É por isso que eu odeio o futuro!

18 Capítulo 18- E foi assim que...


Notas iniciais
Verdade seja dita, fiz o que pude Mas, em algum momento Me deixei levar pelo que podia ganhar E o preço foi mais alto do que pude aguentar Apesar de ter tentado, eu caí Me afundei tanto Eu errei muito Devia saber que era errado Então, não venha aqui Para dizer que me avisou Todos começamos com boas intenções O amor era puro e jovem Achávamos que podíamos mudar Que o passado podia ser desfeito Mas levamos nas costas o fardo (Fallen - Sarah McLachlan) O capítulo ta gigante. Eu avisei. Mas vocês me falaram que não tinha problema e que eu podia postar, então... Mas permita-me explicar: Na verdade, são dois capítulos juntos. Como o outro já estava apronto, achei que não custaria nada juntar os dois para a felicidade da nação e postar tudo junto

Na segunda de manhã eu estava uma pilha de nervos.

Meu celular dizia que eu possuía enésimas ligações não atendidas. E que eu não estava fazendo a mínima questão de atender.

Isso devido ao desastroso fim de semana que eu tive. Tudo bem. O fim de semana, em si, não foi ruim. Apenas a madrugada de domingo para segunda. Mas só isso valeu por todo ele.

O problema começou quando Vitor simplesmente se esqueceu da minha existência por todos aqueles dias. Ele não ligou, nem deu notícias, e nem sequer apareceu. E eu confesso que também não fui atrás. Meu orgulho estava nas alturas devido ao comportamento desinteressado dele.

E daí que, de tantas horas possíveis para resolver aparecer, ele escolheu quatro da manhã de uma maldita segunda, sabendo muito bem que eu precisava acordar dali algumas horas.

Vitor sempre foi tão sutil quanto uma bazuca, mas naquela madrugada especificamente, parecia que ele tinha vindo cavalgando um mamute. Eu acordei completamente atordoado. Ele havia acendido todas as luzes da casa, incluindo a do meu quarto. E eu não tive nem tempo de ficar com raiva, antes dele literalmente se jogar em cima de mim.

—Oi docinho. O que está fazendo? – Ele falava com a voz embriagada.

— Estava dormindo, seu imbecíl. Coisa que pessoas que trabalham cedo em uma segunda, precisa fazer. – Falei enquanto tentava empurrá-lo. – Você está completamente bêbado.

Vitor começou a beijar meu pescoço, até chegar aos meus lábios. Foi quase como beijar uma bomba de gasolina. E eu já estava com muito pouco saco para ele.

— Meu Deus! O que você bebeu? Etanol? – Me afastei dele e fiquei em pé ao lado da cama.

Ele começou a rir como se eu tivesse contado a melhor piada de todos os tempos e depois negou com a cabeça.

— Fada verde. 60%. – Ele falou completamente satisfeito.

Arregalei os olhos.

— Absinto? –Perguntei incrédulo. Ele assentiu – Você enlouqueceu?

— O Fábio tem um amigo que trouxe exclusivamente da Suíça... – Ele ignorou a pergunta.

— E ele deve ser tão sem noção quanto você, suponho. – Passei as mãos pelo meu rosto tentando espantar o sono. – Vitor, você passou o fim de semana inteiro sem me dar sinal de vida. Eu achei que tinham te enterrado vivo! Em que buraco você se enfiou?

— Eu estava tendo os melhores dias da minha vida! – Ele falava com os olhos fechados.

— Então deveria ter continuado por lá. E não vir me acordar em plena madrugada. – Perdi a paciência.

— Ah, qual é, Alex? Eu te chamei pra ir. Você não foi porque não quis. Na faculdade você adorava sair comigo...

—Não estamos mais na faculdade–Interrompi– e a vida não é uma festa infinita. Quando é que vai perceber isso? – Falei exasperado. – Você tem vinte e seis anos e deveria saber disso sem que alguém precise mandar você se tocar.

Ele apenas riu.

— O que eu não preciso é escutar lições de moral vindas de você. A culpa não é minha se a sua vida é uma merda – Ele falava entediado... Ou sonolento. Que seja. – Só porque você resolveu se tornar esse estereótipo de otário, não quer dizer que eu tenha que ser igual. Você não consegue nem controlar a sua vida, e está tentando controlar a minha? Meu Deus, como você é sonso!

Eu fiquei estático.

O Vitor sóbrio sabia usar palavras para irritar. Mas ele disfarçava todo seu veneno através do sarcasmo, e com isso eu podia lidar. Só que quando bêbado, ele vomitava verdades sem dó nem piedade, chegando quase a ser cruel.

Mas eu não era obrigado a ficar em uma madrugada aguentando as palavras cretinas dele. Então, eu meio que o mandei ir pro quinto dos infernos, e me senti muito leve após fazer isso.

—Eu vou contar até três. E se quando eu terminar você ainda estiver aqui, olhando para mim, com essa sua cara de bêbado apático, eu juro que quebro esse abajur na sua cabeça! – Foi minha ultima sentença. Verdade ou não, Vitor ao menos não contestou.

Como ele conseguiu voltar pra casa, trôpego como estava? Pouco me importei. Mas em compensação, não voltei a dormir. Não consegui. Estava frustrado de mais pra isso. Brigar com Vitor era completamente desgastante, mas ele nunca havia falado daquela maneira comigo. E no fundo, eu já sabia que as coisas entre nós dois já haviam ido por água abaixo.

Pena que eu escolhi um péssimo momento para entrar em devaneio em relação a isso.

Eu precisava discutir sobre alguns documentos pendentes com Roberto. Mas eu não estava nem de longe prestando atenção. Na verdade, quando voltei a notar que eu estava na sala dele, só consegui pegar a última parte da bronca:

—... E você não está escutando uma única palavra. Será que eu vou ter que desenhar pra você? – Ele estava quase gritando.

Suspirei cansado e lancei um olhar abatido a ele.

— Honestamente, hoje eu não estou com disposição pra discutir com você. –Eu falava exausto. – Estou tendo um dia horrível. Então, se não for pedir muito, pode guardar esse seu ódio pessoal por mim, apenas por hoje? Aliás, não precisa nem falar comigo.

Pensei que ia chover mais ladainha pra cima de mim depois do meu desabafo, mas ao contrário, Roberto apenas juntou as sobrancelhas.

— O que?

— É. Eu sei que você não vai muito com a minha cara, mas eu agradeceria eternamente se você não me azucrinasse hoje. – Eu me dei conta que estava brincando com o peso de papel de sua mesa e então o coloquei no lugar.

Roberto se levantou e veio em minha direção, e então parou repentinamente e se acomodou do lado esquerdo da mesa.

— Está tudo bem com você? – Seu tom de voz foi quase... Dócil. Eu tive vontade de corre para o lado oposto e gritar “quem é você e o que fez com meu chefe?”.

Eu poderia ter mentido. Eu deveria ter mentido...

— Não exatamente. – Mas não queria falar disso. Não com ele, pelo menos.

Não houve muita reação. Apenas fitei o chão esperando que ele terminasse com os documentos e me libertasse daquele martírio. Mas a única coisa que aconteceu foi o silêncio. E pelo canto do olho eu percebi que ele olhava diretamente para mim.

Roberto suspirou e passou a mãos pelos cabelos.

— Terminamos com isso mais tarde. Qualquer coisa eu mando a Marta te avisar.

Agradeci mil vezes por alguém ter escutado as minhas preces, e por ele não ter insistido naquela conversa.

Eu me levantei e fui em direção à porta, mas antes que eu a abrisse, ele me chamou de volta:

— Alexander? – Virei-me penosamente para ele. –... Não é nada. Nos falamos depois.

Eu esperava que “depois” fosse muito tempo...

Vitor continuou com as ligações. E até à tarde daquele dia, ele já havia me ligado mais vezes do que em todo nosso namoro. Mas eu continuava ignorando.

Pela glória do divino, Roberto pareceu ter esquecido a minha existência, e não havia me incomodado mais.

Na verdade, entre aspas essa parte...

Depois que eu deixei sua sala, ele saiu logo em seguida. E quando voltou, deixou um enorme copo de cappuccino em minha mesa. Sem dizer uma única palavra ou explicar a gentileza repentina. E ainda mais bizarro, o cappuccino era do mesmo jeito que eu sempre pedia.

Olhei para Marta em busca de explicação. Ela ficava o dia inteiro com o diretor do mal, então tinha esperança de que ela soubesse qual foi a dele. Mas Marta, percebendo meu olhar inquisitivo se aproximou também desconfiada.

— Não me olhe assim, Alex. Entendi tanto, quanto você.

Olhei para o copo e depois voltei a olhar para ela.

— Talvez ele tenha colocado cianureto aqui...

