Notas iniciais
OBS: Qualquer semelhança com uma certa personagem de anime/mangá é apenas mera coincidência (ou não, haha).

Capítulo V: A segunda chance: novo projeto de trabalho.


Havia finalmente terminado de revisar meus três manuscritos – depois de Andi ter vários colapsos mentais e suspeitas hemorragias nasais enquanto lia o dos homossexuais. Ela até mesmo havia dito que seria uma das primeiras pessoas a comprar o tal livro, além, é claro, de me mandar lhe passar todos os outros manuscritos parecidos que poderiam chegar até mim de alguma forma. Obviamente, eu apenas concordei, na época, com ela para não receber um chute ou coisa parecida.

Trabalhar ainda é, infelizmente, uma tarefa aborrecedora e maçante. Faz quase duas semanas desde que Dougie Poynter se mudou para o nosso departamento e eu estaria mentindo se dissesse que nós conversamos todos os dias. O que acontece, na maioria das vezes, é exatamente o contrário. Em todo esse tempo, depois do pequeno incidente do elevador, acho que nós trocamos um máximo de cinco palavras diárias, obviamente por tudo que nos acontecera no passado. Eu, honestamente, não o culpo em querer se afastar e me ignorar a todo custo, porque, apesar de eu ter apenas 17 anos na época, eu provavelmente o magoei de alguma forma.

Os meus pensamentos são afastados para longe quando Sharon parece aparecer simplesmente ao lado da minha mesa.

"Oi, Harry!", cumprimenta ela em um tom contente enquanto apoia os braços cruzados por sobre as divisórias de madeira. "Como está?"

"Bem, sim, e você?", respondo sem nem ao menos retirar o olhar da tela de meu computador, o que a faz se inclinar para frente de uma maneira, no mínimo, convidativa.

Obviamente, eu não tenho lá exatamente muito autocontrole para não encarar durante alguns segundos toda a profundidade do seu decote, apesar de ter um leve receio que seus peitos cheguem a explodir na minha cara de tão apertados que eles parecem estar dentro daquela camisa lilás. Eu pisco devagar, meio perdido, ao perceber que ela está me dizendo algo, acompanhando a sua frase já pela metade.

"...o garoto novo, você viu? A mesa dele é logo ao lado da minha", ela suspira e torce o pescoço para o lado para poder localizar Dougie com os olhos. "Uma graça."

O meu sangue parece ferver por um momento, por algum motivo desconhecido.

"Sem querer sem mal educado – mas já sendo um pouco –, você só veio até aqui para me contar a sua opinião sobre o novato? Porque eu definitivamente não estou interessado, se for o caso."

Com um estalo, ela volta o rosto para o meu, o seu rosto contorcido em uma expressão de surpresa. Os seus olhos carregados de maquiagem me analisam por um momento antes de Sharon abrir um sorriso pelo canto da boca, furtiva, como se tivesse acabado de juntar um mais um e concluir o resultado óbvio. Ela afasta os cabelos loiros e lisos para trás dos ombros antes de se inclinar um pouco mais para frente – o que me faz recuar minimamente para trás na cadeira, ainda por causa de seus peitos.

"Oh, Harry, você não precisa ficar com ciúme! Você sabe que sempre será meu preferido! Aliás, como anda Andi? Faz tempo que não falo com ela..."

Eu a olho com uma expressão descrente que provavelmente diz "você está falando sério mesmo?". Ela ri meio sem graça e sobe uma das mãos até seu pescoço, o alisando em seguida de uma forma que provavelmente julga ser sedutora ou coisa assim, porque ela simplesmente adora fazer isso na presença de qualquer ser humano do sexo masculino. Ainda meio sem graça, no entanto, ela logo emenda:

"Mas enfim, Sam que me mandou aqui. Ela te quer na sala dela em cinco minutos. Algo sobre um novo manuscrito ou alguma coisa assim, eu não sei, não prestei muita atenção..."

"Ah... Certo", eu junto minhas coisas pela mesa antes de me erguer e lhe dar um leve aperto em um dos ombros. "Obrigado pelo recado esclarecedor, Sharon."

xxx

"Entre!", é o que eu ouço por trás da porta de Samantha em uma entonação irritada depois de dar duas batidas. Admito que Sam é quase tão workaholic quanto Tom, então deve ser por isso que quase sempre está em um humor infernal. "Entre logo!"

