À flor da pele
9 Santa bebida!
Notas iniciais
Diana
– Não está envergonhado? — Pergunto o olhando, estudando sua expressão.
– Não mais... Só raiva do idiota. E fome! Vamos antes que Tyler decida comer tudo e nos mandar jantar fora. Aparentemente alguém decidiu dar uma de cupido. — Ele continua com a mão estendida em minha direção. Imagino quantos tipos de bactéria devem ter em sua mão. Ele trouxe vinho, deve ter passado em algum lugar para comprar. Segurado dinheiro para pagar. Dinheiro que milhares de pessoas devem ter manuseado antes. — Não que eu precise de um... — Ele acrescenta, me deixando momentaneamente confusa, sobre o que está falando.
Ele começa a baixar a mão, mas sou mais rápida e deposito a minha sobre a dele.
– Diana... — Ele diz com tom sério. Me levanto e o encaro, seguindo seu olhar para minha mão arranhada. E olha que ele só está olhando para a direita. A esquerda sempre está pior. — Eu trouxe algo para sua mão. — Ele diz, pulando o sermão que pensei que levaria. Todas as pessoas que conheço parecem se achar no direito de me dar um quando há oportunidade.
Ele olha em volta.
– Banheiro? — Pergunta olhando a porta fechada perto da minha cômoda.
– Sim...
Puxa-me e vai até a porta, a abrindo e acedendo a luz. Guia-me para dentro e paramos na frente da pia.
Começo a raciocinar mais rapidamente. Talvez seja meu sexto sentido me dando uma carga extra. Eu não deveria estar sozinha com um homem em meu quarto e ser levada para o banheiro não me parece lá coisa muito boa.
Ele liga a torneira e puxa minha mão para baixo. Primeiro a esquerda e depois a direita. Me olha feio ao ver a outra mão vermelha com marcas frescas de arranhões. Deixa a água cair.
Me sinto culpada por pensar, por um momento, que ele tentaria me violar. Acho que no fundo sinto até um pouco de decepção, por ele não tentar nada. Não que eu queira ser abusada ou coisa do tipo. Mas poxa, sou uma mulher! Me sentir desejada é o primeiro passo para uma autoestima saudável.
– Tem algodão e quem sabe álcool, na casa?
Concordo.
– Segunda gaveta.
Ele abre e tira o pacote de bolinhas de algodão e encontra um vidrinho com álcool. Desliga a água e usa algodão para enxugar a área machucada. Está tão concentrado nisso que nem repara em quanto o olho. Em quanto o estudo. Minuciosamente. Ele tem queixo bonito, com a barba recém-feita. Posso sentir o cheiro da loção pós-barba misturada com o perfume de toques amadeirados. Então, sou arrancada dos cheiros bons para uma puta de uma dor.
Puxo minhas mãos, que de ardem, parece que fui esfaqueada, até olho em volta atrás da faca. Não acho.
Ele segura as minhas mãos.
– Não. — Ele as aperta quando tento me soltar.
– Dói, seu desgraçado, filho de uma ovelha maldita!
Ele me solta e começa a rir, até se abaixa por um momento. Nada sexy.
– Não... — Ele diz entre risos, tentando se levantar e recuperar a pose. — Não... toca... Não toca no machucado.
Ergo as mãos para não encostar em nada. Mas ardem demais. Não me aguento por muito tempo e começo a chacoalhá-las freneticamente.
– O que você fez? — Poxa, que vontade de socar esse rosto bonito dele.
– Joguei um pouco de álcool... — Ele faz um pequeno gesto com o polegar e o indicador, querendo mostrar que foi só um pouco. — Só um tiquinho...
– Ai, meu cacete! Tem algodão, você deveria passar no algodão, não jogar direto!
Droga, estou gritando. E chacoalhando as mãos como uma doida, e tenho os olhos lagrimejados. Sou muito sensível quando se trata de dor. Posso passar por momentos angustiantes de pressão psicológica sem dizer uma palavra suja, mas me machuca para ver!
