É só uma coisa implícita
43 Capítulo 43 – A vida gosta de você
Notas iniciais
Capítulo 43 – A vida gosta de você
Natasha estava encarando o espaço pela janela na lateral da nave, imersa em um milhão de pensamentos, envolta por um cobertor que Gamora trouxera para ela. A sensação de ainda estar viva, de estar aqui, com tudo pelo que ela morreu lutando já acabado, ainda parecia uma mentira, apesar de sua completa confiança de que essas pessoas nunca mentiriam para ela, tinha convivido suficiente com Gamora para saber disso. O tempo na Joia da Alma era confuso. Elas tinham a sensação de ter passado poucas horas e ao mesmo tempo uma eternidade lá dentro, o que agora Natasha sabia que tinham sido apenas cinco horas para a maioria das vítimas do estalo, e um pouco mais para elas duas. A zehoberi também estava quieta, em suas próprias reflexões, sua mão entrelaçada com a do terráqueo, que a olhava parecendo preocupado enquanto deixava a nave em piloto automático após se afastarem de Vormir. Adam e Nebulosa estavam sentados nas cadeiras atrás deles, e Peter conseguia sentir seus olhares em suas costas. Drax e Mantis tinham cumprimentado Nat com seus jeitos alegre e espalhafatoso, respectivamente, e Peter usara a desculpa de ter uma caixa de zagnuts em outra sala da nave, e pedir que os dois entrassem em contato com o restante da equipe pelo dattapad, para que deixassem para conhecer a vingadora melhor depois que chegassem a Xandar, e assim Natasha pudesse descansar e se reajustar o melhor possível até lá.
— Estão todos bem? – Adam perguntou com calma.
O grupo levou algum tempo para absorver a pergunta e olhar para ele.
— Sim – Gamora lhe disse – Só... Lembranças e perguntas que nunca serão respondidas... Algumas é até melhor que não sejam mesmo. Você conseguiu descobrir algo novo sobre essa habilidade?
— Não tenho certeza... Mas acho que se eu estiver perto de qualquer coisa, lugar ou pessoa que foi vítima da Joia da Alma, consigo me conectar com ela, ou ouvir um chamado e ir até ele.
— Acha que usa sua telepatia pra isso?
— Provavelmente sim. Talvez eu descubra mais com o tempo.
Gamora assentiu.
— O que é Xandar? – Nat perguntou novamente.
— Um planeta na galáxia de Andrômeda, vizinha da Via Láctea, só que umas três vezes maior. Meio que é nosso quartel general. Nos conhecemos e começamos os Guardiões da Galáxia lá, quando Thanos começou a tentar reunir as joias em 2014.
— E quando fugi dele pra tentar impedir – Gamora pontuou.
— Coisa demais aconteceu. Muito pra contar de uma vez só – Nebulosa disse – Eu só decidi ficar com eles durante as consequências do estalo daquele monstro miserável.
A android fez uma pausa, na qual Gamora e Peter puderam sentir toda a raiva que ela ainda guardava de Thanos.
— Vocês moram em Xandar?
— Não exatamente – Gamora lhe disse – A nave é nossa casa. Não essa. Está em reforma depois de sobreviver a mais uma batalha. Mas é pra Xandar que sempre vamos pra descansar e conseguir suprimentos e informações. Também trabalhamos em conjunto com a Tropa Nova. Estamos pensando em fixar uma moradia lá, mesmo que viajemos tanto a trabalho, mas ainda não discutimos isso. Foi uma das coisas deixadas de lado quando tudo aquilo aconteceu.
— Eu sinto muito.
Gamora assentiu.
— É um planeta lindo – a guerreira sorriu – É um planeta cidade. Não há divisões de países e estados como na Terra.
— Há um único governante? Como uma só pessoa dá conta de tudo isso de uma vez.
— A tecnologia aqui no espaço é ainda mais avançada que a de Wakanda – Peter explicou – Sem ofensas, só pontuando. Isso já facilita muito, e a Tropa Nova tem grupos espalhados pelo planeta e pessoas ajudando. Como os líderes de bairro na Terra.
Natasha assentiu.
— Isso é muito interessante – ela sorriu, finalmente começando a se sentir mais à vontade e segura longe de Vormir – Como vou voltar à Terra? Carol pode ajudar?
