Notas iniciais
Boa noite lindos e lindas!
Hoje venho trazer em parceria com @SuigetsuSupremacy uma fic para o Desafio Folclore o/ (olha só eu saindo da zona de conforto hahaha)
Quero agradecer imensamente a @Liz_Hatake_88 pela capa maravilhosa, e também a @Blue_Wave pela betagem impecável e pelo comentário que me deixou muito feliz o/

No mais, espero que tenham uma boa leitura!!!!

Foi no encontro daquelas águas

Onde palavras me faltavam

Que eu pude perceber

Seríamos capazes

Do mais belo presente conceber

Me entreguei sem hesitar

Deixando-me levar

Para as profundezas do rio

Entregue ao seu amar

Teria uma ilusão

Um gosto doce como aquele?

Uma saudade com nome e sobrenome

De alguém que jamais voltaria a ver

Agora carrego comigo

Um sentimento de abrigo

Daquele que ainda não veio

Mas já trouxe consigo o mais puro apego

O amor com pelego,

Sem remorso ou receio

Assim que pisei no saguão do aeroporto percebi que seria difícil me acostumar ao clima quente e abafado de Manaus. Tinha pesquisado sobre e achava que estava preparada, mas a verdade era que, na prática, parecia ainda mais abafado do que tinha imaginado. Olhei ao redor me sentindo perdida, também pudera, tudo ali era diferente do Japão.

— Hinata Hyuuga? — Virei-me em direção à mulher que me chamava. Felizmente meu português não estava enferrujado, tinha estado no Brasil pela primeira vez aos quinze anos, quando meus pais vieram a negócios, mas tinha sido no Paraná que ficava no sul do país. Bem que diziam que o Brasil era um país de diversidades.

— Clara? — A mulher alta tinha cabelos loiros e olhos azuis, e abriu um sorriso no rosto quando eu a chamei.

— Sim, fez uma boa viagem? — Eu vinha conversando com ela há mais de ano, desde que decidi qual seria o tema para o meu trabalho de encerramento de curso. De lá para cá podia dizer que nossa relação já tinha passado de puramente acadêmica para uma boa amizade. Era bom finalmente conhecê-la pessoalmente.

— Apesar de demorado, foi um voo bem tranquilo. Preciso te agradecer mais uma vez por toda a ajuda, não achei que fosse conseguir tanto material igual ao que você tem me repassado.

— Não se preocupe, na verdade te ajudar com isso acabou me beneficiando também. Afinal eu não teria começado aquele projeto de preservação se não fosse por nossas conversas, mas que tal falarmos disso depois? Você deve estar exausta, vou te acompanhar até o hotel.

— Um banho realmente seria bem-vindo.

Durante todo o caminho até o hotel eu olhava encantada pela janela. A cidade ganhava vida conforme íamos nos aproximando dos bairros, a arquitetura não seguia qualquer padrão como eu estava acostumada, mas tinha sua própria beleza. Clara, ao meu lado, ia apontando alguns prédios, explicando o que eram. Ela tinha certeza que nesse mês que eu ficaria por aqui iria acabar me familiarizando com tudo, desde os lugares, comidas e até os costumes.

Após fazer o check-in na recepção do hotel, nos despedimos. A loira deixou avisado que no dia seguinte, assim que eu estivesse completamente descansada, ela me levaria para uma festa local e me apresentaria ao seu grupo de trabalho que me ajudaria com a minha pesquisa.

O dia seguinte serviu para eu dormir e tentar me adaptar ao clima, mesmo com o ar-condicionado parecia não esfriar de forma alguma.

Já era noite quando Clara avisou que estava me esperando na recepção. Arrumei o vestido no corpo antes de verificar se tinha tudo o que precisava, dinheiro e celular, em mãos.

— Conseguiu se recuperar? — Ela perguntou animada assim que eu me aproximei.

— Acho que vou precisar de uma semana até me adaptar ao fuso horário, mas tenho certeza que a parte mais difícil vai ser o calor. Você não estava exagerando quando disse que aqui era muito quente. — Ela riu com o meu comentário.

