Última Chance, Judd.
18 Capítulo XVII
Capítulo XVII: Nell.
"Fique à vontade."
Dougie atira o molho de chaves para qualquer canto do apartamento antes de finalmente apanhar a sacola de sorvetes da minha mão. Eu, sem relutância, o deixo, distinguindo vagamente o toque mínimo dos seus dedos sobre os meus, congelados e dormentes, durante a ação. Na realidade, o que chego a sentir é por apenas uma fração de segundo antes que os meus dedos voltem a ficar frios mais uma vez. Aparentemente, eu sou estúpido demais para usar as alças da sacola de plástico.
Depois de um tempo exato de sete segundos (maldita autoconsciência!), eu avanço incerto pelo pequeno corredor de paredes claras, seguindo Dougie até me ver parado no meio de uma sala de estar moderadamente pequena. O tom pastel das paredes desaparece para dar espaço a um papel de parede decorado de flores miúdas, tão pequenas que eu mal consigo enxergá-las. Inconscientemente, eu escaneio o cômodo à minha volta, lançando um olhar esquisito e meio engraçado às almofadas laranja-fluorescente espalhadas pelo sofá branco. É inevitável não rolar os olhos para o chão (assoalho de madeira, eu computo por algum motivo na minha mente), então para os móveis ajeitados numa meticulosidade impressionante e a TV ligada, saltando de imagem para imagem, mas sem nenhum som. As minhas sobrancelhas se arqueiam em confusão.
Antes que Dougie possa me avisar de algo, literalmente algo pula sobre as minhas costas, me empurrando para frente pela lombar e quase me fazendo perder o equilíbrio. Com um grunhido surpreso, muito mais alto do que eu planejaria, eu giro nos meus calcanhares.
"Mas o quê–"
"Joni!", Dougie volta correndo da cozinha, o seu rosto contorcido numa careta, como se ele quisesse rir, mas não pudesse. "Não faça assim com as visitas!"
O meu olhar automaticamente recai sobre um monstro – não, não cachorro – aos meus pés, balançando a cauda escura de um lado para o outro, contente, a língua desenrolada pendendo para fora da boca e os seus olhinhos pretos me encarando como se eu fosse um grande amigo que há muito tempo não dava as caras. O cachorro funga num semi-latido e enfia o focinho entre as minhas coxas de uma maneira quase que amável, o que faz com que eu tente recuar de algum jeito, rindo um pouco. Uma das minhas mãos automaticamente alcança a cabeçorra do animal e, com as pontas ainda geladas dos dedos, coço atrás de uma das suas orelhas, ganhando um ganido satisfeito do cachorro.
"Ele é novo ainda, não sabe se comportar direito", Dougie explica, lançando ao animal um olhar reprovador. Logo o vejo sorrindo, no entanto, se contradizendo totalmente. "Eu deixo a TV ligada quando saio. Ele se sente sozinho."
A minha atenção é desviada por um instante para o seu sorriso. Não há nada de especial nele – apenas um curvar bobo de lábios vermelhos, os olhos focalizados no cachorro, lhe lançando um olhar carinhoso que, inconscientemente, eu desejo que fosse para mim. Apenas por um instante, eu desejo que aquele olhar fosse direcionado a mim.
Dougie não afasta os olhos de Joni.
"Bem...", eu começo, a voz fraca, nem ao menos me importando em forçar um sorriso. Sem pedir permissão, me atiro sobre o sofá mais próximo ao meu alcance (depois de deixar minha mochila ao lado dos meus pés, no chão), fazendo com que o cachorro se afaste de mim, amedrontado pela ação súbita. "Não foi nada, eu só me assustei um pouco."
Eu não sei honestamente se Dougie percebe algo de diferente na minha voz e no meu comportamento – até mesmo porque eu ainda não descobri o que anda acontecendo comigo –, mas se nota, não comenta nada. É com um sorriso fraco esticado pelos lábios que ele desaba sobre o sofá ao meu lado, tomando um extremo cuidado para manter uma distância considerável de incríveis dois assentos entre os nossos corpos.
