É por isso que eu odeio o futuro!
15 Capítulo 15- Mentiras e verdades.
Notas iniciais
Segundas-feiras. Quem é que no mundo realmente gosta de segunda-feira? Não importa o quão perfeito tenha sido o seu fim de semana, sempre vai bater aquela depressão básica na segunda de manhã.
E por falar em fins de semana, preciso ressaltar que este havia sido o mais insólito de toda a minha existência.
Quer dizer, quando eu vi Beto ostentando aquele sorriso nos lábios, enquanto me fitava tão ansiosamente por uma resposta, foi como se a terra tivesse parado de girar completamente. Não havia ar, não havia vento, não havia água. Não havia nada. Apenas eu e o ensurdecedor barulho do meu coração. Bom, era isso ou resolveram fazer algum desfile de escola de samba por ali e esqueceram de avisar, mas enfim.
Aquilo havia sido a coisa mais incrível e sem noção que eu já vi alguém fazer por mim. Afinal, o que eram jantares e cinemas perto de saltos de penhascos? Nada!
Mas acredite, eu bem que tentei elaborar uma gloriosa resposta ou algo do tipo. Porém eu mal conseguia balbuciar qualquer coisa que fizesse um mínimo de sentido. Então, ainda sem completar uma frase descente se quer, eu consegui a muito custo apelar para o velho e clichê “sim.”. Foi uma resposta tosca, convenhamos. Tão simples e boba, mas que mesmo assim, gerou um gigantesco sorriso, que eu pude jurar que jamais deixaria o rosto de Beto.
Tudo bem que nós apenas oficializamos, novamente, algo que tipo, todo mundo já sabia, mas foi muito importante pra mim. Foi mais do que apenas reivindicar um antigo cargo. Eu estava ciente de que as mudanças permanentes em minha vida começaram ali, no momento em que eu aceitei dar mais um passo em direção a ele.
Ficamos o resto do dia conversando sobre coisas que não faziam o menor sentindo ou que não eram de importância alguma. E Beto estava tão jubiloso com relação a tudo aquilo, que mesmo que eu começasse a falar sobre cabritos saltitantes, ele ainda se mostraria completamente interessado e sorridente.
Para resumir, passamos o resto do domingo completamente absortos em um mudo cor-de-rosa.
Mas, como eu disse, chegou a tal segunda-feira.
Não que eu odiasse a segunda em si. Não era isso. Eu só odiava os acontecimentos dela. E meu Deus, aquela lá chegou com uma urucubaca das brabas.
Na verdade, a minha noite já não havia sido uma das melhores. Pelo menos não com o sonho que tive. Eu não me recordava totalmente dele, mas me lembrava do suficiente para me deixar inquieto.
Minhas mãos sobre o volante, o carro oscilando na pista, uma ultrapassagem que deu totalmente errado, uma chuva ridiculamente forte e de repente tudo estava girando. Impactos e mais impactos sobre mim.
Acho que nem preciso dizer que perdi completamente a vontade de dormir depois de uma coisa dessas.
Não que isso signifique que eu resolvi levantar e fazer um cooper pela cidade ou algo do tipo. O sono pode ter passado, mas a preguiça ainda se apossava completamente do meu corpo. Por isso fiquei rolando pela cama apenas para me certificar de que ela estava completamente vazia. Embora o cheiro de Beto estivesse impregnado nos lençóis, e acho que até em mim mesmo.
Continuei deitado, relembrando na minha cabeça tudo que havia acontecido nas ultimas quarenta e oito horas. E acabei sorrindo para o nada, apenas com isso.
Até que o barulho irritantemente alto do telefone se espalhou por toda a casa e me tirou dos meus prazerosos devaneios.
Eu realmente odiava o barulho do telefone. Tudo bem que até acho legal essa tecnologia de você poder falar com uma pessoa, mesmo que ela esteja na baixa da égua, mas isso não queria dizer que eu gostava dele. E acredite, eu não gostava.