— Estamos no inverno, felizmente. — Olhei para ela impressionada. — A festa que vamos hoje é bem animada e tem muita coisa de comer. O pessoal já está todo lá e estão ansiosos para te conhecer. — Senti minhas bochechas esquentarem imediatamente.

O local da festa era afastado da cidade, segundo ela ficava no mesmo instituto de pesquisa ambiental onde eu passaria a maior parte do tempo dali em diante.

— Olha lá, já dá para ver as luzes. — Olhei mais a frente para onde ela apontava. As luzes estavam por toda a parte, a música estava alta e percebi também uma fogueira. — Festas juninas são sempre gostosas, você vai adorar. — Eu já me sentia contagiada só pela animação dela.

Aos poucos eu fui apresentada a cada uma das pessoas que ali estavam, de início a vergonha era grande, odiava ser o centro das atenções, mas não demorou para que eu me sentisse incluída naquele grupo.

Experimentei um bocado de comidas típicas, a maioria doces, e dentre todas a cocada tinha sido a minha preferida. Estava sentada esperando a Clara voltar com uma bebida que ela insistira para que eu experimentasse, quentão (acho que esse era o nome), quando alguém sentou ao meu lado.

— Imagino que tudo aqui esteja te deixando perdida, não é mesmo? — Demorei alguns segundos para lembrar seu nome, tinha sido um dos primeiros a se apresentar.

— Luís, estou certa? — Ele assentiu sorrindo. — Gosto de como tudo e todos são acolhedores por aqui. Posso demorar um pouco para me acostumar com o contato tão direto como o de vocês, mas estou adorando cada detalhe. — E era verdade. No Japão não se tinha o costume de demonstrar afeto em público, já ali era algo tão natural que não demoraria a aderir sem dúvidas.

— Olha lá, todos estão se reunindo perto da fogueira, vamos também! — Antes que eu pudesse responder, ele já me puxava pela mão para mais perto da fogueira. — Júlia, conte a ela sobre as lendas. — Olhei do Luís para ela, curiosa.

— Deixe disso, sabe que ninguém mais acredita nessas histórias. Se bem que… — Aquele silêncio serviu para instigar ainda mais a minha curiosidade. — Você ouviu falar daquela mulher que jurou para o marido que engravidou do boto?

— Como assim? — perguntei, um pouco alto demais, sem disfarçar a minha curiosidade.

— Parem de dizer besteiras. — Clara revirou os olhos e me estendeu o copo. — Não ligue para o que eles falam. Só estão querendo chamar a sua atenção.

— Pare de ser tão cética, Clara. Você bem sabe que todas as lendas têm um fundo de verdade. Claro que as histórias aumentam sim, mas não dá para dizer que é tudo mentira. — Luís parecia gostar muito de falar sobre o assunto, ignorando a Clara, ele se voltou para mim. — Quer mesmo saber? Sei que tem pessoas que não se interessam por essas coisas e não quero te entediar

— Quero sim— respondi sinceramente. Não tinha vergonha alguma em admitir que me interessava por misticismo, era sem dúvidas um assunto que sempre rendia boas especulações e margens para a imaginação. O sorriso de Luís se alargou.

— Essa lenda surgiu entre os indígenas da região amazônica, e diz que o boto cor-de-rosa se transforma em um homem muito bonito durante as noites de lua cheia. Ele aparece em público durante as festas juninas e com o seu jeito galanteador escolhe a moça mais bonita da festa e a leva para o fundo do rio. — Era uma apreciadora de histórias sobrenaturais, mas até mesmo para mim, estava sendo difícil de assimilar o que o Luís falava.

— Hinata é tão transparente com os sentimentos, dá para ver de longe que não está acreditando em nada do que você está falando. — Clara não disfarçava a risada ao tirar sarro do amigo.

— Não é isso… É só que parece um tanto quanto… — Não conseguia lembrar da palavra em português que explicasse exatamente o que eu queria.

— Fantasioso? — Dessa vez foi Júlia quem riu.— Não se preocupe Hinata, iremos te proteger dos encantos do boto. — Ela piscou em minha direção.

— Fico mais tranquila assim. — Dei risada, o clima descontraído era de longe muito acolhedor.

(...)