Aquilo me incomoda.
"Então...", ele começa, hesitante.
"Eu não sei", rio quieto, de uma maneira beirando ao cinismo. "Eu não sei o que está acontecendo."
Há um silêncio incômodo entre nós. Dougie parece quere dizer algo, mas nenhuma palavra sequer sai da sua boca. Ele se revira e se revira no sofá, tentando encontrar uma posição mais confortável, sem arranjar coragem alguma para me olhar nos olhos.
"Por que você fingiu estar doente?"
A pergunta faz com que o silêncio entre nós perdure por mais alguns minutos.
"Nell ligou no trabalho para mim", Dougie começa soando incerto, remexendo os dedos sobre o seu colo. Eu, também, não consigo desviar meu olhar dali. "Pela manhã, eu não estava me sentindo muito bem mesmo. Mas... Como dizer isso sem soar imbecil? A inquietação estava dentro da minha cabeça, ela está tão cheia de coisa esses tempos..."
Com a sua resposta, eu arqueio uma das sobrancelhas, me recostando um pouco mais no sofá, incerto.
"E isso por acaso tem a ver comigo ou você só decidiu que seria engraçado me evitar por todo esse tempo?"
"O quê? N-não!", ele gagueja, soando quase ofendido pela minha pergunta. O seu olhar finalmente sobe até o meu, algo que dura menos do que três segundos. É meio irritante como ele não consegue sustentar um olhar sequer na minha direção. Qual é o meu problema?
"Então o que diabos eu te fiz para você começar a agir assim?", inconscientemente eu escuto minha voz alcançar uma oitava acima do normal, soando quase engraçada pelo meu súbito desespero.
Um novo silêncio se sustenta por tempo demais entre nós dois.
Finalmente, escuto Dougie suspirar curto ao meu lado, soando tão derrotado quanto eu.
"Harry... Eu... Olha...", mais um suspiro de Dougie e então ele volta a dizer. "Eu não posso continuar assim."
"Assim como?"
"Assim... Assim... Com você."
"O que diabos você está dizendo? Isso não faz nenhum sentido!"
"Eu perto de você o tempo inteiro!", Dougie responde estrangulado, num tom de voz quase estridente, muito parecido ao meu de minutos atrás. "Eu não consigo mais!"
Pego de surpresa, eu ergo meu olhar até o rosto de Dougie. As suas bochechas estão tingidas de um vermelho tímido, ao contrário das suas orelhas, de um vermelho-vivo absurdo. O seu lábio inferior também está avermelhado, levemente inchado pelo excesso de mordidas nervosas que ele já recebeu, e a argola do piercing reluz dependendo do ângulo com que a luz fraca da sala o ilumina. Os seus olhos estão voltados para qualquer lugar além de mim, os joelhos, juntos, e os braços caem molemente sobre o seu colo. Dougie continua a brincar com os dedos, incerto.
Aquilo não faz nenhum sentido. Primeiro, nós nem ficamos tão tempo juntos um do outro. Segundo... Qual diabos é o meu problema? Ele tem algum problema em estar perto de mim? Eu por acaso trago memórias ruins para Dougie ou algo do tipo? Porque eu não sei mais que merda está acontecendo por aqui.
"E o que isso quer dizer?", eu pergunto entre dentes. "Eu quero dizer, tudo bem, admito, não sou uma das melhores companhias que uma pessoa poderia ter, mas até mesmo eu não sou tão ruim assim para se estar perto!"
"Eu nunca disse que você é uma má companhia para mim!", é um pouco engraçado o nível de desespero de Dougie. Se nós estivéssemos em outra situação, eu provavelmente até riria disso tudo. "Eu gosto de te ter por perto!", ele completa, a sua voz atingindo um novo agudo que me faz estremecer por um segundo.
E então eu paro. Mais uma vez, os meus olhos estão grudados no rosto de Dougie.
"Gosta?"