Claro, eu poderia ter ignorado. Aliás, eu deveria ter ignorado. É como aquele dizer: Nenhum dia é ruim até você resolver levantar da cama. Então por via das duvidas, não levante!
Mas a força do destino me chutou para fora e me mandou ir atender. E foi o que eu fiz.
Apenas pra me arrepender cinco minutos depois.
— E ai, docinho? Sentiu saudades?– Foi o que a voz do outro lado na linha disse.
Fiquei piscando por um tempo associando aquela voz. Que eu já havia escutado antes. Até que um nome estourou em minha mente: Vitor.
— Quase entrei em depressão! – Respondi vomitando sarcasmo. – O que você quer?
Acredite, eu sou um garoto educado. Juro! Mas havia algo naquele cara que sei lá... Meu santo não batia com o dele.
— Pega leve na hostilidade, amorzinho. Você não tem motivos pra isso. Aliás, você tem, mas não lembra. – Ele soltou uma risada no final. E meu sangue borbulhou.
— Você ficou louco? Por que está ligando para minha casa a essa hora da manhã?
—O que há demais, Alex? Você parece uma esposa adultera escondendo o amante do marido.
Vitor tinha sorte de eu nunca ter sido uma pessoa violenta. Vingativa, sim. Mas não violenta.
— Cara, existe realmente algum motivo para você ficar me procurando desse jeito? – Inquiri, impacientemente.
— Eu tenho algo pra te dar.
— Não quero!– Respondi sem pestanejar.
— Você nem sabe o que é!– Ele protestou, mas pelo seu tom de voz ele estava se divertindo. Esse cara deve achar que eu sou algum tipo de piada ambulante. – Vai por mim, é algo do seu interesse.
Maravilha. Agora ele está brincando com a minha curiosidade.
—Devo supor que você não vai falar o que é. Só pra que eu fique curioso e vá.
— congratulations! Adorei a percepção. Agora, anote o endereço.
—Eu não disse que vou! – Ralhei.
— Seja bonzinho e anote o endereço, sim? Vai valer a pena.
Eu quase podia visualizar sua imagem rindo da minha cara. Mas mesmo contra a minha vontade, acabei anotando a porcaria do endereço.
— Estarei te esperando até às 19 horas.
—Eu já disse que eu não vou!– Berrei par ao telefone, mas foi em vão, pois ele já havia desligado.
Na verdade, foi um pouquinho pior, porque assim que eu terminei de descontar a minha frustração no coitado do telefone, eu percebi um par de olhos curiosos estudando a minha, nada normal reação.
Beto estava parado, ainda na porta, me olhando com uma cara ilegível.
— Com que você estava gritando?– Ele perguntou, terminando de fechar a porta.
— Com o telefone. O que faz em casa tão cedo?
Ok. Imagino que eu tenha ficado branco igual papel naquele momento. O que provavelmente significa que estava estampado em neon na minha testa que algo estava muito errado. E eu ainda não estava pronto para tocar no assunto tabu chamado “Vitor” com o Beto.
Eu preferia beber um litro de vinagre a estragar o que já havia conseguido até agora.
— Eu tive apenas uma reunião de manhã. – Ele respondeu. – Com quem você estava falando?
— Era engano. – Menti. E eu juro que me senti péssimo em fazer isso. – Uma senhora ligou aqui e insistiu que eu era algum parente dela ou sei lá.
A expressão dele estava tensa. Na verdade, quando olhei cuidadosamente, ele estava vermelho. Muito vermelho.
Beto não era nenhum albino, mas tinha um tom de pele claro o suficiente para que desse para perceber claramente quando seu rosto mudava de cor. E naquele momento parecia que ela havia caído de cara em carmim.
— Você está bem? – Perguntei me aproximando apressadamente em direção a ele.
Toquei sua testa com as costas da minha mão, o que fez com seu corpo enrijecer com o toque. E não era pra menos. Ele estava pegando fogo de febre.
