Capítulo XV: Caça.


É com um grunhido derrotado que eu enterro o rosto no meio do manuscrito escancarado aberto, lá pela página 400 e tantas, sentindo uma dorzinha desconfortável subir pela ponte do meu nariz até o meio da minha testa com o baque. Então eu simplesmente fico ali, fungando incômodo e ignorando a dor no fundo da minha cabeça, tanto de cansaço mental como físico, que as poucos começa a corroer toda a minha concentração. Eu posso escutar vagamente as pequenas conversas dos outros editores à minha volta, obviamente não ligando para seus devidos trabalhos, o que só me faz desejar que tudo estivesse em silêncio. Pelo menos durante uma vez.

Eu me escuto grunhir algo incompreensível, abafado. Há quatro dias, desde que eu, Andi e Dougie voltamos da casa dos meus pais, tudo parece ter ficado realmente esquisito. Primeiro, pelo fato de Andi querer fazer sexo o tempo inteiro e eu, obviamente, não negar nenhuma vez, o que me faz vez ou outra nos comparar mentalmente a um casal de coelhos. Segundo, pelo fato de Dougie mal falar mais comigo, inventar desculpas para não trabalhar perto de mim e, o mais engraçado, se comunicar comigo exclusivamente por e-mails, geralmente sobre correções no manuscrito e afins (ou seja, assuntos estritamente profissionais). Terceiro, pelo fato de meu nariz adquirir um tom cada vez mais esverdeado e púrpura pela sua base e ponte, causando uma dor tremenda com o mínimo dos mínimos toques.

Realmente, eu não faço a mínima ideia do que diabos está acontecendo.

Depois de dez segundos ou dez minutos com o rosto ainda enterrado no meio do manuscrito, o ergo cansado e me endireito na cadeira de rodinhas, rolando devagar de um lado para o outro enquanto tento focalizar meu olhar na página à minha frente, embora minha concentração já esteja completamente arruinada há algum tempo. Retiro a caneta Bic de trás de uma das minhas orelhas e, sem ao menos perceber, começo a rabiscar no rodapé da página 416. Observo então, ao terminar, o meu pequeno desenho num garrancho de tinta vermelha, mostrando dois bonequinhos de palito em uma posição no mínimo bem sugestiva.

Após várias tentativas frustradas de desenhar os animais mais aleatórios possíveis (uma zebra de uma cor só, a traseira de um elefante, um cachorro atrás de um osso e, por fim, um gato sorridente), todos devidamente avacalhados e com uma falta impressionante de proporções, observo mais uma vez os meus desenhos com um estranho senso de paternalismo no olhar. Algo que dura pouco, no exato momento em que finalmente me dou conta do que estou fazendo.

"Mr. Harry Judd, você é um inútil...", solto em um grunhido ainda mais derrotado do que o anterior.

Feliz ou infelizmente, os meus pensamentos são deixados de lado quando um pequeno aviso parece pipocar no meio da tela do computador, piscando "Você tem um novo e-mail!" em letras verde-berrante. Eu encaixo a caneta Bic de volta para trás da minha orelha antes de seguir com o mouse para o novo arquivo na minha caixa de mensagens.

As minhas sobrancelhas se arqueiam instintivamente ao ler e escanear o e-mail, cada palavra lida fazendo meu sangue ferver um pouco mais:

Página 529, parágrafo 3, linha 5. Erro de correção ou inversão de posição das palavras?

D.

Aquilo é o meu basta. Dougie simplesmente poderia vir falar comigo ao invés de mandar esses e-mails sem sentido, esperando que eu tenha a boa vontade para respondê-los tão educadamente quanto ele, o que é algo muito difícil para mim no momento (já que a minha vontade é a de mandá-lo enfiar os seus e-mails em um lugar onde o sol definitivamente não bate). Assim sendo, me ergo da cadeira e procuro Dougie com o olhar ao redor do escritório, pela primeira vez percebendo que ele não está por perto. Eu considero a ideia de ele estar ao banheiro ou então ter dado uma pausa na saída de emergência do andar, mas depois de deixar os olhos recaírem sobre a sua mesa, intacta, vazia, completamente limpa e desocupada, todas as ideias dentro da minha cabeça somem.