— Nós levamos você – Nebulosa lhe disse – Nós também queremos visitar a Terra. Visitar de verdade dessa vez. Mas temos coisas vitais pra resolver antes, e acho que minha irmã tem um convite a lhe fazer.
A Viúva Negra olhou para a amiga com curiosidade, vendo o casal sorrir um para o outro, antes de Gamora olhar para ela.
— Thanos interrompeu muita coisa, inclusive nossos planos pessoais pra o futuro. Decidimos que já esperamos demais, já temos uma filha, e estamos resolvendo várias pendências. Então... Você gostaria de ficar conosco em Xandar por alguns dias ou semanas? Eu ficaria feliz de mostrar o local onde costumamos circular a você, e ficaria mais ainda se você aceitar estar presente no nosso casamento. Ainda vamos planejar, mas será logo. Depois disso, prometo que iremos pra Terra juntos. E quando chegarmos a Xandar, depois de darmos nossos depoimentos pra registro à Nova Prime, vamos ligar pra Terra, e você pode falar com Bruce, e com Clint.
O olhar da ruiva mudou, para choque, surpresa e alegria ao mesmo tempo, chegando a brilhar.
— É claro que eu quero estar lá! – Ela sorriu – E... Bruce... Bruce está vivo?! E Clint?!
— Os dois – Nebulosa lhe disse – Perdemos algumas pessoas, mas nenhuma da sua família na Terra.
— Carol está bem? E Steve?
— Carol nos ajudou demais na batalha – Peter lembrou – Acho que tá em algum lugar aleatório do espaço trabalhando com Nick Furry. Ao menos é isso que nos disseram que ela faz quase sempre.
— E Steve?
Natasha ficou preocupada com a pausa silenciosa dos Guardiões, enquanto Adam apenas observava a conversa, não tendo participado dessa batalha e nem sabendo muitos detalhes.
— Nós não o perdemos exatamente... – Nebulosa começou, tentando descobrir a melhor forma de explicar o que nem eles tinham certeza – Depois da batalha ele foi devolver as joias que pegamos de cada momento no tempo. A Anciã só deixou Bruce levar a Joia do Tempo com a condição de que todas fossem devolvidas depois, pra tentar evitar que outros desastres acontecessem em linhas alternativas novas ou nas que já existiam. Steve foi devolver. Eu não sei se ele se ofereceu ou se havia algum motivo especial. Mas ele não voltou.
— Como assim não voltou?!
— Seus amigos Vingadores pareciam em paz com isso, como se já soubessem. Acredito que eles poderão lhe dar melhores detalhes. Nas vezes em que falei com Tony sobre isso, ele disse que naquele mesmo dia os que estavam presentes se encontraram com Steve, muitos anos mais velho, feliz, em paz, e que ele passou seu escudo pra o que vocês chamam de Falcão Negro.
— Sam...
— Não sei se voltaram a vê-lo depois disso. Não falamos muito a respeito.
Natasha respirou fundo e secou os olhos, tomando seu tempo para conseguir lidar com tal informação. Os Guardiões se olharam, não tendo certeza do que fazer agora.
‘Lhe deem tempo. Ainda temos horas.’ A voz de Adam chegou à mente deles três, provavelmente não alcançando Natasha, uma vez que ela não reagiu. Peter e Nebulosa tentaram disfarçar o pequeno susto e admiração que tiveram, já que não estavam habituados a interagir com indivíduos assim. Muito poucas vezes em suas viagens haviam encontrado espécies que se comunicavam pela mente, e nem sempre com palavras compreensíveis. Peter sorriu.
— Às vezes você também sente saudades de Encarnadine?
Gamora sorriu.
— Sim. É um lugar adorável. Não me diga que...
— Que saibamos, não. Uma das primeiras coisas que Drax e Mantis fizeram quando nos encontramos de novo e voltamos pra Xandar foi entrar em contato com a rainha. Eles estão bem. Todos voltaram. Thanos não esteve lá fisicamente.
Gamora suspirou aliviada, e olhou rapidamente para Nat, que estava outra vez em silêncio olhando pela janela.
******
Natasha abriu os olhos devagar com o toque de uma mão gentil em seu ombro. O cobertor estava sobre ela, e olhando para cima viu a guardiã que chamavam de Mantis.