— Alex, eu estou bem... – Ele começou a dizer. Mas é obvio que eu não fiquei parado escutando ele me inventar uma desculpa fajuta.
— Você está quase entrando em combustão instantânea!– Ok, ignore a minha hipérbole.
Mas queria que eu fizesse o que? Febres altas são extremamente perigosas. E a dele estava quase competindo com o sol!
Minha prioridade foi tentar abaixa-la. Depois a gente conversava sobre o assunto. Então, sem me importar muito com os protestos de Beto, o enfiei, com roupa e tudo, embaixo do chuveiro e da água morna.
— Agora tire a roupa. – Ditei.
Beto passou os braços ao redor do próprio corpo em ato protetor.
— O que é isso, Alex? Você vai abusar de um pobre homem doente?
Segunda-feira só podia ser o dia da semana que Deus tirava para testar a minha paciência.
— Roberto... Estou tentando abaixar a sua febre, e não piora-la. Agora, tira a roupa. – Suspirei. – Me deixa cuidar de você!
Aquilo pareceu quebrar qualquer resistência, inexplicável, que ele tinha.
Beto começou a afrouxar o nó da gravata e a desabotoar os botões da camisa, que por sinal estava ficando transparente por causa da água. E olha, não que eu seja algum pervertido ou algo do tipo, mas naquele momento eu realmente tive vontade de fazer o que ele disse. Abusar dele, doente ou não, embaixo do chuveiro.
Mas aí a noção apareceu bem a tempo, me deu um chute no joelho e me mandou parar de devanear o que não devia em meio aquela situação. Então acabei empurrando aquilo par ao fundo da minha mente.
Pedi que Beto permanecesse pelo menos mais uns cinco minutos embaixo da água. Recolhi a roupa encharcada roboticamente e pra ser honesto, nem me lembro de que fim eu dei a ela.
Procurei pelos armários a caixinha de primeiros socorros e tirei de lá antitérmicos e um termômetro.
Quando voltei, Beto estava terminando de colocar uma roupa de tecido leve.
— Certo. Coloque isso embaixo do braço. E vá se deitar. E precisa tomar estes comprimidos.
Beto de repente se tornou adoravelmente obediente.
— E desde quando você é tão bom em cuidar de resfriados? – Ele perguntou.
Algum tempo depois o termômetro apitou. Beto o retirou e me entregou.
— Sou irmão mais velho, esqueceu?– Respondi, enquanto tentava decifrar os pequenos números no centro. – Você está com 37,8°C. O que me faz deduzir que chegou aqui com quase 39°C. Estava tentando se matar? –O censurei.
— Eu já tinha uma ideia de como você ia surtar. Só não queria te preocupar. – Ele deu de ombros.
Oh Jesus... Esse homem só pode ter vindo de outro planeta.
— E você estava achando o que? Que ia me esconder um febre dessas? Por favor! Dava pra fritar um ovo na sua testa.
Ele riu. E passou a mão pelo meu rosto.
— Você tem razão. Não deveria ficar escondendo coisas de você. – Seu semblante de repente se tornou extremamente sério. – Mas você também não pode esconder nada de mim.
Eu senti como se uma geladeira tivesse despencado do céu e caído encima de mim. Mas era só a velha culpa, mandando um “alô”.
Eu não deveria ir me encontrar com Vitor, era o que parte da minha mente dizia. A outra parte, a maior parte, praticamente gritava para eu ir. E que eu precisava ver o que ele tinha para mim.
Mas naquele momento, tudo o que eu fiz foi força um sorriso e proferir um “É claro” totalmente inocente.
— Você cuidava da sua irmã quando ela ficava doente? – Beto me tirou dos meus pensamentos.
— Uma vez. – Respondi. – Meus pais tinham ido visitar sei lá quem e me deixaram cuidando da Camila. Eu tinha uns doze anos na época.
