Écran Inachevé
1 La Culpabilité
Notas iniciais
Era manhã do dia 25 de Dezembro, o céu nublado dava um ar melancólico à bela Paris. Erick estava em seu atelier, observando a tela em branco sobre o cavalete a sua frente. Fazia tempos que não entrava ali, o último quadro que teve o prazer de pintar fora há meses atrás.
Desde a sua perda, preferiu deixar seu tão amado hobby de lado. Olhou para o lado e observou as bisnagas de tintas, os pincéis, a palheta e alguns outros materiais necessários, todos organizados do jeito que ele havia deixado. Sacudiu a cabeça afastando aquelas lembranças, se começasse a pensar nele, não suportaria mais ficar ali. Um suspiro fraco saiu de seus lábios finos.
Pegou um pequeno pedaço de carvão que usava para desenhos mais simples, e começou a fazer o esboço. Não sabia ao certo o que faria, apenas deixou que suas mãos agissem por conta própria. Cada traço fora feito delicadamente e com extrema dedicação, e com paciência logo se formou aquilo que teria de pintar. Sua mãos tremeram quando se deu conta do que desenhara, mas não ia deixar de lado aquela tela, mesmo que isso lhe ferisse.
Deixou o pequeno pedaço de carvão sobre a mesa para poder pegar a palheta. Uma a uma foi colocando pequenas porções de tinta nela, para assim poder começar. Cuidadosamente escolheu o pincel adequado, molhou-o com uma das cores e passou a levemente pincelar a tela com o esboço. A cada pincelada se lembrava da última vez que estiveram juntos, o que fez seus belos olhos verdes marejarem.
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Um ano atrás...
– Será que você não pode largar isso um minutinho para podermos aproveitar o momento? – Resmungou Erick de braços cruzados, enquanto olhava seu namorado na frente do notebook.
– Tenho que terminar isso rápido Rick, espere somente um pouco. – Retorquiu Alphonse sem tirar os olhos da tela.
– A comida não vai te esperar quente a noite toda. – Estava irritado, havia passado a tarde toda preparando a refeição com carinho, e seu amado nem sequer estava se importando.
– Erick, ao contrário de suas pinturas tolas, estou fazendo algo importante. Algo que terá um bom retorno para nós dois. – Falou sem ao menos se dar conta de suas palavras. E por ainda estar concentrado no aparelho a sua frente, não viu o quanto magoou o mais novo.
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A cada pincelada, uma lágrima escorria por sua face rosada. Soltou o pincel e a palheta sobre o balcão, não queria chorar, mas era inevitável. Passou as mãos um pouco sujas de tinta no rosto, secando as lágrimas teimosas, o que fez com que algumas manchas coloridas aparecerem em suas bochechas. Olhou para o teto respirando fundo. – Vamos Erick, você consegue! Você sabe que consegue! – Olhou para a tela novamente, vendo o rosto de seu amado ganhar vida com as cores.
Se pegou admirando a pintura que nem de longe continha toda a beleza de Alphonse. Novamente as lembranças daquele dia voltaram a sua mente, fazendo-o se culpar pelo ocorrido.
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Um som abafado se fez ouvir pela casa que moravam. Com o rosto virado para o lado, Alphonse sentia a ardência devido ao tapa que levara. A face branca do maior ficara vermelha, deixando bem aparente as marcas dos dedos de Erick.
– O que há de errado com você? Ficou louco? – Grunhiu com irritação levantando o olhar pela primeira vez na noite, até Erick.
– Estou louco sim. Louco desde o dia em que aceitei namorar contigo. Desde que deixei minha casa para morar com você. – A mágoa era evidente em sua voz, e seu olhar era pura tristeza. – Estou farto disto! Você só se preocupa com o seu trabalho, nunca temos tempo para ficarmos juntos. E além de tudo vem criticar meu trabalho, dizendo que são tolas as minhas pinturas. – Seu rosto adquiria um tom avermelhado, e sua voz ganhou um tom de raiva. – Quer saber de uma coisa? Eu cansei! Se você se preocupa mais com seu trabalho do que comigo, não há motivos de continuar aqui, tentando te agradar. – Pegou seu casaco sobre o sofá e seguiu até a porta.
– Erick! – Chamou Al que até então se manteve quieto. – Hei! – Correu até o menor, segurando-lhe o braço que fora brutalmente afastado.
– Vou para um hotel por hoje. Quando não estiver ocupado resolveremos como vamos ficar a partir de agora. – Não se atreveu a olhar o maior, se o olhasse acabaria desistindo de tudo. Pegou as chaves e a carteira sobre a mobília e saiu pela porta, batendo-a com força exagerada.
Caminhou rapidamente pela rua, extremamente vazia, os poucos carros que ali passavam, iluminavam-no. Estava chateado, um dos poucos momentos em que os dois poderiam aproveitar para ficarem juntos, acabava numa briga. Alphonse ao menos poderia dar mais atenção a ele, certo?
Caminhava tão distraidamente que nem sequer notara o sinal fechado. Em passos lentos atravessava a rua sem perceber o carro que vinha em sua direção em alta velocidade. Um clarão ofuscara sua visão, e de repente.... uma batida.
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Um aperto em seu coração, um nó preso em sua garganta e o choro que insistia em engolir. Estava tudo voltando, toda a briga, a raiva.... a culpa. Pegou novamente os pincéis, mas não conseguia, não mais.... suas mãos tremiam muito, fazendo com que perdesse toda e qualquer habilidade para terminar aquele quadro.