Tyler diz que viro um tipo de Hulk, só que ao invés de verde fico vermelha. Vergonha, dor, raiva. Essas coisas deixam minha pele branca cheia de variações do tom escarlate.
Minhas mãos são apanhadas de novo e então colocadas embaixo da água corrente.
– Por favor! – Ele começa com a cara mais incrédula do mundo estampada em seu rosto. — Você é uma mulher ou um homem? Cadê toda aquela resistência a dor? Você foi feita para parir uma criança!
– Ai minha nossa... — Não posso ter ouvido isso. — Cala a boca, Theo! — Viro a palma da mão para cima, juntando um pouco de água e jogando nele, que dá alguns passos para trás e coloca as mãos na cintura. Me olhando com a perfeita posse de uma mãe brava.
– Quem é você e o que fez com a moça boazinha?
– A boazinha que você pensou que queria transar com você?
Ele segura uma das minhas mãos, pegando outra bolinha de algodão e passando por cima, enxugando.
– Não vou te dizer nada.
– Imagina... – Começo, e nem é para provocar, mas porque é algo que me passa mesmo pela cabeça. — E se Tyler tivesse insistido em um sexo por mensagem? Você teria transado com o nosso amigo.
– Meu deus, que garota desagradável! — Ele diz, mas está sorrindo. — Eu não teria caído, ok? Prefiro ao vivo. — Ele pisca e revira os olhos, toma a outra mão e a enxuga com algodão também.
Ele não me convenceu. Estava muito animadinho quando chegou. Acho que teria feito qualquer coisa que eu sugerisse. Digo, Tyler.
– Você definitivamente teria caído!
– Calma! Calma... Você tá começando a delirar. — Ele leva a mão ao bolso e tira várias embalagens do que parece ser um tipo de band-aid, só que maior. As embalagens são bem finas, o que o permitiu trazer várias com ele.
Theo abre uma delas e segura com as pontas dos dedos.
– O que é isso? — Pergunto, mesmo sem necessidade. Está mais que óbvio a preocupação dele em relação a meus arranhões. Acho isso tão, momentaneamente, atencioso demais que fico sem reação, sobrando apenas coisas óbvias para dizer e perguntar.
– Um teste... — Ele coloca sobre os arranhões. O tal adesivo é tão grande que quase tampa as costas da mão inteira. Então ele pega um segundo e coloca na outra mão. — Parece que deu certo... Tenta fazer a sua coisa.
Franzo o cenho e sinto-me culpada por isso. Vou ficar cheia de rugas antes da hora se continuar fazendo essas coisas. Minha mãe me repudiaria por isso.
– Minha coisa...?
– É... Se cortar, morder, arranhar, seja lá o que for. Tenta... — Ele olha animado para minhas mãos. Espero que ele diga “é brincadeira”, mas ele não diz.
Bem, ignoro o calor que meu corpo todo está. Pela vergonha, pela raiva, pelas duas taças de vinho, e quem sabe pelo quê mais. Passo as unhas por cima de um dos adesivos. Ela causa uma leve ardência, porque está machucado por baixo, mas não causa mais danos.
– A operação foi um sucesso! — Ele me oferece um sorriso genuíno, capaz de tirar o ar uma mulher.
Respira, Diana, respira!
– Obrigada!
– De nada. — Theo fica me encarando por um momento. Não gosto disso. Não sei se continuo o encarando também, se desvio, se corro, se me enfio debaixo do chuveiro de roupa e tudo, afinal, tô cheia de bactérias.
Mas também tô morrendo de fome.
– Vamos comer! — Digo me virando e saindo do banheiro, sem dar tempo dele dizer qualquer coisa. Quando estou de volta no meu quarto, percebo a bobagem que fiz. Fiquei sozinha, com um cara que mal conheço, em um espaço pequeno, insinuante e convidativo.
Tá certo que deve tá cheio de germes. Porém é gostoso mesmo assim, admito.
Ele apoia sua mão em minhas costas, me direcionando para fora, mas antes para perto da cômoda e coloca sobre ela alguns envelopes pequenos do adesivo que colocou em minha mão. Apaga a luz e então descemos as escadas em silêncio. Vamos em direção à sala.