— Agora eu sei o porquê de ela te amar tanto. Você é um irmão muito bom.
Ele diz isso porque nunca viu as brigas que eu tinha com a Camila. Parecia coisa de UFC. Uma vez, chagamos a cair da escada. Fiquei dois meses com o braço engessado e ainda tive que ouvir os sermões da minha mãe por meio ano. Mas Camila perdeu uns bons tufos de cabelo, o que pra mim, já valeu muito a pena.
— Anhã. Maravilhosa a nossa relação.
— Eu ficava doente com muita facilidade quando era criança. – Ele contou. –Minha mãe ficava bastante preocupada, mas ela não sabia cuidar de uma criança doente. Quem o fazia era uma das minhas babás.
— Babás? – Arqueei a sobrancelha. – Você é algum tipo de herdeiro podre de rico, vindo de uma família aristocrata? Isso explicaria muita coisa.
Ele balançou a cabeça e riu novamente.
— Alex, eu realmente queria ter metade da sua incrível imaginação.
Toquei seu rosto novamente e suspirei aliviado quando notei que ele já havia esfriado.
— Parece que consegui abaixar a sua febre.
— Você faz bem para a saúde. – Ele fechou os olhos e se acomodou melhor.
Acabei subindo na cama e joguei meus braços ao redor dele.
— O que está fazendo? – Ele perguntou ainda com os olhos fechados.
— Estou te abraçando. – Acabei soltando o riso no final. – O que é isso? Déjà vu? Tenho certeza que isso já aconteceu.
— E aconteceu. No dia em que eu trouxe para casa certo gatinho assustado que tinha medo de fluidos corporais.
— Eu tenho impressão de que você vai tirar uma com a minha cara em relação a isso pelo resto da minha vida.
— É. Eu vou. – Revirei os olhos.
Mas parando pra pensar, aquilo parecia fazer tanto tempo. E eu já havia mudado tanto das minhas próprias convicções. A verdade é que, querendo ou não, o tempo sempre irá nos mudar. Não porque você quer. Mas porque você precisa.
Levantei meu olhar e fiquei observando a face adormecida de Beto. Ele tinha credito em mais de oitenta por cento nessas mudanças.
Senti meus próprios olhos ficarem pesados. E ainda abraçado a ele, acabei mergulhando em um sono profundo.
Na verdade, profundo entre aspas.
Pois é. Eu já estava começando a ficar com raiva desses fragmentos espalhados de memória.
Bom, mas como eu ia dizendo, eu estava me vendo. Andando impacientemente de um lado para o outro na sala. Provavelmente tentando cavar um buraco no chão. Enquanto roía a unha do polegar. Coisa que por sinal, eu só fazia quando estava muito nervoso. Estava fazendo uma expressão que era uma mistura de entojo com cara de poucos amigos.
Então eu parei. E fitei o homem em pé perto da porta. Roberto estava encostado na parede, com os braços cruzados sobre o peito e também não me parecia muito feliz.
— Por quanto tempo você pretende continuar agindo assim? –Ele me repreendeu com uma voz assustadoramente gelada.
— Agora não! A última coisa da qual eu preciso e demais uma daquelas discussões com você. – Suspirei cansado.
— E você quer que eu simplesmente ignore? Posso fechar meus olhos para muita coisa, Alexander, mas não pense que eu sou completamente cego. – Ele falou exasperado.
Joguei meus braços para cima.
— Será que eu não posso passar um dia sem que você me encha com a suas neuras? – Gritei. – Eu não quero saber o que se passa na sua cabeça!Me deixar em paz por pelo menos um dia é pedir demais?
Levantei-me abruptamente do sofá e alcancei algo que imaginei que fossem as chaves de um carro.
— Aonde você vai a essa hora? – Ele chamou.
Caminhei até a porta sem sequer olhar para ele. Alcancei a maçaneta e ainda de costas proferi:
— Você me sufoca. E eu realmente já não aguento mais isso. – Minha voz estava carregada de algo, que nem mesmo eu, consegui perceber o que era.