Voltou seu olhar para a tela, faltava tão pouco, mas por quê? Por que não conseguia terminar? Jogou a palheta e o pincel sobre a bancada, era fraco demais. Apesar de se passar um ano já, ainda sentia culpa por ter deixado aquilo acontecer, por não ter sido ele....
Já não conseguia mais controlar as lágrimas, seu rosto ficava cada vez mais vermelho e os soluços não paravam de balançar seu corpo. Sentou no chão do atelier, abraçando as próprias pernas enquanto seu rosto era coberto de lágrimas. Tocou levemente o colar que usava, sentindo a aliança pendurada nele.
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O clarão ofuscava sua visão, o carro vinha muito rápido em sua direção, mal teve tempo de pensar e sentiu-se sendo empurrado. Uma batida alto fora ouvida, junto da forte freada que o carro deu. Ainda meio zonzo, levantou o corpo devagar, tentando entender o que tinha acontecido. O carro estava parado e a alguns metros à frente, um corpo estava caído de lado. Os cabelos negros estavam bagunçados, e sua respiração pesada demais.
– Não pode ser... – Murmurou incrédulo. – Não, não. Por favor, não pode ser ele. – Se recusava a aceitar. Levantou com muito custo e se aproximou do corpo. – Al! – Gritou em desespero se ajoelhando ao lado do amado colocando a cabeça dele cuidadosamente em seu colo. – Al, fala comigo, por favor. Alphonse.... – Chamava entre lágrimas.
O motorista do carro após perceber o ocorrido, ligou rapidamente para o resgate. Enquanto isso, Alphonse forçava-se a abrir os olhos. Erick chorava copiosamente segurando seu amado. Um toque frio em sua bochecha o fez abrir os olhos, fazendo-o encontrar aquele par azul do mais velho.
– Rick... – Chamou fraco. – Me... desculpa.... – Tentava falar, mas a dor era insuportável. Um pouco de sangue escorria pelo canto de seus lábios tingindo-os de vermelho. – Eu.... tenho sido.... um péssimo namorado.... – Falava entrecortado, com dificuldade.
– Por que? – Questionava incerto olhando aquele que amava lutando para sobreviver.
– Porque eu.... Te amo.... – Acariciou a bochecha esquerda do menor, deixando uma pequena mancha de sangue. – Eu.... Queria fazer algo.... especial.... Mas não sei.... se terei.... mais essa chance.... – Com esforço pegou uma pequena caixa aveludada no bolso da calça que usava. Com a outra mão livre pegou a mão de seu amado e colocou a caixinha sobre ela. – Abra.... – Pediu.
A caixinha fora aberta cuidadosamente, e em seu interior se revelou uma aliança dourada com duas finas linhas, uma azul e outra verde. Mais lágrimas desceram o rosto de Erick que apertou os lábios tentando conter- se. Olhou novamente para o mais velho que sorria fraco.
– Sinto muito.... pelo que lhe disse.... – Seu olhar demonstrava o quão arrependido ele estava naquele momento. – Sinto.... muito ter que.... te deixar agora.... – Mais lágrimas vieram, mas não só da parte de Rick.
Ao longe podia-se ouvir o barulho das sirenes. Erick apertou forte suas mãos com as de Alphonse. – Aguente, por favor. Eles estão vindo, você vai ficar bem. Por favor meu amor. – Implorava aos prantos.
– Me.... Desculpe.... Rick.... – Falava com certa dificuldade enquanto acariciava o rosto do menor. – Eu.... te amo.... – Fora fechando os olhos aos poucos, deixando Erick mais preocupado e desesperado.
– Al... Alphonse! Olha pra mim meu amor, por favor. – Passava a mão no rosto de Alphonse, tentando mantê-lo acordado.
As sirenes se aproximavam ainda mais. – Obrigado.... por me deixar.... te amar.... – A voz fraca saia quase que sussurrada, a mão que acariciava o rosto de Rick, perdera a força e caiu ao lado do corpo de seu namorado.
– Al? Alphonse! Por favor Al, não me deixa! – Gritava aos prantos enquanto agarrava-se ao amado. As sirenes, agora mais próximas, anunciavam que o resgate chegara, mas já era tarde demais.... – Alphonse... Por que....? – Choramingava com a testa colada a do namorado.
Os paramédicos tentaram tirá-lo de perto do corpo, mas ele não queria e nem permitia. Tiveram que sedá-lo, mas mesmo assim tiveram dificuldades de tirá-lo dali...
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Agarrado em suas próprias pernas, Erick chorava copiosamente se lembrando de cada detalhe que tentou esquecer durante o ano que se passara. Sentia culpa, por ter brigado com ele e saído de casa tão tarde fazendo com que o acidente acontecesse. Se ao menos tivesse sido ele, ao invés do Alphonse....
Olhou novamente para a pintura incompleta, aqueles olhos, o sorriso, tudo que amara no maior estava ali. Uma brisa gélida soprou pela janela aberta, bagunçando os cabelos loiros do jovem pintor. O olhar fixo na pintura, tão concentrado admirando cada traço. Em sua mente, escutou a voz de seu amado e suas últimas palavras....
– Eu te amo... Obrigado por me deixar te amar... – Aquilo ecoava em sua cabeça, fazendo a última fina lágrima escorrer e um sorriso fraco brotar em seus lábios.
– Me desculpe Al.... – Segurou a aliança. – Eu também te amo, e sempre amarei. – Aquele quadro incompleto, jamais seria terminado, assim como o amor que uniu esses dois, ele seria eterno....
Fim
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