Isso é ridículo, mas eu consigo atualmente sentir as minhas orelhas pegarem fogo. E a droga do meu estômago saltar para a minha garganta em questão de segundos.
"É claro que sim!", Dougie confirma, ainda bastante exaltado. É um pouco engraçado olhá-lo e notar como o seu rosto consegue atingir mais de três tons diferentes de vermelho em um tempo recorde de dois segundos.
"Porra...", uma das minhas mãos automaticamente sobe para o meu cabelo, o afastando para trás numa maneira nervosa. "Então por que você quer se afastar de mim? Isso não faz nenhum sentindo, Poynter."
"Eu preciso me acalmar...", Dougie respira fundo ao meu lado, subindo as mãos para o rosto e pressionando os punhos fechados contra os olhos. "Isso tudo está tão fodido...", ele completa numa vozinha fraca.
Eu me sinto um imbecil por querer rir numa situação como essa. Eu não sei o porquê, mas tudo é tão engraçado e simplesmente impossível que eu mal consigo refrear uma risada antes que ela saia parcialmente pelo meu nariz. O som estranho faz com que Joni, deitado perto dos nossos pés, erga um pouco perdido a cabeça, logo voltando a caí-la sobre as suas patas no chão, desinteressado. Eu vejo pelos cantos dos olhos Dougie descer os punhos do rosto para olhar descrente para mim, como se ele não acreditasse que eu estou realmente rindo por uma coisa dessas.
"É, ria bastante", ele resmunga com um meio-sorriso no rosto, me empurrando pelos ombros em seguida no sofá. "Sabe o que é mais engraçado nisso tudo?"
"Outch! O quê?"
"Você me confunde às vezes e nem se dá conta disso."
Antes que eu possa respondê-lo de alguma forma, Dougie já está se erguendo do sofá e desamassando as roupas no corpo. Ele então pula Joni no chão e arrasta a ponta de um dos pés contra a barriga do cachorro, num afago mínimo, que rola deitado para deixar as patas no ar e a cauda balançando de um lado para o outro, contente. Enquanto Dougie sorri, caminha pela sala e então desaparece numa das portas que eu suponho ser a da cozinha, ele nem sequer uma vez espia por cima dos ombros para consequentemente olhar para mim.
Eu ainda estou sem muita reação, tentando sofregamente pôr algum sentido às palavras de Dougie, fazendo esforço para encaixar todas as peças nos seus devidos lugares e entender de fato o que diabos ele quer dizer com aquilo. Não sei como eu posso confundi-lo de alguma forma, já que algumas vezes penso ser exatamente o contrário. Dougie simplesmente tem essa facilidade em me deixar confuso com – por exemplo – frases como essa. Como eu poderia confundi-lo, de qualquer maneira?
Os meus pensamentos estão trabalhando tão rápido dentro da minha cabeça que eu mal escuto a voz de Dougie me perguntar:
"Ah! Você quer sorvete?"
Com a mente mais leve do que o normal, atordoado, eu pisco devagar, assimilando aos poucos as palavras de Dougie no mesmo instante em que ergo o rosto à procura da fonte da sua voz. A sua cabeça está metida para fora da porta da cozinha e as suas mãos estão agarradas ao batente dela, enquanto ele me olha de uma forma paciente, esperando pela minha resposta. É nesse instante em que Joni funga o ar e então se ergue do chão para seguir seu dono, preguiçosamente se pondo nas quatro patas, ainda chacoalhando a cauda fielmente.
A minha resposta é apenas um sacudir vago de cabeça.
O tempo passa devagar à minha volta. Vagamente, eu consigo distinguir um ou outro barulho vindo da cozinha – gavetas sendo abertas e fechadas, o tilintar de talheres, a sacola de plástico sendo amassada, passos calmos vindo de lá para cá – enquanto continuo sentado, praticamente imóvel. Sem perceber, os meus olhos se grudam na tela plana da TV, estáticos, deixando a minha mente computar rápido demais toda a nossa conversa de minutos atrás.
Eu tenho essa sensação de que aquilo está simplesmente errado.
