Órfãos
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Aquele era mesmo um mundo estranho.
Era isso o que Joshua sempre pensava quando estava em meio a normalidade. Era isso o que todos os seus companheiros pensavam todo o tempo.
Em certas noites, podia-se ver o céu vermelho e as nuvens pareciam inscrições macabras em volta da lua gigante e amarela. Eles ainda não conseguíam decifrar, e os humanos comuns nem sequer podiam enxergar isso, nem sequer podiam sentir o que acontecia sob seus narizes, mas tudo estava mudando, o mundo estava dando sinais de que algo terrível estava para acontecer, e os Outros estavam tramando algo que com toda certeza não tinha nada de bom.
Porque eles eram diferentes de outros humanos? Ninguém sabia responder. Como eles surgiram, de onde vieram, quem os criou? Se eram mais uma etapa da evolução humana, experiências do governo, organismos alienígenas, humanos tocados pelo sobrenatural de uma forma mais excepcional, Joshua não sabia. E não havia para quem perguntar. Eram todos órfãos e o acaso tratou de reuni-los. Alguns se conheceram ainda na infância, no orfanato. Outros se juntaram ao bando na época da faculdade e por alguma casualidade no meio do caminho até ali. Numa festa, ponto de ônibus, trabalho, qualquer lugar. Quando se encontravam, sabiam, sentiam que se tratava de um igual ou de um Outro. Quando os olhares se cruzavam vinha aquela sensação de reconhecimento, de conexão, confiança, ou medo, intimidação e agressividade.
O grupo dos Órfãos, por agora, possuía apenas quatro membros, Lara, Aylla, Oliver e ele, antes haviam mais, todos assassinados pelos Outros em seus confrontos.
Na fila do caixa do supermercado, Joshua sentiu o cheiro de shampoo vindo dos cabelos da garota à sua frente, e isso o fez sentir falta de sua namorada, o fez desejar estar com ela, sentindo o cheiro de seus cabelos, ela fora tirada de seus braços tão rápido, em um segundo estavam com Aylla e Oliver naquele velho parque abandonado e esquecido, brincando entre as árvores como sempre faziam , adoravam lugares como aquele, completamente dominado pela natureza, no segundo seguinte os Outros estavam lá, cercando-os, atacando-os e aquela maldita sombra indecifrável de capuz vermelho levara Lara embora, enquanto os que ficaram os impediram de segui-los, um por um eles se foram, Aylla os seguiu e Oliver ficou desacordado, restando apenas Joshua e Joana, ele queria matá-la, como queria... Tudo seria fácil se ele simplesmente matasse todos os Outros. Ele não conseguia se perdoar por ter deixado aquilo acontecer, o estava enlouquecendo pensar em Lara grávida e ferida, aprisionada pelos Outros, enquanto ele estava ali, comprando algo para seus companheiros comerem enquanto descobriam como fariam para resgatá-la.
Seus mais antigos amigos estavam todos mortos, dois com quem convivera no orfanato e mais cinco que conhecera ao longo dos anos desde então, todos assassinados pelos Outros. Conhecera Aylla enquanto terminava os estudos e Oliver em seu último emprego, os dois eram agentes de preservação ambiental noturno, divertiam-se assustando invasores de áreas protegidas. Lara fora a última a entrar para o grupo, conheceu-a na fila do supermercado e ajudou-a com as sacolas. Apaixonou-se logo por seus cabelos encaracolados cor de mel, seus olhos escuros como o céu de uma noite de tempestade e seu sorriso caloroso, ela era pequena e parecia tão delicada, ele a amava mais que a própria vida, mas prometeu-a que nunca daria sua vida por ela, porque afinal, se o fizesse, quem cuidaria dela? E do bebê dos dois?
***
Quando despertou, Lara não sabia onde estava, sentiu um forte cheiro de sangue e todo o seu corpo doía, percebeu o choro de um bebê, parecia longe, como se vindo de dentro de um túnel, e a cada segundo ficava mais alto e claro. O quarto estava escuro e ela mal podia enxergar, sentou-se e descobriu estar em uma cama estreita, colocou a mão sobre a barriga com o coração já disparado, imaginando se aquele era o choro de seu bebê. Aos poucos ela foi se recordando dos momentos antes de ficar inconsciente, depois que foi levada pelo homem sombra, estava ferida e começou a sentir dores horríveis, sabia que estava entrando em trabalho de parto e naquela situação não conseguiu se defender, não teve como fugir, só conseguia pensar na vida de seu bebê e sentia pavor com a ideia dos motivos pelos quais os Outros a haviam sequestrado, em nenhum momento pensou realmente que eles quisessem seu bebê, mas enquanto sua visão apagava e sua mente imergia na escuridão dormente, ela os viu levarem seu bebê, segundos depois de ter nascido daquele jeito tão difícil. A criança não tinha sexo nem nome, Joshua e ela decidiram que na hora em que nascesse seria uma bela surpresa e quando olhassem para o rostinho saberiam o nome certo.