Eu bufo cansado. Como Dougie não veio trabalhar e eu nem ao menos percebi?

Caindo de volta sobre a minha cadeira, marco a página 416 com a caneta antes atrás da minha orelha e começo então a juntar as minhas coisas pela mesa. Eu honestamente não faço a mínima ideia de onde Dougie mora, mas se esse é o único jeito de fazê-lo me escutar e simplesmente parar de frescuras desnecessárias, então eu rodo toda a Londres se for preciso à sua procura.

De qualquer forma... Como ele já pode estar na página 529 e eu ainda na 416?

xxx

A minha mão esquerda está sobre a porta de vidro do saguão da H&M quando alguém grita meu nome. Impaciente, bufo e giro nos meus calcanhares para me dar de cara com um Tom inquieto e corado. Eu ergo as sobrancelhas. Estranhamente, Danny não está em nenhum lugar por perto.

"Vai almoçar?", ele pergunta em um tom quase que casual demais.

"É...", concordo meio a contragosto, apertando uma das alças da mochila jogada às minhas costas com a mão livre. Por algum motivo, eu não quero comentar com Tom sobre Dougie e todos esses problemas que andam acontecendo entre nós, porque isso simplesmente parece esquisito e errado de alguma forma. "Quer companhia?"

A sombra de um sorriso forçado aparece pelo rosto de Tom.

"Claro, por que não?"

Sem mais palavra alguma, nós dois saímos quietos do prédio da H&M e caímos para a rua, tomando um passo calmo enquanto nos encaminhamos inconscientemente para o mesmo restaurante que almoçamos praticamente todos os dias em quase cinco anos. Tom está estranhamente quieto (não que ele viva tagarelando por aí, de qualquer forma), mas eu não me atrevo a perguntar o que houve, porque o conheço bem demais para isso. Quando ele se sentir confortável o suficiente, vai acabar confessando o que diabos fez.

A caminhada dura pouco. Logo nós estamos sentados e acomodados em uma mesa ao fundo do restaurante, Tom de frente para o buffet e eu pensando em fumar, praguejando em mente por não ter escolhido uma mesa na área de fumantes. Eu fico então observando sem interesse as outras pessoas por ali, enrolando as pontas do guardanapo de pano em mãos, distraído.

"Você está mais quieto que o normal hoje", o comentário de Tom me faz voltar a atenção para ele.

"Engraçado, você também", rebato sorrindo, largando o guardanapo pela mesa e apoiando o queixo na mão, o olhando de uma forma perversa. "Onde está a sua babá?"

Tom automaticamente se empertiga no seu assento e fecha a cara em uma carranca, desviando o olhar para o lado. Rindo um pouco, bato a mão livre de leve por sobre a mesa para chamá-lo a atenção de volta, simplesmente não me contendo em provocá-lo.

"Você pode me dizer, sabe, se aconteceu algo. Ele vive se arrastando e babando atrás de você, então você deve ter feito algo muito sério para conseguir finalmente arrancá-lo do seu pé."

"Não quero falar sobre ele", Tom resmunga, seu rosto aos poucos ganhando uma coloração cor-de-rosa pálida.

"Tom, dá para ver no seu maldito olhar que você me chamou para almoçar apenas para conversar sobre o que diabos aconteceu entre vocês dois, então não tente me enganar agora. Desembuche."

Ele me olha como se quisesse arrancar minha cabeça com as suas próprias mãos. Completamente reto no seu assento, Tom suspira e então se dá por vencido, seus ombros caindo em uma curva profunda e as suas mãos, de um modo nervoso, sobre a mesa entre o seu prato intacto.

