Órfãos
6 Capitulo 6
Notas iniciais
Oliver e Joshua mal haviam começado o turno, quando alguns garotos invadiram a área de preservação. Eles gostavam quando esse tipo de coisa acontecia, pois sempre se divertiam muito assustando humanos.
Oliver pegou uma das garrafas de água na mochila e subia em uma grande árvore, escondendo- se bem entre os galhos e Joshua escondeu-se entre arbustos altos, os dedos das mãos já tornando-se longas raízes.
As pessoas tentavam invadir as áreas preservadas por diversos motivos, desde fazer sexo, esconder corpos ou qualquer outra coisa suspeita e criminosa, até simples curiosidade, se arriscar apenas porque se tratava de um lugar com acesso proibido e esse parecia ser o motivo que levara aquele grupo de garotos a ignorar os avisos de segurança e proibições, enfrentar o arame farpado e pular o muro para dentro de uma grande área onde não havia nada além de árvores, mato, insetos e dois agentes de preservação ambiental travessos. Os garotos acenderam baseados e com suas lanternas, cochichos e risadinhas caminharam devagar por entre as árvores, indagando se haveriam animais selvagens por ali, vez ou outra algum deles tropeça, ou se assustava ao ser surpreendido pelo galho de algum arbusto baixo enroscando-se em suas pernas ou roçando em seus braços, eram apenas adolescentes e da forma mais estúpida acreditavam que existia alguma emoção em quebrar uma simples regra e invadir qualquer lugar que fosse, divertindo-se imaginando se havia algum perigo ou não em estar em meio a árvores tão grandes no escuro da madrugada.
Oliver fez com que gotículas de água caíssem sobre a testa de um dos garotos, como nos clichês de filmes de monstros salivando, escondidos em algum lugar no alto antes de atacar sua vítima. Ele mal conseguiu conter o riso com o susto que o garoto levou, todos os outros também se assustaram quando perceberam o que aconteceu e apontaram suas lanternas para o alto, tentando ver o que estava escondido nas árvores, especulando se o líquido que caíra na cabeça de um deles era urina de algum animal, talvez um macaquinho, ou saliva de algo maior e mais assustador e perigoso.
Joshua fez suas raízes alongarem-se até galhos mais altos de uma árvore e os chacoalhou, assustando ainda mais os garotos, que começavam a entrar em pânico. Sem esperar mais, Oliver fez água cair sobre as cabeças de todos eles, fazendo-os gritar e ficarem bem perto uns dos outros, já trêmulos de medo, apontando as lanternas para todos os lados. Joshua então soltou um berro animalesco, fazendo-os gritas novamente e correr em desespero de volta pelo caminho que fizeram até ali, mas ele não os deixaria fugir tão facilmente, estendeu suas raízes até eles, alcançou seus pés e enroscou suas pernas, fazendo-os cair, depois arrastou-os, todos gritando, talvez até chorando e de repente largou- os, devagar saiu de onde estava escondido, a claridade natural transformando-o em apenas uma sombra, os garotos não podiam ver exatamente o que ele era, suas lanternas estavam espalhadas pelo chão, mas conseguiam ver que ele possuía “garras” enormes que iam lentamente em sua direção, todos berraram e correram o mais depressa que puderam, escorregando, tropeçando e caindo, até chegarem de volta ao muro, subiram tão rápido e tão desesperadamente que não tiveram qualquer cuidado com o arame farpado, o medo era tanto que certamente só depois que passasse perceberiam os cortes, o sangue e a dor. Todos os garotos se foram, exceto um, que ficara no chão, exatamente no mesmo lugar onde Joshua o soltara, estava desmaiado.
Oliver e Joshua gargalharam enquanto assistiam os garotos fugindo e riram ainda mais ao perceber o garoto desmaiado. Joshua o jogou sobre o ombro e o levou para fora, deixando-o na frente de grande portão de entrada.
– Essa foi divertida... – Oliver disse, ainda rindo.
– É. Tenho certeza que eles nunca mais vão pensar em invadir de novo. – Joshua olhou para o céu enxergando as nuvens, as inscrições que elas eram se tornavam cada vez mais nítidas naquele céu avermelhado que apenas os que eram como ele podiam enxergar, alga dentro dele lhe dizia que era um aviso da própria natureza, informações sobre o que acontecia e estava para acontecer naquele mundo, talvez em breve ele e seus semelhantes fossem capazes de compreender os sinais.
Em meio aos risos e comentários sobre os acontecimentos divertidos, o celular de Oliver tocou, os dois estavam caminhando entre as árvores, fazendo sua ronda costumeira.
– Aylla?! – Olive atendeu, estranhando o nervosismo na voz da garota que sempre parecia tão segura.
Nesse momento Oliver e Joshua descobriram sobre o ataque dos Outros e deixando o trabalho ainda no início do turno, correram para onde Lara e os outros os esperavam, temendo que os Outros chegassem primeiro. Os céus pareciam querer dizer-lhe algo, Joshua pensou, mas ele não conseguiu interpretar, não percebera que as pistas sobre o que estava acontecendo com sua amada e as crianças estavam bem ali, que ele as olhava, mas ainda não sabia dizer o que significavam.
