Última Dose de Felicidade
18 I See Fire
Notas iniciais
– Hanna, eu sou lésbica e apaixonada pela Jessie.
Tudo bem, depois daquele beijo já dava para desconfiar, mas com a Lauren me dizendo isso e chorando de soluçar, era uma coisa extremamente difícil de ouvir.
– L, vai ficar tudo bem – eu a abracei e deixei que ela chorasse em meu ombro.
Depois de alguns minutos meu celular começou a tocar e a foto de Jessie apareceu no visor com o nome “Jessie ♥”. Como era de se esperar, fiquei em choque e mostrei para Lauren; ela me mandou atender logo, pois devia ser alguém usando o telefone dela. E não deu em outra:
– Alô? – eu disse.
– Hanna? Oi. Aqui é o Jacob. Eu esqueci meu celular em casa, então tive que usar esse aqui... Me desculpa se eu te assustei.
– Ah, sem problemas, Jacob.
– Bom, só liguei para avisar que o velório vai ser amanhã às dez horas.
E toda a esperança que eu tinha de que tudo aqui fosse uma espécie de delírio se transformou em tristeza. Eu sabia que ela estava morta, mas aquilo era mais uma confirmação.
– Ok. Muito obrigada por me ligar avisando.
– Você pode avisar a Lauren, por favor?
– Claro, eu aviso.
– Até lá.
Desliguei o telefone e disse para Lauren sobre o velório, ela apenas assentiu.
Fiquei lá com Lauren mais uns trinta minutos e incrivelmente conseguimos não chorar. Depois eu resolvi ir embora. Chegando em casa fui tomar banho e dormir, pois eu precisava descansar. Os acontecimentos daquele dia já haviam me esgotado o suficiente. Coloquei o celular para despertar oito e trinta, embora a minha vontade fosse não acordar nunca mais, e dormi instantaneamente. Para a minha sorte foi uma noite sem sonhos.
No outro dia, procurar uma roupa para o velório foi um dos maiores desafios, depois de levantar e não ficar na cama chorando. Eu não tinha nenhuma roupa que combinasse com a ocasião, pois eu não ia muito a velórios, mas tentei achar a mais discreta possível.
Quando eu desci para a sala de estar, Louis e Tom estavam de terno e minha mãe estava com uma roupa preta e um véu, enquanto eu estava de All Star, calça e camiseta. Louis pegou a chave do carro e disse “Vamos.”, então nós saímos, entramos no carro e seguimos em direção à funerária onde poderíamos ver o rosto de Jessie por umas três horas até ela ser enterrada.
Chegamos lá e cumprimentamos todos os parentes dela, os amigos e a cada pessoa que passava, cada abraço, cada aperto de mãos, mais lágrimas escorriam pelo meu rosto, cada um deles confirmando que aquele era um caminho sem volta.
Finalmente, depois de abraçar todos, fui ver Jessie no caixão. Eu poderia viver mil vidas e nunca estaria preparada para aquele momento. Foi sem dúvidas uma das piores sensações que já experimentei. Ela estava maquiada, mas não com sua maquiagem habitual que a deixava ainda mais linda, e sim com aquela maquiagem de defuntos, que os deixa ainda mais pálidos. Tentei pensar que ela apenas estava dormindo. Tentei pensar que ela estava num lugar melhor agora, afinal. Sim, tenho certeza de que Jessie estava no céu.
Eu queria abraçá-la, mas não queria estragar tudo que os funerários haviam arrumado, então me contentei em dar um beijo em sua testa e ficar acariciando sua mão, eu não queria sair de perto dela. Pode parecer insano, mas no fundo eu queria estar perto caso ela acordasse.
Lauren chegou quando eu estava conversando com a mãe da Jessie, a dona Sarah. Ela a cumprimentou, me abraçou e caiu num choro silencioso em cima do corpo de Jessie. Eu não queria a incomodar, então a deixei lá e fui me sentar um pouco.
Quando olhei para o relógio faltavam vinte minutos para treze horas, então fui ficar mais um tempo ao lado do caixão. Lauren ficou ao meu lado, abraçada a minha cintura, e ficamos aproveitando nossos últimos minutos juntas, as três, como deveria ser. Mas depois disso, Jessie iria fazer sua própria viagem, sozinha, e nem eu nem Lauren poderíamos impedi-la ou acompanha-la. Quando nosso tempo acabou e os agentes funerários vieram lacrar o caixão, nosso choro aumentou tanto que nossas mães precisaram nos retirar dali para que pudessem prosseguir com o funeral.
Chegando ao cemitério, percebi que Lauren carregava algo em uma caixa preta. Perguntei o que era e ela me disse:
– O álbum que nós fizemos. Eu queria que ela fosse enterrada com ele, se você não se importar.
– Você diz... deixar que todas nossas memórias morram com ela?
– Não, eu digo, deixar que ela nunca se esqueça.
– Não vejo um motivo melhor para ficarmos com ele – eu respondi com a voz embargada.
Então todos ficamos em volta da cova e o caixão de Jessie foi descido até o fundo. Sua mãe começou dizendo algumas palavras sobre ela, seguida de seu pai, seu irmão, e então foi minha vez. Não me recordo o que disse, a tristeza era tamanha que me deixou numa espécie de transe. Quando chegou a vez de Lauren, ela falou em homenagem à Jessie e disse que queria deixar que o álbum fosse enterrado com ela. Esse ato foi permitido, então o álbum foi colocado sobre o caixão de Jessie.
Quando eu já não tinha forças para mais nada, a mãe de Jessie me pediu para que eu jogasse o primeiro punhado de terra. Eu não podia recusar, então eu o fiz e não vi quais foram as pessoas que jogaram depois de mim, só vi que logo depois estavam jogando pás de terra e não punhados. Apenas alguns minutos depois Jessie estava totalmente enterrada. Sete palmos abaixo do chão. Para sempre. Aquela seria sua morada a partir dali.
Eu cai de joelhos e chorei sobre seu túmulo. Simplesmente não dava para aceitar que eu nunca mais a veria, nunca mais falaria com ela e nunca mais a abraçaria. Um pedaço de mim havia morrido com ela.
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