Marta riu e balançou a cabeça.

— Ou uma poção do amor. – E então piscou. E eu senti um calafrio subir por todo meu corpo.

—Você está brincando, não é?

— É claro, seu bobo! – Ela respondeu divertida. – E se eu fosse você, aproveitava essa amabilidade do Roberto. Nunca se sabe quando ela vai acabar...

Marta nunca esteve tão certa na vida...

Mas falando sério. Não havia nada de mais na bebida. E eu não sabia se me sentia preocupado ou aliviado por isso. Mas por cinco minutos daquele dia, eu não pensei no Vitor. Não que isso tenha durado muito.

As ligações pararam pouco depois das quatro da tarde, quando eu já estava pronto pra tacar meu celular na parede e sapatear em cima dele. Eu sabia que não poderia ignora-lo para sempre. Assim como também sabia que Vitor não estava me ligando para um sincero pedido de desculpas. Se há uma coisa que ele não conhece, essa coisa é “arrependimento”.

Eu geralmente não ficava tão pra baixo por causa de uma crise aguda de babaquice, mas poxa, eu não consegui não ficar chateado com aquelas palavras. Embora eu confesse que não sabia se estava triste ou simplesmente... Com sono. Mas aposto mais na segunda opção.

Pensei várias vezes em ir falar com ele depois do trabalho, porém, minha consciência gritava para eu ir pra casa dormir, me acalmar e depois resolver aquela situação. E por incrível que pareça, eu a escutei.

Não que tenha sido um grande feito, pois eu não estava me sentindo muito melhor no dia seguinte. Mesmo assim jurei a mim mesmo que ia conversar com ele no final do dia. Não por telefone. Eu não aguentava mais só conversar com ele por telefone. Parecia que eu estava namorando um telemarketing. Então nem pestanejei em rumar direto para casa dele. Eu ia resolver as coisas com Vitor custe o que custar.

Pena que ele sempre esteve um passo a minha frente...

Eu possuía a chave da casa dele, tanto quanto ele a da minha, então entrei sem cerimonias. Nem por um segundo da minha vida, eu cogitei a hipótese de morar com Vitor. E nem com ninguém. Eu gostava, e muito, da minha liberdade de morar sozinho.

Quase perdi meus tímpanos quando pisei o primeiro pé naquela sala. Ou o que um dia foi uma sala. A casa inteira ecoava uma barulhenta musica que era impossível de identificar. Até porque tudo o que eu pensava era que minha cabeça ia explodir, ou que eu ia explodir o Vitor primeiro. Coloquei as mãos nos ouvidos para tentar abafar um pouco do barulho infernal, mas não adiantou muita coisa. Então marchei para o quarto dele, que estava com a porta entreaberta.

O lado bom foi que eu encontrei a fonte da musica terrível para conseguir desliga-la... O lado ruim foi que eu também encontrei Vitor. Nu. Com outro cara. Que também estava nu. E eles estavam bem mais do que apenas conversando...

Não precisei dizer nada para ambos notarem a minha presença. Bastou desligar o som. Sim, porque na minha mente, calar a merda daquele barulho foi totalmente prioridade. Depois eu lidava com a cena bizarra a minha frente.

Se eu estava surpreso? Pra ser sincero, não. Nenhum pouco. Vitor nunca me passou muita credibilidade quanto à fidelidade, mas eu nunca tive provas para acusá-lo de algo. Ou simplesmente nunca quis saber das evidencias.

Só que eu não ia causar um escândalo. Não ia gritar com ele, e muito menos com o outro cara. Até porque o meu problema era com Vitor. O outro tinha todo direito de ter a vida sexual dele com quem ele bem queria.

E eu não senti nada. Nem raiva. Nem tristeza. Nem mesmo frustração. Nada. Zero. Meu sistema emocional tinha resolvido dar um passeio e esqueceu-se de voltar. Por ora, o máximo que fiz foi entrar em um completo estado de torpor e balbuciar:

— Podem continuar... Eu não queria interrompê-los. – Me virei e fechei a porta. Minha mente parecia longe. Eu estava... Sei lá. Não sei como descrever o que eu estava sentindo.

Claro que Vitor reagiu a me ver ali na porta. Começando por empurrar o cara, fazendo com que ele quase caísse no chão. Em outra situação, teria sido engraçado, mas não naquele momento.

Vitor só teve tempo de vestir uma cueca, e veio atrás de mim. Pra que, eu não sei. Porque convenhamos, não havia nenhum sentido em me seguir.

Antes que eu saísse daquele lugar, que estava me dando náuseas, ele segurou meu braço.

—Não toca em mim! – Eu não sei como, mas consegui gritar. Sim. Gritar. Não tenho costumes de fazer isso.

Mas pareceu funcionar, pois ele soltou meu braço como se ele de repente estivesse em chamas.

— Alex, o que você viu... – Ele começou. Não havia remorso em sua voz.

— Eu vi o que tinha pra ver. – Falei calmo. Assustadoramente calmo. – Então, por favor, poupe seu folego. Assim como eu poupo minha saliva.

— É só isso? Essa é sua reação?– Ele perguntou – Então... Não é como se você pudesse me julgar. – Ele encostou-se à porta, com total indiferença. – Você nunca se importou realmente...

Pisquei impassível, antes de a raiva me atingir como um meteoro gigante.

— Eu nunca traí você, seu filho da puta! – Eu não ia xingá-lo. Mas ao menos não gritei. Só falei alto o suficiente para ele escutar. –Não venha querer jogar algo na minha cara, depois dessa ultima cena. Eu odeio essa sua hipocrisia. Eu posso ter meus erros e o caralho a quatro. Mas nunca te dei nenhum motivo para você ser tão canalha quanto agora.

— O que você quer? Um pedido de desculpas? Não me arrependo do que eu faço, Alex. Eu já disse. Eu não sou você.

— Eu não preciso da merda do seu pedido de desculpa. Nem mesmo pedi pra você vir atrás de mim, você me seguiu por que quis. Não me venha com arrogância.

Vitor se manteve calado pela primeira vez. Isso até eu dar as costas para ele novamente.

— Alex, você realmente não entende? Eu já estava cansado. Eu não queria saber do seu emprego chato. Nem do seu chefe idiota. Ou da sua família problemática. Eu não queria saber de nada disso! Eu só... Precisava dar um tempo das suas neuroses.

— Esse “isso”, Vitor, é a minha vida, caso não tenha reparado. Então muito obrigado pela consideração. – Falei, sentindo o gosto amargo em minha boca. Se eu continuasse ali por mais cinco minutos, eu realmente ia vomitar na cara dele.

Se ele me disse mais alguma coisa, não ouvi. Fiz-me de surdo. Mas isso não amenizava a gastura que eu sentia no peito. É ridículo dizer que eu estava de coração partido. Mas era exatamente assim que eu me sentia. Eu não queria derramar uma única lagrima sequer. Vitor não merecia.

Então eu dirigi pro primeiro bar que eu encontrei.

Eu geralmente não recorro à bebida. Eu sequer tenho hábito de beber. Mas eu não consegui ter mais nenhuma ideia genial. Bom, desde que não considere voltar lá e jogar Vitor na frente de um ônibus.

Entrei naquele bar tão cego de ódio, que quando dei por mim eu estava quase em cima do balcão, berrando para o barman:

— Eu preciso de algo forte. Muito. O suficiente para esquecer seis anos da minha vida.

O coitado do barman que limpava um copo olhou pra mim com os olhos arregalados e só depois de um bom tempo me encarando conseguiu balbuciar:

— O senhor está bem?

— Não. Não estou. Escuta, vou ser sincero com você. Estou me sentido péssimo agora, e tudo que eu preciso é de álcool. Se não for pra beber, vai ser pra tacar fogo em um maldito idiota. Acabar com meu fígado não é ilegal, mas tacar fogo no idiota é. Então, o que vai ser?

O Barman desistiu de conversar comigo ali. Ele nem perguntou o que eu queria ou deixava de querer. Apenas me serviu a primeira dose. Por mim, poderia ser querosene que não faria a mínima diferença, virei sem nem pestanejar.

E depois da primeira, as outras foram muito mais fáceis. Por fim, eu já estava terminando a minha quarta garrafa de vodca.

Quatro garrafas e meia. Foi isso que eu consegui beber antes do barman se recusar a me servi mais alguma coisa. Tudo bem que já se passava das três da manhã, mas eu ainda não havia me esquecido de nada. Então me recusava terminantemente a sair dali.

Foi quando ele simplesmente roubou meu celular.

— Senhor eu sinto muito por isso! Mas precisamos fechar. – Foi à justificativa que ele me deu. Mas no fundo, ele não sentia coisa nenhuma.

