Notas iniciais
Boa leitura! Espero que gostem. Reviews são sempre bem vindas.

Eles estavam passando por dias difíceis. Longe de desconhecerem o significado de um dia difícil nos dias de hoje, mas com tantas noites mal dormidas — isto é, quando dormiam, pois na maioria das vezes não podiam parar nem mesmo para descansar por um dia ou dois — após as perdas desoladoras de Beth e Tyreese, ambos infelizmente resultantes de grandes ironias do destino, precisando cair novamente na estrada pois não possuíam um local seguro e longe o suficiente de Atlanta para habitarem, o grupo sentia-se cada vez mais esgotado fisicamente e emocionalmente.

A água estava chegando ao fim, os suprimentos esgotaram-se há muito tempo, sobrevivendo à custa dos escassos roedores caçados por Daryl, além do suplemento vitamínico infantil de Judith estar com os dias contados. O calor da Georgia era infernal o suficiente para causar uma insolação, drenando toda a energia restante de seus poros e desidratando-os. Não chovia há semanas, de modo que os rios estavam no seu mais baixo nível e até mesmo o tempo seco doía o nariz e a garganta para respirar.

Certo dia, exaustos e prestes a sofrer um ataque por quatro cachorros — ou lobos, melhor dizendo — de porte médio-grandes igualmente vorazes e ferozes, Sasha salvou-os de mordidas e prováveis infecções atirando-os com sua arma em um grande acesso de raiva e frustração, garantindo-lhes uma pausa para descansarem as pernas, retomarem o fôlego e uma refeição que, dada a condição que se encontravam, categorizava-se minimamente como satisfatória e suficiente.

Após outros bons pares de horas caminhando de volta à estrada, ao inicio de uma chuva torrencial, Daryl retornou da floresta de encontro ao resto do grupo informando-os sobre a existência de um celeiro. Não era o mais adequado devido à má conservação da construção, além de trazer à tona lembranças tristes e frustradas ainda da época em que moravam na fazenda Greene. Pela maior quantidade de tempo que passasse, a perda de Sophia era uma perda muito viva para si mesmo e, principalmente, para Carol. Entretanto, o grupo não possuía outra escolha e, tendo em vista a grande tempestade que estava por vir, precisavam se abrigar o mais rápido possível.

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Desgraça pouca na vida é bobagem, nunca é suficiente. Uma vez que estavam seguros dentro do celeiro já limpo de errantes e limparam o restante das armas, roupas e sobras de enlatados abandonados pelos antigos desabrigados e com seus devidos pertences acomodados nos locais onde descansariam e passaria o restante da noite, a chuva já intensa lá fora se tornou ainda pior, acarretando em uma tempestade e atraindo ainda mais mordedores em sua direção.

Tal fato necessitou da guarda de Daryl ser posta de lado para defender o grande portão de madeira apodrecida, pois as correntes envoltas ao trinco já não eram suficientes para garantir-lhes segurança. Maggie, atraída pelo repentino tilintar das correntes, correu em direção a Daryl a fim de ajudá-lo, chamando a atenção de Sasha e, consequentemente, um a um dos demais membros do grupo. Todos, incansavelmente, sem exceções, incluindo Padre Gabriel, forçaram-se contra a porta, atingindo o seu limite e utilizando da escassa reserva de energia desconhecida em seu organismo. Seus pés deslizavam contra o chão de terra, agora já transformado em barro devido a chuva entrando pelas frestas do celeiro, misturando-se com seus suores; a tempestade trazendo consigo inúmeros trovões e iluminando o céu noturno com a perigosa queda de raios; o choro pungente de Judith, aliado ao rosnado ensurdecedor das criaturas lá fora, arranhando, batendo seus dentes podres, empurrando-se uns contra os outros como uma grande agitação molecular de uma bebida gaseificada engarrafada com a menor entrada possível de gás oxigênio.

Foi exaustivo, desesperador e angustiante, para dizer o mínimo. Embora a tempestade tivesse passado ninguém se ousou se retirar de seus postos até deixarem de ouvir por completo o grunhido dos errantes. Se conseguiram sobreviver a tempestade, não se deixariam levar pelo repentino alívio e mera sobrevivência e permitir uma invasão dos mortos-vivos.

