Ética Do Amor
25 Passado em pauta
Edward fez mais algumas coisas até a hora do almoço, mas era visível o quanto sua mente estava distante. Ele parecia triste, ou até mesmo um pouco perturbado.
– Tsc... – Disse ele. – Não to conseguindo fazer nada direito.
– Não acha melhor parar um pouco, descansar a cabeça e continuar depois?
– Não. Eu não vou melhorar agora. Ainda to pensando na Karla. Como ela me encontrou? Achei que nunca mais a veria na vida. – Disse indignado.
– Você quer ir pra casa? Pelo que eu estou vendo não tem muita coisa a ser feita. E além do mais, se quiser, eu posso fazer o seu trabalho hoje, ninguém vai saber mesmo. Aí você vai pra casa e relaxa um pouco.
– Eu to pensando em ir mesmo, mas quero que vá comigo. – Ele disse.
– Não sei se nós dois podemos nos ausentar.
– Claro que podemos. Você mesma disse, não tem muito o que fazer hoje. Eu só preciso descansar um pouco e preciso de você comigo.
– Tudo bem. Vamos então.
– Faltam dez minutos pro almoço, a gente sai, almoça na rua, depois vamos, sei lá... Pra qualquer lugar. Menos pra casa.
– Tudo bem.
Edward e eu saímos e ele deixou com Alice algumas coisas que ela mesma podia fazer. Disse a ela que estaria com o celular e qualquer coisa, era só mandar um e-mail que ele voltaria imediatamente. Alice concordou e nós saímos. Almoçamos em um restaurante no centro de Nova Iorque, mas tivemos que passar em casa, já que apesar da sala de Edward ser quentinha, por causa do aquecedor, estávamos em pleno inverno, com muita neve e alguns graus negativos. Nossas roupas eram sociais e fechadas, mas não grossas o suficiente para nos aquecer em um dia como aquele. Passamos no meu apartamento e no dele, e então, devidamente agasalhados. Fomos ao Central Park, caminhar um pouco, conversar, namorar. Fizemos anjinhos na neve, patinamos no gelo. Quando a noite começou a cair, fizemos um lanche no starbucks. Edward quis ir para seu apartamento, em seguida. E nós fomos. Assim que chegamos e subimos até seu apartamento, meu coração foi a mil ao ver Karla, sentada no sofá. Olhei para Edward que franziu o cenho, incrédulo, assim que a viu.
– Quem te deixou entrar? – Perguntou.
– Eu disse ao segurança que era sua mãe e ele deixou. – Ela disse se levantando. – Eu disse que não iria embora, só fui ontem porque você estava passando mal.
Ah, claro. Ela foi embora porque eu ameacei chamar os seguranças, isso sim!
– Que seja. Vá embora agora também. E faça-me o favor de nunca mais aparecer. – Ele disse, friamente.
– Eu não vou embora. – Disse imediatamente. – Não tenho dinheiro, estou morando na casa de uma amiga, de favor. Acha justo sua mãe ficar passando necessidades mesmo você tendo tanto dinheiro?
– E você? Acha justo todas as coisas que fez pra mim e pra minha irmã, que por sinal, você matou.
– Eu não matei a sua irmã! E você sabe disso.
– Não matou diretamente, mas matou.
– E qual culpa eu tenho dela não cumprir com seus compromissos?
– Compromissos? – Perguntou furioso e com os olhos arregalados. – É assim que vocês chamam hoje? Compromissos?
– Não Edward. Você não entende. Não vê o que eu fiz por vocês.
– O que você fez pela gente? – Perguntei. – Não, porque essa eu realmente quero ouvir. Fala aí. O que você fez?
– Eu vendi a sua irmã pro milionário lá da Alemanha. Ela ia ficar bem, ia ficar rica. E nós também, com a baba que ele pagou. Só que aquela vadiazinha, esfaqueou o homem quando ele tentou tocá-la. Ele ficou com raiva e quis se vingar. Ela mesma cavou sua cova. Não tenho culpa alguma.