E logo em seguida eu estava batendo a porta atrás de mim.
Acordei sobressaltado e me sentei na cama, puxando o ar com toda minha força. Passei a mão pelo meu rosto apenas para perceber que eu estava molhado de suor.Aquilo só podia ser um sinal de que não deveria dormir.
Certo, Alex sem dormir é igual à mau humor. E ninguém gostaria de ver o Alex de mau humor, vai por mim.
Senti uma mão agarrar o meu pulso e eu quase, muito quase, soltei um berro e sai correndo.
— O que aconteceu? – Beto estava com os olhos apertados em minha direção, o que significa que eu provavelmente o havia acordado.
— Sonhos. – Respondi. – Não venho tendo muita sorte com eles.
Beto me puxou em direção a ele. E eu fiquei receoso, porque eu meio que estava descongelando. Quer dizer, ele nem pareceu se importa com o fato de eu estar completamente molhado de suor!
— Com o que sonhou?
— Primeiro... Com um acidente. E depois nos estávamos brigando feio.
Ele não respondeu. E eu também não olhei para ver que expressão ele fazia.
— Você tem um lugar no céu garantido só por me aturar, sabia? – Falei.
Seus braços me apertaram possessivamente. Na verdade eu meio que achei que ele estava me confundindo com uma boia salva-vidas ou algo do tipo. Porque acredite, Beto tinha muita força naqueles braços. E não fora exatamente aconchegante aquele abraço de urso que eu recebi.
— Que horas são? – Perguntei depois de um tempo.
Ele esticou o pescoço para ver o relógio.
— Quase seis da tarde.
Levantei-me novamente. Droga. Vitor me deu tempo até as sete!
— Caramba! Eu dormi por tudo isso? – Olhei para ele. – Como você está? A febre voltou?
Toquei sua face, mas ele me parecia bem.
— Estou bem! Eu disse que havia sido só um resfriado. – Ele revirou os olhos.
— E só não vai passar de um resfriado porque você teve o bom senso de me deixar cuidar dele. – Falei enquanto me levantava da cama e ia em direção ao banheiro.
Eu deixei a água ficar caindo mais do que o necessário pelo meu corpo, enquanto minha cabeça estava apoiada na parede.
Quando entrei no quarto, Beto estava com os olhos presos em um notebook. Vesti-me rapidamente e apenas quando já estava terminando e arrumar o cabelo foi que ele pareceu notar a minha movimentação.
— Você vai sair? – Ele indagou.
— Anhã. Vou comprar alguma coisa pra você comer.
— Não precisa. Eu já estou melhor. –Ele fechou a tela e me fitou seriamente.
— Beto, vou comprar algo pra gente comer e não pegar um voou para as ilhas Cayman. – Cruzeis os braços sobre o peito.
— Mas você pode se perder! – Cara... Às vezes parecesse que estou diante da minha mãe.
— Eu não vou me perder! Fica a menos de uma quadra daqui.
Ele estava prestes a falar alguma coisa quando a campainha tocou. E eu gelei. Sabe aquele ditado? Quem não deve não teme? Pois é. O problema é que eu devia. E muito.
Caminhei completamente tenso até a porta, implorando para que dessa vez os céus me escutassem e que não fosse o Vitor.
E pela primeira vez um pedido meu foi aceito. Quem estava do outro lado da porta era a garota que eu havia conhecido na festa. E que eu nem lembrava mais da existência, por sinal.
— Oi Larissa! Há quanto tempo! – Sorri simpático. Mas fui recebido com uma carranca.
Então, tipo, já deu pra entender que essa guria me odeia. Agora eu queria saber a razão.
— Meu nome é Letícia. – E o que foi que eu disse? – Roberto está?
— Anhã! Ele está... – Assim que me virei para apontar para o quarto, Beto já havia se levantado e vinha em nossa direção.