Uma vez em silêncio exceto pelo som da chuva leve caindo na mata lá fora, o grupo se permitiu descansar, retirando-se sem dizer uma única palavra, apenas enxugando seus braços e rostos com pedaços de pano ligeiramente úmidos, retirando a camada de roupas molhadas, estendendo-as nos pilares de madeira e acomodando-se contra blocos de feno, deixando-se levar pela exaustão em um sono profundo e merecido.

Daryl, no entanto, sacrificando-se novamente em prol de seus familiares colocou-se pela segunda noite consecutiva sem dormir assumindo o papel de guarda, argumentando ser incapaz de descansar com todo o excesso de adrenalina correndo em seu corpo, quando, na realidade, sua verdadeira razão era não poder suportar se deixar levar por uma necessidade tão baixa e arriscar novamente a vida das pessoas que amava — sessa vez não estando lá no momento certo para ajudá-los quando estritamente necessário.

O restante da noite correu bem, com uma chuva constante, porém bastante inofensiva caindo; o seu som fundindo-se aos roncos e respirações profundas dos demais dentro do celeiro. O arqueiro, para afastar o sono e dar-se algo a fazer enquanto mantinha os ouvidos atentos lá fora, prostou-se a consertar uma pequena caixa de Maggie contendo uma bailarina giratória, retirando uma pedrinha das engrenagens, a razão de impossibilitar a música de tocar continuamente e a bailarina girar uma volta completa. Ele refletia sobre a necessidade de encontrar animais maiores e mais consistentes a cada caçada, sendo os pares de corujas e esquilos não mais suficientes para a alimentação de aproximadamente quinze pessoas, embora o tempo e a escassez de alimentos para os próprios animais fossem as principais razões para a sua migração e Daryl por pouco retornar com as mãos abanando. Além disso, fazia tempo o suficiente para acreditar que estavam na estrada por mais de três semanas, trazendo novamente a preocupação e responsabilidade de manter sua família a salvo.

Foi logo ao raiar do dia quando Judith despertou, choramingando e atraindo subitamente a atenção de seu irmão, os demais permanecendo imperturbáveis e sincronizados em seus roncos. Carl rapidamente se recostou em seu cotovelo, esfregando os olhos com força para prestar atenção às exigências de sua irmã, preocupado sobre qual necessidade agora era mais indesejada, dada a escassez de fórmula infantil e fraldas descartáveis, restando apenas fraldas de pano e ruins o suficiente para serem limpas na hora e local que se encontravam no momento.

Ao alcançar sua mochila, retirando seus pertences até alcançar a lata de fórmula, eis que Daryl levantou de seu lugar ao lado do portão, atravessando o celeiro para cair de joelhos aos seus pés.

— Durma — ele disse ao garoto. — Deixe-me tomar conta dela. Eu já estou de pé.

— Eu acredito que ela esteja com fome — Carl assentiu e deitou-se novamente, acomodando-se e fechando os olhos.

— Nem você escapou da inanição, não é mesmo, asskicker? — Daryl caçoou amargamente com um sorriso torto, retirando a tampa da mamadeira e misturando a fórmula na água. — Espero que não cheguemos a esse ponto.

Pegando a chorosa garota do chão com os rechonchudos bracinhos esticados, balançando no ar, ele a ajeitou em seus braços numa posição deitada, entregando-a a mamadeira e levantando-se para caminhar de um lado para o outro do celeiro. Ele a embalava suavemente, olhando atentamente no fundo de seus olhos, murmurando uma antiga canção de ninar que se lembrava de ter ouvido Carol cantando para a menina ainda na prisão, quando era apenas um bebê.

Andando com calma dando dois passos para frente e para trás, repetidamente, Daryl pegou a garrava vazia de Judy e jogou-a com um baque suave em cima da mochila de Carl e posicionando a menina de uma maneira diferente, com os pés envolvendo seu troco, abraçando-o, e sua cabeça suavemente apoiada no ombro. Ele a segurava as pernas e glúteos com o braço esquerdo, enquanto a trazia mais próxima de si com o outro braço, acariciando suavemente seus ralos cabelos dourados.

Ele ainda cantava para ela, mesmo estando quase adormecida, quando Carol se levantou de onde estava deitada e foi ao seu encontro, sentando-se novamente num amontoado de palhas secas e encostando-se em um bloco de feno. Ela sorria suavemente quando encontrou seu olhar, seus olhos brilhando mesmo com a má iluminação.