Os dias seguiram bem melhor do que eu esperava. A pesquisa fluía muito bem, e junto do pessoal do instituto eu fazia todas as visitas de campo recolhendo amostras e catalogando os espécimes. O Encontro das Águas já vinha me fascinando desde que comecei a pesquisa, mas estar ali, vendo com meus próprios olhos e estudando sobre, era sem dúvidas muito marcante.

Durante os fins de semana, Clara, Luís e Júlia me arrastavam para qualquer programa alegando que eu precisava aproveitar o máximo minha viagem. Eu, particularmente, estava adorando todo o carinho e atenção que todos dedicavam, e pensava em alguma forma de retribuir a hospitalidade.

(...)

Era o meu último fim de semana em Manaus e dessa vez estava sendo arrastada para mais uma festa junina que aconteceria em um restaurante à beira do rio.

As luzes oscilavam iluminando o ambiente espaçoso de forma estratégica, as pessoas dançavam na pista, algumas segurando copos, outras dançando de olhos fechados, alguns casais se beijavam. Sim, eu ainda ficava um pouco chocada com isso.

Para minha surpresa o nosso grupo estava meio disperso e só fui perceber quando ao longe avistei Júlia e Luís aos beijos num canto mais afastado.

Fui até o bar na esperança de encontrar com Clara, ou pelo menos ficar por ali para não me perder.

— Você com certeza não é daqui, estou certo? — Virei-me para o homem que falava. Seus cabelos brancos ondulados desciam até os ombros e sem dúvidas chamavam bastante atenção. O sorriso no rosto e o jeito descontraído eram ótimos adendos a bela aparência.

— Não, não sou. — Observando mais atenta imaginei que ele também não era. Seu rosto, mesmo com as luzes atrapalhando um pouco minha visão, mostrava alguns traços orientais. — Você também não é. — Arrisquei.

— Acho que não tem como esconder, não é mesmo? — Ele falava alto tentando sobrepor sua voz à música. — Veio a passeio?

— Na verdade, vim para estudar. E você?

— Estou passando um tempo por aqui a trabalho, devo voltar em duas semanas no máximo.

A conversa me deixou animada. Descobri que ele era assim como eu, da região de Kanazawa, o que para mim era uma baita coincidência. Além disso, descobri que Suigetsu, esse era seu nome, trabalhava como historiador de povos latino-americanos na Universidade de Kanazawa. Eu me sentia encantada a cada palavra que saía de sua boca e um tanto incrédula por vir a conhecê-lo justo no Brasil.

— Essa música vai acabar me deixando louco, o que acha de irmos até ali na areia? Pelo menos, deve estar mais tranquilo do que aqui. — Olhei para onde Júlia e Luís ainda estavam atracados, provavelmente não sairiam dali tão cedo.

— Tudo bem. — Ele me estendeu a mão e por algum motivo eu não hesitei antes de entrelaçar meus dedos nos dele. Caminhamos em meio a multidão e suspiramos aliviados quando alcançamos a areia. Realmente ali não tinha qualquer movimento além da brisa que vinha do rio.

Por alguns minutos, ficamos em silêncio olhando as marolas pelo rio. Não era uma situação desconfortável, até mesmo nossas mãos unidas me traziam um sentimento de plenitude nunca experimentado.

— Há belezas como essa escondidas pelo mundo todo, queria poder conhecer cada lugar especial como esse e guardar as imagens em minha memória eternamente. — Sua voz agora era suave, sem disfarçar a admiração que sentia.

— Entendo o que você quer dizer. Compartilho desse sentimento. — Ele sorriu e se virou de frente para mim. Levou sua mão livre até minha bochecha num carinho terno.

— Você é perfeita, Hinata. — Algo na tonalidade de seus olhos parecia me abraçar, e quando menos percebi já nos beijávamos com desejo.

Jamais fui uma mulher movida por impulsos, sempre pensava, cinco, dez vezes, antes de fazer qualquer coisa, mas ali estava envolvida demais, disposta a me entregar sem ao menos pensar sobre. A adrenalina era excitante, assim como os toques mais ousados que Suigetsu distribuía por meu corpo.

— Isso é tão errado… — Uma ínfima parte do meu cérebro sabia bem disso, mas o restante tentava aplacar essa preocupação com os prazeres que agora sentia.