Então eu faço o inimaginável: pela primeira vez em toda a minha vida, eu sigo os meus instintos primitivos. Antes que o meu cérebro ao menos precise mandar um comando para as minhas pernas para elas se moverem, eu já me vejo em pé, decidido. Os meus punhos estão fechados, cada um ao lado das laterais do meu quadril, os dedos pressionados uns contra os outros tão forte que chego até mesmo a sentir as minhas unhas cravarem contra as palmas das minhas mãos. Eu não consigo explicar o que é aquela adrenalina bombando alucinada pelo meu sistema, mas, assim sendo, faço o mesmo caminho de Dougie para a cozinha, a passos firmes, inabaláveis.
Quando o alcanço com os olhos, paro automaticamente, quieto, um pé metido na cozinha e o outro ainda na sala. Dougie está com a lombar apoiada na pia, os dedos entrelaçados num dos potes de sorvete e uma colher enfiada parcialmente dentro da sua boca. Joni está sentado paciente ao lado dos seus pés, o olhar pidonho focalizado no doce entre as mãos de Dougie (e eu tenho quase certeza de que consigo ver um resto de sorvete derretido sobre o seu focinho). Subitamente, toda a minha coragem vai drenando numa lentidão tão agonizante que quase me faz entrar em pânico.
"Mudfou dfe idfeia?", de sobrancelhas levemente arqueadas, ele pergunta, ainda com a colher entre os lábios partidos. Ao me ver, Joni balança a cauda mais uma vez, contente, ofegando baixinho, mas não sai do lado do seu dono.
"Dougie...", começo incerto, engolindo em seco.
"Hmm-hmm?"
A atenção de Dougie mecanicamente se volta por completo para mim. Ele enterra a colher no sorvete, deixa quietamente o pote sobre a pia e então torna a me olhar com a mesma preocupação estúpida de antes, esperando por alguma reação minha. No fundo da minha mente, escuto Joni ganir agudo no instante em que o doce sai do seu campo de visão, mas eu tento ignorar ao máximo a presença do cão. Por algum motivo, eu me sinto culpado de alguma forma em saber que o cachorro está nos observando a todo tempo, como se fosse um verdadeiro álibi da nossa insanidade (bem, da minha, pelo menos).
Insanidade, eu digo, porque, sem notar, as minhas pernas estão novamente agindo por contra própria, arrastando devagar meus pés pelo piso de linóleo da cozinha na exata direção de Dougie. Eu noto os seus ombros se retesarem e, ao me aproximar o suficiente para poder sentir a sua respiração suave bater na altura da minha pele do pescoço, posso também perceber como ele inspira e expira descompassado. Os seus olhos sobem hesitantes até os meus e ele simplesmente pisca, abobado, no exato momento em que nós fazemos (e mantemos) contato visual.
É uma sensação estranha. Os meus dedos há muito tempo já se amoleceram, se desfazendo dos punhos doloridos, deixando marcas de unha em meia-lua nas palmas das minhas mãos. Com isso, há também uma pequena ardência sobre a minha pele machucada e eu noto, admirado, que nunca teria reparado nisso se a situação fosse outra. Por algum motivo, estar perto de Dougie simplesmente faz com que eu fique mais atento aos meus próprios sentidos.
É com uma leve surpresa que percebo a semi-carranca que se forma súbita no rosto de Dougie.
"Harry, você está fedendo a cigarro", ele resmunga, soando descontente, mesmo não tomando nenhuma atitude para se ou me afastar.
Eu reviro os olhos antes de resmungar de volta:
"Poynter, você pode calar essa boca por um segundo, por favor?"
Ele parece indignado, mas felizmente apenas me obedece. Um pouco perdido, azul dos seus olhos sobe até o meu e se mantém ali fixo por um tempo exato de cinco segundos antes de Dougie perder a coragem e quebrar o contato visual. Sem saber o que fazer com as mãos, ele as apoia no balcão da pia, grudadas às laterais da sua cintura, e recua um passo para trás. Ironicamente, eu me sinto arriscando um passo para frente e deixando minhas mãos caírem exatamente ao lado das de Dougie. Ele sibila algo surpreendido.