– Como não tem culpa?! – Gritou Edward, enquanto suas lágrimas começavam a escorrer. – Era a minha irmã, sua filha! Ela só tinha 15 anos. 15 anos! Tem noção do quanto ela tinha pra viver? Do quanto ela tinha pra aproveitar? E você destruiu tudo, acabou com tudo. Por causa de vinte mil dólares. Porque eu lembro que foi isso que aquele porco imundo te deu. Vinte mil dólares. Tá vendo isso aqui? – Disse tirando o relógio que estava em seu pulso e mostrando a ela que assentiu positivamente com a cabeça. – Esse relógio custou mais do que aquela droga de dinheiro. A vida da minha irmã valeu menos que a porra de um relógio. – E então ele jogou o relógio nela, que colocou o braço em volta do rosto, em proteção.
– Edward. Pega leve. – Eu disse.
– Não tem motivos pra eu pegar leve com essa daí. – Ele disse. – Pode ter certeza que não.
– O Nathan não queria matá-la. – Disse Karla. – Ele só queria dar um corretivo por ela ter esfaqueado o gringo. Só que ela tentou revidar enquanto ele batia, ele acabou batendo mais e mais. Aí acabou perdendo a noção.
– E quem se ferrou nisso tudo além da minha irmã, fui eu. Porque você e aquela droga de cafetão que matou a minha irmã foram embora, sumiram.
– Eu soube que a culpa tinha caído pra cima de você. Só que eu não ia me entregar. Você também não faria isso por mim. Pra ser sincera, achei até que ainda estava preso. Até que mês passado, vi uma foto sua no jornal e te reconheci, mesmo depois de tanto tempo. Fora o seu nome que estava escrito na matéria. Li que você era presidente de uma das maiores empresas da América. Bom... Eu fiquei boba, é claro. Achei que ainda estava preso, talvez até morto. Mas você realmente me surpreendeu. Como conseguiu?
– O meu pai me encontrou.
– Carlisle?
– Sim. Me admira você lembrar do nome dos seus clientes de uma noite. Na verdade me admira também você saber quem é o meu pai.
– Ah... Então foi isso que ele disse? – Perguntou com um sorriso de canto. – Uma noite?
– Não foi apenas uma noite?
– Claro que não. Eu jamais engravidaria de um cliente. Eu me precavia.
– Então vocês tiveram um caso? – Perguntou Edward, com os olhos arregalados.
– Sim. Durante três meses. Ele foi à Vegas pra despedida de solteiro de um amigo e nós transamos, ele gostou e voltou a me procurar. Eu também adorei, então não cobrei, mas ia encontrá-lo escondido, senão o Nathan me matava, ele dizia que ele era o único homem que podia ter passe livre, bom... Não era bem assim. Carlisle e eu nos víamos sempre, só que ele se arrependeu de estar traindo a esposa e disse que não me procuraria mais. Duas semanas depois descobri que estava grávida de você e da sua irmã. Na mesma hora eu tive certeza que era dele. Com certeza teria procurado Carlisle, afinal, ele era rico e me daria uma boa grana de pensão. Só que eu não fazia ideia de onde ele morava, procurei por muito tempo, mas nunca o encontrei. A única coisa que eu sabia, era que seu nome era Carlisle Cullen, mesmo assim, porque vi em seus documentos enquanto ele tomava banho uma vez. – A expressão de Edward era confusa. Ele parecia impressionado com o que ela havia dito. – Agora chega de papo, né? Eu quero saber quanto você vai me dar.
– Nem um dólar.
– Vai deixar eu continuar me prostituindo por míseros 50 dólares?
– Me admira que paguem tanto. Agora vá. – Disse friamente.
– Não vou te deixar em paz. Vou na justiça e te obrigar a me dar uma ajuda de custos.
– Isso. Vai na justiça mesmo que eu conto pra eles o que você fez com a minha irmã. Será que eles vão gostar de saber que vendeu uma menor de idade e ainda por cima mandou matá-la depois?