Então ele fez A LIGAÇÃO.

Não que eu tenha prestado muita atenção. Eu estava falando alguma coisa sobre lanternas e ervilhas. Não sei bem o que.

Quando ele voltou a me entregar o celular, olhei sem entender.

— Pra quem você ligou? – Naquele momento eu só torci para que não fosse a minha mãe. Ou Vitor. Muito pior teria sido Vitor. Eu havia me esquecido de deletar o número dele.

Mas o barman me sacaneou muito mais do que isso.

— Para alguém chamado “diretor do mal”. Eu gostei do nome. – Acredite, fiquei praticamente sóbrio na hora.

— Meu chefe? Com mais de trezentos contatos nesta budega e você liga para o meu chefe?

Coloquei o dinheiro sobre o balcão e pretendia sair voado antes que Roberto chegasse. Mas o barman roubou minhas chaves. Eu já sou meio lerdo por natureza, bêbado então, perdia uma corrida até para uma lesma, então não foi tão difícil assim pegá-las.

— Você não pode sair assim! Seria imprudência.

— Eu pego um taxi! Só me da à droga dessas chaves e diga a ele que foi um engano.

O barman se esquivou.

— Calma, senhor. Ele se dispôs a vir busca-lo. O que tem de mais? – O barman realmente estava de brincadeira com a minha cara. Afinal, o que é que ele tinha a ver se eu ia de taxi ou com o presidente da república?

— Ele vai comer o meu fígado! Ou o que sobrou dele. – Choraminguei com a voz arrastada. Aquele dia não podia ficar pior.

A única maneira de alcançar as minhas chaves, seria pulando o balcão. Algo que até parece fácil, só que não depois de quatro garrafas de vodca.

A minha luta com o barman acabou no momento em que ouvimos a porta abrir. Tanto eu quanto ele, paramos e ficamos imóveis. Acho que depois de todo aquele meu desespero, até o cara havia ficado com medo de Roberto. Não que ele precisasse. Roberto só não se dava comigo. Com o resto da população ele era outra pessoa.

O problema é que eu já estava com os joelhos em cima do balcão, e do barman, quando Roberto apareceu ao meu lado.

Abaixei meu olhar o suficiente para vê-lo atento aquela cena ridícula, com uma sobrancelha arqueada, e eu quase podia jurar que ele tentava conter um sorriso. Mas àquela altura eu não tinha certeza nem quanto era um mais um.

— Está com algum problema, Alexander? – Ele perguntou olhando de mim para o barman.

Desci calmamente do balcão. Ou o mais calmo que alguém que não consegue ficar nem um minuto sem cambalear pode descer sem cair.

— Está tuuudo sobre controle. – Minha voz saiu engrolada. – O que faz aqui? – Vitor não disse que eu era sonso? Pois bem. Não era de toda mentira.

Roberto não pareceu acreditar muito nas minhas palavras.

— Ele queria ir embora, nesse estado. – O barman fofocou e entregou as chaves para Roberto, que revirou olhos. Filho da mãe, agora ele entregava a porcaria das chaves!

— Vou leva-lo para casa. Obrigado por cuidar desse bêbado. – Roberto tentou alcançar meu braço, mas eu me desviei.

— Eu não vou com você! – Falei com birra.

— Você vai sim. – Ele me arrastou de novo, mesmo contra meus protestos. Na verdade, eu digo arrastou, mas não é no sentido figurado. É literal. Tipo um saco de batatas. A diferença é que um saco de batata reclamaria menos e faria menos escândalo.

Mas quando percebi, Roberto já estava tentando de qualquer maneira me empurrar para o banco de passageiro.

— Eu não vou levar você para um matadouro, então porque você fica se debatendo desse jeito? – Ele se irritou por fim.

— Por que depois da merda que foi o meu dia, a última coisa que eu preciso é terminar a noite com você me enchendo a paciência. – Eu tentei, muito, que ele não reparasse o quanto a minha voz saiu embargada. Quer dizer, eu havia passado as últimas horas inteiras me convencendo de que não ia chorar.

Então ele me soltou. Pensei que finalmente havia me livrado, mas não. Ele apenas me colocou de frente para ele e começou a examinar o meu rosto.

— Por que bebeu desse jeito?

Não respondi. Eu já estava me sentindo patético o suficiente, não precisava dele para me sentir pior.

— Vou reformular a minha pergunta: Quem fez isso com você?

Aquilo acabou comigo. Completamente. Um turbilhão de sentimentos, que eu estava e me recusando a sentir, veio todos de uma vez. Raiva, tristeza, ódio, mágoa. O aperto no peito ficou ainda pior e meus olhos, me traíram e marejaram. Acabei desviando os olhos dos deles. Mas é claro que Roberto percebeu.

— Entra no carro... Por favor? – Ele me pedindo “por favor”? Vai chover elefantes.

Mas eu já não tinha forças para ir contra ele. Nem queria. Então entrei. E fiquei olhando para a janela evitando as lágrimas. Roberto também não falou mais comigo.

Isso até eu perceber que nós estávamos indo para qualquer lugar, menos para minha casa.

— Para onde estamos indo? – Perguntei confuso.

— Para minha casa. – Ele apontou tranquilamente.

Eu me desesperei.

— Você disse que não ia me levar para o matadouro! – Emburrei.

Ele soltou um suspiro.

— Você mora no sul. Estamos no centro. Eu moro no centro. O que você acha que é mais fácil? Eu dirigir para sua casa ou para a minha? – E de novo ele falava como se eu fosse retardado.

— Eu acho mais fácil eu pegar um taxi e ir para minha casa. Porque você veio, afinal? – Não que eu quisesse ser rude dessa vez. Mas o fato de Roberto ter levantado de madrugada, no meio da semana, para ir atrás de mim, pelo fato de eu estar bêbado? Tinha muito caroço nesse angu.

— Porque sim. – Foi a resposta tosca que eu recebi.

— Meu Deus! Que argumento incrível, Roberto! Você está cada vez melhor com suas respostas. Não há quem te vença em uma discussão. – Eu ironizei.

— Você não pode calar essa boca? – Agora ele parecia irritado. – Eu não consigo prestar atenção com você falando.

— Eu te incomodo tanto assim? Então por que veio?

Ele decidiu me ignorar.

Meu corpo estava quente. E parecia que aquele carro estava fazendo uns trezentos graus. Então eu tirei o terno. Depois a gravata. E quando eu já estava tirando a camisa, Roberto resolveu quebrar o voto de silencio.

— Você vai tirar a roupa aqui mesmo? – Ele estava nervoso.

— Eu estou morrendo de calor! – Argumentei como se aquilo explicasse tudo.

Mas ele não me deixou continuar com meu strip-tease nada sensual.

Roberto praticamente me carregou até a casa dele. Porque a cada dois passos eu tropeçava nas minhas pernas. E ele me levou direto para o chuveiro. E me enfiou em baixo da água gelada.

— Então... Melhorou do seu “calor”? – Ele falava com um ar superior.

Não vou dizer que o efeito da bebedeira passou, porque eu ainda estava zonzo, mas ao menos os meus sentidos começavam a melhorar. E eu já podia pensar com mais clareza sem que meu cérebro vagasse pelo limbo.

— É... Melhorou. Mas agora eu tenho roupas encharcadas. Obrigado. – Respondi com a voz ainda arrastada.

No final, eu já não havia achado tão ruim ter indo para casa dele. Afinal, o que eu ia fazer na minha casa? Curtir dor de cotovelo?

— Agora você pode tirar a roupa. – Ele ditou.

E eu terminei de tirar a camisa, já que ele havia me impedido de fazer isso no carro. Então percebi que ele continuava parado me olhando.

— Você realmente vai ficar aí?

— Você está no meu banheiro. – Eu odiava o jeito que ele falava, como se aquilo fosse completamente trivial.

— E daí? Você acha que eu vou roubar o seu shampoo?

— Não sei. Mas a loção pós-barba custa bem caro... – Ele apertou os olhos para mim.

Acabei soltando um chiado indignado.

— Só estou brincando. Mas se você já é capaz de ficar com essa cara irritada, então já está melhor.

Dizendo isso, ele saiu, finalmente, e eu retirei o resto das minhas roupas que já estavam pesadas por conta da água.

Banho frio de madrugada não é a melhor coisa do mundo. Mas com certeza é bem eficaz após tomar um porre daqueles. Não que eu tenha ficado muito ruim. O meu sangue fervia sempre que me lembrava de Vitor, e isso fazia o álcool evaporar das minhas veias.

Um tempo depois, Roberto simplesmente adentrou no banheiro como... Bom, como se a casa fosse dele. O que de fato era. Então esqueça meu argumento. Mas isso não diminuiu o susto que eu levei quando praticamente dei de cara com ele.