"Hmm... Sam?", pergunto receoso, não querendo testar seus nervos, enquanto passo pelo vão da porta e paro em pé em frente à mesa de Samantha. "Queria falar comigo?"

Toda a sua aura irritadiça parece mudar por um segundo no instante em que ela põe os olhos sobre mim. Ela grunhe em resposta antes de afastar toda a pilha de papéis e a bagunça sobre a sua mesa aparentemente à procura de algo. A sua usual garrafa de saquê balança de maneira ameaçadora num canto da mesa e ela simplesmente a agarra para impedi-la de se estatelar no chão. De algum lugar que eu não consigo enxergar por trás de sua mesa, ela retira dois copos enquanto começa a enchê-los com o saquê.

"Sim, claro, sente-se. Bebida?"

A minha teoria que diz que todos que trabalham no 12° andar são malucos tem algum fundamento por causa de cenas como essa, eu penso depois de um tempo de cinco segundos.

Logo um copo cheio de saquê está sendo me empurrado pela mesa enquanto Samantha prende o cabelo em um coque frouxo e se ajeita melhor em sua cadeira de couro vermelha no mesmo estilo de meu sofá de casa – será que só há apenas uma loja de decoração em toda Londres? Meio a contragosto, apanho o copo sobre a mesa e arrisco uma bebericada, sentindo o líquido descer pela minha garganta e arranhá-la como um esqueleto de peixe (afinal, não são nem ao menos onze horas da manhã ainda!). Sam, ao contrário de mim, parece bastante confortável com a bebida, já que se prepara para uma segunda dose.

"Você já ouviu falar em Jakob Henn?"

"Jakob quem?"

"Jakob Henn", ela repete como se aquilo fosse a coisa mais óbvia do mundo antes de começar a me explicar. "É a nossa mais nova revelação, um ótimo escritor."

"Certo...", eu murmuro sem saber ao certo aonde ela quer chegar com toda essa conversa. Beberico um pouco mais da minha bebida, largando o copo ainda pela metade segundos depois sobre a mesa.

"O seu primeiro livro publicado pela H&M fez muito sucesso, eu tenho certeza de que você já ouviu falar por aí. Apesar de ter apenas 19 anos, o moleque é realmente talentoso!"

Samantha parece ficar cada vez mais empolgada com o assunto, o que me faz ficar cada vez mais desorientado, mas escolho apenas a me manter quieto e deixá-la continuar a falar. Com um tilintar de copos, ela apanha o meu, engole o resto da minha dose em um único gole e afasta os copos juntamente com a garrafa pelo final de saquê, os escondendo atrás de sua mesa.

"Mas, enfim, Jakob está escrevendo material novo, obviamente. Uma trilogia. O primeiro manuscrito chegou ontem até mim", Sam afasta mais alguns papéis de sua mesa e, com um baque surdo, joga o dito manuscrito para mim sobre a mesa. Eu o analiso por um instante, folheando suas páginas com algum interesse, antes de subir os olhos até ela novamente. Sam está reclinada em sua cadeira de couro vermelho, várias mechas de seu cabelo castanho-claro escapando de seu coque para lhe moldurar o rosto de uma maneira interessante, e eu penso, divertido, que ela seria uma ótima garota se não fosse por seu humor macabro. "E então, o que você acha?"

"Você está me pedindo para revisá-lo?"

"Bem, sim, oras!", ela bate com os punhos na mesa e eu sinto (e ouço) distante o barulhinho dos copos em algum canto tilintarem. "Eu sei que nesses últimos meses você só tem pego aqueles manuscritos que ninguém mais quer revisar...", o que me faz lembrar momentaneamente de Piscando Pra Você. "Então eu pensei... 'Oras, por que não dar ao Judd essa chance?'. Eu sei que você não vai me desapontar. E, bem, se for o caso, você já sabe o que te espera."

"Isso... Isso seria ótimo!", eu me vejo dizendo entre a empolgação e o alívio enquanto agarro o manuscrito (só para garantir) e o folheio um pouco mais.

"Então problema #1 está resolvido."

"Problema?", repito confuso, erguendo os olhos para Sam mais uma vez.

"Bem, sim. Veja...", ela começa com algum cuidado a me explicar. "Essa trilogia pode nos lançar ao espaço, você me entende? São livros, aparentemente, muito bons. Eu te coloquei a cargo de revisá-los porque sei que você é capaz. Mas, ainda assim, não deixa de ser uma trilogia e eu não posso deixá-lo revisar sozinho, é muito trabalho."