Eu não sei o que há comigo. A minha pele inteira está quente e as minhas pernas mal conseguem me sustentar em pé. Os pêlos dos meus braços estão eriçados. A minha garganta está seca. Os meus olhos, presos aos pontos brilhantes dos de Dougie.
"O q-quê–"
Antes que Dougie possa continuar a verbalizar um protesto, o meu rosto cai reto sobre um dos seus ombros e o "smack" baixo que se reverbera entre nós dois é abafado pelo tecido do seu moletom.
"Outch", resmungo contra o seu ombro. "Você continua ossudo como sempre."
"E você continua imprevisível como sempre", Dougie ri, menos nervoso, e eu posso sentir a sua respiração ainda contra o meu pescoço, aquecida e doce. "O que você está fazendo?", ele continua, soando minimamente mais à vontade com a situação toda.
"Descansando a cabeça no seu ombro", respondo o óbvio. Então reviro o rosto para deixar a ponta do nariz contra o pescoço de Dougie. "Você cheira a cachorro. E a alguma coisa adocicada."
Dougie parece não saber o que responder ao meu comentário estranho, já que nenhuma resposta chega até os meus ouvidos. Eu sinto, no entanto, o seu rosto se mover de leve para baixo e um dos seus polegares tocar tentativamente o meu próprio, tão fraco e inseguro que mal sinto a pele do seu dedo se arrastar contra o meu. Quando ele encontra a única junta do meu polegar, pressiona o final da unha ali e então a massageia para cima e para baixo, um pouco mais confiante pela minha falta de reação.
De alguma maneira, aquilo começa a me acalmar.
"Não me pergunte o que eu estou fazendo, porque eu realmente não faço a mínima ideia", murmuro, deixando os olhos caírem fechados e o arrepio comprido que começa pelo meu nariz ainda inchado se espalhar pelo meu corpo inteiro.
É engraçado como o meu coração está entalado na minha garganta, bombando alto demais. Nesse momento, eu imagino se Dougie consegue escutá-lo de algum jeito e, inconscientemente, o meu corpo se arrasta para mais perto do dele, o empurrando contra os armários do balcão da pia. Ele chia mais uma vez, quietamente, e se ajusta entre o espaço mínimo entre o meu corpo.
Nós estamos colados numa única massa de corpos.
Eu nunca achei que seria, mas a realidade é que é uma sensação muito confortável ter alguém compressado contra mim. Pode soar estranho (porque, bom, isso repetido dentro da minha cabeça definitivamente soa), mas ficar simplesmente ali, quieto e imóvel, escutando o barulho áspero e incerto da respiração de Dougie em sincronia com a minha própria é uma sensação reconfortante. Como se eu não fosse o único a estar à beira de um colapso nervoso nesse exato momento.
"Ah...", os dedos de Dougie tremem vacilantes sobre os meus. "O que n-nós fazemos agora?"
É uma pergunta baixa e amedrontada. No fundo da minha mente, escuto o estalinho nervoso da língua de Dougie contra o céu da sua boca e então o meu cérebro estala. "Boca". Eu realmente não sei como. "Boca". O que diabos–?
A última imagem que se projeta dentro da minha cabeça antes de tudo simplesmente esvaziar e ficar branco é a minha boca compressada contra a boca de Dougie. Quando eu abro os olhos e afasto recuante o rosto do seu ombro adocicado, meio zonzo pela falta momentânea de direção (e surpreso pelos meus próprios pensamentos), Dougie está me encarando meio confuso meio surpreendido meio ferido. E então o seu olhar amolece. Ele me compreende.
Nós não podemos fazer isso.
Uma das minhas mãos se espalma contra a sua nuca e os meus dedos se flexionam ali.
Nós não podemos fazer isso.
A minha língua umedece os meus lábios rachados e Dougie engole em seco.
Nós não podemos fazer isso.