Seu coração apertou instantaneamente, não resistindo a retribuir um pequeno sorriso. Seus cabelos grisalhos ainda estavam um pouco bagunçados de uma maneira incrivelmente bela devido ao período que passara deitada. Era inacreditável que pudesse amar tanto uma mulher como jamais amara nenhuma outra em sua vida. Seus olhos claros, seu sorriso tímido, sua força interior, suas sardas, clavículas e cabelos grisalhos... Tudo. Não havia nada, em absoluto, que desejava retirar de sua mulher, se não o fato dela ainda não ser inteiramente sua.

Foi somente quando ela sorriu um sorriso com dentes que Daryl percebeu que havia caminhado em direção a ela. Ele estava a um ou dois passos e distância. Ela corou suavemente e deu um tapa no vazio ao seu lado, pedindo para que se sentasse junto a ela e lhe fizesse companhia. Com um murmúrio ininteligível, ele fez o que ela havia lhe pedido, sentando-se tão próximo que seus ombros escovavam um contra o outro. Ele se ajeitou em uma posição reclinada, grunhindo ao finalmente encontrar uma posição a qual aliviasse a dor aguda em sua lombar, escondendo rapidamente uma careta que não passou despercebida por Carol.

— Você deveria descansar — ela disse.

— E então você.

Ela suspirou. Droga, todos deveriam tentar dormir. Foi uma noite longa e particularmente difícil em um longo e árduo caminho percorrido.

— Você não deveria estar acordada, embora — ele disse-lhe, virando a cabeça para olhá-la nos olhos.

— Eu não consegui dormir, desde ontem.

Eles ficaram em silêncio por alguns minutos, alternando entre se olharem através das franjas desgrenhadas de seu cabelo e observar a respiração de Judith tornando-se profunda ao passo que adormecia, seus lábios entreabertos o suficiente para soprar suavemente em seu pescoço.

— Você é muito bom com ela — Carol comenta com os olhos brilhando.

— Nah. Ela que é boa comigo. Não se importa em dormir num braço tão duro quanto esse feno.

Ele cotovelou o bloco atrás dele, como se quisesse provar seu ponto.

— Você é muito bom com ela.

E Daryl apenas grunhiu em resposta, esboçando um sorriso em seus lábios, internamente muito feliz e satisfeito por ter a confiança da garotinha. Ela simbolizava muito fortemente o que significava a esperança para esse mundo, a motivação para se continuar lutando, empenhando-se mais a cada vez e jamais deixar-se entregar. Judith lembrava-o das grandes e boas coisas que já passaram por toda a sua vida, um lembrete vivo para nunca arriscar perder.

Suspirando, Carol reclinou-se na mesma posição que Daryl, deixando a cabeça pender em sua direção e seguindo o comprimento de seus cabelos emaranhados com os olhos.

— Durma — ele repetiu a ela, olhando-a profundamente nos olhos, sentindo seu estômago torcer em antecipação.

Ela apenas assentiu preguiçosamente e fechou os olhos, e Daryl possivelmente nunca desejou tão mal ser um pouco mais corajoso e ter a liberdade de poder beijá-la suavemente, primeiro nos lábios e depois na testa, um delicado sinal de seu carinho e zelo, substituindo todas aquelas palavras tão profundas que subiam até seu peito inúmeras vezes, mas não conseguia emitir.

Como se percebesse a sua hesitação sem ao menos abrir os olhos, Carol lentamente deixou sua cabeça cair no ombro do arqueiro, utilizando-o como um travesseiro e inclinando-se ainda mais em sua direção, encostando seus braços inteiros.

Com um suspiro profundo, sentiu seu coração batendo na garganta e o estômago em um nó ainda mais atado que antes, enquanto suava frio e um formigamento percorria-o dos pés à cabeça. Decidido a não perder mais tempo, dada toda a efemeridade da vida dos dias de hoje, onde um dia você está vivo e saudável com seus familiares, e no outro está fodidamente morto por uma mísera mordida no braço, Daryl acariciou a bochecha no topo da cabeça dela e retribuiu — também a utilizando como o apoio.

Nessa vida você só vive uma vez e, diante de todos os conflitos que enfrentavam diariamente e a incerteza sobre o amanhã, por mais que não houvesse uma troca de palavras a respeito entre eles, ambos sabiam o que esse sutil, mas tão grande gesto significava. Esta era a sua maneira de dizer eu te amo.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!