"Eu não sei ainda muito bem o que aconteceu", ele admite, ainda sem conseguir me olhar diretamente nos olhos. Eu o vejo mordendo um dos cantos da boca em puro nervosismo e uma das suas mãos sobe para o seu cabelo loiro, o bagunçando mais do que o normal. "Nós estávamos bem! Nós estávamos, mas então... Ele simplesmente..."

Eu me mantenho quieto. Na verdade, eu só não faço nenhum comentário ou piadinha porque realmente não faço a mínima ideia do que ele está tentando, a muito custo, me dizer. Então a minha única opção é permanecer em silêncio e olhá-lo com uma expressão que suponho ser um tanto quanto sonsa.

Tom ergue o olhar finalmente para mim e morde um dos cantos da boca, esperando que eu o entenda de alguma maneira milagrosa. Como eu ainda não ganhei dons de adivinhação, a expressão sonsa continua por alguns bons minutos no meu rosto.

Feliz ou infelizmente, a minha paciência (ou falta dela, na verdade) nunca foi algo que pude me gabar.

"Você quer me dizer logo o que raios você fez?", eu subitamente me escuto resmungando. Em questão de segundos, uma dor de cabeça aguda vem fazer companhia aos meus pensamentos e eu solto um novo resmungo, mal humorado.

Tom parece estar tão descontente quanto eu.

"Tudo bem, tudo bem!", Tom chia, atirando seu guardanapo de pano sobre a mesa de uma forma nem um pouco educada. Eu posso notar a coloração agora rosa-choque voltar aos poucos para o seu rosto enquanto ele torna a dizer. "Eu não sei o que aconteceu! Nós estávamos em casa almoçando e ele começou a se aproximar de mim, invadindo a droga do meu espaço pessoal, e – ótimo! Eu pensei que ele fosse fazer alguma brincadeirinha comigo, mas o bastardo só se aproximava e se aproximava e quando eu me dei conta ele estava com o nariz grudado ao meu. Eu surtei!"

Em algum lugar no fundo da minha mente, eu penso que Tom apenas para de tagarelar por falta de ar. A minha expressão provavelmente muda de uma sonsa para uma de confusão e então de compreensão e então de divertimento puro, porque eu simplesmente não consigo conter os meus lábios de se curvarem para cima num sorriso ordinário a cada palavra de Tom. Como diabos eu não pensei numa coisa dessas antes, eu não faço a mínima ideia. Tão óbvio!

"E não faça essa cara, desgraçado pervertido!", ele rosna, seu rosto agora já completamente tingido de um vermelho escarlate. Algumas pessoas sentadas em mesas próximas nos lançam olhares esquisitos, mas Tom parece não notar e eu definitivamente não me importo nem um pouco com opiniões alheias.

"Então quer dizer que vocês se beijaram, huh?", eu não me contenho em perguntar, sorrindo de orelha a orelha, a dor de cabeça já há muito tempo esquecida. "Sempre soube que a idiotice extrema dele era apenas um ato."

"Como é–? É claro que eu não beijei ninguém!", Tom soa ofendido. "Eu o empurrei antes que ele fizesse qualquer coisa. E ainda o idiota tentou se desculpar dizendo que meu queixo estava sujo. Ele iria fazer o quê, me limpar com o maldito nariz, por acaso?"

"Nem o nariz dele é tão grande assim", eu murmuro divertido.

"Você quer fazer o favor de calar essa boca?", Tom rosna mais uma vez, o rosto agora praticamente púrpura num combo de fúria e vergonha.

"E perder a chance de te infernizar por isso pelo resto da vida?", eu rio numa gargalhada sonora antes de continuar, agora alcançando um tom explicitamente sugestivo. "Na verdade, acho que ele estava querendo te limpar, você sabe, de outra maneira."