O meu corpo se pressiona um tanto mais contra o dele e um novo chiado se escapa pelo ar antes que eu alinhe nossos rostos. A minha respiração entala no nariz e na garganta e faz pressão para escapar de alguma maneira e Dougie está me encarando com aquele olhar e então ele cerra os olhos numa ação clara de permissão e as minhas pernas tremem e eu me inclino para frente.
"Dougie?", uma vozinha abafada ressoa pela sala.
No momento seguinte, um ruído seco de porta rangendo repercute por todo o apartamento, seguido por um "bam" e o barulhinho distinto de chaves tilintando. Sobressaltado, eu pulo para longe de Dougie num único movimento enquanto ele me segue, parecendo tão nervoso quanto eu, me empurrando pelos ombros e me sussurrando para me esconder em algum lugar. Eu não sei exatamente o porquê, mas tenho a decência de manter a minha boca fechada, pelo menos por uma vez na vida.
Eu não sei para onde ir. Atordoado, os meus pés se embolam e eu tropeço neles mesmos, me segurando pateticamente no balcão da pia para não cair, enquanto Dougie corre para fora da cozinha, seguido de Joni (estranhamente quieto o tempo inteiro entre... bem, o acontecido entre mim e Dougie). Vagamente, eu consigo escutar as vozes claras de Dougie e outra pessoa no cômodo ao lado.
"Oi, minha menina!", Dougie é o primeiro a falar e o meu estômago automaticamente se embrulha.
"Eu senti sua falta!", é a vez de a garota chiar, numa vozinha uma oitava acima do normal.
"Também senti a sua..."
"O que você estava fazendo?", ela pergunta novamente. Muito cuidadoso, eu me arrasto pelo piso de linóleo até parar ao lado da porta da cozinha, espiando para a sala. A garota volta a dizer, animada, ao avistar a minha mochila atirada aos pés do sofá. "Oh, nós temos visitas?"
Eu tento a todo custo evitar um grunhido.
Agora é um péssimo momento para tudo isso acontecer. Na verdade, qualquer momento seria um péssimo momento, dada a situação esquisita e embaraçosa entre mim e Dougie. Eu não consigo tirar da cabeça como tudo aquilo é simplesmente maluco. Infelizmente, logo a sensação angustiante, sufocante de antes me vem fazer companhia de novo e o meu peito se murcha e se contrai num quase-espasmo de dor.
Perfeito. Perfeito, Harry Judd, você agora é oficialmente um babaca de classe maior.
O mais casual que consigo, escorrego do meu esconderijo atrás da porta da cozinha e caminho com todo o meu orgulho ferido para perto de Dougie e a garota. Ele mantém uma posição reta demais, como se seus pés estivessem emparafusados ao chão, e os ombros tensos, mas pelo pouco tempo de três segundos que consigo encará-lo, Dougie não demonstra nenhum sentimento fora do normal. Aparentemente, eu sou o único afetado pelos estranhos dez minutos passados.
"Nell, esse é Harry Judd", Dougie começa, me direcionando um gesto vago com uma das mãos, a voz estranhamente falha. "É com ele com quem estou trabalhando agora no manuscrito..."
"Ah, então você é o famoso Harry?", ela me pergunta num tom alegre e alto demais.
Claro, a minha vontade no momento é de retorquir com alguma resposta engraçadinha e irônica, mas pelo bem de Dougie e o meu próprio também, eu me limito a sacudir a cabeça. Acho que demoro um pouco para conseguir assimilar direito as palavras da garota, mas quando finalmente consigo, o meu olhar volta bobo para Dougie, uma das sobrancelhas arqueadas.
"Quer dizer que vem falando de mim para os outros?"
"Nada além do normal", Dougie dá de ombros.
Ele parece perturbado. Eu, sabiamente, não faço nada além de ficar quieto.