— Lety? O que faz aqui? Aconteceu algo?
Virei meus olhos completamente estupefatos para ele. “Lety”? Mas que intimidade, era essa, mano?
— Ah... Não. – Ela sorriu. S-O-R-R-I-U. Ela faltava vomitar na minha cara, mas pra ele ela sorria. – Eu soube que você estava doente, pensei em lhe fazer uma visita.
Anhã. Ela acha que é quem? Panaceia, a deusa da cura?
... Ai! Que horror! É isto que os mundanos chamam de ciúmes? Eca. Não nasci pra sentir isso.
—Eu estou bem. – Beto retribuiu o sorriso. – Alex cuidou muito bem de mim.
— Eu fico feliz que esteja melhor.
Eu, que já não aguentava mais aquela babação de ovo, revirei os olhos.
— Vou sair. – Disse.
— Já disse que não precisa comprar comida!- Beto rebateu.
— Comida? Eu posso cozinhar. – Ela abriu outro sorriso bobo para ele.
Que legal. Todos no mundo sabe cozinhar. Menos o Alex.
—Então eu vou comprar pasta de dente.
— Nós temos um monte delas no armário do banheiro. – Caramba! Nem a minha mãe era tão difícil de driblar!
— Eu já volto, ok?
— Alex, o que exatamente você quer fazer?
Suspirei. Merda. Eu só podia falar a verdade, e se eu falasse, ele não jamais me deixaria ir.
—Eu só queria dar uma volta. Eu não vou fazer nada demais! Juro!
Beto suspirou.
— Alex... – Ele começou.
— O deixe ir. – A tal da Letícia interrompeu. – Acho que ele é bem grandinho pra saber o que é certo e errado. E se ele quer tanto ir, deixe que vá.
Eu me senti muito culpado quando apertei meus olhos para ela e minha mente processou como um radar a palavra “vadia”. Mas no momento eu tinha coisas maiores para me preocupar.
— Há um motivo para isso. – Sibilei para Beto. – Eu juro que te conto depois. Mas... Eu realmente preciso ir...
— Vou usar isso como uma prova de confiança. – Ele ditou.
Eu apenas concordei com a cabeça e virei os calcanhares em direção à porta.
Prova de confiança? Claro! Como se deixa-lo sozinho com aquela mulher também não fosse uma. Acredite, estou depositando muito mais confiança nele do que imaginam.
Peguei um Taxi e entreguei ao motorista o endereço que eu havia anotado. E preciso dizer que quase, quase desisti de ir quando notei que o local era uma boate.
O segurança me encarou feio, o que fez com que eu engolisse em seco por um instante e soltasse a perola:
— Eu juro que tenho mais de quinze anos!
O armário, digo, o segurança me olhou como se eu fosse um idiota. O que provavelmente era o que eu parecia naquele momento. Depois revirou os olhos e abriu espaço.
Por incrível que pareça, não foi difícil achar o Vitor. Por dois motivos:
Primeiro: A boate estava quase que completamente vazia.
Segundo: Ele estava brigando com uma garçonete perto do bar.
— Eu disse tofu! Isso parece tofu pra você, benzinho? – Vitor apontava para uma tigela com espetinhos esquisitos.
A pobre garota apenas encolheu os ombros.
— Eu não preparo os petiscos, senhor. – Ela respondeu.
—Então anote o pedido correto, para que quem os faz, não cometa este tipo de erro.
— Uau. – Me intrometi. – Além de perseguidor, você também gosta de intimidar garotas? E o que mais? Coloca gatinhos na chuva? Tira o andador de velhinhas? Você é muito Bad boy, Vitor!
Ele se virou para mim e sorriu.
— Meu adorável, Alexander! Eu sabia que viria.
Ignorei. E me virei para a garçonete que me olhava estupefata.
— Pode deixa-lo comigo. Aposto que você tem coisas muito melhores para fazer do que conversar com esse maluco.