— Algumas pessoas não gostam que eu toque nelas sem avisar, mas me pediram pra acordar você. Vamos chegar a Xandar em breve. Acho que você vai gostar da visão daqui de cima – ela disse sorrindo.
— Eu sei. Gamora me contou sobre você.
— Não está com raiva?
— Não. Eu acho é que nem sei o que estou sentindo.
— Você está confusa... Muito feliz e ansiosa ao mesmo tempo. E com medo das mudanças que você ainda nem sabe se aconteceram. E com muita saudade de casa.
Natasha a encarou em silêncio, percebendo que era verdade. Um ronco meio alto chamou a atenção das duas, e olhando em volta, a vingadora viu Drax adormecido e roncando numa das cadeiras de trás. Adam e Nebulosa conversavam baixinho, aparentemente compartilhando boas memórias sobre Gamora, que parecia entrar e sair da consciência enquanto despertava lentamente, ainda sentava ao seu lado. Peter estava acordado, atento aos comandos no painel de controle. O terráqueo a olhou rapidamente ao perceber sua atenção.
— Drax quase sempre ronca desse jeito quando dorme. Depois que você se acostuma parece só mais um som ambiente. Mas nas primeiras noites parecia que tinha um trator dentro da nossa nave.
Natasha riu, feliz em ainda ter motivos para isso depois que tudo aconteceu e do que ela não viu acontecer.
— Obrigada – Natasha disse a Mantis, trocando um sorriso com a guardiã, que voltou a seu assento ao lado de Drax.
— Qual é o nome da filhinha de vocês? Se não se importar em dizer.
Peter abriu um sorriso gigante, e seus olhos brilharam com emoções que a guerreira não pode decifrar.
— Meredith. Era o nome da minha mãe. Gamora escolheu.
— Ela me falou sobre isso antes. E que tinha certeza que você ia amar.
— Ela me conhece melhor do que eu mesmo. Eu queria ter estado lá pra elas duas.
Natasha o olhou surpresa. Tinha pegado no sono após conversarem sobre algumas coisas da guerra contra Thanos, mas não chegaram a isso.
— E por que não...?
— Longa história – Gamora disse baixinho, finalmente acordando – A Gamora de 2014 fugiu, e foi parar no sistema dos Soberanos. Eles a prenderam e foi lá que ela, e eu, conhecemos Adam. Por algum motivo ele consegue se conectar com a Joia da Alma, e foi assim que eu voltei. Mas Ayesha me manteve presa por anos e nunca soube realmente como eu recuperei a memória. E minha gravidez era muito recente pra ela perceber que havia algo diferente entre mim e a outra Gamora.
— Mas se ele é um deles...
— Eu e Alia a traímos. Nunca concordamos com isso. Eu era praticamente um bebê na época. Não sabia em quem acreditar.
— Quem é Alia?
— Minha irmã. Ficou em Xandar com Meredith, Rocket e Groot.
— Falando em Xandar... – Peter lhes disse.
O belo planeta estava a frente deles, se destacando com beleza no espaço. Era um pouco parecido com a Terra, e Natasha sentiu o peito apertar mais do que nunca com a saudade de casa. A descida até Xandar foi lenta e agradável, era como sentir-se viva de novo após uma eternidade, vendo tantas cores e processando tantas sensações diferentes, o total oposto do cinza escuro e o ar gélido de Vormir, ou do laranja eterno e da temperatura imutável da Joia da Alma. Eles aterrissaram dentro das dependências da sede da Tropa Nova, onde alguns agentes já os aguardavam, e um em particular sorriu e acenou para Peter. A aterrissagem foi suave e completamente tranquila. Todos desataram seus cintos e se levantaram. Natasha deixou o cobertor dobrado sobre a cadeira e seguiu Adam, Nebulosa, Mantis e Drax para fora. Peter e Gamora se demoraram um pouco mais, desligando a nave e conversando alguma coisa que os demais não puderam ouvir.
— Você está bem?
Gamora o enlaçou pelo pescoço e o encarou, acariciando seu rosto com uma das mãos.
— Que bom que isso terminou. Me sinto tão em paz comigo mesma agora... Enquanto eu dormia, tive sonhos sugestivos...
— Que sonhos?