Um silêncio de poucos segundos se instala entre nós antes de eu encará-la com uma expressão aborrecida no rosto.

"Você está querendo dizer que vai me colocar em uma equipe ou algo assim?"

"Aí que surge o problema #2. Não é exatamente uma equipe, você sabe...", Sam coça a lateral do pescoço e solta um risinho sem graça. "Quer mais bebida?"

"Vamos, Sam, me diga logo."

"Dougie está aqui há algumas semanas. Eu tive ótimas recomendações do moleque, mas eu preciso testá-lo de alguma maneira", ela continua a explicar, dessa vez séria. "Vocês irão trabalhar juntos."

Eu simplesmente a olho descrente, buscando pelos cantos mais obscuros da minha mente por algum indício de brincadeira em sua postura ou na entonação de sua voz (e de sua contundente sentença). Após um tempo mínimo de cinco silenciosos segundos, no entanto, em um balbucio lento, prossigo ligeiramente atordoado:

"Como... É?"

"Trabalhar juntos. Os dois. Revisar a trilogia. Levar a H&M ao espaço. Me deixar bilionária. Basicamente."

"Mas isso é simplesmente ótimo!", rebato irônico e o rosto de Sam parece se iluminar de esperança durante um segundo. "Sério, Sam, eu posso fazer isso sozinho!"

"Céus, pare de ser uma criança reclamona!"

"Mas–"

"Olhe aqui, Judd", ela murmura ameaçadora enquanto aponta um indicador em riste na minha direção de maneira nada amistosa. Seus olhos se estreitam no mesmo instante em que ela volta a falar. "Você vai fazer exatamente como eu mandar, entendeu? Se eu digo para você pular de uma ponte, você pula, e cantando o hino nacional, entendeu, pirralho? Eu escolho com quem você trabalha ou deixa de trabalhar e você apenas balança a cabeça com um sorriso forçado, garoto."

Eu apenas me limito a olhá-la, tentando ao máximo não transparecer a minha surpresa, porque, obviamente, Sam nunca havia dito nada parecido para mim. Para os outros, sim, é claro, milhares de vezes, mas nunca para mim, de qualquer maneira.

"A questão não gira em torno de você, sabe. Eu tenho que fazer a editora ir para frente, tenho que ter os melhores funcionários e saber que eles vão dar o máximo de si. Eu preciso saber se contratei gente certa, também", Samantha faz um gesto mínimo com uma das mãos antes de se recostar novamente em sua cadeira estofada. "Por isso vocês vão trabalhar juntos e não vão me dar dor de cabeça, entendido?"

Obviamente, eu não lhe digo nada, simplesmente porque não há nada a ser dito – pelo menos, não por mim. Com um impulso, eu me ergo ainda aborrecido de minha cadeira, com o manuscrito em mãos, fazendo menção em sair o mais rápido possível dali. Samantha, no entanto, tem aparentemente algo mais a me dizer.

"Ótimo. Agora partimos para o problema #3."

"Cristo, tem mais? E eu pensando que a minha vida já estava uma droga..."

"Muito convincente no drama, Judd", ela me sorri irônica ao que eu simplesmente lhe retribuo o sorriso. "Os chefes estão me pressionando, portanto o primeiro livro tem que sair dentro do tempo de um mês."

"Um mês? Não, Sam, é impossível, eu não faço milagres! O livro tem...", com uma pausa, procuro pela última página do manuscrito, quase a amassando no processo. "O manuscrito tem quase 700 páginas e você quer que eu o revise em um mês?"

"Bem, nós estamos no meio de Outubro. Vocês têm até o final de Novembro para me entregarem o manuscrito pronto, estou te dando um desconto de quase quinze dias. Essa é a sua chance, me faça feliz."

Outro silêncio se prolonga entre nós. Eu penso em meus prós e contras, logo me decidindo, no entanto, porque não é lá uma decisão complicada – tendo em vista todo o dinheiro que eu posso ganhar em cima disso. Com um suspiro, entreabro a porta da sala de Sam apenas para murmurar, beirando ao divertido:

"Você ainda me mata um dia desses..."

Ao que ela responde, mais para si mesma do que para qualquer outra pessoa:

"Só o álcool para me ajudar a não ficar louca com esse bando de pivetes por perto..."