Água & Sal
1 I
Uma história antiga corre pelo deserto, atravessando as dunas de areia. Dizem que aconteceu nos momentos de calmaria, quando o vento trazia algum frescor as peles que ardiam com os raios de sol insistentes. Houveram outras histórias mais grandiosas antes dessa, as quais o tempo alterou alguns detalhes aqui e ali. Essa em específico ninguém ousou alterar uma única palavra, porque era real demais para se acrescentar fantasia alguma para lhe moldar a fim de agradar ouvidos atentos.
Dizem que naquela época o povo acordava antes do astro rei, desmontando o acampamento sem precisar tampar seus rostos, e aguardavam. Os mais entendidos reverenciavam o seu senhor antes dos primeiros raios solares surgirem no horizonte, e ela estava sempre de joelhos na areia quando acontecia. Diferente dos outros não abaixava sua cabeça ao aguardar, o que parecia um grande insulto para os mais vividos. Ela se erguia juntamente daquele que lhe dera a magia, afinal compreendia a sua própria maneira. O Sol não se levantava em todo seu esplendor para que tivesse olhares lançados para o chão e fosse ignorado. Muito menos havia concedido poder para que continuassem assim, olhando sempre para baixo.
Desde pequena era a primeira entre todos a se levantar, se destacando entre as centenas de pessoas reunidas no acampamento em algum ponto do deserto. Quando finalmente começavam a caminhar os seus pés podiam estar no ritmo calmo, mas certamente os comentários corriam. Não importava que tivessem pouca água e que na maior parte do tempo suas bocas estivessem secas, assim como a garganta tendia a arranhar quando falavam mais do que o necessário. Se davam o prazer de instigar: “se é desrespeitosa com o próprio rei, o que será de nós quando tomar o lugar do pai e nos liderar”. Alguns chegaram a questioná-la diretamente quando não estava próxima da mãe.
“Por que não abaixa sua cabeça também?”
Ela era muito jovem para encontrar palavras que soubessem descrever melhor. O Sol se erguia todos os dias trazendo o azul mais límpido ao céu antes tão escuro. Sua luz refletia nas elevações de areia e iluminava todo o vale entre elas, as tingindo de laranja e dourado. Ele vestia todo aquele espaço e trazia vida com seus raios que clareavam sua visão. Quando aparecia tudo se coloria. E ela não poderia responder melhor quando sinceramente dizia “não teria como ver o que ele faz.”
Com certeza ela recebia olhares tortos mesmo sendo uma criança e isso não mudou quando cresceu. Entretanto as razões tinham alterado com o tempo. Era filha de seu pai e sempre andava com o rosto voltado para o sol, a sua sombra era alento para todos aqueles que, gostando ou não, precisavam dela. A liderança era sua por direito, embora jamais ansiasse, mas havia aceitado. Nunca havia se preocupado em se explicar ao que era visto em sua conduta como desrespeito, a cada dia eles viam que ela havia conquistado o rei. Podiam ver o rastro da magia em seus olhos castanho avermelhados quando brilhavam intensamente ao erguer suas mãos e trazer a chuva. Sentiam o ar ficar frio quando sorria em um dia tão quente que eles não encontravam forças físicas ou psicológicas para continuar caminhando para um novo lar temporário. Aqueles que chegavam mais perto podiam sentir algo semelhante a maresia refrescante, que poucas vezes tinham a chance de experimentar, como uma onda que aliviava seus corpos cansados.
Fora preciso hora após hora e dia após dia. Cada segundo fora importante para que aos poucos ela fosse considerada a altura. Não queria os liderar apenas por ser seu direto, queria que a aceitassem tal como haviam aceitado seu pai no passado. Talvez seu pensamento inocente pudesse ter mudado os comentários sobre si, mas sua determinação havia feito olhares tortos se esconderem atrás de uma cortesia bem esboçada. E fora nesse ponto que a história finalmente ganhou um pouco mais de atenção. Bons líderes existiam e um exemplo era seu pai, Demir Theron. A história dele era diferente de seu progenitor e igualmente inspiradora, assim como todas as outas que vieram antes. De histórias assim o povo de Sorcha estava cansado de escutar e passar adiante todos os anos, provavelmente por isso a dela permanece por tanto tempo.
Fora numa noite de festa, após um dia inteiro de viagem, quando apenas os mais jovens ainda estavam com energia suficiente para continuar ao redor da fogueira. Ela não se destacava mais por um ar de petulância ou atrevimento, por vezes conseguia passar despercebida com seu silêncio e olhar sonhador. Ou talvez a maioria deles não a encarasse tanto depois que adquiriu uma altura não tão recorrente entre aquele grupo e era uma guerreira. Ela havia se tornado mulher, mas não uma mulher comum. E, infelizmente, sua mente continuava tão inocente como quando questionavam seus motivos para desafiar o astro rei. Dessa forma, foi sentada de um lado da fogueira e apenas apreciando a bebida quase no fim que originou-se a história.
Aqueles olhos escuros refletiam o fogo entre ambos, porém, o olhar caloroso não parecia ser por causa da fogueira em si. Pensar em algo do gênero a fizera olhar para qualquer outro ponto, sentindo o rubor arder nas maçãs de seu rosto, embora no final tivesse retornado a aqueles mesmos olhos indiscretos. Ali ela encontrou um sorriso quando o mesmo também desviou o olhar ao abaixar a cabeça, um tanto desconcertado. E, de repente, o som das risadas que soavam contra o vento e o queimar da madeira pareciam distantes para ela. Eram instantes que representavam perigo, aqueles segundos quando não havia nada a pensar, aceitar ou recusar. Afinal, era apenas um olhar num comum anoitecer. As estrelas preenchiam o céu, brilhavam intensamente contra o quadro em seu tom forte de azul. Ele queria se aproximar, ela queria que alguém se aproximasse. Como resposta silenciosa, brevemente cedendo, ela também sorriu.
Há algo que sempre dizem quando contam essa história. Ela não era imprudente, mas certamente seu coração era ainda inexperiente.
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