Pela primeira vez os homens viram Lugh, o senhor de Thuathan perder o controle. Ele corria em volta de todo o acampamento chamando e perguntando por Cian a cada transeunte, seus olhos estavam furiosos e ele parecia demasiadamente irritado. Sua guarda mal conseguia o acompanhar, eram obrigados a correr e andar em círculos como o seu senhor fazia. Alguns se surpreendiam com o acontecimento, algo que era difícil de esperar, Lugh sempre fora honroso, mantinha seus sentimentos completamente velados e sempre apresentava uma postura de calma e seriedade. Os turianos observavam aquela imagem cômica com sorrisos no rosto, cochichando ente si e não perderam a oportunidade de chamar Dhagdan, que certamente se deliciaria vendo o sofrimento do jovem thuathan. Quando percebeu que ele estava ansiosamente à procura de seu confidente, sentiu uma inquietação tomar conta de si, estava se deleitando completamente da situação, então para exaltar ainda mais os ânimos resolveu se pronunciar.

– Aqui meu afável elfo! – gritou Dhagdan, mal conseguira falar, pois gargalhava incansavelmente.

– Onde está Cian seu abominoso! Diga agora, só pode ter sido você. – a pele alva de Cian foi invadida por um rubor, o que assustou alguns homens.

– Seu amado monstro está preso meu caro elfo. Sim e sim, ele está preso. – o rei turiano mal conseguia respirar.

O elfo cerrava os punhos para se contiver, nunca havia sentido em sua vida uma agonia tão grande. Sabia que seu amigo poderia morrer, sabia que a escolha de Gybbra Oddshark como rei foi alguma estratégia e que isso sem dúvida o colocava em risco. Lugh sabia de muitas coisas, sempre fora assim, ele não tinha o dom da previsão, mas enxergava pequenos rastros do que iria acontecer. Ele estava aterrorizado e não sabia a quem ocorrer, parecia que até o deus pai, o sábio Dagda havia lhe abandonado e escolhido aquele pulha repulsivo de Carnos para o trono. Havia muitas coisas relevantes e prejudiciais acontecendo em um curto espaço de tempo.

– Cian será julgado pelo assassinato de dois homens meus e Gybbra irá conduzir o julgamento. – Dhagdan havia parado de rir e retomado seu semblante sério – Já está na hora de livrar a terra de um ser que não nasceu aqui, aquele jovem é um príncipe do obscuro, ele é um Outro e o mandarei de volta para o lugar de onde nunca deveria ter saído.

Lugh se virou lúgubre e silencioso, não havia expressão em seu rosto a não ser a cor avermelhada que tingia sua pele. Tinha a plena consciência de que ficar em pé ali debatendo e atacando Dhagdan só mostraria o quão frágil se encontrava. Apenas pensava em como faria para resolver tantos problemas, precisava livrar Cian da justiça certeira e fatal que Oddshark lhe concederia, sempre que precisara de conselhos ele sempre buscava alento em Dagda e em Cian, mas agora os dois pareciam estar muito distantes, ficar sozinho era uma tarefa muito complicada, era necessária uma visão de fora. Enquanto caminhava um jovem muito descarnado e com vestimentas rudimentares e sujas corria em sua direção, estava ofegante e parecia preocupado. O rapaz fora a primeira coisa em que Lugh realmente prestou atenção, aquela pessoa diminuta poderia trazer ainda mais problemas e péssimas notícias para obscurecer o dia.

– Senhor Lugh, permita-me falar com vossa graça. – disse o jovem garoto desviando o olhar de Lugh – Lorde Cian está preso no castelo de bronze, nas masmorras e deseja conversar, o senhor Niall Eresil o autorizou a visita-lo.

Aquelas palavras fizeram o elfo tremer e ao mesmo tempo sentir um desafogo, mas a agonia ainda era estupenda. Há muito tempo atrás sentira algo parecido, mas nunca da mesma magnitude. Estava tão ansioso para ver o amigo que nem se importara de montar um cavalo, se pôs a correr como um reles serviçal, deixando os seus guardas perdidos, no meio dos acampamentos e das feiras que estavam montadas dentro do muro do castelo. Ignorava cada pedido de benção ou indagações sobre ele não ter sido o escolhido para ser o rei de Ivernos, todos ali o amavam muito e o preferiam, era um rei vizinho, de povos iguais e um rei forasteiro como Gybbra era algo que não apreciavam muito. Era um dia muito agitado, os homens de Carnos estavam descarregando caixotes e baús e havia gente nas feiras, nas esquinas e em todos os recantos, ao adentrar o castelo Lugh se dirigiu as masmorras, que ficavam em uma alta torre de pedra cinzenta na parte norte. Os nobres que ali habitavam ficaram assustados em ver tanto alvoroço, geralmente não se via pessoas correndo no meio dos salões de bronze, muito menos homens importantes e reis.

Quando Lugh adentrou a torre os guardas o acompanharam até a masmorra e depois até a cela de Cian, mas como Lugh temera não era uma cela comum e sim a sala de torturas, onde abusavam das mais abomináveis praticas. Os homens começaram a berrar ordens para os que se encontravam dentro da sala e logo três homens parrudos e nojentos se retiraram da sala rindo e gritando grosserias. Ao entrar na sala o jovem elfo ficou aterrorizado, seu amigo estava estendido em um pedaço de madeira suspenso, algo semelhante a um alvo, flechas o atravessavam e não havia sido retiradas, impedindo os ferimentos cicatrizarem. Cian estava completamente fraco e submisso, Lugh não conseguia imaginar o quanto o machucaram para deixá-lo naquele estado de debilidade.