— Você está nu. – Ele não podia deixar esse fato passar.

— Elementar, meu caro. O que te fez notar isso? O fato da minha bunda estar de fora?

— Eu ia te emprestar algumas roupas. Mas se você se sente bem assim... Por mim tudo bem!

Franzi o cenho para ele. Era impressão minha ou ele estava mesmo fazendo gracinha? Roberto nunca fazia gracinhas. Ou ria. Ou era legal. Ou iria me buscar de madrugada. Afinal, o que estava acontecendo ali?

Ele me entregou as roupas, enquanto eu continuava esbabacado olhando para ele e imaginando que uma invasão alienígena havia começado e eles haviam o abduzido.

Efeitos da bebida. Com certeza.

Eu não me senti nada bem usando as roupas dele. Principalmente porque o cheiro ficou impregnado no meu nariz.

Sai do banheiro ainda tonto, mas bem o suficiente para andar.

Roberto estava sentado no sofá, e parecia minha mãe quando me esperava voltar das festas... Com Vitor. É uma merda quando uma pessoa está tão ligada a você que para onde você corre em sua memória, você a encontra.

— Você está melhor? – Ele havia percebido minha presença e acenou para que eu me sentasse no sofá. Sua voz me tirou dos meus devaneios.

— Estou.

— Vai me contar o que houve para você acabar desse jeito? – Ele não ia desistir.

— Isso é realmente necessário?

— É mais de quatro e quinze da manhã, Alexander. Eu estou acordado por sua causa. Acho que o mínimo que eu mereço, é saber o porquê.

— Eu não pedi para você ir me buscar! – Merda. Eu não deveria está descontando nele, eu sei. – Desculpa. Pra ser sincero, obrigado... Por ter ido. É só que...

— Problema com seu... Namorado? – Ele quase vomitou.

— Se for para você começar a julgar, eu não vou nem me dar o trabalho de falar...

— Desculpa. Não foi a intenção.

— Façamos o seguinte: Eu te conto o que aconteceu, e você me conta porque foi atrás de mim. – Propus.

Ele ponderou por alguns segundos.

— Tudo bem. Troca justa. Então, o que te derrubou desse jeito?

Senti minha garganta fechar. Eu nem sabia como começar.

— Você... Já amou muito alguém? – Perguntei, e isso pareceu pegá-lo de surpresa.

— No meu caso, não está no passado. Eu ainda amo... – Ele respondeu. Mas não olhei para ver que tipo de expressão fazia. Apenas assenti.

— É mais ou menos por aí. O problema é que... Ele é um babaca. – Sorri sem humor e olhei para Roberto, que me encarava com uma expressão indecifrável. – E nós terminamos... – Contei.

Eu não queria contar a parte da traição. Fazia-me sentir pior.

— Ele terminou com você? – Ele perguntava. Neguei com a cabeça. – Então você terminou com ele?

— Não foi necessário. Ele... – Respirei fundo, porque o ar meio que faltava– Eu sabia que as coisas estavam bem ruim para nós dois. Principalmente depois que ele invadiu o meu quarto, bêbado e cuspindo aquelas palavras...

— Foi por isso que estava daquele jeito na segunda?

Assenti.

— Eu fui a casa dele hoje. Ia conversar ou... Sei lá. Pra ser sincero, não acho que teria a menor chance de terminarmos as coisas bem... Mas... Ele não precisava ter feito aquilo...

Eu só percebi meu choro, quando um som indecifrável saiu da minha garganta, e a água salgada pingou em minhas mãos.

Roberto pareceu ficar sem jeito com aquela cena. Ele se aproximou e começou a afagar meus cabelos, como se seu fosse um gatinho perdido.

— Cara... Isso é uma droga. Eu jurei que não ia chorar por ele... E você dever está achando ridículo eu estar chorando por outro cara. – Limpei com rudeza as lágrimas que continuavam a sair. Sério, quem foi que abriu a torneira?

Tá, Vitor havia sido um escroto comigo. Mas um monte de gente já havia sido escrota comigo e eu nunca chorei por causa disso. Nunca havia caído tão feio quanto agora. “É a sua pose”, ele me dissera. Mas que pose? A pose que ele fez ruir em tão pouco tempo? Eu o amei por três anos. Não dá pra dizer que saí daquele relacionamento feliz, soltando fogos e dançado La cucaracha!

Parei de pensar na vida quando senti Roberto puxando meu rosto para que eu olhasse para ele.

— Eu realmente não gosto do fato de você estar chorando por outro cara. – Eu posso jurar que os olhos dele estavam dourados. Eles sempre foram tão bonitos assim? Ou bebi de mais estou imaginando coisas?

Soltei uma fungadela patética.

—Você não me odeia? – Fiz aquela pergunta porque eu já estava ficando assustado com todo aquele jeito atencioso dele comigo.

— Você adora deturpar a minha imagem, não é? – Ele sorriu um pouco, e sua mão desceu pelo meu rosto. – O seu jeito petulante me deixa inquieto. Mas eu não te odeio por isso.

— E me odeia por quê?

— Eu nunca disse que te odiava. Ou você realmente acha que eu levantaria em plena madrugada por alguém que eu odeio?

—Então por que fez?– Minha voz saiu em um sussurro.

—Você ganhou? – Ele perguntou, olhando fixamente para mim.

— O que?

— A discussão com ele. Você ganhou? – O que aquilo tinha a ver com a situação, eu não sabia. Mas mesmo assim acabei negando com a cabeça. Porque eu não havia ganhado. Vitor conseguia me deixar sem reposta quando usava aquelas palavras contra mim.

— Você não pode perder uma discussão para ninguém. – Ele sorriu. – A não ser para mim. E também não pode chorar...

— A não ser por você também? – Debochei, mas Roberto se manteve sério.

— Eu não faria você chorar.

Abri a boca para responder, mas... O que? Ele ao menos tinha noção do que estava falando?

É claro que ele sabia. Caso contrário ele não me olharia daquele jeito.

—Talvez... Eu devesse ir embora... – Fiz menção de me levantar, mas Roberto me fez sentar novamente.

— Fica comigo essa noite... – Ele pediu em sussurro.

Minha mente se embaralhou naquelas palavras. Afinal, como eu deveria interpretar aquilo?

Então, só pra testa uma vaga teoria, eu puxei seu rosto em direção ao meu e o beijei. Não que eu tenha sido muito sutil em fazer isso, mas ele não reclamou. Pareceu-me surpreso, até perceber o que se passava ali. Então correspondeu quase que em desespero. Como se precisasse tanto daquilo que não suportaria se nossos lábios se separassem. Não houve falta de ar que o fizesse parar. E eu, pra ser honesto não sabia o que estava fazendo. Ou sabia, mas fingia que não.

Eu o empurrei no sofá, ficando de bruços sobre ele, mas ainda o beijado avidamente. Deslizei minha mão pelo seu corpo e puxei sua camisa para cima. Deslizando os dedos por toda pele que havia ali em baixo. Desde as costelas, até o umbigo. Sentindo os músculos de seu quadril se contrair com o contato dos meus dedos. Continuei com os toques vagarosos até chegar ao volume duro que se fazia por baixo da calça.

Ele tentou, em vão, conter um gemido. Mas que apenas fez com que se separasse da minha boca.

— Droga, Alexander... O que você está fazendo comigo? – Ele perguntou com uma voz baixa.

Os olhos dele estavam colados em mim, suplicantes e sombrios, com uma expressão que parecia querer me devorar. E eu caia de bom grado naquele abismo. Não respondi sua pergunta. Porque eu não tinha resposta para ela. Eu apenas me sentia completamente embriagado. Não mais pelo álcool. Mas pela luxuria.

Ataquei seus lábios vorazmente, e deslizei minha língua por sua boca, sentindo suas mãos subiram para minha cintura e me puxando possessivamente.

Mas ele se afastou.

— Se continuarmos com isso, eu não serei capaz de voltar atrás... – Sua voz soava grave em sua garganta.

— E quem disse que estou disposto a parar? – Rocei meus lábios em sua bochecha, até parar perto de sua orelha – Eu sempre termino o que começo.

Isso fez que com que puxasse minha cabeça em sua direção novamente. Ele se levantou saindo de debaixo de mim, me empurrando até que eu caísse de costas, e se ajoelhou no meio das minhas pernas, agarrando minha camisa e a abrindo com força, arrancando os botões como consequência. Não me importei. A camisa era dele, de qualquer forma. Depois, ele que lidasse com aquilo. Roberto deslizou as mãos do meu pescoço, até chegar aos meus mamilos, pressionando-os com os polegares. Suas mãos continuaram a descer, como se cada toque fosse valioso para ele.

