Éter

1 So I walked into the haze...


Notas iniciais
[2017] Vim refazer as notas da história depois de alguns anos. Quando eu escrevi essa história de apenas um capítulo eu tinha 13 anos, e até hoje, eu me orgulho muito dela por toda delicadeza que eu coloquei nos personagens, nos cenários e nas emoções. Ela é simples e não significa grande coisa para os outros, mas diz muito para mim. Em parte, essa história foi inspirada pelo livro "Circo Da Noite" da Erin Morgenstern, as músicas "Lucy in The Sky With Diamonds" dos Beatles e "Pure Imagination" do primeiro filme de A Fantástica Fábrica de Chocolate. Também o episódio "Listen" da série britânica "Doctor Who". Espero que gostem, e se não, me deixem saber o porquê!

“Leave the horror here
Forget the horror here, forget the horror here
Leave it all down here
It's future rust and then it's future dust
I'm the fury in your head, I'm the fury in your bed
I'm the ghost in the back of your head”

“Em 7 de abril de 2011, por volta das 8h30min da manhã (UTC-3), na Escola Municipal Tasso da Silveira, localizada no bairro de Realengo, na cidade do Rio de Janeiro, Wellington Menezes de Oliveira, de 23 anos, invadiu a escola armado com dois revólveres e começou a disparar contra os alunos presentes, matando doze deles, com idade entre 13 e 16 anos.”

Luíza sabia como seria o dia seguinte.

Todas aquelas pessoas com máscaras de tristeza, repetindo o mesmo discurso cansativo.

A ajuda que ela precisava não era apenas algumas palavras ensaiadas e promessas de que tudo ficaria bem com o tempo. Ela não queria ver o falso drama alheio.

Nenhum daqueles homens escondidos atrás das câmeras sabia o que ela sentia. Mas eles insistiam em entender. Eles queriam informação, detalhes, depoimentos. Queriam histórias violentas e tristes que atrairiam atenção e fariam a audiência se comover e ter o que falar no caminho para o trabalho. Queriam mães se consolidando com a dor das outras mães.

Isso tudo a irritava agora.

O que cura o medo?

Um simples barulho fazia seu corpo tremer, um grito a deixava enjoada.

O que cura a tudo isso?

Sangue fazia com que a menina chorasse.

Lembrar dos corpos jogados no chão, dos choros reprimidos, dos olhos assustados, do som dos tiros e das cadeiras reviradas...Aquilo era sobreviver a um desastre. Não tinha vitória, não tinha nada bom. Às vezes a menina achava que ter morrido seria melhor.

Sua amiga tinha doze anos. Ela estava feliz porque tinha ultrapassado a média do turma em matemática. Larissa sempre foi boa em exatas, e Luíza sempre preferiu humanas. Elas eram amigas desde o jardim. Luíza não recordava o dia em que a conheceu, mas sempre lembraria do dia em que a perdeu.

Larissa morava perto de uma favela, e ouvia tiros constantes. Ela morria de medo. Cobria os ouvidos e cantava músicas aleatórias até os sons pararem. Ela contava para Luíza cada tiroteio, e deixava transparecer todo seu medo.

Até que ela morreu baleada.

Luíza torcia para que ela não tenha ouvido o barulho do tiro antes de morrer. Que tenha dado tempo de cobrir os ouvidos e pensar na sua música favorita. A possibilidade do som não ter sido ouvido era quase impossível, mas ela torcia em uma devoção indirecionada e cega, que sua amiga tivesse partido da forma mais passível possível na situação.

Faziam três dias desde o massacre.

Três noites sem dormir.

Luíza se revirava na cama, tentando pensar em alguma coisa. Mas ela se esforçava tanto para esquecer, que acabava lembrando.

Ela sentou na cama, espalhando os cobertores e amassando os cachos em punhos, tentando fazer com que suas mãos parassem de tremer. Ela reprimiu os lábios e fechou as pálpebras com força, tentando reprimir os soluços e as lágrimas. Ela vivia fazendo isso; suprimindo a dor, o choro, a angústia. Sua mãe dizia que não era certo, que ela precisava colocar para fora. Mas ela temia que nunca conseguisse parar.

Tem tanta coisa para chorar...Eu só queria sumir para sempre. Morrer, sumir, tanto faz. Não quero mais viver aqui, não quero mais viver aqui, não quero ma...

Ela ouviu um barulho nas escadas, e seu corpo enrijeceu.

Isso sempre acontecia quando ouvia qualquer coisa. Na sua cabeça já surgiu mil hipóteses sobre o barulho nas escadas. Imagens horríveis e possibilidades racionalmente improváveis ocupavam sua mente, deixando seu corpo em um estado de choque e seus olhos vidrados. Ela esperou por severos minutos nesse transe para ver se o som voltaria, mas não voltou.

Ela estava prestes a voltar para cama, quando sua maçaneta foi virada e ela ficou aterrorizada demais para gritar.