É engraçado como eu quase salto para trás, assustado, quando Nell decide rir sem nenhum motivo aparente. Eu não sei por que diabos o meu olhar volta para a sua figura miúda, mas isso me faz com que eu a analise de perto pela primeira vez desde que a vi. O seu cabelo loiro-opaco está preso num coque baixo sobre a sua nuca, vários grampos da mesma cor trançados de um modo a sustentá-lo firmemente no lugar. A franja está posta de lado, colada ao topo da sua testa com a ajuda de uma camada brilhante de gel. Os olhos, carregados de maquiagem, e a boca fina, limpa. O rosto magro exprime uma alegria genuína por algo que não faço ideia e vez ou outra ela não se contém em voltar o olhar claramente apaixonado para Dougie. Aquilo me faz me sentir desconfortável.
"Enfim, eu sou Nell!", ela corta o silêncio incômodo, me estendendo uma das mãos. "Noelle Davenport, na verdade, mas, por favor, me chame só de Nell. Dougie e eu estamos noivos, mas acho que isso você já sabe."
Bem, isso eu definitivamente já sei, estúpida.
"Ah, claro", resmungo, aceitando a sua mão de mau grado. "Você é uma pessoa sortuda, você sabe", continuo ácido, movendo a mão livre na direção genérica de Dougie para sinalizá-lo de alguma forma. Sarcástico, emendo. "Muito sortuda."
"E eu não sei?!", ela chia mais uma vez, completamente desatenta à minha ironia, se afastando de mim para se pendurar em um dos braços de Dougie.
Eu sei que ele está me lançando um olhar raivoso por cima da cabeça de Nell. Eu sei que os seus ombros estão tão rígidos que suas costas inteiras chegam a doer. Eu sei que ele quer insanamente me meter mais uma vez o punho nas fuças para terminar o seu serviço e quebrar completamente o meu nariz. Apenas com aquele olhar, eu consigo perceber tudo isso.
O que é algo estranho, porque eu nunca, em toda a minha vida, consegui lê-lo tão bem como agora.
"Oh!", eu giro meu olhar de volta para Nell, que está apontando para o meu nariz torto. "O que aconteceu com você? Se quiser, eu posso dar uma olhada, devo ter algumas pílulas para dor guardadas em algum canto..."
As palavras dela me fazem ligeiramente confuso. É só quando eu desço o olhar pelo seu corpo pequeno que noto o seu uniforme azul claro. Ou Dougie é fetichista ou a sua noiva é claramente enfermeira. Eu não gosto de pensar muito na primeira opção.
"Ah, isso?", pergunto, uma das mãos subindo para tocar cuidadoso a ponte do meu nariz ainda pouco inchado. "Foi uma história engraçada, na verdade...", comento, logo um sorriso ordinário escapando pelos meus lábios no instante em que pulo o olhar novamente para Dougie.
Ele não parece nem um pouco contente. Na verdade, ele está a ponto de pular por cima do meu pescoço e me engasgar até a morte.
Aquilo é meio divertido, honestamente. Quando irritado dessa forma, Dougie fica realmente adoráv–
Enfim. Não é como se eu soubesse direito o que estou pensando, de qualquer maneira.
"Muito engraçada", Dougie intervém, tão azedo quanto eu. "Acredita que Harry estava caminhando para o trabalho e conseguiu tropeçar nos próprios pés? Dar de cara no chão não deve ser muito agradável."
"Não mesmo", eu continuo, sentindo o sorriso sádico no meu rosto se esticar cada vez mais. "Mas um amigo meu estava por perto, sabe? Charlie Simpson, o nome dele. É fotógrafo, modelo, tanto faz. É muito popular com as garotas. Dizem que ele beija muito bem, aliás..."
Dougie parece engasgar com a própria saliva com as minhas últimas palavras. Nell, um tanto confusa, passa o olhar de mim para ele, dando pequenas palmadas nas suas costas até fazê-lo acalmar finalmente. Dougie está agora olhando exclusivamente para mim, mas não com a expressão que eu desejaria.
"Pelo o que me disseram, ele só é um babaca estúpido que sai agarrando qualquer coisa que se sustente por duas pernas."