– Estamos entrando. — Theo diz e me segura gentilmente pelo braço por um momento. Então se move, passando a frente e entrando na sala primeiro e, só depois de olhar, me chamando.
Tyler está sentado nos travesseiros, Jane a seu lado, ela ajeita a camisa estranha. Não acredito que esse estúpido estava se pegando com ela nos meus travesseiros. E não acredito que Theo está tão treinado com esse tipo de coisa. Será que é porque ele é desse jeito também, ou Tyler anda levando garotas para o apartamento dele. Ou quem sabe saindo, seriamente, com Jane... Não!
Rio mentalmente da suposição.
Tyler não é sério com ninguém. A não ser comigo, mas nosso relacionamento não é desse tipo. E também, depois dessa noite a amizade acabou. Para sempre! Poxa, são meus travesseiros! Não se dá pegas no travesseiro dos outros e nem se prega peças tão malvadas e inconvenientes nas pessoas.
– Até que enfim decidiram juntar-se a nós. — Tyler oferece sua cara mais cínica. — Espero que tenham se divertido.
Fico de joelho sobre um dos travesseiros e passo pro próximo, deixando o primeiro para Theo, que tira os sapatos, sem colocar as mãos. Coisa de gente bagunceira que chega em casa e larga tudo pelo caminho. Será que ele é desses? Tyler eu sei que é, o tênis dele, por exemplo, está um perto dos coturnos da Jane e o outro bem longe, perto da porta do escritório.
– Então... — Começo. Tenho certeza que ainda estou vermelha. — Como vai, Jane?
Levanto os olhos para ela, que oferece um sorriso. Não muito verdadeiro. Pelo menos não parece exatamente um sorriso que uma pessoa normal daria. Se bem que Jane sombria não parece normal, o que provavelmente torna tudo bem real... Complicado isso.
– Bem. — Ela diz.
Só isso. Que tipo de pessoa diz só isso? Poxa, eu queria que o desconforto pela brincadeirinha de Tyler passasse, mas ela não colabora. Agora a coisa parece estar pior.
O constrangimento transa com nossas caras! — Frase do Tyler! Um dia direi isso em voz alta de forma que ele fique tão constrangido quanto eu em todos esses anos de amizade.
– Vinho? — Tyler pergunta, mas já está enchendo as taças. Me empurra uma. Theo já está inclinado sobre a mesa, colocando os garfos na cumbuca de óleo. Jane fica me olhando e me sinto obrigada a fazer algo. É realmente chato e desagradável. Ela sempre faz isso. Em todas as vezes que nos vimos, ela acaba prendendo o olhar em mim. Isso é assustador, sombrio, repugnante. Ok, nem tanto assim.
Acho que ela quer transar comigo, esse tipo de olhar eu percebo nos operários de uma obra no caminho oposto à casa do Theo, onde fica o mercado. Eles sempre dizem coisas constrangedoras e me olham dessa forma.
Pego a taça e bebo o líquido que mal consigo sentir o sabor. Ele desce queimando, e não é tanto pelo fato de ser alcoólico, é pela fome. Barriga vazia e álcool não combinam.
Sou surpreendida com um garfo próximo a minha boca e um Theo segurando o riso. Pelo menos acho que ele está fazendo isso. Seus lábios estão pressionados e esticados. Acho que a intenção é me dar na boca...
Ergo a mão e pego o garfo.
– Obrigada. — Ele assente.
– O que estavam fazendo lá em cima? — Tyler pergunta, ao mergulhar uma torrada no fondue de queijo.
– O que estavam fazendo aqui embaixo? — Theo rebate, depois toma um gole do seu vinho.
– Conversando. — Tyler diz sorrindo e piscando para mim.
Levo a mão aos cabelos. Estou odiando essa noite. Só queria ter ido para o trabalho e depois tirado a noite para descansar.
– Conversando também. — Theo responde.