Ela teve tempo de fechar seus olhos com força e enterrar seu rosto entre os joelhos, cantarolando uma música que tinha aprendido no coral da igreja. Ela deixou algumas lágrimas caírem, e cantou um pouco mais alto, enquanto via a luz crescendo por trás de suas pálpebras.

Então ela não resistiu, e abriu os olhos.

E descobriu que não estava mais em casa.

[...]

[MÚSICA AQUI]

Ela olhou em volta, desnorteada e tremula.

Pensou que estava sonhando, mas no fundo sabia que era real. Era como nos filmes, que algo muito fora do normal acontece, e apesar de seus instintos mais básicos te confirmarem a verocidade da situação, a mente humana corrompida pela lógica perfeita da visão da nossa raça sobre o mundo, se recusa a aceitar o extraordinário.

Leave the horror here
Forget the horror here, forget the horror here…

Mas ela queria que fosse real. Porque ela sabia que era um lugar longe, bem longe, e era onde ela queria estar.

Era uma floresta, com tochas de fogo colorido nos troncos das árvores – que a propósito, eram roxas. Haviam pessoas com roupas exageradas, extravagantes e fora dos padrões comuns. As roupas tinham formas estranhas, e pareciam não se encaixar bem no corpo das pessoas. Era engraçado.


Leave it all down here
It's future rust and then it's future dust…

Todos estavam dançando e sorrindo. Alguns dos seres ali soltavam gritos entusiasmados enquanto seus vestidos engraçados rodavam, levantando a terra dourada que voava até as folhas das árvores e se encaixando nelas como que por osmose.

Luíza observou a terra subindo até as folhas, e seu olhar parou na lua rosa e as estrelas que eram tão diferentes que ela nem mesmo sabia se era certo classificá-las como tal; eram como glitter que dependendo da posição que se olha — influenciado pela luz — você percebe seu brilho e uma cor diferente. O céu, pelo menos, ainda era azul.


Forget the horror here, forget the horror here…

Ela foi andando pelas pessoas, e tudo parecia estar em câmera lenta. Seu corpo parecia responder uma percepção estranha de que ela tinha que estar andando, seguindo para perto de onde tinha som, luz e vida. Aquilo era real. Real como todas as coisas.

Ela sentia o vento, sentia a areia dourava batendo nas suas pernas. Mas não era o mesmo. Seu corpo não parecia o mesmo e talvez não fosse. Ali não tinha espelhos ou qualquer objeto que refletisse qualquer outra coisa. Eu não posso me ver. Talvez eu não exista.

Leave it all down here
It's future rust and then it's future dust…

Tinham mesas de comida por toda parte e balanços de folha por todo lado. Luíza se perguntava como a folha podia aguentar o peso de alguém, mas achou que esse era a questão menos importante no momento.

Ela se aproximou de um ser de cabelos brancos, mas que aparentava menos de vinte anos. Seu vestido era parecido com os das damas de seu livro de história, tirando o fato de ter todas as cores possíveis nele e flores em pontos não tão simétricos. Na ponta do vestido, a costura parecia estar se desfazendo e o tomara-que-caia tinha pedaços do que parecia vidro escarlate.

Ela cutucou a moça, e ela encarou Luíza com seus olhos amarelos, fazendo a mesma recuar.

— Ow! Você é a uma coisa tão fofa! Qual seria sua cor favorita? – perguntou a forma humanóide, com os olhos brilhando.

Luíza abriu a boca para responder mas foi interrompida por um anão? Ou o que quer que seja. Na sua percepção daquele mundo nos olhos do seu próprio, seria assim que chamariam o indivíduo.

— Perdão pela minha estrela! – ele se desculpou com Luíza. – Jefranbellemuerevart, não é assim que se começa uma conversa!

O tal Jefranbellemuerevart abaixou a cabeça, e por um momento pareceu triste, mas depois abriu um sorriso capaz de fazer qualquer pessoa sorrir. E Luíza sorriu, sem nem perceber.

— Desculpe. Eu quis dizer...Gosta de sonhos? – E a olhou de uma forma intensa, que intimidou Luíza por um momento.

Ela não estava entendendo. Não fazia ideia de onde estava mas sentia seu corpo cheio de energia, e seu coração batendo rápido demais. Tinha vontade de correr e não parar nunca mais. Ao mesmo tempo, não sabia porque estava tão alegre, se não tinha motivos aparentes para isso. Estava perdida, confusa e extremamente longe de casa.

— Ultimamente, eles tem sido melhor que a realidade – confessou Luíza, e Jefranbellemuerevart sorriu para o "anão" e deu pulinhos de entusiasmo batendo palmas.

— Mais uma, terra-mãe! Mais uma! – Então ela se virou e correu até um grupo de nativos muito, mas muito altos, e cochichou apontando para Luíza.

Uma das criaturas altas se aproximou dela.

Ela tinha quatro olhos e todos tinham uma cor salmão em volta da pupila e lilás no resto do globo ocular. Seus cabelos enrolados e azuis pareciam feitos de cetim e usava um penteado complicado demais para explicar, enquanto segurava um guarda-chuva minúsculo.