– Você não pode provar nada disso.
– Nenhum crime é perfeito. Tenho certeza que existe alguma poeira de toda essa sujeirada que você e aquele maldito fizeram. Eu já até comecei a fazer isso, mas assim que cheguei naquele maldito purgatório que você nos obrigava a ficar, eu vi que não conseguiria levar aquilo a diante, não tinha forças psicológicas pra isso.
– E o que te faz pensar que vai ter agora?
– Eu não sei, mas não vou aceitar ficar te sustentando. Não mesmo.
– Eu não tenho medo de você. E vou levar isso adiante. Você não pode fazer nada.
– Leve adiante e eu acabo com você. – Disse Edward, ameaçadoramente. Até eu estava com medo, pela forma que ele falava e olhava para ela. Havia algo a mais do que fúria em seu olhar... Havia ódio. – Te esmago como se esmaga um inseto. Não tenha dúvidas de que eu sou capaz de fazer isso.
Karla olhou no fundo de seus olhos com um sorriso vitorioso nos lábios. Ela parecia orgulhosa, ou algo assim. Quem ficava feliz após uma ameaça? Porque parecia que ela estava.
– Você pode me odiar com todas as suas forças, mas isso só prova o que eu já sabia, Carlisle não faria mal a uma mosca, é um homem imensamente bom. E eu? Bom... Não valho lá muita coisa. Mas você, você é o pior tipo, você transita a todo instante entre o bem e o mal, porque é isso que você é. Tenta ser bonzinho, mas no fundo, é tão perverso, tão tempestuoso e tão mal quanto eu sou. Não te culpo, tá no sangue que corre nas tuas veias. Não tem como fugir. Nos vemos no tribunal.
E então ela saiu, sem dizer mais nada. Olhei para Edward, que parecia possesso.
– Tá tudo bem?
– Tá sim. – Ele disse.
Edward respirou fundo e então olhou para mim, sorrindo docemente.
– Será que essa linda moça me dá a honra de me acompanhar em um banho? – Perguntou.
– Sim... Ela lhe dá esta honra, belo cavalheiro. – Eu disse sorrindo.
Edward puxou minha cintura contra seu corpo e me beijou, intensamente, seu beijo era calmo e apaixonado, porém devorador ao mesmo tempo, mais ou menos como o beijo que demos ontem em meu apartamento. Enquanto nos beijávamos, ele me pegou no colo e eu envolvi sua cintura com minhas pernas, enquanto minhas mãos agarravam seus cabelos, puxando-o mais pra mim. E assim, nós fomos ao banheiro em um banho demorado, repleto de mãos bobas, beijos e algumas coisas a mais, depois de secos, fomos para seu quarto, ficamos deitados embaixo do edredom, que protegia nossos corpos nus do frio que fazia em Nova Iorque.
– Edward. – Eu disse enquanto ele me abraçava, de conchinha.
– Oi? – Perguntou.
– Eu sei que talvez você não queira falar sobre isso e eu te respeito completamente, caso não queira, mas como está se sentindo em relação à volta da Karla?
– No começo eu fiquei perplexo, porque achei que nunca mais a veria e estava feliz por isso, mas depois de algumas horas após vê-la, a ficha finalmente caiu. Por isso eu estava tão inteiro quando a encontramos aqui.
– Ah sim... Entendi.
– Você acha que ela pode ganhar uma pensão minha na justiça? – Perguntou, parecendo preocupado.
– E se ganhar? Você vai pagar o que? Cinco mil dólares? Não é nada perto de tudo que tem.
– A questão não é essa. Eu não quero sustentá-la. Mesmo que seja uma merreca por mês. Não quero colocar comida na boca dela. Não mesmo.
– Eu te entendo, ainda mais pelo que fez com sua irmã. – Foi então que me lembrei que ele não sabia que Victória havia me contado sobre a menina, então me fiz de surpresa ao continuar o que dizia. – E essa irmã? Nunca imaginei que tivesse uma.
– É... Eu tive uma irmã gêmea.