Eu estava tão excitado que era doloroso ficar naquela situação. Apenas os sons involuntários dos gemidos que deixava escapar quando ele me tocava provocantemente, ou som das nossas respirações ásperas, já me fazia perder completamente o controle.

Ele voltou a me beijar e mordeu meu lábio inferior, encostando sua testa na minha por fim. Suas mãos tremiam de ansiedade enquanto ele terminava de tirar as malditas peças que ainda separava nossos corpos.

— Você estava quase me enlouquecendo naquele banheiro... – Ele sussurrou, com a respiração curta e irregular.

— Seu autocontrole é tão bom assim?

— Não quando o assunto é você. – Ele mordeu o lóbulo da minha orelha.

Ótimo. Eu também não tinha nenhum.

Estiquei as pernas tirando-o de cima e o fazendo sentar, e me sentei em seu colo. Seu membro roçava contra mim. Não me importei com lubrificação ou preparo. Apenas fechei meus olhos e lentamente me abaixei. Eu sabia que aquilo ia doer. Mas não doeria mais do que toda a raiva e frustração que eu havia aguentado o dia inteiro. Então não vou mentir, foi uma forma bem ridícula de fazer eu me sentir melhor.

Agarrei seus cabelos com força, enquanto sentia aquela dor ansiosa e a sensação dele dentro de mim. Seu rosto estava pressionado contra meu ombro, e seus gemidos eram abafados. Roberto agarrava minha cintura, enquanto minha respiração era alta e descontrolada.

Não esperei muito para começar a me mexer, apenas para senti-lo pulsando em mim cada vez que eu levantava meu quadril para me igualar aos seus movimentos. Até chegarmos ao ponto onde eu não me importava com mais nada. Apenas deixei meus olhos se fecharem completamente e joguei minha cabeça para trás aproveitando mais daquela sensação. Eu não sabia se os gemidos que preencheram aquela sala eram meus ou dele, ou talvez dos dois. Apenas sentia os movimentos se tornarem mais intensos que os anteriores e cada toque mais profundo.

Ele deslizou as mãos pela minha cintura até minha bunda, apertando a com força. Eu podia sentir seus lábios, e o calor do ar, quando ele suspirava contra minha pele. Nossos corpos estavam em perfeita sincronia, e eu reagia a cada toque ou som que fazíamos.

Abri meus olhos momentaneamente apenas para me prender aos dele. Roberto olhava fixamente para mim. E eu gostava. Gostava de ter os olhos dele sobre mim naquele momento.

Uma sensação cálida subiu por todo meu corpo, fazendo com que eu arqueasse minhas costas e chegasse ao ápice daquela loucura. Ele emitiu um som grave e rouco em meu ouvido, estocando uma ultima vez, enquanto também chegava ao seu limite.

Estávamos exaustos, trêmulos e ofegantes. Roberto mergulhou o rosto na curva do meu pescoço, e não pude resistir ao desejo de acariciar seus cabelos, agora úmidos de suor.

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A consciência chegou me dando chute e pontapés logo pela manhã.

Eu não queria acordar. Primeiro porque minha cabeça doía tanto que parecia que uma manada havia sambado sobre ela. Segundo que aquela sala estava muito clara, e isso piorava ainda mais a tal dor de cabeça, e terceiro... Onde é que eu estava?

Acordei completamente atordoado, nu e com o estômago embrulhado.

Pisquei por algum tempo, tentando me acostumar com a claridade, e com o ambiente em que eu me encontrava.

Certo. Casa do Roberto...

Centenas de lembranças invadiram a minha mente, e a realidade da noite anterior caiu sobre meu cérebro ainda confuso.

Ai... Caramba. Havia sido real. Nada de um sonho maluco. Nada de um pesadelo. Apenas... Real.

Comecei a perder o folego e entrar em pânico e meus olhos percorreram tudo ao meu redor, mas eu estava completamente sozinho.

Levantei-me ainda tentando processar as informações da minha cabeça, e parei quando meu próprio reflexo me chamou atenção. Os cabelos uma bagunça, uma cara horrível, e marcas por todo corpo. Realmente... Aconteceu?

— Já está de pé? – Uma voz grave me tirou dos meus pensamentos, e eu me virei em direção a ele sobressaltado. – E pelo visto de mau humor...

Eu não sei que tipo de expressão eu mostrava, mas algo me diz que era semelhante à de um psicótico.

— Quando você acordou? – Perguntei.

— Eu nem dormi...

Oh, maravilha...

— Então poderia, pelo amor de Deus, me explicar que diabos fizemos noite passada? – Ok, perguntinha cretina essa minha, se considerar o fato de que eu praticamente o ataquei.

Roberto fechou a cara para uma expressão sombria.

— Você não se lembra?

— Eu lembro! Esse é o problema. Eu só não entendo... Como... Como nós...

Olhei para ele.

Roberto era o mesmo de sempre. O mesmo rosto de sempre, as mesmas roupas caras de sempre, a mesma pose arrogante de sempre... Então porque tudo parecia diferente?

Talvez fosse o cabelo claro caindo sobre a testa, ou os cílios estranhamente longos, ou os lábios, ou talvez o queixo com uma barba por fazer...

Ele realmente precisava ser tão bonito?

— Você está olhando de mais. – Ele comentou, mas também me encarava.

— Não estava olhando para você. – Neguei, e negaria até a morte. – Estava tentando olhar o relógio.

Roberto se virou, porque de fato havia um relógio atrás dele, e fitou os números por um instante.

— Seis e quarenta... – Falou calmamente colocado leite em um copo e bebendo com toda paciência do mundo.

— Ah... Deus! Eu preciso me arrumar. Temos uma reunião em meia hora! – Certo. Prioridades. Prioridades...

— Você vai trabalhar? – Ele levantou uma sobrancelha, levando o copo à boca... Aquilo não estava me ajudando.

Olhei completamente incrédulo.

— É obvio! Eu tenho um chefe que vai adorar me encher à paciência se eu chegar atrasado.

Ele sorriu.

— Não se ele estiver atrasado também.

Levei as mãos aos meus cabelos, aí lembrei.

— Eu não tenho nenhuma roupa limpa por aqui. E se eu ainda for passar em casa vou atrasar ainda mais...

— Eu te empresto minhas roupas novamente.

Senti meu rosto ficar vermelho, me lembrando de mais uma vez da noite passada. Mas assenti.

Entrei no banheiro, tomando um banho rápido e enrolei uma toalha ao redor da cintura. Respirei fundo e abri a porta do banheiro, pronto para encarar minha penitencia. Que era... Estar novamente preso ao cheiro dele...

Roberto estava sentado naquele mesmo sofá, com os cotovelos apoiado nas coxas, completamente perdido em pensamentos, e ele não era o único.

Foi então que eu reparei. A casa dele era impecável. Tudo perfeitamente limpo, arrumado, organizado, dobrado... Tão diferente. Nunca havia parado para me perguntar quem ele era fora daquele escritório...

— Gostou de algo? – Ele perguntou.

— Hã... Não... Só estava pensando.

Roberto se levantou e parou a minha frente. Ele estava tão próximo que eu poderia beijá-lo... Não que eu fosse fazer isso.

— E no que você estava pensando?

— Que estamos atrasados. – Me afastei e fui em direção à porta.

— Você vai me evitar agora, Alexander? – Eu sempre te evitei, era o que eu queria responder.

— Não estou te evitando. Só estou falando a verdade. – Eu disse, me virando para encará-lo de volta.

Ele me observou por um momento, antes de finalmente vir em minha direção.

— Você vem comigo.

Não havia sido uma sugestão. E eu particularmente, não queria ficar a sós com ele, por quase dez minutos, se tivéssemos sorte e o transito estivesse bom.

Quando entrei mais uma vez naquele carro, e coloquei o sinto de segurança, apenas comecei a rezar. Roberto entrou logo depois de mim, mas não deu partida. Ele se virou com um rosto sério e uma expressão intensa. Seus olhos me faziam milhões de perguntas, mas eu não sabia o que ele queria de mim.

— Precisamos esclarecer algumas coisas, antes de sairmos.

Engoli em seco.

Certo. Ele vai me pedir para esquecer sobre isso. E nunca mais vamos tocar no assunto. Tinha que ser isso. Precisava ser.

— Tudo bem.

— Eu não posso sair daqui sem antes saber sobre nós dois. Então eu preciso que me diga como as coisas seguem a partir de agora.

— Não há... nós dois, Roberto! – Falei, com uma voz trêmula. – Existe eu, você e a noite passada, que foi um erro particular. Você sabe. Aquilo não deveria ter acontecido...

— Mas aconteceu. – Ele me interrompeu com uma voz enfezada. – E isso não desaparecerá de nossas mentes magicamente.