"Você diz isso como se já não me infernizasse por tempo integral...", ele resmunga mais uma vez, subindo as mãos até as têmporas para tentar se acalmar de alguma maneira. Um suspiro curto escapa dos seus lábios. "Aquele idiota realmente não consegue pensar direito com aquela cabeça enorme dele. Muito espaço oco."

"Bem, ele claramente estava pensando com a cabeça, só não com a de cima."

O comentário faz com que Tom, se é que isso é possível, fique ainda mais embaraçado, irritado e completamente vermelho ao mesmo tempo. Eu o ouço me xingar entre dentes – alguns palavrões realmente esdrúxulos e novos até mesmo para o meu vocabulário extenso –, afastando nervoso as mechas loiras de cabelo do rosto como se isso pudesse o acalmar de algum modo.

"Enfim", ele põe ênfase na frase após se acalmar mais uma vez, me lançando um olhar feio em seguida. "Então eu acho que gritei com ele e disse algumas coisas pesadas... Antes de mandá-lo embora, quero dizer", ele confessa, numa vozinha bem mais baixa e culposa do que anteriormente. Isso me faz automaticamente parar de zombá-lo, porque a expressão que Tom usa é tão malditamente arrependida que eu quase chego a sentir pena dele. Quase.

"Você o mandou embora?", eu me vejo me inclinando para frente, como se aquilo fosse um segredo que apenas eu e Tom podemos partilhar. "Você mandou o cara embora só porque ele tentou te beijar?"

"Bom, sim, ora merda! Você queria que eu fizesse o quê?", Tom subitamente volta a rosnar no meu rosto e, com a proximidade, eu posso notar como até as pontas das suas orelhas estão tingidas do escarlate das suas bochechas. "Imagine se Dougie te beijasse! Seria exatamente a mesma coisa – esquisito demais!"

É nesse exato momento que o meu estômago decide se contorcer e roncar um tanto alto – eu tento me convencer de que ele somente faz isso porque faz tempo que não como e não atualmente pelo o que Tom me acabou de dizer. Obviamente, em questão de segundos, uma imagem que eu sempre quis (e talvez nunca tenha conseguido de fato) esquecer por completo pipoca mais uma vez sobre os meus olhos, embaralhando a minha mente e me deixando, com o perdão da palavra, fodidamente confuso. Lá estamos nós, eu e Dougie, em nossa adolescência, eu fumando, ele no balanço do jardim de casa. E então ele está me beijando. E, céus, por que diabos os meus lábios estão formigando agora?

Eu não sei exatamente como, mas acabo me engasgando com a minha própria saliva e isso faz, felizmente, com que toda a linha dos meus pensamentos desvie de volta para Tom à minha frente. Ele está me olhando esquisito (o rosto ainda vermelho, o que faz com que ele fique estranhamente engraçado por algum motivo), mas não arrisca dizer nada, simplesmente se erguendo da sua cadeira e apanhando seu prato da mesa no processo, caminhando na direção do buffet.

"É melhor comer logo, nós temos só meia hora, Judd", ele me avisa baixo após checar seu relógio de pulso.

Com um grunhido derrotado, eu me ergo também após checar o meu próprio relógio, apenas para constar que Tom tem realmente razão. Enquanto me encaminho para o buffet, no entanto, eu não consigo deixar de repassar e repassar a mesma cena de anos atrás dentro da minha cabeça, sem conseguir parar nem por um maldito momento sequer – e isso quase me faz derrubar uma porção inteira de lasanha no casaco da mulher logo à minha frente na fila.

O almoço não demora muito, quinze minutos e já estamos pagando a conta. Infelizmente, o meu plano patético de sair batendo de porta em porta por toda Londres à procura de Dougie é deixado de lado, já que os quinze minutos restantes do nosso horário de almoço são gastos numa caminhada silenciosa de volta à H&M. Tom ainda parece muito incomodado com o "assunto Danny" e eu, honestamente, não me importo em permanecer quieto também.