"Quem sabe?", dou de ombros. "Eu definitivamente que não."
Dougie revira os olhos e bufa algo num resmungo inaudível, que parece ser muito como um "bastardo filho da puta" contundente, mas eu sinceramente tenho lá as minhas dúvidas. Nell claramente não sabe o que dizer, até mesmo porque é bem visível que ela não faz a mínima ideia do que acabou de acontecer entre mim e Dougie e, pela sua expressão totalmente perdida no rosto, acho que ela nem quer saber.
"Bem!", Nell começa, rindo fraco. "Eu preciso tomar banho, me trocar, acabei de voltar do hospital, então... Imagine", ela faz um aceno rápido com uma das mãos no ar antes de estendê-la para mim mais uma vez. "Desculpe ser inconveniente, mas ando morrendo de cansaço. De qualquer forma, foi um prazer te conhecer, Harry!"
Simplesmente concordando com a cabeça, eu aceito sua mão dessa vez mais agradável, ou ao menos o que acho ser o mínimo do agradável. Ela me sorri por uma última vez, se inclina nas pontas dos pés para estalar um beijo fraco sobre uma das bochechas avermelhadas de Dougie e então caminha para longe, desaparecendo por um corredor ao aleatório. Eu inspiro devagar e giro meu olhar de volta para Dougie.
Como esperado, o seu rosto está agora completamente vermelho – ele está desconfortável de novo só por nós estarmos parcialmente sozinhos ou é impressão minha? – e ele, obviamente, não ousa dizer uma palavra sequer.
O único problema é que não passa nenhuma ideia na minha mente sobre o que dizer também.
"Eh... Eu acho... Melhor ir embora, escureceu demais já", comento, tentando soar casual. Aquilo só me faz soar mais idiota, no entanto, porque não há nenhuma janela por perto. A única, a porta da varanda da sala, está devidamente fechada.
Por algum motivo realmente irritante, os meus lábios formigam, me recordando a contragosto de um certo momento há minutos atrás. Tentando fazer com que essa sensação esquisita passe, eu umedeço os lábios devagar, desviando o olhar incerto de Dougie.
"Sim, é melhor que você vá", ele concorda num quase-murmúrio, entre o seco e o confuso.
O clima instantaneamente muda para um tenso, perturbado, simplesmente pesado demais. O meu orgulho ainda é muito grande para que eu tente consertar toda a situação de alguma maneira, então eu apenas concordo, caminho para perto do sofá, apanho minha mochila do chão e a jogo sobre os meus ombros quietamente. Em seguida, afago atrás das orelhas de Joni num sinal de despedida, toco seu focinho gelado e sorrio mínimo, vendo o cachorro sacudir a cauda e me lamber os dedos em agradecimento. Logo eu me afasto, caminhando com Dougie até a porta de entrada do seu apartamento.
"Então... Nós nos vemos amanhã", ele sussurra.
Com surpresa, os pés já metidos para fora do seu apartamento, eu lhe lanço um olhar surpreendido por cima dos ombros, localizando o seu rosto completamente encarnado me encarando de volta. A cor rubra das suas bochechas se estende pelo seu pescoço e colo inteiro, até aonde eu consigo enxergar pela gola da sua camiseta, subindo também até as pontas das suas orelhas, tomando um tom ainda mais escuro. Timidamente, ele enfia uma ou outra mecha loira de cabelo atrás das orelhas e desvia mais uma vez o olhar do meu.
"Vá logo embora, idiota", Dougie sussurra mais uma vez, querendo soar irritado e falhando miseravelmente.
Eu só me permito esticar um sorriso de canto de boca nos lábios quando as minhas costas estão devidamente viradas para ele, enquanto eu caminho até as escadas do andar do seu apartamento e pulo alguns degraus, estranhamente relaxado por algum motivo desconhecido.
Notas finais
Qualquer erro ou coisa parecida, por favor, me apontem! Eu revisei rápido demais e acho que perdi muita coisa.
Enfim, obrigada aos que estão lendo! ♥
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