É por isso que eu odeio o futuro!

1 Capítulo 1-29? Não eram 15?


Notas iniciais
Não sei dizer onde a jornada vai acabar Mas sei onde começar Então, acorde-me quando tudo estiver acabado Quando eu for mais sábio e mais velho Todo este tempo eu estava procurando por mim mesmo E não sabia que eu estava perdido (Avicii - Wake Me Up)

Era outra típica manhã de quarta-feira. Eu acordava, ia ao banheiro, descia, tomava café, brigava com a minha irmã por ela ter mexido na minha mochila novamente, falava tchau para os meus pais, ia à escola e por fim voltava para casa. Sempre foi assim. Essa era a minha famosa "rotina".

Bom, literalmente era. Até minha mãe chegar com aquela notícia.

Lembro como se tivesse sido ontem. Lá estava eu no sofá, assistindo alguma bobagem na Tv e comendo porcaria, quando ela me chega com um pequeno formulário nas mãos.

"Matriculei você em um cursinho, para melhorar suas notas e te ajudar no vestibular", foi o que ela disse. E eu fiquei tipo: "Sério? Cursinho? Eu já não estudo o suficiente?"

Bom... Aparentemente, não para minha mãe.

Mas como eu ia dizendo, era outra típica manhã de quarta. Levantei, fiz aquele blablablá matinal e desci as escadas. Encontrei minha irmã sentada, já vestida com o uniforme da escola, segurando um papel em uma das mãos enquanto a outra tentava abrir o zíper da minha mochila.

­–Mas que merda! Já disse milhões de vezes para não mexer na droga da minha mochila!–Gritei ainda descendo as escadas.

Camila deu um pulo de susto.

—Mais um pouquinho eu tinha conseguido... – Sussurrou.

—Me deixe adivinhar, outra cartinha escrota para Gustavo? Ok... Deixa eu te explicar bem detalhadamente, já que seu cérebro não consegue compreender: Essa mochila é minha! Por que diabos você que enfiar a porra da carta do garoto na MINHA mochila?

—Porque eu quero que você entregue para ele. –Ela abaixou o tom de voz. – Você é meu irmão. Deveria me ajudar...

—Entrega você. Eu não te devo nada, pelo que eu sei. Sem contar que é você quem está apaixonada por ele, não eu. -Dei de ombros e tirei a mochila das mãos dela.

Camila fez um pequeno bico mostrando como havia ficado frustrada.

— Você é tão cruel, Alex...

Soltei um riso abafado. Mas o que eu podia fazer? Ela era apenas uma criança. Tinha somente onze anos e mesmo assim se dizia completamente apaixonada pelo Gustavo, que sinceramente, nem lembrava que ela existia. Eu não tenho culpa se a minha irmã tem o dedo podre desde tão cedo, certo?

Suspirei.

—Você é mesmo uma pirralha. –falei enquanto tirava o papel das mãos dela.

Camila abriu um sorriso dizendo um "obrigada" e desapareceu na cozinha. Revirei os olhos e olhei o relógio. Ainda estava em tempo para tomar café.

Minha mãe preparava um daquele sucos de saquinho. A cara de sono era notável.

—Bom dia, querido!–Ela falou entre um bocejo.

Sorri para ela e respondi dando um beijo em sua face. Meu pai ainda dormia pelo fato de ter chegado tarde à noite. Ele trabalhava no turno noturno da delegacia e a consequência era o sono.

Não estava com muita fome. Só queria que aquele dia acabasse logo para eu voltar e poder dormir ou ler alguma coisa.

Era outro costume sempre encontrar Gustavo no caminho para a escola, e como já previsto, ele estava lá. Nós éramos do mesmo tamanho, só que enquanto eu me conformava com os cabelos pretos e sem graça, os dele era de um loiro natural 100% invejável.

—Isso é pra você. – Retirei a carta do bolço e entreguei. Ele olhou para mim e depois para o papel.

—E o que seria "isso"?

— Carta de amor da Camila.

—De novo? Ela é só uma criança... – Ele riu, mas pegou a carta da minha mão.

Depois disso, fizemos o resto do caminho como sempre, falando banalidade e rindo feito idiotas.

Dormi nas duas aulas de literatura, desenhei coisa que não tinham nada a ver na aula de artes, dormi mais um pouco na aula de geografia e fiquei olhando o tempo pela janela na aula de física... Então, dá pra ver o quanto eu sou um ótimo aluno. E sou mesmo, ok?

De alguma forma, nesse meio tempo acabei descobrindo que os pais do Gustavo haviam enfiado ele no tal do cursinho também. O que foi bom, porque pelo menos assim eu não ia ter que enfrentar aquilo sozinho.