Uma pena, uma tremenda pena que, durante todo o percurso de volta para a minha mesa no 12° andar, as palavras de Tom e as imagens estúpidas dentro da minha mente continuam a ecoar e passar diante dos meus olhos numa repetição digna de um maldito flashback.

xxx

É com algum esforço que eu chego à página 600 do manuscrito sobre a minha mesa, revisando frase por frase, linha por linha, palavra por palavra com uma aura tão entediada que parece que aos poucos todos do escritório começam a ficar tão entediados quanto. O meu pulso dói de fazer os mesmos movimentos de vai-e-vem com a mão, a caneta riscando rápido sobre o papel, e os meus dedos estão semi-dormentes e borrados de tinta vermelha, mas eu ignoro a sensação e toda a sujeira para me concentrar nas palavras sobre a minha vista. Não é com surpresa que logo a minha visão começa a embaçar, embaralhando as palavras da página 601 e me fazendo piscar vezes e vezes seguidas numa tentativa estúpida para que a minha concentração de anteriormente volte. É claro que a ação só faz com que a situação piore e uma dor de cabeça sorrateira invada gradualmente a minha mente.

Inferno.

Decidindo que já é o bastante por hoje, eu marco a página do manuscrito antes de fechá-lo e jogá-lo, junto com as minhas canetas, para dentro da minha mochila num único movimento. Os meus olhos correm sem eu ao menos perceber para o horário espremido no canto da tela do computador, marcando quase seis da tarde, e então eu decido que realmente já é o bastante de trabalho por hoje. Num impulso, me afasto da minha mesa, desligando o computador no processo, apenas para notar que a maioria dos outros editores começa a fazer o mesmo.

É no exato momento em que jogo a mochila sobre os meus ombros que volto a me lembrar de Tom e todas as suas palavras desnecessárias. É também desnecessário dizer que logo as imagens de um Dougie adolescente voltam para a minha mente e eu grunho em frustração. O que diabos está acontecendo comigo?

Eu não me despeço de ninguém. A caminhada apressada até a porta do escritório parece ser curta, mas uma voz imponente me faz parar a alguns centímetros do meu escape para a liberdade.

Maldita Sam.

"Harry, você pode vir aqui um instante, por favor?", eu escuto abafado através da porta entreaberta da sua sala, separada da dos outros. Com um grunhido derrotado, eu me arrasto de volta para o seu escritório.

"Sim?", eu enfio somente a cabeça para dentro da sala, a escaneando à procura de Sam. Não é difícil de achá-la. "Quer falar comigo?"

"Oh, entre, entre", ela abana o ar com uma das mãos, parecendo levemente alterada. Eu não comento nada sobre enquanto fecho a porta do escritório atrás do meu corpo. "Sente-se, sente-se. Quer alguma bebida? Eu ainda acho que tenho aquele saquê perdido em algum lugar por aqui..."

"Hum, eu estou bem assim, obrigado", respondo um pouco sem jeito, querendo rir subitamente, e me acomodo em uma das cadeiras em frente à sua mesa. "Sobre o que quer conversar comigo?"

"Ohh, querido, eu apenas quero saber como anda o meu livro preferido e o meu editor preferido, é claro!", nesse momento, eu não consigo refrear uma risada nasalada, tentando disfarçá-la virando o rosto para o lado. Sam não parece perceber. "Me mostre os seus resultados até agora!"

A minha risada, no entanto, morre instantaneamente ao escutá-la completar. Há um relógio pendurado sobre a parede atrás da cadeira de Sam e eu posso vê-lo marcar exatas seis horas da tarde, o que me faz ter apenas quinze minutos de caminhada até o metrô. Se ela planeja me manter, digamos, ocupado com esse maldito manuscrito, sabe-se lá que horas eu vou conseguir chegar em casa finalmente.

A única resposta que eu consigo oferecê-la é um grunhido.

