Éramos Dois E Agora Somos Quatro
2 Capítulo 2
Aoi's P.O.V.— Tem certeza de que você quer entrar aí dentro comigo? Eu queria implorar pra que ele entrasse comigo. Os gritos e barulho de coisas se quebrando eram audíveis da porta do elevador. Mas o que eu poderia fazer, arrastar Kouyou comigo? Conhecia bem o temperamento de Mayume, o suficiente para que eu mesmo estivesse reconsiderando a idéia de ir até ali. O outro guitarrista parecia hesitante, uma expressão até mesmo cômica de receio em seu belo rosto. — Sabe que agora não estou tendo mais tanta certeza? Mais um vaso se chocando na parede. — Por outro lado, é bom eu entrar com você. Se ela te atacar, eu posso ligar pro corpo de bombeiros.
Acabei por rir, segurado a mão do mais novo. Ainda era um pouco estranho tê-lo de fato. E lúcido. Era bom que as mentiras tivessem finalmente caindo por terra. Só depois de tê-lo foi que eu percebi como me fazia mal deixá-lo longe. Respirei fundo, destrancando a porta com a chave que eu ainda não havia devolvido, abrindo a porta devagar. — Mayume? — O quê é?! O tom passava longe de receptivo ou gentil. Ela ainda estava bonita, mesmo que estivesse ligeiramente descabelada, rodeada de papel picado e cacos de vidro e com olhos vermelhos, não sei se de raiva ou de tristeza. — Podemos entrar? — Hã? ela franziu o cenho, pensando no plural da pergunta, mas acabou por dar de ombros, se jogando ela mesma no sofá. Kouyou entrou muito hesitante, analisando todo o estrago. Sabia que ela não era a pessoa mais calma do mundo, mas pelo nível de estrago, algo realmente sério havia ocorrido. — Mayume... o que aconteceu pra te deixar assim? — Fora eu estar grávida e o pai do meu filho decidir se assumir gay? Fui despedida. — Despedida? Como assim, despedida? Não podem te demitir! Ou podem? Tinha uma certa noção que naquele momento Kouyou deveria estar ligeiramente pálido. Eu ignorava o primeiro comentário. Não havia dito nada a ela, mas Mayume era muito esperta pra perceber coisas tão sutis. — Podem. Já fizeram, na verdade. Não são muitas as empresas que gostam de diretoras de marketing grávidas e entrando em licença. — Mas isso não é justo! — E você acha que eu não sei, Yuu? Vou entrar com processo. Até lá... eu não sei. Mayume ficou encarando um ponto do carpete, pensando com olhos baixos. Troquei um olhar preocupado com Kouyou. Não era porque o amor tinha acabado que eu não iria pensar numa maneira ajudar. Até porque ela ainda era a mãe do meu filho. — Vou pensar num jeito de te ajudar, Mayu. Ela apenas assentiu, ainda olhando para o chão. Depois de um longo suspiro, ergueu o olhar. — Você não me apresentou ao rapaz, Yuu. — Ah, claro! Eu esqueci. Kouyou, essa é a Mayume. Mayume, esse é o Kouyou, que toca na mesma banda que eu. Ela olhou por alguns segundos para o loiro. — Ele não tem cara de músico. — Hã? foi a vez de Kouyou perguntar. — Não consigo imaginá-lo num palco tocando algum instrumento. Numa empresa talvez, numa passarela com certeza, mas não numa banda. Kouyou olhou pra ela por bons segundos também. — Não sabia que Yuu é de uma banda famosa? — Não. ¹ Tenho cara de quem vai em show de rock? — É, não. Ela apenas assentiu, dando a discussão por encerrado e voltando a encarar o chão. Os braços já envolviam protetoramente a barriga, como se pudesse esconder aquela cena de destruição do bebê ainda não-nascido. E deuses, eu ainda estava me acostumando com a idéia de ter uma criança pra cuidar, criar e amar. — Na pior das hipóteses ela continuou do absoluto nada. , eu vou pra casa da minha mãe. — Pra casa da sua mãe? Mayume, sua mãe mora em Sapporo! É muito longe daqui! — Eu sei. — E você fala com essa naturalidade! Mayume, esse filho também é meu! — Ah claro, e você quer que eu faça o quê? Comece a assaltar bancos pra sobreviver? Desculpa, mas não tenho muito treinamento nisso, e grávida não vai ser uma boa coisa fazer isso. — Já disse que vou pensar numa maneira. Ela apenas ergueu uma sobrancelha, completamente irritada. — Bom, já posso assinar um atestado de incompetência, não é? Fui demitida, não tenho muita certeza de como sustentar meu filho e o meu ex-namorado que me chutou pra ficar com um cara que usa mais maquiagem que eu quer me sustentar. Por que eu não corto os pulsos depois que a criança nascer? Girei os olhos, tentando pensar em alguma resposta. Mayume era o tipo de mulher independente, e seria muito complicado tentar ajudá-la. Mas era -meu- filho. Meu. Bom, meu -também-. O aluguel daquele apartamento não era exatamente o que chamamos de barato, e havia ainda todo um enxoval pra comprar. — Quando é a consulta, Mayu? — Daqui a quinze dias. — Eu gostaria de ir. — Pff. Certo. Já que está aqui, pode recolher os cacos pra mim? Não quero me cortar.
— Isso é abuso. Mas eu arrumo. — Ótimo. Enquanto isso... ela olhou pra Kouyou. Senta aqui, bonitinho, eu quero conversar com você. Vi Kouyou franzir o cenho e seus lábios perguntarem silenciosamente "bonitinho?", mas acabou por se sentar no sofá do lado de Mayume. Ela virou o olhar pra mim, como que questionando porque eu não ia buscar a pá, e poderia imaginar que ela quisesse que eu me demorasse pra achá-la. Suspirei, saindo da sala. Não tinha muita certeza se seria uma boa idéia, mas era pedido de grávida. E ainda tinha que pensar num jeito de não ficar longe do meu filho.Continua...
Notas finais
¹ O pessoal ouve mais o pop no Japão. Sim, existem japoneses que não fazem nem idéia de quem sejam esses cinco viados.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.
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