— Prazer, prazer, prazer. Sou Segunda Rapunzel. Por que você está sonhando aqui? – perguntou a de cabelos azuis.

— Eu...- Luíza percebeu que todas aquelas pessoas fora do seu comum a encaravam. Seus pés vacilaram, e ela escorregou. Estava nervosa e confusa e começou a se sentir assustada pela primeira vez naquele lugar. E não estava em lugar nenhum.

— Está com medo? – Luíza assentiu, automaticamente – Ah, sim. Certo. Por isso você está sonhando aqui.

A mulher deu as costas para ela e se agachou, buscando alguma coisa pela grama laranja.

Ela tirou uma corda de lá, comum, como qualquer criança tem em casa. E Luíza se sentiu melhor quando viu algo que ela reconhecia.

Ela estendeu o objeto para Luíza, que ergueu as sobrancelhas.

— É p-para mim? – indagou Luíza, se levantando do chão, com a respiração acelerada.

— Sim – respondeu a Segunda Rapunzel. – Pule. Se quiser.

Luíza pegou a corda, e a encarou por alguns segundos considerando suas opções, sem se sentir pressionada porque não era essa a sensação que estavam passando, mas, ao mesmo tempo, ela sentia que parecia certo participar daquela festa.

Sentiu-se incomodada no início. Todos aqueles estranhos coloridos e risonhos a encaravam com aqueles rostos eternamente alegres como se o simples fato de ela estar ali fosse algo importante o suficiente para valer toda felicidade do mundo.

Mas um certo tempo depois, começou a ficar leve. E de repente, estava de manhã. E o sol era da cor normal, e as nuvens eram rosas claro, e não, não eram nuvens, eram algodão doce. E ela sabia porque as "nuvens" caiam do céu e logo ela descobriu que aquele céu provia todos os alimentos precisos. As nuvens eram algodão, a chuva era o suco da laranja, as outras luas jorravam queijos vermelhos...

Como todas as crianças sempre imaginaram.

E ela continuou pulando, pulando, e pulando, até que se cansou.

Ela sorria e respirava com dificuldade, mas se sentia elétrica. Queria fazer mais coisas. Queria descobrir todo aquele mundo estranho, até não poder mais.

— Sabe subir em árvores? – perguntou um roedor de pele verde e Luíza sorriu.

Aquilo era um sim.

E tiveram muitos outros sorrisos naquele dia.

Até que, finalmente, escureceu outra vez.

[...]

— Noventa e nove amoras com chocolate...E cem amoras com chocolate! – Gritou Medusa, quando acabou de contar. – Irei achar vocêssss!

— Ei! – Luíza chamou atenção da Medusa.

— Luíza! – repreendeu Medusa. – O certo seria você se esconder, e não aparecer!

— Desculpa, mas...E-eu preciso ir para casa. Preciso que me mandem de volta para casa. Por favor.

— O quê? – Segunda Rapunzel e Dó Ré Mi surgiram atrás de Luíza.

— Eu...Desculpa...Mas eu preciso. Eu queria ficar...Mas eu tenho que ir. Minha mãe deve estar preocupada. — Luíza abaixou a cabeça e começou a virar a areia dos pés tentando não encarar ninguém. Ela não queria decepcionar e só a ideia disso a deixava ansiosa.

— Não está, Love – Segunda Rapunzel chamou Luíza pelo nome escolhido ali. Porque naquele lugar você não tinha um nome escolhido por outra pessoa que não você. E seu nome era uma promessa pra quem quer que fosse, até você mesma. Era algo importante e com um valor inimaginável. Ela gostava da palavra inglesa Love particularmente, porque sua avô paterna tinha uma tatuagem com essa palavra na sua clavícula, e sempre que perguntada o que a levou a fazer aquilo ela dizia "Foi para que vocês me fizessem essa mesma pergunta!"; Luíza achava engraçado. – Ela não sabe que você está aqui.

— Como...?

— Nós vamos te mandar de volta para sua casa...- Love — ou Luíza — sorriu aliviada. – Mas apenas se cumprir a promessa do seu nome.

— Tudo bem. Eu faço qualquer coisa.

Todos sorriram ao mesmo tempo, e aquilo seria estranho, e até mesmo assustador se ela já não estivesse acostumada.

— Chore quando estiver triste. Você vai sentir medo sempre e isso não é tão ruim. Com seu medo você pode ser corajosa e você pode transformar o que te atingir. O horror que você viveu pode fazer nascer uma flor ou uma estrela, porque o que está dentro de você é luz e o que venho de ruim é só um adubo ou uma substância química genérica. O medo não é maior que você, o trauma não é maior que você e seu mundo não é o que seus sentidos prometem. Você é amor. Você é mais, sempre mais.

Cause I am…
Choir of furies in your head, choir of furies in your bed…

Luíza fechou os olhos, sorrindo.


I'm the ghost in the back of your head…
Cause I am…

Ela tinha prometido.

Love.

Notas finais
Obrigada ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!