— Com a guerra, eu acho... Não sei que lugar era aquele, mas desde que fugi de Thanos não vejo tanta gente junta lutando.
— Era a Terra.
O olhar da zehoberi ficou surpreso, apesar de ainda calmo.
— Notei alguns se destacando. Um homem com um escudo colorido e um martelo. Parecia um líder.
— Steve.
— Capitão América? Nat me falou sobre ele em algum momento.
Peter assentiu.
— E uma mulher loura que voa. Muito, muito forte. Ela atravessou a nave mãe de Thanos e a partiu em pedaços sem sofrer nenhum arranhão.
— Carol. Capitã Marvel.
Gamora concordou.
— E eu... Eu feri você. De uma forma da qual não me orgulho nem um pouco.
Peter a abraçou pela cintura.
— Você estava com medo, sem memória, e não tinha sequer doze horas que Nebulosa havia contato tudo pra você.
Gamora escondeu o rosto no pescoço do amado.
— Isso não importa. Eu sinto muito – ela pediu, o abraçando de volta.
Peter beijou sua bochecha.
— Eu te amo. Mais do que tudo.
— Eu também.
Gamora o puxou para um beijo profundo, mas breve. Os outros estavam esperando lá fora.
— Eu não tinha essas memórias antes.
— Se lembra de mais alguma coisa?
— Várias. Vamos sair depois do relatório. Eu quero falar com você sobre isso antes de contar aos outros e à nova Prime.
— Relatório extra?
— Mais ou menos. Há detalhes que não acho vitais e que não quero contar a ninguém além de você.
Peter concordou, beijando a mão da amada antes de puxá-la para fora da nave. Dey estava conversando com os demais, e Meredith surgiu correndo de dentro da base, seguida por Rocket, Groot e Alia. O guaxinim tinha uma expressão de emoção intensa e alívio estampada em seus olhos, mesmo sem falar nada.
— Mamãe! Papai! – A ruivinha pulou para o colo dos dois, e os três se abraçaram demoradamente.
Meredith ainda estava de pijama, pantufas cor de rosa, que ganhara de Nova Prime, e o cabelo despenteado. Tudo que uma criança feliz devia ser pela manhã.
— Ainda é cedo. Não quer voltar ao quarto e dormir mais um pouco? – Gamora lhe perguntou.
— Não! Dey disse que tem uma surpresa pra nós, mas que você tem que ver primeiro. Vou me arrumar com a mamãe agora.
Peter riu.
— De quem você herdou tanta animação?
— Nem posso imaginar – Gamora brincou enquanto os três seguiam para fora da nave.
O grupo já os esperava, olhando para a porta do veículo. Os olhares de Meredith e Natasha se cruzaram, e os olhos verdes da assassina brilharam, depois ela sorriu.
— Tia Nat?
— Sim, meu amor – a mulher assentiu, se agachando para ficar na altura da criança, que correu para abraça-la.
Natasha levantou com Meredith no colo, apertando a pequena com força e fechando seus próprios olhos, parecendo sentir pela primeira vez que tudo isso era real, que a Joia da Alma e Vormir tinham ficado para trás de verdade.
******
— Dey? – Peter entrou na sala do amigo, depois de deixar Meredith e Gamora no quarto e os demais, incluindo Natasha, conversando com Nova Prime.
O depoimento dele e Gamora seriam tomados mais tarde, e Peter se perguntou se ainda neste século a história de tudo que tinha acontecido nos últimos anos terminaria de ser devidamente registrada.
— Meredith disse que você queria falar comigo.
Dey sorriu.
— Estamos felizes por ver que todos voltaram, e bem.
— Todos nós – Peter sorriu de volta.
— Seu pai e seu irmão voltaram de viagem. Vieram aqui procurar vocês, mas depois de tudo que aconteceu... Achamos que você e Gamora iam gostar de mostrar a surpresa a eles por si mesmos.
Peter arregalou os olhos, e deslizou as mãos pelo cabelo sem saber como reagir.
— Finalmente... Achei que ele tinha morrido de verdade dessa vez e Kraglin não queria me dizer!