— Você... Foi ótimo na noite passada. Mas sejamos realistas. Não gostamos um do outro. E eu já sou bem grandinho. Não é como se você precisasse tomar alguma responsabilidade. Até porque a culpa, em parte, foi toda minha... – Eu estava olhando para minhas mãos. – Agora é a hora de você vestir seu uniforme de diretor do mal, dar de ombros e esquecer o que aconteceu.

— Eu não quero e eu não vou esquecer. –Ele pegou meu rosto e me fez encará-lo. – Eu não ia me aproximar de você, Alexander. Não havia espaço para mim na sua vida...

E quem foi que te disse que agora há?... Mas eu não consegui dizer isso a ele.

— Eu quero mais do que isto. Eu quero poder manter uma conversa com você sem que um tente se sobressair sobre o outro, eu quero poder te beijar sem a droga de um motivo aparente, eu quero ser a única pessoa pra quem você mostra sua lágrimas, mas sem ser o motivo delas, quero ser a primeira pessoa que você vê quando acorda, mesmo com todo seu mau humor... – Ele praguejou algo que eu não entendi e agarrou os próprios cabelos, soltando finalmente meu rosto. ­­ – Estou apaixonado por você, Alexander.

Eu fiquei paralisado. Não podia acreditava que Roberto fosse tão piegas daquele jeito. Por isso fiquei olhando para ele, esperando o momento que ele dizia que era brincadeira e a gente ria histericamente. Mas não aconteceu.

— Está falando sério? – Perguntei depois de um tempo, completamente em choque.

— Nunca falei tão sério na minha vida. – Ele respondeu. – Não me pergunte desde quando. Porque eu não sei. Não sei se foi na primeira vez que nos vimos ou se foi minutos, horas, semanas ou meses depois... Eu só sei que quando você entra na minha sala, seu cheiro me deixa louco. Eu não consigo pensar com você por perto. E quando você me olhar com... Essa mesma cara que você está fazendo agora... Eu só consigo pensar no quanto eu quero te beijar.

Meu estomago se revirou. Eu não havia comido nada e pra completa ainda estava com efeito da bebedeira.

Olhei para Roberto, ainda sem reação depois daquilo.

Eu não podia contar para ele que a noite passada não havia significado pra mim nem metade do que aparentemente significou para ele. O que fez com que eu me sentisse um maldito babaca.

“Não é como se você pudesse me julgar” – Vitor dissera. E ele tinha toda razão. Eu conseguia ser tão cretino quanto ele ou talvez mais. Não era de admirar que havíamos ficado juntos por tanto tempo.

Mas mesmo assim, eu não podia fazer isso com Roberto. Ou podia, mas não queria.

Deixei minhas mãos caírem no meu colo e o fitei com sinceridade.

— Eu não sei como deveria me sentir em relação a você, após isso... Mas eu quero ser seu amigo. Não que isso ajude muito... Eu acho – Falei. – Estou confuso, pra ser honesto. Você. Ele. Eu... Minha cabeça está uma bagunça agora...

Roberto ficou calado, até que por fim, finalmente deu partida no carro. Mas antes olhou uma ultima vez para mim.

— Tudo bem. Eu provavelmente estou te pressionando de mais. Você precisa colocar a cabeça no lugar, eu entendo. Mas deixemos algo claro: Assim como você, eu sempre termino o que começo.

Não houve mais nada após isso. Nem mesmo uma troca de olhares. O que fez com que afundássemos em um silêncio irritante.

— Posso ligar o som? – Perguntei.

Roberto assentiu.

Liguei o rádio só pra cair no azar de pegar o começo da música Till We Ain't Strangers Anymore, justamente a parte em que Jon Bom Jovi cantava “It might be hard to be lovers. But it's harder to be friends”.

Qual era a do universo comigo?

Meus olhos voaram para Roberto, mas ele parecia inalterado. Só eu havia sentindo a indireta? Ótimo. Desisti do rádio e optei pelo silêncio.

Quando chegamos à empresa, desci voando do carro e comecei a andar.

— Alexander? – Roberto me chamou, fazendo eu me virar para trás.

Não tive sequer tempo de pensar quando ele segurou minha nunca e juntou nossos lábios com certa agressividade, fazendo um mar de sensações inundar minha mente e meu corpo.

E depois ele me soltou, deslizando o polegar pelos próprios lábios.

— Foi só para lembrar que as mudanças começaram... – Então ele passou por mim, me deixando paralisado.

Quando minhas pernas finalmente me obedeceram girei os calcanhares correndo atrás dele.

— Amigos, Roberto! Eu disse amigos! – Bradei, apenas para chegar quando a porta do elevador já se fechava.

Mas Roberto ainda teve tempo de sorrir e dizer:

— Acho bom você correr. Temos cinco minutos antes de a reunião começar.

O que significava que eu não teria tempo de pegar o elevador, por culpa dele, e que teria que subir sete andares de escadas.

Filho da mãe!

Bom, subir eu subi. Quase morri, mas tudo bem. Cheguei completamente ofegante, andando com pressa, quando Marta me abordou a caminho da sala de reunião com meus portfólios em mãos.

— Você está... – Ela começou.

— Atrasado. Eu sei. – Cada palavra eu ofegava.

— Roberto me pediu para entregar isso a você. – Ela os colocou em minhas mãos.

— É claro que pediu. Depois de me fazer subir sete andares de escadas... – Praguejei.

— Vocês vieram juntos? – Ela indagou curiosa, apressando o passo para me acompanhar. Droga, porque aquela sala tinha que ser na baixa da égua? – Aliás, essas roupas são dele? Alex? O que aconteceu entre vocês?

Ela mantinha um sorriso gigante no rosto. Mas já havíamos chegado à sala de reunião, então me virei para ela e recuperei o folego.

— Depois eu respondo suas perguntas. Agora... Vou tentar não ter um colapso naquela sala.

Abri aquela porta fingindo a maior calma possível, e meus olhos caíram na figura impecável que o ocupava a ponta mesa, e que sorria cinicamente para mim.

Engoli milhares de reações diferentes que aquilo me causou, sendo a irritação a que mais se destacava, e me sentei do lado oposto, evitado terminantemente olhar para ele.

Mas então eu entendi... Ele não estava fazendo aquilo por implicância. Roberto estava tentando não me deixar desconfortável na frente de todo mundo. Ele sabia que eu não conseguia lidar com ele se não daquele jeito.

E eu acabei sentindo certa gratidão por aquilo.

Entretanto...

Três meses se passaram, e nada havia mudado. Mas foi o período que eu tive para conseguir organizar minha mente. Não que tenha sido o suficiente, porque Roberto ainda conseguia me deixar confuso. Nós “fingíamos” que nada entre nós acontecera, mas vez ou outra, ele dava um jeito de me beijar.

E Vitor ficava para trás em minhas memórias, como se fosse só mais um “algo” que não deu certo.

Por outro lado, saindo da minha vida amorosa, e entrando na da minha irmã, Camila estava radiante.

Gustavo finalmente a havia pedido em casamento, e ela estava quase montando em um unicórnio e vomitando flores.

Só que ela queria porque queria que eu a acompanhasse com todo aquele maçante processo de casamento, coisa que eu particularmente não estava muito afim.

— Definitivamente é não. – Eu falava pela terceira vez.

— Mas... Por que, Alex? Você é meu único irmão! Deveria fazer isso por mim! – Ela sibilava com manha.

Camila havia se tonando uma garota bonita. Mas isso não queria dizer que ela tinha abandonado seu velho abito de me perturbar e me coagir a participar dos seus planos estranhos.

— Pede para suas amigas! Eu não quero fazer isso.

— Elas não servem. Só você. Você sempre foi o melhor irmão do mundo. Não pode me acompanhar nessa parte tão importante da minha vida? Quantas vezes você acha que eu vou me casar?

— Eu espero que só uma Camila. – Suspirei. – Se eu falar que vou, você vai parar de me chamar para as outras coisas?

— Paro. Não vou pedir para você ir à degustação. Ou à florista. Ou pegar os convites. Ou...

— Tá certo. – Praticamente gritei. – Eu vou com você... Comprar seu vestido de noiva.

Aquilo seria a maior tortura do mundo. O problema não era aturar os trilhões de vestidos. O problema era aturar Camila falando pelos cotovelos.

Não que eu entenda muito sobre o assunto, mas geralmente as mulheres levam as amigas quando querem comprar o tal vestido. Porque elas se entendem e palpitam. Mas o que eu estava fazendo li? Freud explica...

Camila me puxou loja adentro, me fazendo entrar em um mundo cheio de vestidos. De todas as cores, tamanhos, modelos...

O celular em meu bolço vibrou ao mesmo tempo em que uma vendedora, com uma maquiagem berrante, nos cercava.

— Boa tarde! – Ela dizia alegremente. – Em que posso ajuda-los?

Camila começou a falar e a descrever o vestido dos sonhos para a vendedora, que sorria e assentia. Provavelmente já acostumada com aquele tipo de surto.

Retirei o celular do bolço para ver que alguém havia me mandado uma mensagem.

— Ele é o noivo? – Ela perguntou olhando para mim, da cabeça aos pés.

— Não. Sou a dama de honra. – Respondi ainda fitando o celular. – Eu jamais me casaria com essa maluca.

Camila me deu tapa.

— É o idiota do meu irmão.

— Idiota? Quando você estava se ajoelhando para fazer eu vi com você, eu era “o melhor irmão do mundo”... – Murmurei.

Voltei meus olhos para a mensagem.

“O que está fazendo agora?” – Era o que estava escrito na tela. Quem havia mandado? Meu mais novo “amigo”. Mas que eu ainda apelidava de diretor do mal.

“Estou comprando um vestido de noiva”– Respondi de volta.

— O que você acha, Alex? – Camila perguntou girando de um lado para o outro, usando... Um vestido branco. Ah novidade!

— Bonitinho.

— Bonitinho? Então é um feio arrumado. Vou tentar outro. – E saiu novamente.

O celular vibrou novamente.

“você ficaria lindo em um. Mande-me uma foto”– Encarei aquilo por um tempo e balancei a cabeça. Que tipo de humor aquele cara tinha?

— E esse aqui? Acho que ficou melhor na cintura. – Camila estava com outro vestido. Dessa vez com bordados nas costas.

— Gostei do bordado.

— É... Mas é muito simples. Acho que não é isso... – E lá se foi ela novamente.

“É claro que ficou lindo! Eu fico lindo vestido em qualquer coisa.” – Mandei para ele.

— Esse é perfeito não é? Com certeza... – Camila vestiu mais um. Era todo na renda, com um decote marcante nas costas e no busto. Bonito.

— Leva esse, então. – Respondi.

— Mas... E se eu achar um melhor? Acho que vou ver mais... Só pra ter certeza...

Não prestei muita atenção, pois meus olhos deslizavam mais uma vez para a tela do celular, onde apenas duas palavras estavam escritas. “Eu sei”.

Não respondi mais depois daquilo. E Camila experimentou vinte e cinco vestidos.

— Alex... Este ficou bom? Estou em duvidas nessas mangas...

Passei a mão pelo rosto, completamente agoniado.

— Camila... Esse vestido é branco e bufante. O anterior a ele, era branco e bufante. E o que você vai experimentar depois desse, advinha? É branco e bufante!

Ela ponderou as minhas palavras.

— Tem razão. Esses vestidos são tudo uma mesmice. Talvez devêssemos tentar outra loja...

Grunhi em desespero. Agora eu sei porque ela pediu para mim. Porque ninguém mais seria louco o bastante para vir com ela nesse programa de índio.

Mas no final, tudo aquilo para ela ficar com a porcaria do terceiro vestido. O de renda.

Quando voltávamos para casa, Camilla resolveu perguntar:

— Com quem você trocava mensagem na loja? Espero que não seja o idiota do Vitor. – Camila sempre o odiou. Mas nunca soube o porquê. – Me recuso a acreditar que você estava me trocando por ele...

— Não era ele. E eu não estava te trocando. – Eu ainda não havia contado sobre o fim do namoro.

— Ótimo. Porque só pra saber: Ele não está convidado. Deus me livre meu belo álbum de casamento com a cara tosca dele...

— Não se preocupe. Ele não vai. – Ele não iria de qualquer forma. Vitor estava para minha família, como Polo Norte estava para África. – Mas poderia me dar um convite extra?

— Claro. Sem problema. Mas... Quem você vai levar?

Sorri para ela.

— Apenas um amigo.

Não sabia ao certo se deveria ou não entregar o convite a Roberto. Que dizer... Por que ele iria querer ir ao casamento da minha irmã? Então, mesmo quando faltava apenas uma semana para o casamento, eu ainda não havia o convidado. Mas carregava o convite para cima e para baixo.

Na sexta feira, eu realmente tentei o dia todo fazer isso, mas sempre desistia no meio do caminho. Por fim, já havia me conformado.

Entretanto, quando eu já estava indo embora, tive a sorte, ou o azar, de acabar no elevador com Roberto.

— Você tentou o dia inteiro falar comigo ou foi impressão minha? – Ele indagou assim que eu pisei o pé lá dentro.

— Nada importante. – Fingi dar de ombros.

— Você nunca faz nada que não seja importante. – Ele comentou. – O que era?

— Não era nada. Apenas ia te fazer uma pergunta. –Droga de elevador lento...

— Então faça.

— Eu esqueci. – Finalmente no térreo, saí com pressa, com Roberto logo atrás de mim.

O carro dele estava “coincidentemente” ao lado do meu.

— O que fará amanhã? – Ele perguntou como quem não queria nada.

— Vou ao casamento da minha irmã. – Respondi automaticamente.

Então... Ele já sábia disso. Mas daí eu poderia tirar duas opções: Ou ele queria que eu o convidasse, ou ele sabia que eu queria o convidar. As duas opções dariam no mesmo. Então dei de ombros, e fiz a pergunta que estava presa em minha garganta por semanas:

— Você quer ir?

Roberto abriu um enorme sorriso. Um que já era velho conhecido meu, e que queria dizer, mesmo que indiretamente, “você conseguiu”.

— Adoraria conhecer a sua família.

Certo. Convite entregue com sucesso, minha mente pensava.

Ele se aproximou novamente, para pegá-lo, e assim que estava com o envelope prateado em mãos, ele o usou para bater em minha testa.

— Você é muito lento, Alexander... – Foram as últimas palavras dele para mim, antes de entrar no carro e ir embora.

Não sei dizer se eu estava realmente esperando que ele fosse ou não, mas confesso que meus olhos não saíam da porta de entrada do salão principal na hora da festa. E da bandeja de champanhe do garçom.

E quando eu já estava na quinta taça, desisti de ficar olhando para aquela porta. Até porque eu já até havia decorado o número de flores dos arranjos.

— Quem você tanto espera, querido? – Mamãe tocou meu braço levemente, me tirando de meus devaneios.

Sorri para ela. Minha mãe estava deslumbrante em um vestido azul tomara que caia. Peguei suas mãos e a beijei.

— Você está linda! – Sorri para ela.

Mamãe me retribuiu o sorriso.

— Palavras suas, meu bem! – Ela disse modestamente. – Está com essa carinha triste por causa de Vitor?

Bufei.

— Não. Não estou. – Outro gole no champanhe. – Nós terminamos.

Mamãe pareceu completamente chocada.

— Quando?

— Há uns... Quase quatro meses.

— E quando pretendia conta?

— Não pretendia! – Respondi com sinceridade. – Não queria escutar um “eu avisei” vindo de você, e muito menos da Camila. Mas vocês não param de tocar no nome dele...

— Alexander, você enlouqueceu? Como é que você me exclui da sua vida dessa forma? – Mamãe só sussurrava, mas para mim, era como se ela me berrasse. E essas palavras foram seguidas de um tapinha no braço. Não que doesse, na verdade era engraçadinho.

— Eu não... – Outro tapa. – Estou – Mais outro. – Excluindo você da minha vida, mulher! – Meu braço começava a arder. – Para com isso mãe...

— Ele deve dar muito trabalho, não é mesmo? – Escutei aquela voz atrás de mim, e estaquei. E mamãe também pareceu surpresa.

Virei-me para encará-lo... E esqueci completamente a resposta sarcástica que estava na ponta da língua.

Não vou dizer que Roberto estava lindo, porque não estava. Ele estava... Hum... Existe algo maior do que maravilhoso? Porque se existe, fique a vontade para classifica-lo. Mas eu não falo isso porque estava babando por ele ou algo do tipo. Digo isso porquê todo mundo parou para olha-lo. E porque a beleza alheia precisa ser comentada.

— Você veio. – Foi a minha gloriosa sentença.

— Eu nunca disse que não viria.

— Mas também não disse que viria. – Adoro esse tipo de conversa...

Amigoseu, Alex? – Eu sabia que havia mil e um significados pela palavra “amigo” pronunciada por mamãe.

— Algo assim... E meu chefe nas horas vagas. – Respondi, ainda olhado para ele. – Roberto essa é minha mãe...

— Carla. – Ela esticou a mão para ele, ligeiramente corada. – Eu já ouvi muito sobre você.

Roberto olhou para mim com expressão divertida. Ele já imaginava que tipo de coisa eu provavelmente falava dele.

— Acredito que sim. –Ele conteve uma risada. – É um prazer conhece-la. Alex nunca me disse que a mãe dele era tão atraente.