– Agora não sou mais tão forte ou imortal como era antes meu caro. –sussurrava Cian em meio a gemidos.

– Eu não consigo acreditar! Cian, os deuses me traíram! Preciso de seu auxilio.

– Tem sorte, ao menos não está sendo trucidado. Os deuses me traíram, mas de forma brutal, o que eles lhe fizeram?

– Gybbra Oddshark é o rei de Ivernos, não sei mais o que farei. Se ao menos fosse o rei poderia tira-lo daí.

– Confesso que nunca te vi em tal estado, sempre se mantém firme e nunca se deixa vencer, agora parece mais um esfomeado.

Quanto mais Cian falava, mais sangue parecia perder e mais fraco ficar. Lugh estava começando a ficar nauseado com aquela a cena de carne dilacerada e dor. Agarrou primeira flecha e a puxou com violência fazendo Cian gritar, algumas vinham com pedaços de pele e fazia mais sangue jorrar do tórax, mas ainda sim era o mínimo que poderia fazer na esperança de que as injurias se fechassem.

– Eu serei julgado, Oddshark sem dúvida me dará pena de morte. Tudo que eu disser ali soará como uma mentira, eles providenciaram tudo.

– O que fizera meu amigo, para estar aqui afinal? – indagou Lugh ansioso.

– Aquele boçal de Turim estava a torturar um druida, apenas fiz o que deveria e livrei daquela insensatez.

– Precisa contar isso a Oddshark, torturar druidas é um crime terrível, sem dúvidas justificará sua decisão de matar os carrascos de Dhagdan.

– Ele providenciou tudo, o druida está perfeitamente bem. Suas cicatrizes foram encobertas, ele testemunhará a favor de Dhagdan caso eu use este argumento, eu estou morto Lugh, morto.

Antes que Lugh pudesse confortar ou falar algo para Cian um brutamonte entrou na sala pedindo para que ele se retirasse. Parecia que cada segundo que passava, as coisas tomavam um patamar monumental, a única coisa que fizera para melhorar a situação fora retirar aquelas flechas, mas era como se não tivesse feito nada, a situação de Cian só se agravava.

– Lugh, sangue, a res... – antes que pudesse terminar de falar Cian desmaiou, o brutamonte lhe dera uma pancada para que se calasse.

Enquanto descia os desiguais e enormes degraus de pedra da torre Lugh não deixava de pensar um momento no que Cian tentara lhe dizer, ele não aguentava mais aquela aflição e precisava falar com alguém, obter alguma resposta, alguma iluminação. Começou a descer mais rapidamente, nunca havia pensado em fazer tal coisa, pois nunca precisara de um vidente em sua vida, mas agora era a hora perfeita, os deuses o ignoraram, seu amigo estava à beira da morte e todos pareciam estar desapontados com o jovem elfo. Talvez ele pudesse lhe dizer, mesmo que em poucas e confusas palavras o que ele deveria fazer para mudar o destino.

No meio das ruas tortas de casas de madeira onde os menos abastados viviam se encontrava uma choupana coberta de palha seca e ornamentada com ossos de pessoas e animais que se encontrava o vidente, era um menino que nunca crescera, ele a anos se encontrava ali sentado esperando que alguém o visitasse para pedir conselhos, prévias do futuro e sempre continuava com a mesma aparência pueril. A velha criança fitou Lugh por um momento e uma lágrima despencou pesada e reluzente de seu rosto, algo que não parecia bom. O elfo se sentou no chão e ficou cabisbaixo, o vidente se aproximou com lentidão e pôs a mão sobre a cabeça de Lugh, parecia aflito e dolorido ver o que se encontrava no futuro.

– Eu vejo! Você está caindo, sempre caindo e nunca chega a lugar algum. Está caindo de um penhasco, e embaixo de você está o mar. Alguém o observa de cima do penhasco, ele é frio, congelante, não há vida, tem os olhos negros como um corvo, e garras como uma águia. – a criança parecia cada vez mais assustada e começaou a chorar – Eu vejo muitas coisas, e vejo sangue. O mar é sangue e chove sangue sobre você, e logo você mergulha profundamente nele.

O vidente se sentou e se pôs a choramingar, cobrindo o rosto com as mãos delicadas e pequenas. Lugh logo ficou curioso em ver aquilo, era realmente algo inusitado. Sempre que alguém fazia um vidente chorar e se assustar era por que algo muito grandioso estava para acontecer, algo que mudaria o rumo do mundo, que mataria muitas pessoas.

– Você tem que me dizer tudo! – Lugh agarrou as mãos do pequenino com força, e o encarou.

– Você tem que se preparar, tem um papel importante nessa era. Os deuses não traíram você, os homens traíram os deuses e isso não ficará impune.

– Me preparar como? Diga pequeno mestre, diga!

– Não seja fraco. Nunca seja fraco, prepare sua mente, prepare sua espada, prepare sua lança.

– Para que? Haverá uma guerra? – Lugh estava extremamente agoniado.

– Se preparar pro fim!