Tomada pelo desespero, Lara levantou-se e saiu cambaleante pelo quarto, em busca da porta, sem perceber já estava chorando aos berros, soluçando violentamente, queria o seu bebê, queria vê-lo, tê-lo nos braços, sentir o cheiro, os outros não podiam roubá-lo daquela maneira. Ela esmurrava as paredes e implorava para que devolvessem sua criança.
A porta se abriu e um homem grande, careca e negro entrou, acendeu as luzes e no mesmo instante Lara foi para cima dele para atacá-lo, mas estava fraca e caiu aos seus pés.
– Olhe só para você, está perdendo muito sangue. Pensei que já estivesse bem... – Ele disse, segurando-a pelo braço com uma só mão para erguê-la. – Volte para a cama, vou buscar Zion para te examinar.
– EU QUERO O MEU BEBÊ!!! – Lara gritou e imediatamente voltou a ficar inconsciente.
Ao acordar pela segunda vez naquele lugar estranho, já era dia, a luz do sol entrava pelas janelas lacradas de vidro e Lara já não sentia mais dor, sentia-se levemente tonta e os acontecimentos anteriores giravam em sua cabeça. Ela ainda sentia-se fraca, sua boca tinha um gosto amargo, não havia mais cheiro de sangue e choro de bebê. O quarto era como um quarto de hospital, branco e limpo, vazio. A porta se abriu e o mesmo homem negro entrou.
– Você acordou. Que bom. – Sua voz era grave, forte, severa.
– Onde está meu bebê? – Lara implorou.
– Não se preocupe, você irá vê-lo em breve, afinal ele precisa da mãe, não é? Se você for boazinha, se merecer poderá ficar com ele, do contrário, infelizmente ele será só mais um Órfão, exatamente como os pais, com grande poder, mas sem conhecer sua história.
Lara ficou encarando o homem com olhos arregalados, diante daquelas palavras não conseguia pensar. Ele a arrastou pelo braço num aperto firme para fora do quarto, andaram por corredores cheios de portas, entraram num elevador e desceram alguns andares, passaram por mais corredores cheios de portas fechadas e as poucas abertas exibiam salas com mesas e cadeiras, sofás, televisões, livros, computadores. Pararam na frente de uma porta, o homem a abriu com uma chave pendurada em uma grande corrente e empurrou Lara para dentro do quarto cheio de camas e para surpresa dela, crianças com carinhas assustadas estava encolhidas junto a uma das paredes mais distantes da porta.
Depois de se assustar com o bater da porta e o som da chave girando na fechadura, trancando- a ali, Lara andou lentamente até uma das camas e sentou-se, sabia que não adiantaria ficar histérica.
As crianças eram oito, pareciam ter entre cinco e treze anos, três meninos e cinco meninas.
– Você não parece bem. – Disse a menina que parecia ser a mais velha, aproximando-se com duas das crianças mais novas seguindo-a com olhos grandes, curiosos e assustados.
– Que lugar é esse? – Lara perguntou, recostando-se na cabeceira da cama, olhando para aquelas criancinhas com aperto no peito pensando em seu bebê.
– Não sabemos ao certo, mas tem pessoas importantes envolvidas nisso, acho que fomos sequestrados e vendidos... Acho que querem nos estudar, nos usar de alguma forma. Já fomos examinados, pelo que vi pareciam cientistas, soldados armados e homens de terno que faziam muitas perguntas. – A menina falava como se já estivesse conformada com a ideia de ser vendida e virar cobaia.
– Há quanto tempo vocês estão aqui? – Lara perguntou.
– Difícil dizer. Perdemos a noção do tempo trancados aqui. Mas acho que não muito. Haviam outros aqui quando me trouxeram, mas um dia eles foram levados e não foram trazidos de volta. Acho que estão caçando pessoas como nós e comercializando.
– Vocês todos são órfãos, não é? – Lara perguntou com um pequeno sorriso amargo, apenas para confirmar o que já sabia e ver todas aquelas cabeças balançarem positivamente.
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