Gustavo tinha mais planos para o futuro do que eu. Nunca fui fã de planejar o futuro, porque ele nunca sai como você realmente quer, então planejá-lo é uma perda de tempo.

—Para resumir, você não tem a mínima ideia do que fazer com seu futuro?– Gustavo me perguntou.

—Exatamente. Eu não gosto de viver pensando em futuro. Pessoas que fazem isso acabam se esquecendo de aproveitar o presente. Não acha?

Gustavo riu e eu o acompanhei na risada. Mas logo ele parou e me fitou com um rosto sério.

—Você deveria levar isso mais a sério, Alex. Ou o futuro te pegará de surpresa...

Sorri de novo e dei de ombros.

—Que seja. Não vou acorrentar minha mente sobre isso. O futuro quem faz sou eu!

...

Então...

Pois é... Foi isso o que eu disse. Bom, FOI, porque a anta aqui, não viu que o sinal havia fechado, e quando eu percebi já estava sendo engolido por dois brilhantes faróis.

E acho que foi assim que terminou a minha típica quarta-feira. Talvez não tão típica assim...

Quando abri meus olhos, tudo rodava, balançava, girava e fazia aqueles movimentos que me davam vontade de vomitar. Imagine alguém que acabou de sair daqueles brinquedos gira-gira e tomou um garrafa de vodca logo em seguida. Era assim que eu me sentia. Era bom e relaxante, mas ao mesmo tempo enjoativo.

Encarei o teto branco por tempo indeterminável enquanto prestava atenção ao bipe constante que preenchia todo o quarto. Até alguém entrar no meu campo de visão. Uma mulher, gritando alguma coisa que eu não entendia muito bem, mas que fazia minha cabeça doer.

A sensação de tontura e a falta de foco foram desaparecendo aos poucos e eu já podia encara-la. Tinha cabelos pretos e longos preso em uma trança jogada no ombro. Ela alisava constantemente a enorme barriga mostrando claramente que estava gravida. O rosto dela me lembrava de alguém. Aqueles olhos e aquela cara de nervosismo... Me lembrava...

—Camila... –Ah, sim! Minha irmã. Ela vai ficar igual a essa mulher quando crescer. Deve ser alguma parente. O que me diz que o acidente foi bem grave pra chamarem o povo esquecido da família.

Olhei de novo e ela sorriu, soltando um suspiro de alivio.

— Graças a Deus, Alex. Você tem ideia de como nós ficamos preocupados com você? –Sua voz começou em um tom repreensivo, mas logo tomou um tom de medo ou algo assim. – Tive medo de você nunca mais acordar...

Uma lagrima escorreu de seu olho e ela a secou rapidamente, voltando a sorrir pra mim.

— Cadê a minha mãe? – Minha voz estava muito grave e seca. Parecia que eu estava sendo dublado pelo Batman. Mas isso, provavelmente, foi por todo o tempo de desuso.

—Ela foi para casa, pegar algumas roupas. Desde o acidente, ela e o Beto praticamente estão morando aqui no hospital. Você nem imagina o quanto ele ficará melhor quando souber que você finalmente acordou. Eu pensei que ele ia surtar nesses últimos meses.

Espera aí... Meses? E quem diabos é "Beto"?

—Estou aqui há meses?–Minha voz morria em cada silaba. Era preciso muito esforço para falar.

— Sim. Seis ou sete meses, mais ou menos. Todos estavam temendo o pior, mas como você é teimoso, eu sabia que ia acordar.

Um sorriso torto formou em meu lábios e um débil "obrigado" saiu deles. O assunto morreu ali. Não por falta de perguntas, e sim porque uma enfermeira chegou e me deu mais morfina. Ah... Aquilo realmente era bom. Soube também que havia quebrado o braço e a perna, que tinha sido operado e coisas assim, mas que em momento algum voltei à consciência.

Quando minha mãe chegou, quase não a reconheci. Estava um pouco mais velha, os cabelos pretos que eu e minha irmã havíamos herdado, agora eram curtos e loiros. Ela estava muito abatida. Me senti culpado.

—Oi, mãe... – Falei sorrindo para ela.

Mamãe faltou me matar, agarrando minha cabeça e chorando. Ela sequer pareceu se preocupar em quase quebrar as minhas costelas, fazendo um drama completamente desnecessário.

—Droga, Alex! Até quando você vai me passar sustos como esse, filho?

—Ok, mãe... Vai ficar tudo bem! Já acordei e aqui estou, certo? Olha, eu não queria falar, mas a culpa, em parte, foi sua. Foi você quem me mandou para aquele cursinho idiota. Isso nunca teria acontecido se... Aliás, o que você fez com seu cabelo?