– Nossa. E a sua mãe a vendeu. Isso é monstruoso. – Eu disse indignada ao lembrar da conversa dos dois.
– Pois é.
– Sabe... Eu queria muito saber todas as coisas que já aconteceram com você, só que não posso te obrigar a me contar. Só me resta esperar até que esteja pronto.
– Na verdade... Eu me sinto pronto pra contar pra você. – Disse tranquilamente.
– Sério? – Perguntei ainda mais curiosa, já que agora estava tão perto de eu saber toda a verdade.
– Sério. – Disse com um leve sorriso. – Bom... Se eu chorar, apenas releve.
– Você pode chorar, não precisa ter vergonha disso.
– Okay. É... Desde que me lembro, eu e a minha irmã, Elizabeth, vivíamos com a Karla e outras duas prostitutas que eram colegas de trabalho dela. Todos morávamos escondidos em um sobrado velho que estava caindo aos pedaços, rezando todos os dias para que os verdadeiros proprietários não viessem exigir a casa. Karla não dava a mínima pra mim e pra minha irmã, não nos dava banho, não nos dava comida, nem mesmo falava com a gente. Quem cuidava de nós dois era uma das mulheres de programa que morava com a gente, Carmem. Ela era uma ótima mulher que quando mais jovem, perdeu a mãe e foi abusada pelo pai. Então fugiu de casa, sem dinheiro, sem lugar pra ir, então viu na prostituição, uma forma de sobreviver. Ela colocou minha irmã e eu em uma creche pública e depois na escola, comprava roupas e calçados. Fazia tudo que a Karla não fazia por nós. Elas não ganhavam muito já que Nathan, que era o cafetão delas, pegava o dinheiro quase todo em troca de não fazer mal a nenhuma delas. A que ganhava mais ali, era Karla, que era namorada do Nathan, ele dava muitas roupas, sapatos, bolsas, joias, dava tudo pra ela. Só que o dinheiro dela, só era gasto com ela, cirurgias pra continuar bonita, cabelo, drogas. Enfim, ela era uma péssima mãe. Além de não nos dar absolutamente nada, ainda nos batia, brigava, machucava. Carmem não tinha condições de pagar uma empregada para nós dois, chegou a sugerir à Karla que elas dividissem o pagamento da empregada, mas ela não quis. Então nós éramos obrigados a ir da escola, direto para o bordel que elas trabalhavam. Entravamos pelos fundos pra ninguém nos ver e denunciar à polícia que menores estavam entrando em um bordel. A gente via tudo que acontecia ali. Carmem tentava nos proteger e pedia para que ficássemos em um quartinho abandonado que tinha lá, mas nós éramos crianças, é claro que não era isso que fazíamos. As coisas não eram boas, mas eram suportáveis, até fazermos onze anos, o ano em que Carmem foi atropelada por um ônibus quando estava indo nos buscar na escola, e faleceu. – Edward respirou fundo, segurando suas emoções, e continuou. – A partir daí, a coisa mudou, completamente. Visitamos Carmem no hospital antes que ela partisse, e ela me fez prometer que jamais sairia da escola e que sempre cuidaria e protegeria a minha irmã. Eu tive que amadurecer em um mês, coisa que algumas pessoas não amadurecem em uma vida. Elizabeth era muito frágil, ela tinha muito medo de tudo, e com razão, porque além de vivermos na mais deplorável miséria, ainda presenciávamos coisas que criança nenhuma deve sequer saber que existe. Eu comecei a trabalhar na rua, engraxando sapatos de homens poderosos que me tratavam como se eu fosse um lixo, não davam o dinheiro na minha mão, pra não encostar nos meus dedos sujos de graxa, eles simplesmente jogavam em cima de mim, às vezes as moedas se perdiam pelo chão, então arrumei uma caixa de sapatos e coloquei ao meu lado, para que em vez de jogarem o dinheiro em mim, o jogassem lá. Eu era bom naquilo e consequentemente muitos homens vinham engraxar os sapatos comigo, e o dinheiro que eu estava ganhando, era o suficiente pra comprar as coisas pra minha irmã e pra mim, só que Karla sempre pegava mais da metade do dinheiro, dizendo que era o que ela merecia por deixar que eu trabalhasse. Eu sempre olhava a minha irmã, só que enquanto trabalhava, a deixava em casa, sozinha. E então, quando nós tínhamos 12 anos, o maldito cafetão e namorado de Karla, foi até lá e a estuprou. Ela me contou e eu fiquei possesso, fui até lá, com uma faca na mão, disposto a matá-lo pelo que ele havia feito, só que eu era praticamente uma criança, enquanto ele já tinha quase quarenta, eu apanhei feio, é claro. Karla disse que eu não devia me meter, porque Elizabeth também devia colocar dinheiro em casa e os clientes não iriam querê-la tão arisca, por isso Nathan a iniciou no mundo do sexo. Eu quis, muito, proteger a minha irmã, mas era impossível. Eles eram maiores e mais fortes do que eu, nós tentamos fugir, muitas vezes, mas sempre nos encontravam e nos batiam. Eu parei de trabalhar pra ficar por lá e vigiá-la, mas eu não podia impedir. Foi nesse ano também que eu perdi a virgindade com uma das prostitutas de lá, ela tinha quase vinte e cinco anos, enquanto eu era praticamente uma criança. Karla apoiou isso, é claro. Eu sempre ficava atrás do balcão, observando tudo e todas as pessoas. Alguns clientes inclusive... – E então ele parou novamente, respirando fundo, e continuando em seguida. – Me queriam. Se é que me entende.
– Homens? – Perguntei impressionada.
– Sim.
– E você ia?
– Não. Nathan e Karla diziam que se eu não fosse, eles arrancariam meus dedos, um a um. Mas mesmo assim, eu não ia. Apanhava muito depois, mas não ia. Certa vez Nathan me segurou, para que um daqueles doentes me comecem, mas Elizabeth bateu na cabeça do homem com um castiçal. Claro que apanhou de Nathan também. Mas eu estava crescendo e aprendendo a me defender. As brigas com Nathan começaram a ficar interessantes, já que ele não era mais o único que batia. Diversas vezes ele tentou me matar, mas eu era muito esperto e sempre estava há um passo de seus atos. A vida era um inferno constante, tanto pra mim, quanto para Elizabeth. Apanhávamos, fugíamos daqueles malditos tarados, eu conseguia, mas ela não, tentava protegê-la, mas não podia estar ao tempo inteiro ao seu lado, apesar de tentar. Aos 15 anos, Elizabeth já era um verdadeiro mulherão e isso atraia muitos homens, inclusive um multimilionário Alemão, que tinha ido conhecer Las Vegas e foi até o bordel, na mesma hora ele ficou enfeitiçado por ela, ele tentou pegá-la, mas Elizabeth era muito arisca, ela conseguia fugir de muitos programas, mas daqueles que não conseguia, ela arranhava, mordia, chutava os homens que pagavam por ela, muitos não gostavam e exigiam o dinheiro de volta, mas por outro lado, outros gostavam disso, e sempre a procuravam, pagando até mais caro, só pra ficar com ela. Um desses doentes que sentia prazer em estuprar uma garota, estava esse alemão, que inclusive, quis comprá-la e levá-la para a Alemanha. Ofereceu vinte mil à vista para Nathan que na mesma hora aceitou. Eles fizeram negócio, mas quando estavam no jatinho dele, para ir para a Alemanha, Elizabeth esfaqueou o ombro do maldito, e fugiu. Ele ficou com muita raiva, tanta que tomou o dinheiro de volta e foi embora. Nathan ficou cego de ódio, por ter perdido o dinheiro do gringo, dominado por esse ódio, ele bateu em Elizabeth que não aguentou e faleceu. Ele costumava bater nela com um chicote que ele tinha, só que naquela fez, ele esquentou um pedaço de ferro de uma das camas desmontadas lá do bordel, e usou isso pra bater nela, que não resistiu, é claro. Depois disso, antes mesmo que eu soubesse da morte da minha irmã, eles fugiram e ligaram pra polícia, para que eles fossem até lá e me vissem perto do corpo. E foi o que aconteceu, eu fui preso na mesma hora, mas estava pouco me importando, tudo que eu queria era morrer, já que as únicas pessoas que eu amei até então já estavam mortas, que era minha irmã e Carmem. Após contar toda a minha história para o delegado, ele disse acreditar em mim, só que não podia fazer nada em relação à minha prisão a não ser procurar o meu pai, eu disse a única coisa que eu sabia, que seu nome era Caslisle Cullen e que ele era rico, foram as únicas coisas que Karla me disse. E então, o delegado disse que o encontraria para que ele pudesse tomar alguma providência para me tirar dali. Demorou três meses até que ele encontrasse Carlisle, que mesmo assim, só encontrou com a ajuda da outra garota de programa que morava conosco, que o conhecia da noite de despedida de solteiro, quer dizer, isso era o que eu pensava até hoje, mas na verdade, ela o conhecia pelo caso que teve com Karla. Enfim, Durante esses três meses, eu não queria nada além de acabar com aquilo de uma vez, me cortava quase todos os dias, na esperança de alguma vez ter coragem o suficiente para chegar em minha veia. Só que o Carlisle veio rapidamente, fez o exame de DNA, que comprovou a paternidade e em menos de três dias depois de descobrir ser o meu pai, me tirou da cadeia.
– E então você foi morar com ele.
– Isso. A primeira coisa que Carlisle fez, quando saí da cadeia, foi me levar pra mansão deles, para que eu tomasse um banho, me emprestou uma roupa do Emmet e nós fomos comprar as minhas próprias roupas e sapatos, ele comprou mais de cinquenta peças e calçados, passamos o dia inteiro na rua, fazendo compras. Quanto à vida com eles, no começo, foi tudo muito estranho pra mim, porque eles eram o que podia se dizer de uma típica família feliz, enquanto eu parecia um bicho amoado e deslocado. Não sabia comer à mesa, não sabia conversar, desconfiava de tudo e de todos, não era nem um pouco educado, não sabia interagir, bom, interação ainda é um problema, mas eu melhorei bastante. Resumindo: Eu era praticamente um homem das cavernas, ou algo assim. E eu tinha plena consciência disso, tanto que passei quatro meses sem dizer nenhuma palavra. Carlisle tentou me fazer falar, chegando a buscar até ajuda profissional, mas eu não falava simplesmente porque não queria, estava triste demais, sozinho demais, inseguro demais, eu não me sentia confortável ali, e apesar de sentir que ali não era o meu lugar, também não pretendia fugir, já que Carlisle e Emmet eram o mais próximo que eu tinha de uma família, e por mais que eu estivesse relutante em relação a confiar plenamente neles, não podia negar que Carlisle me lembrava Carmem e Emmet, Elizabeth. Na verdade essa associação era o que mais me prendia ali, eu acreditava que de onde quer que elas estivessem, elas tinham me mandado eles dois, para que eu não ficasse só. Por diversas vezes eu até sonhava que Carmem e Carlisle eram casados, enquanto Emmet, Elizabeth e eu eramos seus filhos. Eu adorava sonhar isso, porque era uma das poucas vezes que eu ficava realmente feliz. Carlisle trabalhava bastante, e eu ficava em casa com o Emmet e a Esme. Ela me tratava muito mal, mas eu não me importava muito, afinal, tudo que ela fazia comigo era fichinha perto de como eu era tratado por Karla e Nathan, a única coisa que realmente me fazia falta, era a comida que ela se recusava a me dar, Emmet pegava as coisas escondidas e me alimentava, além de ficar falando comigo por horas, mesmo eu não falando com ele. Aos 15 anos, eu devia estar no terceiro ano do ensino médio, já que Carmem me colocou na escola bem novo, só que eu já tinha perdido seis meses, no entanto, Carlisle pagou uma das melhores escolas dos Estados Unidos, que era a que o Emmet estudava, eu entrei no meio do ano mesmo, em um intensivo que eu ficava o dia inteiro lá, de segunda a sábado, e concluiria o terceiro ano em seis meses.
– Tipo um supletivo.
– Isso, só que com muita qualidade. Tinham alguns meninos que batiam no Emmet na hora da saída, regularmente, eu não tinha visto até então e ele também não tinha me contado, mas em um dia, quando eu estava indo comprar alguma coisa na rua de trás da escola, eu vi, três garotos, querendo bater nele, e no mesmo instante eu me lembrei de Elizabeth, que apanhava tanto de Karla e Nathan, do quanto ela era frágil e indefesa, naquele momento, eu a vi no Emmet, eles eram muito parecidos, e então um ódio imenso foi crescendo em mim, imediatamente fui até lá e bati em todos eles, o que foi muito fácil, já que eu brigava praticamente todos os dias pra me manter vivo, enquanto aqueles almofadinhas só sabiam brigar em grupo. E então, eu perguntei se o Emmet estava bem, essa foi a primeira vez que falei com ele, que ficou muito feliz, por sinal, a partir dali, eu comecei a me apegar a Carlisle e ele, e já me sentia à vontade o suficiente pra conversar, tanto que conversávamos muito, o Emmet era e ainda é o meu melhor amigo, por isso me importo tanto com ele. Esme ainda ficava fazendo as maldades dela comigo, e a Rose, que já era namorada do Emmet, dava total apoio a ela. O Emmet dizia que eu era legal, e ela até era simpática comigo, até a morte da Esme é claro. Só que antes dela falecer, aconteceu algo que eu não contei a ninguém, até hoje.
– O que?
– O Carlisle tinha alugado uma lancha pra gente visitar algumas ilhas em Miami, e aquilo era novo pra mim, já que eu nunca tinha entrado no mar, eu nem mesmo tinha visto o mar ainda, eu só sabia nadar mesmo porque tinha piscina no colégio público que estudei. Carlisle parou a lancha em auto mar, para que a gente mergulhasse. Nós mergulhamos e eu estava gostando bastante. Esme estava inclusive vestida com roupa de mergulho, de oxigênio, máscara e tudo mais. Ela ficava mergulhando o tempo inteiro, até bem lá no fundo. Nesse meio tempo, ela arrumou alguma desculpa para que Emmet e Carlisle saíssem do mar e entrassem na lancha, enquanto ela estava lá, no mar, comigo e em certo momento ela me chamou pra ver alguma coisa no fundo do mar, me emprestou um óculos e eu, na inocência, fui, foi então, quando estávamos bem lá embaixo, sem que eu visse, ela pegou uma corda que ela havia amarrado em um coral, que rapidamente, amarrou meu tornozelo, depois subiu até a superfície.
– Ela tentou te matar? – Perguntei com os olhos arregalados.
– Sim. Ela tentou. – Respondeu. – E quase conseguiu. O nó que ela deu, apesar de feito com muita pressa, estava muito bem atado, eu já estava começando a ver tudo escuro quando finalmente consegui desatar, engoli muita água e passei mal, mas sobrevivi, no entanto, mar acabou pra mim naquele dia. Quer dizer, até o dia que você estava se afogando lá na ilha. – Disse com um leve sorriso.
– Então o seu trauma foi porque você quase morreu afogado justo na primeira vez que entrou no mar.
– Exatamente.
– Eu sinto muito... Por tudo. – Eu disse. – Realmente parte o meu coração saber da sua história. Eu imaginava que fosse algo traumático, mas não fazia ideia de que tinha sido tão horrível.
– Tudo bem. Parece estranho, mas eu já não me sinto tão mal quanto me sentia antes ao me lembrar de tudo que aconteceu. – Ele disse sereno. – Antes era muito difícil pra mim até mesmo pensar em tudo que eu tinha passado, tanto que demorei anos pra contar sobre o tudo que tinha me acontecido para Emmet e Carlisle. Só que parece que a cada dia que passa, o passado, tem realmente ficado onde deve estar... No passado. Pode parecer uma baboseira romântica, mas essa melhora só vem acontecido, desde que você entrou na minha vida.