Eu não sei exatamente por quanto tempo nós ficamos discutindo sobre o manuscrito, para ser sincero. É claro que, com Sam obviamente embriagada, a discussão se torna extremamente complicada, em proporções épicas, já que a cada cinco minutos ela decide desviar o assunto para qualquer outro além do profissional.

Nós acabamos por volta das oito horas da noite. O meu humor não é um dos melhores, obviamente, porque eu não faço a mínima ideia de como vou conseguir pegar um maldito metrô e ir para casa nesse horário, então eu me esforço o máximo para não acabar soltando nenhuma grosseria perto de Sam, porque, bom, ela me mantém empregado. E a última coisa que eu quero no momento é perder meu emprego.

Com um suspiro cansado, eu me ergo da cadeira, flexionando os braços por cima da minha cabeça para me espreguiçar, sentindo as minhas juntas doloridas por ficar tanto tempo numa posição só. Há milhares de papéis espalhados sobre a mesa de Sam e, aos poucos, eu começo a juntá-los, assim como ela, que milagrosamente parece mais sóbria do que quando nós começamos a conversar. Uma garrafa agora vazia de saquê foi esquecida há algum tempo numa beirada da sua mesa.

"Ei, Sam...", eu começo incerto, no exato momento em que uma ideia absurda passa pela minha cabeça. "O que aconteceu com Dougie? Ele não veio hoje."

Ela não parece querer questionar os meus motivos para perguntar tão diretamente, porque, claro, eu ainda trabalho com ele, então felizmente a pergunta não soa muito suspeita, mesmo os meus motivos não sendo exatamente apenas profissionais.

"Ligaram dizendo que ele não estava se sentindo bem...", é a sua resposta vaga. "Uma mulher. Era a namorada ou alguma coisa assim."

"Ah...", eu solto numa resposta brilhante. Antes que eu consiga refrear os meus pensamentos, no entanto, a minha boca já está proferindo novamente. "E você por acaso teria o endereço dele? Eu quero dizer, hum, o pessoal do RH deve ter, certo?"

Sam automaticamente estreita os olhos, parecendo muito mais sóbria do que ela realmente está.

"E para que você quer o endereço dele?"

"Eh, bom...", a minha mente corre à procura de uma boa desculpa para oferecê-la. "Eu quero ver se ele está melhor. E, huh, comparar algumas anotações sobre o manuscrito..."

"Às oito horas da noite de uma quinta-feira?"

"Ha, nunca é muito tarde para se trabalhar, certo?", eu me vejo coçando a nuca, incomodado pelo olhar suspeito que ela ainda me lança. No momento seguinte eu estou suspirando derrotado e praticamente implorando. "Por favor, Sam, quebre meu galho só dessa vez."

Ela murmura algo, impaciente, mas não comenta nada sobre. No segundo seguinte, o gancho do seu telefone está preso entre uma das suas orelhas e ombro, o seu olhar subindo por um instante até o meu enquanto ela espera alguém atender a sua ligação. Eu fico ali, quieto, em pé atrás da minha cadeira, prestando uma atenção estúpida a qualquer coisa que ela e a pessoa do outro lado da linha discutem; a minha mente estranhamente em conflito.

Quando Sam termina, os seus olhos estão de volta sobre os meus mais uma vez. Calmamente, ela me avisa:

"Tudo bem, vá falar com o Keppler do RH. Ele já está procurando os documentos para você. E não comente isso com ninguém, senão eu corto as suas bolas e te sirvo numa bandeja de prata. Entendido?"

A minha única resposta antes de voar do escritório de Sam é um "Sim, é claro!" dito num semi-grito, juntamente com um "Obrigado, Sam!" e um estúpido "Eu vou ser eternamente grato por isso!".

Notas finais
Então... Sem Pudd por enquanto (não explicitamente, ao menos D8), mas para compensar temos um pouquinho de Flones? Sim? Ok!
Obrigada pelos comentários de vocês, aliás! ♥
OBS. Formatação do capítulo saindo tudo errado, alguém me mata. D: