Íria: o desafio de Aurora
5 Capítulo 5
Notas iniciais
Capítulo Cinco
Aurora não tinha muitos pertences, por isso, uma mochila foi o suficiente para pegar tudo que iria precisar. Estava prestes a fazer a coisa mais assustadora e estranha de toda sua vida. Mas talvez isso fosse algo bom, pelo menos era nessa tese que ela estava se baseando. Iria sentir falta de Sophia. A despedida das duas foi rápida e ambas saíram magoadas. Mas sabia que era a coisa certa a fazer. Havia pedido a Hellen para ficar de olho na pequena garota e Aurora tinha em mente que iria dar um jeito de se comunicar com Sophia, de um jeito ou de outro.
Bernardo a guiou até um beco próximo a sua antiga escola e foram até o canto mais escondido e escuro. Aurora sentia calafrios ao pensar no que poderia acontecer com ela caso tudo isso fosse um truque de um maníaco. Ele começou a procurar algo em seu casaco e, assim que encontrou, mostrou a Aurora. Havia uma vela e um pergaminho bem velho.
– Agora nós vamos iniciar o processo de transição. Não é muito agradável para os iniciantes, mas também não é demorado.
– Espere um instante. – ela interrompeu Bernardo. Por todo o caminho Aurora havia repassado todas as palavras que ele havia dito a ela, e somente nesse ponto é que ela percebeu que havia uma coisa muito estranha nessa história toda. Talvez uma falha. Talvez a brecha para perceber que estava em perigo. – Se “meus pais” não puderam me trazer porque iriam morrer... E que somente um ser imortal poderia viajar entre mundos... Como exatamente eu sobrevivi? Vai me dizer agora que sou imortal?
– Você não é como os outros. Mas, como eu disse, não tenho permissão para te contar nada. Principalmente sobre isso. – ele mal deu atenção à garota assim que ouviu sobre o que ela gostaria de falar. Enquanto dizia, ele já começou a preparar seu ritual.
– Você está mentindo pra mim. – ela disse e Bernardo a olhou novamente, parecendo entediado.
– Vamos começar com essa história de novo? Quanta teimosia... – ele suspirou. – Você é fruto de um casal muito especial, Aurora. E, o que quero dizer com especial, é que tinham habilidades especiais. Você herdou todas elas e talvez um pouco mais. Agora, por favor, não podemos falar sobre isso! Ao invés de ficar duvidando de mim, me ajude com isso aqui.
Bernardo tirou também de seu bolso uma pequena trouxinha que ela descobriu ter várias pedrinhas em seu interior. Aurora havia ficado com a função de acender a vela, assim que terminou, pôde perceber que ele havia feito um círculo no chão com as pedrinhas e que estavam no centro dele.
– Pronto. Agora é só ficarmos aqui e começarmos. Você segura a vela com sua mão esquerda e eu fico com o pergaminho. Nossas mãos livres devem segurar firmemente um o braço do outro e você não deve me soltar em hipótese alguma, me entende? – ela concordou com a cabeça, sem nada dizer. – Aurora, não se esqueça disso. Você não deve soltar meu braço, ao fazer isso você quebra a ligação e ficará presa entre mundos. Não importa o que você veja... Mantenha-nos conectados.
A voz de Bernardo tinha um tom sombrio e Aurora sentiu uma leve sensação de medo. Não havia pensado na possibilidade de que tudo aquilo poderia ser mesmo possível e a sensação que a atingiu ao ver uma situação real foi surpreendentemente assustadora. Não por conta da viagem, mas pelo fato de que talvez ela tivesse uma história. Uma história que envolvia a família, pai, mãe; enfim, um lar, um passado a qual pudesse se voltar e ter a consciência de quem eram seus antepassados. Todos esses pensamentos não duraram mais que segundos e no momento seguinte Aurora disse, decidida:
– Não vou me esquecer. Não soltarei você por nada. Devo fazer algo mais?
– Não. Está perfeito. Vamos começar. Só relaxe e tenha consciência de que nada ruim irá acontecer.
Aurora novamente concordou com a cabeça e respirou fundo. Bernardo começou o encantamento, falando em uma língua que ela desconhecia e ele nem sentia necessidade de olhar no pergaminho: já sabia décor. Sua mão segurava forte seu braço e inicialmente a garota pensou que era mais uma segurança pra ela não fugir, mas, na realidade, percebeu que o feitiço necessitava de muita força mental e talvez por instinto ou apoio moral, ela apertou mais seus finos dedos no braço dele. Ele mantinha seus olhos fixos na chama acesa que, a cada segundo, aumentava ainda mais sua fumaça. Aurora notou que tudo ao redor estava ficando esfumaçado, mas, ao contrário do que imaginou, aquela fumaça não sufocava.