Oliver parou o carro na frente de um supermercado vinte e quatro horas, Lara, Aylla e as crianças estavam sentadas em bancos rodeados por canteiros de flores na frente do lugar. Aylla segurava o pequeno Wander nos braços, Lara estava muito pálida, e as bandagens improvisadas com pedaços da camiseta de Sam, estavam encharcadas de sangue. Joshua a pegou nos braços, desesperando-se com o medo de perdê-la.
Julia abraçava Sam, porque o garotinho parecia compartilhar o mesmo medo de Joshua, estava chorando silenciosamente e sem parar desde que percebera a gravidade dos ferimentos de Lara, feitos pelo lobo.
Infelizmente encontrar as outras crianças não era uma prioridade visto a situação de Lara, eles precisavam encontrar alguém que descobrisse o que havia de errado com ela, porque ela não estava se regenerando, apenas piorando e como curá-la.
– Temos que encontrar o Senhor Rato. – Sam disse baixinho.
– Quem é o Senhor Rato, Sam? – Julia perguntou, acariciando os cabelos do menino.
– Ele pode curar Lara...
Ao ouvir aquilo, todos olharam para Sam e foi Oliver quem se agachou ao lado dele e botou a mão em seu pequeno ombro, falando com suavidade.
– Como ele pode fazer isso, Sam?
– Ele sabe de muitas coisas. Vive numa biblioteca antiga. Sabe muito sobre nós, ele cuidava de mim... Ele tem remédios para nós.
Oliver olhou para Joshua e Lara, ela já estava desacordada e ele estava se forçando a tomar uma decisão, quando isso parecia ser a coisa mais difícil a se fazer.
Olhando para o céu, para as nuvens, para cada simbolo que elas pareciam se tornar, por um segundo Joshua teve certeza que elas o estavam dizendo para procurar o tal Senhor Rato=, ele não sabia exatamente como, mas era o que podia ler no céu, sentir no soprar do vento, como um sussurro em seus ouvidos. Assim iniciaram a viagem em busca do Senhor Rato. Joshua abraçava Lara no banco de trás do carro, Julia segurando o bebê nos braços e Sam entre eles. Aylla, como sempre, no banco do carona, para trocar de lugar com Oliver quando dirigir se tornasse demasiado cansativo.
– Sabia que um dia conseguiria compreender os sinais. – Joshua disse baixinho – Não consigo ler tudo, mas consigo ver um pouco do que precisamos, por hora...
Pelo espelho retrovisor, Oliver avistou Joana aproximando- se de moto em alta velocidade.
– Os outros estão vindo. – Avisou.
Ouvindo o som da moto deslizando no asfalto após a queda de Joana, Aylla e Joshua olharam para trás, e Oliver parou o carro.
– Não. – Disse Aylla, cobrindo a cabeça com o capuz e abrindo a porta para sair do carro – É apenas uma. Achei que essa louca já estivesse morta.
Oliver saiu do carro junto com ela, os dois ficaram observando Joana por alguns segundos, fazendo um gesto para que Aylla ficasse onde estava, Oliver aproximou-se mais de Joana, ela estava desacordada, muito machucada e ensanguentada, a pele das mãos, do queixo e da bochecha esquerda foram esfoladas pelo asfalto, depois de ter certeza que ela estava realmente desacordada, Oliver jogou- a sobre o ombro e levou-a até o carro.
– Que merda você está fazendo? – Aylla gritou.
– Vamos levá-la.
– O quê? – Perguntaram Joshua, Aylla e Julia com indignação.
– É uma bela oportunidade para descobrirmos algumas coisas. – Ele arrumou o corpo de Joana no banco do carona, amarrando mãos e pernas, depois prendeu-a com o sinto de segurança.
Joshua mantinha o rosto colado aos cabelos de Lara e Aylla encarava Oliver de braços cruzados, emburrada, claramente os dois desaprovavam as decisões dele.
– E onde você pretende que eu fique agora? Sentada em cima do carro? – Ela perguntou com agressividade.
– Pegue a moto dela, você gosta de motos. – Oliver disse e deu a volta no carro para entrar, sem dizer mais nada fechou a porta.
Oliver mantinha- se calmo a maior parte do tempo, Aylla e Joshua eram indiscutivelmente impulsivos e ele tentava fazer com que eles agissem mais racionalmente e não impulsiva e instintivamente, assim detestava ser contrariado e questionado, quando era o único que realmente teria alguma capacidade de arrancar informações de Joana ao invés de sangue, se ele deixasse, tinha certeza que Aylla e Joshua matariam a garota antes mesmo de descobrir o que precisavam sobre as crianças e os Outros.
Aylla encarou-o por mais alguns segundos, antes de ir até a moto de Joana e levá-la de volta a estrada, cheia de raiva.
Fale com o autor