Olho para Tyler, do outro lado da mesa, que tem o cenho franzido e olha pro meu cabelo. Tiro a mão dali e o olhar segue. Ele está olhando para a minha mão, para o tal adesivo que o Theo colocou ali. Seus olhos alcançam o meu novamente e ele sorri, me dando um aceno positivo. Dou de ombros, ele revira os olhos.
Odeio essas conversas sem palavras. Eu o entendo perfeitamente e tenho certeza que as outras pessoas também. Não olho para Jane, que provavelmente está me encarando, e nem para Theo, porque eu já olhei demais hoje. Ou talvez não. Viro um pouco meu rosto, pegando momento exato em que um morango coberto com creme de chocolate entra em sua boca. Boca que me beijou mais cedo. Ele suga a fruta com vontade e olha para mim, pisca.
O barulho de vidro contra vidro me faz dar um pulinho de susto. Olho Tyler, que está bem perto, com um sorriso malicioso nos lábios, e uma garrafa na mão. Ele acaba de encher meu copo, de novo.
– Come.– Ele diz sem emitir som.
Então, eu como.
Essa noite parece surreal. Nunca passei tantos micos com intervalos tão pequenos. Ok, já passei! Vivi com Tyler por um bom tempo. Dividíamos um apartamento quando éramos estudantes e quase toda hora algo acontecia. O pior deles acho que foi quando eu estava indo para casa dos meus pais para um o feriado de Natal e eles brigaram, cancelaram tudo quando eu estava prestes a embarcar. Eu peguei o dinheiro da passagem de volta e fui para casa. Pensei que Tyler estaria com a família dele, mas não.
Nossa sala havia se tornado um cenário de filme de pornô. A câmera estava ligada na frente do sofá, e meu amigo nu, com uma moça loira, de peitos tão grandes que nunca esquecerei, em seu colo. No nosso sofá negro de couro, bonito e charmoso que eu amava, um cara estava de quatro e o outro montado dele. Nunca mais sentei naquele sofá. O vendi na primeira oportunidade.
O que eu posso dizer sobre aquela noite? Não foi a primeira vez que o peguei fazendo aquele tipo de coisa, mas geralmente ele usava o quarto, mesmo que com a porta aberta... Eu fiquei em choque, passei por eles e ainda tive a capacidade de dizer “Boa-noite”, que por acaso foi respondido pelos quatro.
Fiquei o resto da noite com fones, tentando abafar os gemidos daquela orgia.
Pessoas normais teriam ido embora. Eu acho. Tyler diz que pessoas normais teriam é se juntado a eles... Bem, temos lá nossas opiniões distintas sobre o caso. O fato é que, eu não pude ir. Por mais nojento, imoral e absurdo que fosse aquilo, eu precisa do Tyler. Ele era a porta que me deixava ver o mundo lá fora. Me tirava do meu confinamento emocional e me deixava perceber coisas que antes eu nunca havia ligado.
Ele era e é, a pessoa mais angustiante e necessária da minha vida. O quebrador de muros. O envergonhador ambulante, que me coloca nas piores situações.
Me pergunto se algum dia eu terei coragem que mandar ele ir a merda e sumir. Certamente minha vida seria mais tranquila. Talvez tranquila demais. Será que em algum momento estarei pronta para essa mudança? Uma vida sem Tyler...
Os risos me chamam atenção. Theo, visivelmente mais relaxado, conversa com Ty. Não sei sobre o quê, não prestei atenção. Jane tem o cotovelo na mesa. Se minha mãe estivesse aqui ela levaria uma boa varada nos braços para aprender que isso é feio.
Alcanço um morango e o mergulho no creme de chocolate. Não uso o garfo e posso sentir o calor em volta, é incômodo e sei que se vacilar por um momento, ganharei uma queimadura, mas mesmo assim mergulho um pouco mais a fruta. Quando a tiro, um fio de chocolate se forma, ligando o morango ao creme da cumbuca, como um cordão umbilical, que vai ficando mais fino, e mais fino, até se separar. Trago a fruta para perto de meus lábios e assopro, levando ao lábio com cuidado para não me queimar. Dou uma mordida e uma pequena gota cai no meu busto. Lambo o beiço e então passo o dedo sobre a gota, o levando ao lábio em seguida e o sugando.