Quando parei de falar, vi que tanto ela quanto a moça gravida me olhavam estranho. Pensei que talvez fosse meu cheiro ou algo assim... Espera, como eu tomei banho nestes seis meses?

— Cursinho? Do que você está falando?

Revirei os olhos.

— Que cursinho, mãe?! Aquele que você me mandou pra entrar na faculdade. Esqueceu?

As duas mulheres fizeram silêncio. Minha mãe engoliu em seco e se aproximou passando as mãos pelos meus cabelos.

—É claro que me lembro de algo assim, filho... Mas isso foi quando você tinha uns... quinze anos, eu acho.

—Tá. Quando eu tinha quinze anos. Agora eu tenho o quê? Dezesseis? Grande diferença em... Ah, não! Quer dizer que eu passei meu aniversário de dezesseis anos em um hospital?

A cara da minha mãe foi de pânico. A outra garota interferiu antes que mais alguém falasse alguma coisa:

— E quanto a mim? Você me reconheceu, não foi?

Sorri para ela.

— Alguma prima? Tem o traços da mamãe, e me lembra muito minha irmãzinha.Falando nisso, onde está Camila? ...Ah! Deve estar com o Papai. eles não gostam de hospitais.

As duas se calaram. Lágrimas saiam do rosto da minha mãe e eu comecei a ficar desesperado.Mas não havia algo que eu pudesse fazer. E somente depois de uma longa pausa minha mãe disse:

—O que está dizendo? Pare com essa brincadeira boba! De onde tirou que está com dezesseis anos? Você está com vinte e nove. E não finja que não reconhece sua irmã.

Fiquei olhando para uma e para outra... E cara, se não fosse a morfina, eu tinha surtado, mas eu estava grogue de mais para isso. Aí me deu vontade de rir. E foi o que eu fiz. Depois olhei para a minha suposta irmã:

—Garota, você não disse que eu tinha ficando aqui por seis meses? Então como eu posso ter vinte e nove anos?

­–Mas você esteve aqui por seis meses! Você sofreu um acidente...

— Eu sei! Eu fui atropelado no caminho para o cursinho. E acordei aqui...

—Não,Alex, você capotou o carro. Por pouco não morreu.

Minha cabeça pesava e eu sentia meu coração ficar estranho, e acredito que a maquininha também, porque ela começou a apitar cada vez mais rápido. Aquilo estava me assustando. Minha respiração começou a falhar... Que droga, meu corpo não quer me obedecer.

­–Acho que ele está tendo uma parada!–Escuto uma das mulheres dizer, mas não reconheço o timbre porquê estão ficando cada vez mais longe.

E tudo se apagou novamente...

Quando recobrei a consciência novamente, ainda estava na cama de hospital. Mas dessa vez, um homem, que já deveria estar entre seus trinta e poucos anos, apertava minha mão enquanto dormia. O sujeito realmente parecia cansado.

Fiquei encarando-o e com medo de acorda-lo. Sei lá, vai que ele me diz que é meu neto e que eu dormi por mais uns trinta anos. A essa altura, não estou duvidando mais.

Então ele acordou. Piscou algumas vezes e olhou para mim. Seu rosto se iluminou em um sorriso de alivio. Meu medo aumentou.

—Graças a Deus! Quase não acreditei quando eu soube que você havia acordado. Eu senti tanto a sua falta...– Ele passou a mão no meu cabelo. E eu lá, esbabacado com N perguntas presas na garganta.

—O que aconteceu depois que minha mãe e minha... – A palavra se recusa a sair.­–Irmã, saíram daqui?

— Não sei. Apenas ouvi o recado de que você havia acordado. Mas isso faz algumas longas horas. Quando cheguei, você estava apagado novamente... Pensei que havia tido falsas esperanças. – Ele sorriu. Porque tantos sorrisos pra mim?­– Aconteceu alguma coisa?

— Eu sei lá. Parece que todo mundo enlouqueceu.–Afinal, quem é esse cara?

— É claro! Você esteve aqui por tanto tempo.–A mão dele foi descendo e o meu olhar de pânico acompanhando.–Estava com tanta saudade dos seus olhos, do seu rosto, da sua voz...Dos seus lábios.

Dizendo isso, ele foi chegando cada vez mais e mais perto, até que do nada... me beijou. Tocando nossos lábios como se fossemos íntimos. Aquilo me deixou ainda mais apavorado.

Eu tinha quinze anos até hoje de manhã. E agora, estou em um hospital com um cara maluco me beijando! Tem algo mais de estranho para acontecer?

Notas finais
fim... Se pá,eu faço o outro...2bjs o