A garota, que me encarava com a face ligeiramente corada, apenas assentiu debilmente e saiu.
— Acho que você fez a Carol se apaixonar por você.
—O queria me dar, Vitor? – Fui direto ao ponto.
— Tome algo comigo. Em nome dos velhos tempos!
— O que queria me dar? – Repeti a pergunta.
— Ah... É mesmo. Você perdeu a memoria. Olha, eu já vi pessoa perderem várias coisas. A chave do carro, o celular, os óculos... Mas a memoria?– Ele riu debochadamente.
— Mais uma piadinha sobre memória e eu chuto as suas bolas. – Me ouvi dizendo. – Agora, o que queria me dar?
Ele riu ainda mais daquelas palavras, mas se abaixou e retirou do chão uma pequena caixa de arquivos.
— São todos seus. – Ele brincou com a gororoba do prato pelo qual havia discutido com a garçonete.
Eu abri a caixa apenas para me deparar um monte de papel. Apenas depois que percebi que na verdade eram textos. Cartas, por assim dizer, mas escritas com uma letra mecânica. Como as das maquinas de escrever.
— O que exatamente é tudo isso?
— São seus e-mails. Os que você me enviou nos últimos dois anos. Você me pediu para apagar, mas como eu não estava muito afim... – Ele deu de ombros.
Corri meus olhos por uma delas, sem realmente ler.
— Era... Isso? Apenas cartas?
— Já ouviu um ditado que diz: Nuca julgue um livro pela capa? Você sequer as leu. O conteúdo é bem interessante. – Ele me mostrou aquele maldito sorriso de escarnio novamente.
A garçonete com quem Vitor estava brigando voltou e colocou, nem um pouco sutil, um prato cheio de um queijo branco estranho. Depois virou para mim e sorriu.
—Esse lugar está cada vez pior. Eu já cansei de repetir que não como carne e advinha o que eles sempre me servem?– Vitor resmungou.
Levantei a cabeça completamente atento.
— O que você disse?
— Que esse lugar está cada vez pior. – Vitor espetou um daqueles trecos e enfiou na boca.
— Não. Alguma coisa sobre carne.
— Eu não como carne. – Ele espetou outro.
— Tipo... Como um vegetariano? – Senti minha garganta ficar seca. Como sempre acontecia quando estava com ele.
—Exatamente igual a um. – Ele levantou o olhar, parecendo claramente interessado. – Algum problema?
— Eu... Era vegetariano.
Vitor levantou a sobrancelha.
— E dai?
— Nada. Não é nada que te interesse. E eu tenho mais o que fazer. – Peguei a caixa de arquivos e me levantei.
— Espera, Alexander!– Vitor me berrou quando eu já estava próximo da porta. – Esqueci de te dar mais uma coisa.
Virei sem muito interesse para ele.
— Outra caixa?
Vitor andou a passos largos até mim.
— Não. Algo que talvez te ajude com a sua memória.
Franzi o cenho.
— O que?
Vitor me mostrou novamente aquele sorriso diabólico.
— Isto!
E acontece que o “isto”, era um beijo. E assim que ele fez isso, eu não consegui pensar. Meu corpo se mexeu sozinho.
E eu lhe dei um belo chute bem no meio das pernas. O que fez com que ele me largasse rapidinho. E isso foi melhor ainda, pois o segurança estava meio que em cima da gente, berrando algo como:
— Isso aqui não é a porra de uma balada LGBT! Façam isso em outro lugar...
Não que eu tenha parado para escutar. Eu saí daquele lugar completamente cego. Apertando a caixa contra meu peito, enquanto mordi com tanta força meus lábios que consegui sentir o gosto metálico na boca.
Voltei para casa a pé. Eu precisava esfriar a cabeça. E mesmo que fosse um distancia de quinze quadras até em casa, eu não me importei de caminhar.
