Étoile Tombée
2 Rien Que Poussière
Notas iniciais
Chapitre Un
Rien Que Poussière
Alguns anos depois
Marie está sentada no chão dos bastidores, observando o palco principal pelas coxias. Paige está ao seu lado, arrumando o nó escondido de suas sapatilhas de ponta. As duas estão assistindo enquanto Damien Hathaway, 20, dança a variação do Príncipe Siegried em seu ultimo ensaio de palco. Ele se juntou a companhia o início da temporada e já está interpretando um papel principal. Isso deixa Marie triste, até mesmo um pouco invejosa – especialmente porque O Lago dos Cisnes é seu ballet favorito – mas isso não importa. Mesmo se ela nunca tiver a chance de interpretar seus papéis dos sonhos, ela está bem desde que possa dançar. É o que a move para fora da cama todos os dias.
Penélope Alvarez, a Primeira Bailarina mais jovem da companhia, surge no palco para praticar a coda. Ela executa os 32 fouettés com certa dificuldade, mas todos já esperavam isso. Eles sabem que ela salta melhor do que gira. Mas ela faz seu melhor, como Marie sabia que ela faria, e faz parecer tão fácil como respirar. Natural como piscar seus olhos. E é isso que a faz a grande bailarina que ela é.
— Ouvi algo interessante hoje – Paige diz. Marie se vira para olhá-la, uma expressão questionadora em seu rosto. Ela continua: – Vamos dançar um ballet novo na próxima temporada.
Marie fica instantaneamente animada.
— Uma nova criação? Para a nossa companhia?
— Bem, não exatamente – Paige inclina a cabeça.
Quase toda a animação de Marie se vai, substituída por confusão.
— O que você quer dizer?
— Não é um ballet completamente novo, só algo que a companhia nunca apresentou antes. A Sílfide de Pierre Lacotte.
E agora Marie está animada de novo.
— Eu nunca imaginei que dançaria isso um dia! Imagina, Paige, vamos ser sílfides! Não parece divertido?
— Se for parecido com as willis de Giselle eu vou morrer de tédio – ela suspira dramaticamente. Marie ri.
— Tenho certeza que será ótimo!
— Ugh, sua positividade é irritante as vezes.
Isso só faz Marie sorrir mais.
— Ah, obrigada, minha cara.
***
Mais uma temporada acabou. As promoções saíram. Penélope Alvarez está partindo por um ano para dançar como bailarina convidada em uma companhia europeia. Damien Hathaway é promovido a Solista. Paige Hemmings também é promovida a Solista (algo que Marie esperava desde que Paige dançou a Princesa Florine em A Bela Adormecida). E Marie? Bem, ela ainda é parte do corpo de baile.
Ela abraça sua melhor – e única – amiga, e promete que ela irão celebrar mais tarde.
Paige vai ligar para seu namorado e Marie para sua mãe. Ela atende no segundo toque.
— Como foi? — ela pergunta do outro lado.
— Não foi dessa vez, mãe. Pelo menos não pra mim, mas Paige foi promovida! — Marie tenta soar animada pela amiga, mas ela sabe que sua mãe irá enxergar através da sua farsa.
— De parabéns a ela por mim, querida. Você está vindo para casa? — a mudança de assunto é rápida e brusca.
— Sim. Até logo!
— Eu te amo, filha – a mãe dela diz, como sempre.
— Eu também te amo, mãe.
Marie desliga.
***
Karen Sheperd, a mãe de Marie, não mora com ela. Ela ainda vive em Rhode Island, onde Marie viveu a maior parte de sua vida – até que foi aceita por uma escola de ballet e foi embora. Foi difícil para as duas, mas as garotas Sheperd são duras na queda – ou pelo menos era o que sua mãe lhe disse.
Agora, Karen está de visita por algumas semanas, para assistir Marie dançando em O Lago dos Cisnes, o último ballet dessa temporada. Mas já que a temporada acabou, Karen logo retornará para casa.
É por isso que Marie coloca sua tristeza de lado e aproveita seus últimos dias com sua mãe. Elas conversam, riem e assistem filmes juntas, como sempre fazem. Mas quando Karen vai dormir, Marie se afunda no chão do banheiro e chora por mais uma temporada que ela passa no segundo plano. Quando ela termina, ela lava o rosto com água gelado e reza para que seus olhos não estejam inchados na manhã seguinte.
***
— Você não acha que pode ter algo haver com o tom da minha pele? — Marie pergunta para Paige um dia, quando estão tomando café-da-manhã juntas.
— Bem, o Ballet de Central City nunca teve problemas com bailarinos de outras etnias – Paige ressalta. — Olha só a Penélope: ela é claramente latina, mas ninguém liga. É a técnica dela que importa.
Marie toma outro gole de seu café. Em anos seguindo Paige até diferentes cafeterias, ela aprendeu a apreciar o gosto.
— Então acho que preciso trabalhar mais na minha técnica.
Paige suspira.
— Não é o que eu quis dizer. Marie, você é uma bailarina linda, mas acho que leva tempo até que você ser reconhecida por isso. Tenho 25 e essa é a primeira vez que recebo uma promoção. A sua virá, eu sei.
De repente Marie se sente envergonhada de sua atitude.
— Me desculpe, Paige. Você está tão feliz com sua promoção e eu aqui falando sobre minha crise de identidade. Vamos mudar de assunto.
— Espera aí, senhorita Sheperd – Paige levanta as mãos. — Primeiro, não há nada para desculpar. Você é minha melhor amiga e é pra isso que melhores amigas servem. Segundo, não tem nada a ver com a sua pele. Você é uma garota birracial linda e isso não é motivo de vergonha. E se você estiver certa e eles não estão te dando os papéis que você merece por causa da sua cor de pele, então eles são idiotas racistas e nós vamos expor eles por isso. Certo?
Marie engole suas lágrimas. Ela não sabe o que ela fez para merecer uma amiga como Paige.
— Certo.
Elas terminam de comer e antes de seguirem caminhos diferentes, Marie abraça Paige e a agradece por estar aqui, fazendo questão de lhe dar os parabéns mais uma vez. Paige merece, Marie sabe.
***
A mãe de Marie é filha de uma homem negro e uma mulher branca. O pai desconhecido de Marie era branco, de acordo com sua mãe. E Marie é a mistura dos dois. Por falta de um termo melhor, ela tem pele cor de oliva. Muito branca para ser negra e muito negra para ser branca.
Crescendo, ela sempre acho que se parecia com a Beyoncé, sua ídola da adolescência. Então, quando ela descobriu que sua pele era mais clara que a da Beyoncé, ela passou pela chamada “crise do tom de pele”. Foi aí que sua mãe lhe contou sobre seu pai.
Karen nunca fala sobre ele. Essa foi a única vez que ela o fez.
— Seu pai era branco. Ele tinha esse cabelo ondulado e olhos esverdeados. As vezes você se parece com ele, Marie. Seu nariz, o formato do seu rosto.
— Ele está morto, mãe? – a Marie de treze anos perguntou, percebendo que sua mãe falava dele no passado.
O rosto de Karen se endureceu imediatadamente.
É como se ele estivesse, querida. É como se ele estivesse – ela sorriu melancolicamente. — Mas não pense mais sobre ele, minha cara. Ele não passa de poeira para nós.
E Marie fez exatamente isso.
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