Águas Passadas

29 capítulo vinte e nove


A noite já invadira a região do vilarejo Lin kuei. No palácio, não tinha outro clima a não ser algo fúnebre. Por mais que a combalida não tivesse entregue o espírito, todos já esperavam tal destino. Com uma frequência de meia hora, Bonnie ia medir sua temperatura e sua pressão. A doutora queria ter pelo menos uma gota de esperança com relação a sua paciente, mas via que o que restava era esperar a morte.

Alguns criados colocaram poltronas e cadeiras frente ao quarto de Frost próximo a uma varanda, para que todos aguardassem alguma notícia sobre o estado de saúde da mesma. A equipe de Cage, Kenshi, Johnny, Sonya e Kitana estavam lá presentes, Harumi preferiu ficar no quarto com o filho e Hanzo ficou no Shirai Ryu.

Bonnie saiu do quarto, estava com um avental branco com o símbolo das F.E. bordado no bolso. Guardou o termômetro no bolso, chamou o grão-mestre apenas com a mão, ele se aproximou dela e perguntou:

— Como ela está agora?

— A temperatura está estável, mas a friagem que ela pegou durante a chuva piorou a situação, ela também está com um quadro de pneumonia... A febre pode vir a qualquer momento. O corpo dela está muito frágil e acho que não aguentará outro pico alto de febre.

Sub zero colocou a mão na boca com espanto, pela primeira vez sentia vontade de chorar por causa dela. Ele perguntou:

— Posso vê-la?

— Ela pediu que eu lhe chamasse, pode ser que seja a ultima vez que fale com ela.

O grão-mestre engoliu seco, não acreditava que tudo aquilo estava acontecendo. Bonnie abriu a porta devagar, ele respirou fundo e entrou.

Um edredom de linho e algodão cobria a enferma até o pescoço. Um travesseiro a deixava um pouco alta para que respirasse melhor. Cabelos com aspecto quebradiço, sem maquiagem e olhos cansados via Sub zero entrar. Não disse nenhuma palavra, apenas o observava e ele se aproximava.

Sub zero pegou uma cadeira próxima e sentou perto da cabeceira da cama da enferma. Ela tirou a mão direita que estava debaixo das cobertas e colocou-a sobre a mão dele, olhou para o grão-mestre e sorriu. Com o olhar cansado o fitava e percebeu que seus olhos estavam banhado em lágrimas, ela disse com voz embargada:

— Você... você está chorando por mim.

Com as costas das mãos secou os olhos e disse:

— Eu não queria que as coisas acontecessem dessa maneira... Eu falhei com você... nunca parei pra te ouvir... e agora...

— A culpa foi toda minha, grão-mestre. Seu coração nunca pertenceu a mim e só a enfermidade pode fazer com que eu enxergasse essa verdade. Tenho que... aceitar esse destino tão cruel que me foi imposto por minhas próprias escolhas.

Sub zero olhava para o céu estrelado, a lua estava em quarto crescente, mesmo assim seu clarão era forte e banhava uma parte do jardim oriental do palácio. A cryomancer apertou a mão dele e o chamou num sussurro, ele apenas a olhou, ela disse:

— Você me perdoa... por tantos males que causei a sua vida...

Ele apenas abaixou a cabeça, respirou fundo e disse:

— A pena que você está sofrendo seria mais dolorosa se eu não te liberasse o perdão.

Sub zero ficou profundamente comovido e não conseguia falar. Soltou a mão de Frost, se levantou e foi para um dos cantos do quarto. Fechou os olhos por alguns instantes e tentava se recompor. Frost virou a cabeça para o outro lado, sentiu um incômodo na garganta e começou a tossir, ao levantar houve uma hemoptise. Ela amparou o sangue com as mãos e vendo-o começou a chorar e dizia:

— A minha hora está quase chegando.

O grão-mestre abriu uma fresta da porta e chamou Bonnie que estava conversando com Sonya. De sobressalto ela chegou a porta e o grão-mestre disse:

— Ela tossiu e cuspiu sangue.

Bonnie fez uma feição de preocupação e disse:

— A pneumonia deve ter se agravado.

Entrou no quarto, limpou a mão da cryomancer e a fez deitar. O grão-mestre apenas observava a doutora medindo os batimentos cardíacos de Frost, depois colocou o estetoscópio no seu pescoço, foi em sua direção. Disse:

— É melhor que ela fique repousando, por enquanto...

— Doutora – gritou Frost – deixe-me a sós com ele, por favor.