Quando ela mal conseguia enxergar além de Bernardo, ele fechou os olhos e continuou falando na língua esquisita. Aurora não sabia se fechava os olhos também ou se os mantinha aberto. Seu coração estava a mil, quase saindo pela boca. Sua respiração rápida, apesar de que não tinha dificuldades para respirar. Tudo estava bem até que algo chamou sua atenção entre a fumaça; alguma coisa estava se movendo. Seu corpo travou, contraindo todos os músculos. A imagem foi ficando mais clara e ela viu um par de olhos negros, a olhando fixamente. O corpo apareceu segundos depois. Era com certeza um lobo. Era grande, maior que o natural, seus pelos eram bem escuros e ele rosnava, deixando seus afiados dentes a mostra. Estava pronto para o ataque.
– Bernardo! Bernardo! – ela se desesperou ao ver passos do lobo na direção em que estavam. Bernardo não moveu um centímetro, somente continuou o que estava fazendo.
A garota estava em pânico, mas não podia se soltar. Lembrava bem das palavras de Bernardo e não estava com vontade de testar a teoria. De repente, o lobo correu e, com um salto, abriu sua enorme boca para devorá-los. Ela gritou, fechando os olhos e cravando suas unhas na pele de Bernardo. Passaram-se quase um minuto e nada aconteceu. Aurora abriu os olhos e ele tinha desaparecido, como se nunca estivesse estado ali. Ela não sabia o que aconteceu, mas conseguiu respirar. Percebeu que Bernardo falava mais rápido e suava muito. Pensou que estava acabando e que o pior já tinha passado, mas estava enganada.
Quatro homens encapuzados apareceram, os cercando. Longe deles, ao redor de Aurora e Bernardo, vários objetos passavam voando, alguns ficando a poucos centímetros de suas cabeças. Dos homens nada se podia ver, somente mãos e pés. Nada diziam, tampouco, apenas ficavam ali em pé, como se fossem guardas. Aurora não sabia se pensava se aquilo era bom ou ruim, mas teve certeza quando os viu pegando espadas. Elas reluziam mostrando seu poder; um único e leve toque na pele já bastaria para machucar, Aurora tinha certeza.
Tudo passou muito rápido. No instante seguinte todos eles correram para atacá-los e, no momento em que se deu conta, a espada de um deles estava cravada em seu estômago, por trás de si; a única coisa que podia ver era a ponta da espada, que havia atravessado seu corpo. Aurora gritou desesperadamente, pedindo por auxílio, e por um segundo ela quase se soltou de Bernardo, que parecia nem ouvir o mundo a sua volta: estava em transe pelo encantamento, Aurora deduziu. Quando voltou o olhar para a situação, tudo havia se desfeito. Nada de homens encapuzados, nada de espadas, somente ela e Bernardo, presos em um mundo cinza e aterrorizante.
Sua respiração estava ofegante, suas mãos suavam, seu corpo tremia. Ela queria que acabasse... Sabia que nada iria fazer mal a ela, mas também sabia que aquilo tinha algum significado mais importante do que simples fumaça. Agora Aurora estava em um mundo desconhecido e, pela primeira vez, sentiu pânico por isso. Gostaria de se lembrar de se beliscar assim que chegassem... Sempre havia um fio de esperança de tudo isso ser um sonho. Quando a garota achou que tudo havia se acalmado, Bernardo aumentou a voz e Aurora achou que ele seria capaz de quebrar seu braço. Um vento forte atingiu os dois e ela pensou que iria cair; o nervosismo a atingiu novamente.
Olhou para cima, buscando ficar calma, mas o que viu a deixou mais intrigada. Um grande e belo candelabro havia se formado em cima de suas cabeças, com quatro finos “braços” do que parecia ser prata abrigando as velas nas pontas. Alguns cristais pendiam do centro dele, dando um ar sofisticado ao objeto. Aurora já estava começando a admirar a imagem, quando notou ela se mexer, os braços se contorciam de uma maneira estranha até surgirem pequeninos olhos, pelos e patas. Definitivamente era uma aranha, enorme, pronta para separar sua comida. Aquela foi a gota d’água. Aurora sempre teve pavor a aranhas, fugia até das mais pequeninas que apareciam em seu antigo quarto no orfanato. Ver uma daquele tamanho bem em cima de sua cabeça provocou arrepios e deixou todo seu corpo rígido. Ela estava se segurando pra não fugir. Quando a aranha desceu um pouco mais, dessa vez ela não gritou, até tentou, mas a voz não saiu tamanha era seu desespero. Fechou os olhos, se encolhendo o máximo que conseguia. E, por mais que tivesse tentado muito estar consciente, sentiu seu corpo fraquejar e deixou-se cair.
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