— Ele estava temendo o mesmo enquanto tentava localizá-lo. Não queria deixar você pior do que já estava por... Você sabe. Parece que empacaram num planeta distante com um problema no radar. Demorou pra resolverem. O Quadrante é uma nave antiga e precisa de peças específicas. Yondu alegou que demoraram pra conseguir o que precisavam do jeito certo, como você sempre insistiu – Dey sorriu, divertindo-se com isso.
Peter riu.
— Onde estão?!
Dey o levou a uma sala de espera, maior e mais confortável, onde visitantes aguardavam quando buscavam por ajuda ou algum tipo de apoio ali. Yondu, Kraglin e alguns membros antigos e novos dos Saqueadores estavam ali. Seu pai tinha uma nova crista na cabeça, bem parecida com a que dera a Kraglin quando escapou da morte por muito, muito pouco em Ego, mas com alguns tons de dourado mesclando o vermelho escuro, e combinando com sua nova flecha, a qual estava mostrando para Kraglin enquanto aparentemente lhe dava dicas sobre algumas manobras mais difíceis de fazer com o objeto.
— Pai?
O barulho de todos eles conversando ao mesmo tempo parou instantaneamente, deixando o lugar em silêncio profundo por um ou dois segundos. Yondu sorriu como poucas vezes alguém tinha visto, e guardou a flecha no casaco, levantando-se junto com todos os outros para irem até Peter.
— Valeu, carinha! – O homem azul disse a Dey, que ainda achava seu sorriso assustador, mas sorriu de volta.
— Vou deixar vocês conversarem – ele respondeu, saindo e fechando a porta.
— Vem cá, garoto!
Peter abraçou o pai com força, não se importando se ele faria piadas ou não sobre ele ser um terráqueo tão carente mais tarde. Não o via há meses. Yondu enfrentou um longo coma após a batalha de Ego, e tinha acordado poucos meses atrás. Depois de se recuperar bem, decidiu viajar, refazer seus negócios junto com Kraglin, e com muito custo, aceitar a proposta insistente dos Guardiões para migrar de seus negócios de contrabando para vendas, trocas e prestação de serviços.
— Achei que você tinha morrido de verdade dessa vez!
— Mas não morri! Uns idiotas acertaram nossa nave pensando que queríamos saquear o comércio do planeta. Quebrou nosso radar e outras coisas. Levamos dias pra localizar Kraglin na nave de fuga e pedir ajuda a ele com as peças.
— Era um planeta hostil?
— Não. Só cheio de babacas.
— Me desculpa dizer isso de novo, mas... Quem tem fama leva a culpa. Isso vai levar tempo. Mas vai valer a pena.
Yondu deu de ombros enquanto Kraglin e os outros saqueadores abraçavam Peter. E falavam de várias coisas ao mesmo tempo enquanto riam e matavam a saudade.
— Pete, que história é essa que você tem uma surpresa pra gente?
— Kraglin disse que você tava mal. Com aquela história. Mas você parece bem agora – Yondu observou.
— Dey contou alguma coisa a vocês?
— Parcialmente. Sobre aquela doida daquela Ayesha. É verdade que ela tá presa aqui?
— Sim. Mas aconteceu muito, muito mais do que só isso nas últimas semanas.
— E...? – Kraglin questionou, ansioso para saber mais.
Peter sorriu.
— Venham comigo.
— Cadê os outros?
— Depondo de novo.
— Só eu e Gamora que ficamos pra mais tarde porque temos que resolver algumas coisas antes.
— A verdinha voltou?!
— Não sozinha – Peter respondeu ao pai, enquanto guiava o grupo para os andares de cima, seguindo para a ala particular dos quartos.
— Nem vou falar nas possibilidades que tô pensando. Você tá bem com isso?
— Melhor do que nunca – Peter lhe disse, apertando o botão do interfone do quarto – Querida, sou eu.
A luz verde acendeu, e o som da tranca sendo aberta foi ouvido. Yondu, Kraglin e os demais saqueadores olharam abismados para a criança que surgiu na porta, quase uma pequena versão feminina de Peter, mas com cabelo de duas cores, olhos castanhos e os traços de mais alguém, vestindo um macacão jardineira, como Peter chamava, com estampa de uma galáxia, por cima de uma camiseta lilás, e as botas que ela estava usando quando encontrou os Guardiões.
— Quem são esses, papai?
— Você já vai saber, querida. Cadê a mamãe?
— Refletindo sobre minha última descoberta – ouviram Gamora dizer.