Dou uma breve olhada em volta. Jane sentou-se entre as pernas abertas de Tyler e ele cochicha algo em seu ouvido. Estão distraídos em seu mundinho privado. Olho para Theo, que tem os olhos fixos em mim. Nos meus lábios. Isso parece sexy, o olhar dele.
Demoro um pouco mais do que necessário o dedo na boca, então tiro, antes que os outros percebam e as piadas comecem. Termino meu morango sem voltar a olhar para o homem bonito ao meu lado. Dou dois goles em meu vinho, que acaba.
– Vamos provar o dos convidados agora. — Tyler diz, levanta e pega a garrafa, saindo da sala.
Ataco as torradas agora, provando com todos os variados molhos.
– No que trabalha, Diana? — A voz calma, fria e sombria, pergunta. Jane.
Levanto o rosto, a olhando. De novo tem os cotovelos apoiados na mesa. Os dois agora. Que coisa feia!
– Sou designer de interiores. — Digo, não oferecendo mais nada. Ela não me ajudou a melhorar o ambiente antes, por que eu deveria lhe dar uma mão agora?
– Isso parece legal. Você que planejou sua casa? — Agora quem pergunta é Theo.
Sinto um certo calor em meu interior. Não por causa dele, provavelmente pela bebida e as comidas quentes. Estou com calor. Adoraria que eles não estivessem aqui, assim eu poderia andar como vim ao mundo.
– Foi... com o Tyler.
– Oh... — Jane deixa escapar. — Vocês são bem amiguinhos, não?
Não gosto do tom que ela usa comigo. O que “amiguinhos” quer dizer? Ela tá com ciúmes? Por que desde que me conheço por gente, escuto sobre uma tal Jane que Tyler come. Ela é mais íntima a ele do que eu em algumas coisas, então...
Tyler não seguiu a carreira de designer. Ele fez o curso comigo por quase três anos e então um belo dia simplesmente decidiu que não era para ele. Desenhar era algo que lhe dava preguiça e não podia se imaginar fazendo aquilo pro resto da vida. Mas isso não significa que ele não saiba como fazer. Ele sempre foi muito talentoso. Quando comprei a casa, ele fez questão de me ajudar a planejar. Claro que, ainda pago pela casa e pelos móveis. Seguir os conselhos dele custa caro às vezes.
– Gosto muito do que fizeram aqui. — Theo se pronuncia. Ele olha em volta, fazendo um estudo minucioso, como no meu quarto. — Tyler quando vai a minha casa nunca é tão prestativo. Só destrói coisas.
– Que mentira! — Meu amigo volta com a garrafa aberta. Me serve e depois aos outros. — Você só sabe contar mentiras a meu respeito, Blake.
– É mesmo? — Theo se inclina um pouco sobre a mesa, ficando cara a cara com Tyler. — Quem quebrou, pelo menos, três taças, jogando na lareira, na última vez que pisou lá?
Tyler faz careta.
– Quebrar algo uma vez não é sempre.
– Quem rachou meu boxe depois de ficar brincando, ou fazendo só deus sabe o quê, na hora do banho.
Tyler toma banho na casa do Theo, é? Hum... Será que o grande, viril, gostoso, e outras coisas mais, Theodor Blake, é bissexual também? Ou ainda, homossexual...
Dou uma boa olhada no material ao meu lado, sem vergonha nenhuma.
Que desperdício!
Faço careta, espero que não. Seria muito estranho ele pegar o cara que dorme com a irmã dele ocasionalmente. Ou não, quem sabe... Com Tyler tudo é possível.
– Não gostou do vinho?
Jane diz, ela está me encarado de novo. Isso é muito constrangedor. Ela me olha como se fosse me torturar. Eu só não sei ainda se é no sentido sexual ou não.
Oh céus, acho que bebi demais. Minha cabeça está levemente perturbada. Agora parece que tudo que falam e fazem tem um certo teor sexual. Estou com sono, um pouco tonta e me sentindo quente.
