando esquece alguma coisa? E quem irá contar piadas sem graça mais que quando você ria eu ria junto? Canções de sua autoria? E o principal, quem vai ser o meu bebezinho? – Eu disse enquanto acariciava a sua cabeça. Não queria acreditar... Não podia acreditar.
“Será que não é um sonho? Diga que não é verdade!”
Logo os paramédicos chegaram e eu respondi todas as suas perguntas, enquanto o outro examinava o meu avô.
- Infelizmente não há mais nenhum sinal vital. Ele faleceu senhorita Victoire e Elena. Eu sinto muito. – Os paramédicos foram embora e ficamos cerca de uns minutos em estado catatônico.
- Precisamos falar com tia e pedir o atestado. – Ela dizia para mim e eu nada respondi. Durante horas enquanto aparecia vizinhos e familiares eu não sai do lado dele, queria que fosse um sonho ruim que fosse ilusão. Mas aquele peso que antes havia em nosso quarto havia desvanecido.
“Por favor acorde, abra os olhos, por favor!” eu suplicava mentalmente.
- Vic, Vic você esta bem? Vic? – Vozes chamavam-me e eu ignorava. Queria ficar ali, naquele quarto ao lado dele. Até que o rapaz responsável pela funerária chegou e acomodou o corpo naquele ataúde emadeirado com verniz. Meu coração se partiu e eu chorei por diversas horas não recordo quem me consolara –ou ao menos tentou consolar- E também não recordo quem acompanhou o corpo- Durante a noite não dormi, aquele quarto vazio incomodava-me, corroia minhas entranhas. Minha irmã tentou me dar algo para comer e eu apenas recusava com a cabeça, não falei mais desde então.
No outro dia ocorrera o velório e eu fiquei sentada ao lado do ataúde com o olhar fixo em meu avô. Todos olhavam para ele e vinham me consolar por eu ter cuidado durante tempos dele. Confesso que não entendia a maioria do que falavam. Minha mente estava “distante” demais para entender ou ouvir o que eles queriam. Vários carros acompanhavam o carro principal que levava o esquife em direção ao cemitério.
Quando chegamos naquele local verdejante com varias árvores e gramas por todo o lado –e algumas lápides- um clima de paz pairava ali, sabia que nada mais era um sonho. Os homens começaram baixar o ataúde, não aguentei e desabei em lágrimas. Minha irmã me abraçou forte me consolando apenas com gestos do que com palavras. Até que depois ela disse baixinho:
— Eu sei que a saudade será eterna, mas ele deixou algo. Uma herança para todos nós que ninguém poderá tirar nem roubar. Os seus ensinamentos serão eternos. E quando você sentir saudade basta olhar para o céu. É lá que ele estará sempre velando por nós.
Aquelas palavras eram certas, mas a saudade era imensa e eu estava acostumada a dormir e cuidar dele. Como eu esqueceria algo assim?Ou pior, como poderia me acostumar com algo assim? A deusa Celesta mensageira de Hades não o poupara, mas reconheço que deu a morte mais digna a um mortal. Sem dor, lamurias ou algo do tipo.
Quando cheguei em casa e sentei-me na cama do nosso quarto, um vento forte –coisa que nunca acontecera, já que aquele lado não ventara muito- envolveu todo aquele entorno como uma brisa agradável que embalsamava adentrando minhas cavidades pulmonares. Aquele mesmo vento aquietou o meu coração e suavizou todas as minhas angustias e incertezas.
— Vovô? – Pude sentir que era. Pois cada vez mais me apaziguava. Desde aquele dia não senti nenhuma calma como agora. Sabia que meu herói estava em paz e descansando. Ele teve uma longa batalha bem sucedida e agora era hora do devido repouso.
“Aqueles que amamos nunca morrem, apenas partem antes de nós.”
Amado Nervo
Notas finais
Espero que tenham gostado e aproveitem o tempo com cada pessoa querida para vocês.
Beijos atenciosos da Étoile W.
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