— Qual seria? – Peter questionou.
— Que Meredith pode ser tão bagunceira quanto você de vez em quando.
A zehoberi guardou alguns brinquedos espalhados num baú ao lado da cama, e foi até a porta.
— Docinho, a mamãe não gosta de bagunça. Eu demorei pra aprender a arrumar minhas coisas, ela que me ensinou.
— Mas eu tava ajudando. Parei pra abrir pra você.
Gamora riu.
— Sim, ela estava mesmo. Felizmente ela é minha filha também.
Nesse instante a guerreira se atentou à presença dos Saqueadores, e todos ficaram em silêncio olhando uns para os outros.
— Ela te chamou de papai?! – Yondu questionou, abismado, surpreso, confuso, emocionado, e finalmente saindo do espanto da recepção.
— Sim, você é avô. Essa é a surpresa.
— Como assim eu sou o último a saber que eu me tornei avô, moleque?
— Capitão... – Kraglin chamou – Todos nós fomos os últimos. Estamos tão chocados quanto você. Como isso aconteceu, Pete?
— É uma longa história. Não querem conversar com ela primeiro?
— Ele quem te deu o zune, papai?
— Sim, querida.
Meredith sorriu.
— Por que cada um da nossa família é de uma cor diferente? – Ela perguntou, na total inocência de uma criança, fazendo todos rirem com alegria.
— Porque não é só o sangue que determina quem pertence ou não a sua família. O espírito, o amor e coisas que acontecem durante a vida também escolhem.
— Tia Neb também não é sua irmã de verdade?
— Não. Mas isso muda alguma coisa pra você?
Meredith levou um tempo para responder, mas sorriu.
— Não!
— Perfeito! – Peter lhe respondeu, pegando a filha no colo – Por que você não conversa com seu avô e seus outros tios agora?
A menina olhou para Yondu, parecendo curiosa e fascinada com sua aparência incomum entre as pessoas que já conhecia.
— Oi, garota. Eu não sou bom nisso, mas tenho umas boas histórias da época que seu pai morou comigo se quiser ouvir – Yondu sorriu.
— Quero! Quero! Quero!
Os adultos riram com sua empolgação, felizes em ver que a pequena aceitou ser pega no colo pelo avô de bom grado.
— Vocês querem conversar no refeitório? Vamos pra lá agora – Gamora perguntou.
— Vamos – Kraglin aceitou – Tô morto de fome.
Gamora saiu e trancou o quarto antes de seguirem de volta aos elevadores e escadas, dessa vez escolhendo a segunda opção para irem todos juntos, e se divertindo com os olhares espantados dos agentes mais sérios da Tropa Nova que ainda não confiavam nos Saqueadores.
— Kraglin... – Peter sussurrou para o irmão – Dá um jeito de lembrar a ele pra pegar leve. Ela só tem quatro anos, e passou a maior parte da vida presa com Gamora no sistema dos Soberanos. Ainda não contamos, e nem vamos por alguns anos, a maior parte das coisas pesadas que todos nós já passamos. Ela ainda nem entende que morreu junto com a mãe antes de nascer, ou sobre a guerra e as joias.
— Pete! Eu ainda tô abismado! É sério que elas duas não são atrizes? Isso não é você zoando com a gente porque sumimos do mapa por um tempo?
— Eu nunca brincaria assim com as mulheres mais importantes da minha vida.
Gamora estava andando na frente deles, conversando com Yondu, que parecia ainda tão chocado quanto Kraglin, mas Peter sabia que ela o tinha ouvido, e que devia estar sorrindo.
— Mas como...? Em que momento isso aconteceu? Ela voltou e vocês tiveram um lance depois do que houve na Terra?
— Não. Essa é a nossa Gamora! Nós a conseguimos de volta.
— Como?!
— Alguém ajudou. É muita história pra contar de uma vez só. Faz pouquíssimo tempo que descobri que sou pai e de tudo que aconteceu enquanto a procurávamos por anos.
— Então como...?
— Ela morreu grávida, Krag. Meus pesadelos não eram só um trauma. Ela tava grávida quando aquele monstro a levou.
Kraglin se calou com o peso das palavras do irmão, ficando em silêncio profundo e cheio de pensamentos até chegarem ao refeitório.
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