Aquele cretino! Como é que pode em um minuto ele estar sentado em um bar falando babaquices e no outro estar enfiando a língua na minha garganta? Eu queria escovar os meus dentes com água sanitária. Mas tenho a impressão de que nem se eu pular em uma banheira de alvejantes eu me sentiria melhor.
Foi diferente. Muito diferente de quando eu beijava Beto. Era melhor nem pensar nele...
Ainda absorto em meus pensamentos, sequer percebi que já estava diante da porta da minha casa, cuja eu abri apressadamente e passei voando por ela.
Mas antes que eu conseguisse passar pela sala meus olhos acabaram na figura magra e com pernas a amostra em pé na cozinha.
— O que aconteceu com as suas roupas? – Perguntei.
Letícia estava usando apenas uma camisa de linho branco que cobria pouco mais que suas coxas.
A garota deu um pulo de susto ao ouvir minha voz. Olhou-me com os olhos culposos e puxou a camiseta para baixo, como se aquilo fosse tampar tudo que estava aparecendo.
— Eu... Derrubei molho de tomate.
— Nela toda? Então não derrubou. Tomou banho com ele! – Ok, eu não pretendia ser uma versão Vitor 2.0, eu só estava frustrado. Por isso respirei fundo – Onde está o Beto?
Ela apontou em direção ao quarto e eu fui até lá.
— Você voltou! – Beto sorriu quando entrei no quarto.
— Preciso falar com você. – Minha voz saiu quase que desesperada.
— Aconteceu algo? – Apertei meu lábio ferido e assenti.
Beto segurou meu rosto e me fez olhar para ele... E tal da fulana entrou no quarto antes que qualquer coisa a mais pudesse acontecer.
— Eu... Acho que deveria ir para casa. – Ela falou com a voz fraca.
Beto sequer pareceu notar que havia uma mulher completamente apaixonada por ele, seminua na sua frente. Porque ele estava olhando para mim. E a minha cara estava um bagaço.
— Eu também acho. – Ele falou sério, sem desviar seus olhos dos meus.
Após mais alguns segundos, ele soltou meu rosto e olhou para Letícia.
— Mas você não deveria terminar de se trocar primeiro?
E foi assim que eu acabei sentindo pena daquela pobre mulher. E só pra que ela não se sentisse tão mal, acabei gritando:
— Você tem lindas pernas.
A reação do caos que isso causou foi muito cômica. Principalmente que depois disso, Beto meio que forçou a tal Letícia a sair o mais rápido possível.
— Você acabou de elogiar as pernas dela? – Ele arqueou as sobrancelhas.
— Alguém tinha que fazê-lo. E por falar nisso, não era pra mim que ela estava mostrando. – Dei de ombros e suspirei.
— Alex... O que aconteceu?– Beto se sentou ao meu lado na cama.
Droga. Minha mãe sempre me disse que não importa a merda que você fez. A melhor coisa sempre é falar a verdade. A verdade é sempre a melhor saída. Mas também é a mais difícil.
Mesmo assim, fechei os olhos. E contei tudo. Contei sobre a primeira visita, contei sobre as coisas que Vitor havia me dito, contei até sobre o papo do vegetarianismo.
Beto não escutou a história como um bom menino. Não. Ele começou a ficar puto na metade do caminho. E quase que dei pra trás na hora de contar sobre a última perola do Vitor... Mas minha boca traiu a minha mente. E eu contei sobre o beijo também.
— O que tem na caixa? – Foi a reposta que eu obtive.
— Cartas... Aliás, e-mails. Ele disse que eram dos últimos dois anos.
Beto abriu abruptamente a caixa e retirou um dos papéis de lá. Correu seus olhos sobre ele e em seguida o amaçou.
— Você não precisa desse tipo de coisa. – Ele bradou, arrancando a caixa das minhas mãos, e desapareceu.
A caixa de Pandora de Vitor. Exatamente como eu disse.
Eu havia falado a verdade. Toda ela. Mas então porque parecia que eu havia começado a terceira guerra mundial?
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