Olhei para Edward, que sorriu para mim enquanto meus olhos lacrimejavam de alegria, não apenas por estar causando essa mudança nele, mas por ela estar ocorrendo, por poder ter a esperança de que algum dia, Edward se livraria de todas as sombras de seu passado.
– Estou tão feliz que esteja melhorando. Você não tem noção do quanto. – E então o beijei docemente. – Mas e a faculdade? Você disse que entrou aos 16. – Eu disse querendo saber mais, só que agora, de um passado que não fosse triste e trágico.
– Sim. Como eu já tinha dito antes, terminei o ensino médio aos 15 e no mesmo ano, consegui passar pra Arquitetura e Urbanismo. Um ano depois de eu ter passado, aconteceu tudo aquilo com a Esme, mas eu superei e continuei na faculdade, seguindo a minha vida, tanto que a faculdade foi o início da minha nova vida, eu conheci muitas mulheres interessantes, e elas também me achavam interessante, aquele ano foi muito movimentado na minha vida sexual, eu ficava todo final de semana com uma garota diferente e às vezes mais de uma... Até ao mesmo tempo. – Disse com um sorriso safado e eu bati em seu ombro. – O que? É passado, amor. Mas continuando, eu ficava com várias mulheres, cada uma mais bonita que a outra, até que, aos 18 anos, conheci a Victória.
– E foi paixão à primeira vista. – Eu disse irônica, porém, bem humorada. Victória felizmente não me deixava mais insegura como eu era antes de conhecê-la.
– Paixão não, mas atração sim. Eu a achei muito linda, foi imediato, então comentei com um amigo que eu tinha que eu precisava pegar aquela garota e eu realmente pensei que aquilo não seria problema, só que ela era do tipo que não gostava de fazer o que as outras faziam, só pra não seguir a modinha, ainda que ela quisesse seguir. Logo, como eu ficava com muitas garotas, inclusive algumas amigas dela, ela não me queria, mas é claro que eu não desisti e com o tempo eu comecei a gostar dela, não estava apaixonado ainda, mas ela já significava mais do que as outras que eu ficava por ficar e então, depois de meses de insistência, consegui, finalmente ficar com ela. Foi ótimo e nós dois ficamos meio que obcecados um pelo outro. – Ele disse sorrindo.
– Como assim?
– É estranho falar disso hoje, porque... Sei lá. Eu não a vejo dessa forma há anos, mas a gente transava em qualquer lugar, nunca era o suficiente. Eu disse que não queria namoro, mas que ao mesmo tempo não gostava da ideia de ela poder ficar com quem ela quisesse. Ela disse que topava um relacionamento desses comigo. A gente não namorava, mas também não ficava com mais ninguém. Bom... Funcionou por um bom tempo. – Disse Edward sorrindo.
– E essa sua coisa com relacionamentos? Por que isso?
– Ah... É que o Nathan e a Karla eram namorados e só se importavam um com o outro. No fundo, eu pensava que ela não gostava de mim, porque ele também não gostava, já que eu era filho de outro homem. Logo eu tive medo de ser assim algum dia, de me importar demais com alguém, a ponto de pouco me lixar pras outras pessoas que eu deveria amar. Como o Emmet e o Carlisle. Por isso eu impus essa barreira. Eu sei que é besteira, mas era algo meu.
– Entendo. Que bom que superou isso então.
– Verdade.
Era engraçado, mas após saber tudo isso em relação à vida de Edward. Era como se um peso tivesse sido retirado de minhas costas. Apesar de confiar nele, eu tinha muito medo do efeito que suas revelações pudessem causar em mim e na forma como eu o via, mas agora, ao saber de toda a verdade, mentiria se dissesse que não o admiro ainda mais.
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