– Tá ótimo. — Digo e ela sorri, me surpreendendo. Não é que a danadinha fica bonita e fofinha quando sorri. Nunca a vi fazer isso antes, e olha já a encontrei algumas dezenas de vezes.
– Tá quente aqui. — A voz é do Theo. Eu acho.
Me arrasto para trás um pouco, puxando um travesseiro junto e o colocando na frente do sofá, assim posso encostar ali por um momento. Deixo minha cabeça pender para trás, no assento e fecho os olhos.
– Vamos jogar strip-poker então, o que acham? — Esse definitivamente é Tyler falando, só pela sugestão.
– Eu topo. — Jane diz rapidamente.
– Não mesmo! — Digo.
– Também passo.
Abro os olhos para ver Theo me olhando. Por que ele me olha tanto? Por que todos eles me olham tanto? Devo ser tipo um bichinho nunca visto. Aposto que eles são todos doidos. A favor de orgias, incesto e sabe-se lá mais o quê! E não duvido nada que estejam a fim de alguma dessas merdas agora.
Oh céus! Levanto a cabeça e encaro Tyler, ele vem em minha direção, com uma taça cheia. Me entrega.
– Prova esse, eu comprei especialmente para essa noite.
Mas não é o mesmo que tomei minutos atrás?
– Já chega, Tyler! — Theo se encosta no sofá, ao meu lado, deitando a cabeça no assento, como eu estava antes.
– Só mais uma, seu chato. Bebe, querida.
Aceito a taça, só vou provar um pouquinho, para ele não ficar chateado. Ty bagunça meu cabelo e se inclina, penso que vai beijar minha testa, mas o danado apronta outra. Ele aproveita os olhos fechados de Theodor e beija seus lábios. Em seguida caí sobre os travesseiros, pelo empurrão que leva.
Quisera eu ser tão ousada! Começo a rir, cuspindo um pouco de vinho e levando a sombria, já nem tanto, Jane a rir comigo.
– Chega! — Theo levanta e tira a taça da minha mão, pega a última garrafa cheia e fica em pé. — Ninguém mais vai beber aqui. E a próxima vez que se aproximar de mim, você é um cara morto Becker!
– Ui, ele ficou estressadinho!
Ty se aproxima quando Theo sai da sala. Ele passa o braço sobre meu ombro. Jane nos observa do outro lado.
– Acho que ele gosta de você!– Ele sussurra em meu ouvido.
– Não...– Respondo em um sussurro. Pelo menos acho que estou sussurrando. - Ele gosta da sua versão de mim. A que quer ganhar beijos e fazer sexo com um desconhecido... - Começo a rir.
– E você não quer sexo com esse desconhecido, não tão desconhecido, bonitão aí? Aposto que ele já te fodeu por todos os buracos em sua mente!
– Oh meu deus! Tyler!
Meu amigo começa a rir e se afasta de mim. Acabo tombando pro lado, por estar apoiada nele. Não me levanto. Fico ali, deitada no chão, a poucos centímetros dos meus travesseiros bonitos, macios e caros.
Ty começa a dizer algo, mas o chão está tão bom, friozinho. Alivia o calor da minha pele, não consigo prestar atenção em mais nada além disso. Fecho os olhos, aproveitando a sensação.
– Credo! — Tyler está de volta, sou erguida. Acho que estou indo para cama, finalmente! Descanso merecido. Mas não!
Estou de volta no chão, dessa vez nos travesseiros. Me acomodo ali.
– Vamos ver filme, mulher maravilha! — Ty insuportável. Mas não parece a voz do Ty. Mas tem que ser Tyler. Alguém está sentado do meu lado. — Acorda...
– Essa ai já era, deita ai e vamos ver filme. — Esse sim acho que é o Ty.
– Tô com frio, amor.
Amor?
Esse também parece Tyler! Todos são Tyler!
Oh deus, um mundo de Tylers, quero morrer!
Rio um pouco sozinha, com meus pensamentos, mas logo me viro, e me aconchego em algo morninho.
Aqui mesmo eu caio, aqui mesmo eu durmo!

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