— Quer que eu pare? — Ele sussurrou no meu ouvido para logo em seguida beijar meu pescoço.

— Não. — Sentia que precisava, mas não queria de forma alguma me livrar daquelas carícias indecentes e provocantes.

— Foi o que eu pensei. — Vislumbrei um sorriso malicioso antes de ele me puxar para um canto mais afastado da entrada do restaurante, dali ninguém poderia nos ver e a julgar pela música alta, tampouco escutar. Meu corpo inteiro se arrepiou com essa possibilidade.

Não demorou para que nossas roupas estivessem fora do corpo. Seus olhos me observavam minuciosamente como se me saboreasse apenas com o olhar. E eu não me senti envergonhada, era como se eu quisesse que ele me desejasse tanto quanto eu o desejava.

Um beijo, um toque, uma mordida, cada gesto deixava meu corpo ardendo de tesão, fazendo-me querer cada vez mais de tudo aquilo.

A água quente molhou nossos pés, chamando-nos mais para dentro do rio, envolvendo nossos corpos entrelaçados, unidos de formas que eu jamais tinha feito antes. Ele tomou para si minha virgindade, minha sanidade, fazendo-me enlouquecer com sua língua que parecia saber de cor o caminho para me dar prazer.

(...)

Eu me sentia anestesiada enquanto voltava para a festa, absorta demais nas lembranças para sequer perceber que lá fora o sol já dava sinais de nascer.

— Onde você estava? — Clara surgiu do nada, em minha frente, tinha o semblante com uma mistura de preocupação e alívio.

— Desculpe, eu acabei conhecendo um homem… — Não precisei completar a frase, o olhar malicioso no rosto de minha amiga mostrava que ela tinha entendido bem do que se tratava.

— Devia pelo menos ter avisado, procurei por você igual uma louca. — Senti-me mal por isso e tratei de me desculpar.

— Sinto muito mesmo, eu não planejava sumir assim.

— Tudo bem, o importante é que você está bem. Podemos ir embora já? Júlia e Luís estão nos esperando no estacionamento.

— Sim, é claro.

(...)

Os dias passavam lentamente até finalmente chegar na sexta-feira. Eu me sentia inquieta e distraída desde aquela noite com Suigetsu. Para meu completo desespero não voltei a vê-lo, tampouco o achei nas redes sociais. Era como se ele não existisse.

— Estou falando, você foi seduzida pelo boto. — Luís vinha tirando sarro da minha cara desde o dia seguinte à festa. Ele tinha cismado com essa história de boto e falado tanto sobre, que eu já me questionava se seria mesmo possível. — Vocês estavam no rio, ninguém mais parece ter visto ele na festa. Se isso não for o suficiente para vocês, então eu desisto.

— Não era boto — falei com convicção, mesmo que por dentro eu estivesse insegura quanto a isso.

(...)

As contrações vinham intensas, tomando meu corpo em dores inexplicáveis. Já estava em trabalho de parto há pelo menos oito horas e sentia que estava longe de terminar.

Atrás de mim, minha irmã Hanabi acariciava minhas costas tentando me confortar em meio às dores. Ela cantarolava baixinho a antiga canção de ninar que nossos pais cantavam para a gente e eu tentava ao máximo me concentrar na sua doce voz em vez de nas pontadas agudas que sentia no meu baixo ventre.

Uma hora.

Duas horas.

Três horas depois eu me encontrava dando tudo de mim para trazer ao mundo aquela criança que já era tão amada.

O choro alto irrompeu pelo quarto do hospital me fazendo renascer junto dele. Koushi veio ao mundo com saúde e fôlego. Assim que foi trazido até meus braços eu acariciei o pequeno rosto inquieto com admiração. Os olhinhos se abriram por um breve segundo e o tom lilás inconfundível era uma prova de que aquela única noite tinha sido real, sendo Suigetsu boto ou não.

Notas finais

Um agradecimento especial a perfeita da @dineve e aos incríveis @Uchiha_Sasuke e @Brianna_ que sempre respondem minhas dúvidas e me ajudam quando eu preciso. Você são maravilhosos ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!