Bonnie respirou fundo e deixou os dois sozinhos. Kuai foi até a enferma, sentou-se na cadeira e perguntou:

— Frost, preciso fazer uma pergunta... se você puder me responder.

— Se estiver ao meu alcance.

— Você... sabe de alguma coisa sobre o bebê de Tanya? É filho do Hanzo?

Frost virou a cabeça para o lado, fechou os olhos por alguns instantes, ela queria revelar apenas para Harumi, pois pensava que só a ela caberia resolver toda aquela situação embaraçosa que já durava meses. Fez um voto para si mesmo que só revelaria aquilo para Harumi. Voltou-se para o grão-mestre, abriu os olhos e disse:

— Perdão, Sub zero. Direi apenas a quem realmente deve saber.

Sub zero pensou em replicar, mas resolveu deixar por isso mesmo, Frost não estava em condições de ser colocada sob pressão. Não insistiu.

***

Tanya estava sentada em uma poltrona espaçosa de couro, com os pés estirados e mãos ocupadas por um pano a ser bordado. Em relances observava o futuro esposo que estava lendo um documento das F.E. que Sonya havia mandado entregar havia alguns meses e só naquele momento conseguira tempo para lê-lo. Hanzo percebeu que estava sendo observado e perguntou a edeniana:

— Algum problema, Tanya?

Ela voltou o olhar para ele e disse:

— Fiquei sabendo que Frost está nas últimas. Arriscou a própria vida para salvar o vilarejo Lin Kuei e a doença piorou. Coitadinha.

— Fiquei sabendo sim. Foi um terrível infortúnio. Parece que ela quis abreviar sua vida. Mas morrerá com honra, por um bom feito, salvou o povoado de uma grande enchente.

— Tentou apagar seus pecados com um ato heroico – disse Tanya em tom sarcástico.

Hanzo percebeu o tom e disse:

— Pelo menos ela se redimiu e foi reconhecida. Poderá morrer em paz. Mas e você? Não irá vê-la? É sua amiga.

— Me sinto desconfortável ao visitar doentes. – Tanya se levanta com o pano, a agulha e linha nas mãos – vou me deitar, já estou cansada.

Aproximou-se de Hanzo para beijá-lo, mas este afastou o rosto. Percebendo a hostilidade da parte dele se afastou subindo as escadas em direção ao quarto. Ao chegar lá se tele transportou para a Exoterra.

Lá também fora invadido pela escuridão da noite. Tanya caminhava a beira do riacho, pisando em algumas pedras e ervas daninhas, ouvindo o som dos grilos. Chegou ao acampamento de Mileena e já a viu do lado de fora sentada em uma pedra afiando sua adaga. A tarkatana percebendo a presença de Tanya a chamou para sentar ao seu lado, a edeniana resolveu sentar em uma pedra mais alta. Mileena logo perguntou:

— Notícias da nossa bonequinha de neve?

— Ela já está quase em agonia. Muito debilitada.

— Será que ela nos delataria para as F.E.?

Tanya respirou fundo e disse:

— Ela não tem nada a perder. Já pensei nessa possibilidade.

Mileena se levantou e perguntou irritada:

— E você não pensa em fazer nada?

— Calma, Mileena. Já tenho um plano debaixo da manga.

***

Já fazia vinte minutos que Sonya estava com Frost. A general estava acostumada em despedidas desse gênero. A cryomancer pediu:

— Sinto que está se aproximando a hora derradeira. Por favor, chame Kitana e Harumi aqui... Quero me despedir delas juntas.

Sonya secou as tímidas lágrimas com os dedos, beijou a fronte de Frost e disse:

— Vá em paz.

Foi para a porta e antes que saísse Frost falou:

— Obrigada por tudo, general.

Blade fez um sinal positivo com a cabeça, abriu a porta, viu Kitana que estava com a cabeça encostada no ombro de Sub zero, chamou-a. Ela se levantou, estava com os cabelos soltos, saia comprida branca até os pés, uma blusa de manga comprida preta e alguns colares em seu pescoço. Foi até a general, esta disse:

— Chame Harumi. Frost que ver vocês duas.

Kitana fez um sinal afirmativo com a cabeça, chamou uma criada que passava por ali para acompanha-la. Chegando lá bateu na porta, Harumi abriu e Kitana disse:

— Frost quer nos ver, trouxe uma criada para vigiar seu filho.

Harumi ao ver um ninja passando o chamou para que também ficasse com a criada, caso acontecesse uma tentativa de sequestro. Ele assentiu e ficou com a porta aberta do quarto de segurança. As duas foram para o quarto de Frost.