Olhei para ele com uma expressão de “sério que você está fazendo isso?”.

— É. – Mamãe, que havia caído em seu charme , sorriu. – Alex também se esqueceu de dizer o quanto você é... Encantador. – E irritante.

— Pois é. O Alex esquece muita coisa. – Falei para ver se os dois se tocavam. – Mãe, acho que estão te chamando...

Roberto voltou-se para mim ainda com um enorme sorriso.

— Acho que alguém está com ciúmes... – Revirei os olhos.

— De mim ou de você? – Mamãe teve a graça de perguntar.

Roberto se inclinou para ela e sussurrou algo que eu não consegui entender, mas mamãe assentiu e abriu um enorme sorriso. Depois virou para mim e mexeu os lábios em um “boa sorte”, me deixando sozinho com ele. Bom não sozinho, porque o salão estava cheio de gente.

— O que disse a ela?

— Nada de mais... – Ele falava com inocência.

— Pensei que você não fosse vir... – Comentei.

— Estava me esperando? – Seu sorriso se tornou largo.

— Palavras suas e não minhas.

Troquei minha taça quando o garçom voltou.

— Quantas dessa você já tomou?

Olhei para a taça e dei de ombros.

— Esta é a sexta.

Roberto soltou um riso indignado.

— Porque você bebe tanto, afinal?

— Porque é de graça. – Levantei a taça para ele, como se aquilo explicasse tudo. E provavelmente explicou, pois ele pareceu gostar do argumento.

— Você vai acabar bêbado. E eu teria que cuidar de você... De novo. Hum... Não seria uma ideia ruim.

— Nos seus sonhos. – Respondi.

— Não. Nos meus sonhos as coisas são mais ardentes...

Olhei para ele com uma expressão incrédula.

— É tão divertido assim fazer isso? – Minha voz saiu irritadiça, mas não acho que tenha sido intencional.

— É. Adoro quando você faz essa cara de bravo, quando na verdade você gosta...

Olhei feio para ele.

— Eu não gosto... – Comecei, mas algo agarrou meu braço e gritou para Roberto:

— Vou sequestra-lo por cinco minutos. Depois devolvo!

Esse algo era Camila.

Ela me puxou para o outro lado do salão se colocando a minha frente com um sorriso imenso no rosto.

— Onde você arrumou um desses? – Ela pergunta quase saltitante.

Fingi-me de desentendido e olhei para a taça em minhas mãos.

— O garçom passa toda hora servindo...

— Não banque o bobo para cima de mim, Alex. Estou dizendo do Deus grego que do nada surgiu neste salão e que está todo sorridente para você. – Ela tentava parecer brava, mas não parava de sorrir.

Suspirei.

— Longa história, Camila. Longa noite. E você é a anfitriã.

— A noite que espere. Você vai me contar o que está acontecendo e de onde ele surgiu... E se talvez ele tenha um irmão...

Olhei para ela indignado. Ela tinha se dado conta de que estava no próprio casamento?

— Só estou brincando! – Camila disse como se lesse meus pensamentos. – Mas vamos lá... Estou louca pra saber.

Então contei resumidamente para ela. Porque eu nunca tinha saco para discutir com a Camila de qualquer forma...

Ela conteve alguns gritinhos e saltos, e por fim pulou no meu pescoço.

— Esse é meu irmão! Vai fundo, garoto! – Ela me mostrava o polegar em total aprovação. – O que é você está esperando para pegá-lo de jeito?

— Camila... Menos. Poupe-me das suas ideias estranhas. Eu... Não vou pegar ninguém de jeito! – Senti meu rosto esquentar, mas desviei isso da minha mente. ­­

— Ah qual é, Alex? Não é sempre que uma chance dessas cai aos seus pés! Aproveita. O que você tem a perder ficando com ele?

Abri a boca para responder, mas nada coerente sairia dali depois daquilo. Porque Camila estava certa. O que eu tinha a perder?

— Exatamente como eu imaginava. Agora, volte lá e diga a ele que quer parar de ficar brincando de casinha.

Ela beijou meu rosto e saiu mais uma vez “saltitante” pelo salão.

A minha mente se tornava um bilhão de pensamentos e por fim, eu já estava diante a ele mais uma vez.

— Aquela é a sua irmã? – Ele perguntou, mas sua voz me parecia distante. – Deus! Ela se parece muito com você...

— Anhã... – Respondi ainda divagando.

— Aconteceu alguma coisa? – Foi então que eu reparei a expressão séria em seu rosto. E era por minha causa, mais precisamente, minha cara de mosca morta.

Olhei para os olhos dele e... Dourados novamente.

— Qual a cor dos seus olhos, afinal? – Me ouvi perguntando.

Ele pareceu confuso.

— Castanho claro... Eu acho. Você tem certeza que está tudo bem?

Coloquei a minha melhor máscara de indiferença e assenti.

— Você gosta deles? – Roberto perguntou com um sorriso faceiro.

— Gosto. – Fui sincero. – Gosto de olhar para eles...

— Está se declarando para mim, Alexander? – Ele perguntou com uma voz grave, porém sussurrada.

— Não. Pra você não. Para seus olhos, talvez... – Acabei sorrindo.

Roberto mudou sua expressão para uma de... Admiração e surpresa talvez, enquanto fitava meu rosto.

— Você nunca havia sorrido para mim... – Ele falou perdido em um estado de transe.

— Mesmo? Nunca reparei... Acho que não sou de sorrir muito... – Mentira. Maior mentira do mundo. Eu ria de qualquer coisa. O problema é que eu já havia me acostumado tanto em mostrar aquela expressão, que sequer havia reparado que pouco sorria... Ou não sorria, como no caso.

A valsa dos noivos foi provavelmente escolhida por Camila. Pois era a música “I love you”, da Céline Dion. Eu e ela sempre fomos completamente apaixonados por aquela mulher. Então não me surpreendeu muito.

Mas nem todo o meu amor pela Céline, conseguiu me fazer sentir confortável ao som daquela música. Principalmente quando eu sentia os olhos de Roberto sobre mim cada vez que ela cantava o refrão.

Não que fosse complicado... Eu que complicava. Eu sei disso. Mas eu realmente não acreditava que um dia eu fosse conseguir dizer aquelas três palavras novamente, de forma que elas fossem plenamente verdade.

Então fugi. Sim, porque não sei dizer o que foi aquilo se não uma fuga. Não que eu tenha saído correndo ou algo do tipo, apenas pedi licença pela multidão de gente que fazia um círculo para ver a dança de Camila e Gustavo.

Quando passei para o corredor que ligava o salão ao estacionamento, eu escutei outros passos atrás de mim. Ótimo. Ele resolvera me seguir agora.

Parei subitamente e os passos também pararam.

— Você precisa de algo? – Virei-me.

— Que tal... Um pouco de sinceridade? –Ele respondeu no mesmo tom que o meu.

— Desculpe. Está em falta no momento. Quem sabe depois... – Voltei a caminhar.

— Espere, Alex.

E eu parei. E voltei meus olhos completamente incrédulos para ele.

— Você nunca me chamou assim!

— Estou chamando agora. – Ele respondeu andando rápido em minha direção. – Estou cansado de ser seu amigo.

Fiquei parado, esperando ele continuar, mas ele se calou.

— Tudo bem então... – Dei de ombros. – Te vejo na segunda.

Roberto soltou um riso frustrado pela minha reação.

— Eu acho que você não me entendeu...

Então ele enrolou minha gravata em sua mão e me beijou.

E ali eu tive e certeza que o universo inteiro estava contra mim.

Cara, ele beijava muito bem, convenhamos. Mas como eu poderia fazer aquilo com um cara, que até poucos meses atrás eu tinha certeza que me desprezava? Ou que eu achava que desprezava. Na verdade, eu não sabia de mais nada, e era muito difícil de pensar com os lábios dele se movimentando sobre os meus.

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Contudo eu ainda tinha princípios e ia afastá-lo. Mas se eu tivesse feito isso, ele teria se tornado o meu maior “E se”.

Afinal, eu realmente não tinha mais nada a perder. Ele, entretanto, apostava todas as fichas em mim... Então o que eu realmente fiz foi passar meu braço por seu pescoço e beijá-lo de volta.

O problema, é que eu ainda não havia compreendido que um erro nunca compensar outro.

Notas finais
Já sei... Querem me matar, porque eu parei... Mas vamos lá, galera. Só falta três capítulos e então acaba. O próximo por exemplo, é o fim de toda a treta. Deixem-me curtir um pouco mais com as minhas maldades, antes que isso chegue ao fim... E um beijo totoso aos que comentaram. Gente, rezem para eu acabar meu trabalho de literatura para conseguir responder vocês !!!