À flor da pele
1 Rotina. Rotina. Rotina!
Notas iniciais

Diana Weber
Recolho a correspondência do chão e deixo na bancada da cozinha. Há um pequeno cesto no portão, mas o carteiro tem essa estranha mania de entrar e atravessar meu jardim e então colocar por baixo da porta. Talvez eu deva conseguir um cachorro, isso pode fazê-lo entender que o lugar certo é no cesto, atrás do portão.
Passo a mão pelo cabelo. Ele não é tão comprido, para na altura do ombro apenas. Me arrependo de tê-lo cortado como minha irmã sugeriu ano passado. Eu costumava chamar muita atenção nas festas com o longo cabelo negro. Agora ele cresce lentamente, me deixando frustrada dia após dia. O junto e prendo em um rabo de cavalo. Coloco os óculos escuros, saio de casa e tranco a porta, deixando a chave embaixo do tapete. Péssimo lugar, eu sei! Mas estou sem bolso hoje. Minha blusa fina de manga comprida e minha calça de malha não tem nenhum compartimento onde possa deixá-la.
Verifico os cardaços do tênis e ligo meu ipod, o prendendo na calça e colocando os fones. Sweet Dreams ocupa meus ouvidos. Checo o relógio, está na hora.
Desço os degraus da minha varanda, vou para a minha corrida matinal. Meu trajeto é o mesmo de todos os dias, assim como o horário que saio de casa e o que retorno. Rotina. Faz bem pro corpo!
Me encaminho ao parque que fica próximo, poucas quadras. Duas, talvez três. Acho que nunca contei realmente. Com o tempo as coisas apenas passam a fazer sentido na nossa mente e distâncias não tem mais o mesmo valor e importância que antes.
Assim que atravesso para o parque entro na trilha de corrida. Passos constantes, animados, exatamente iguais aos de ontem. Rotina. Faz bem pro corpo! – Repito mais uma vez para mim mesma.
Corro pela trilha conhecida e um pouco vazia. Nesse horário as pessoas já foram para seus trabalhos, ou estão indo, o que deixa o lugar vazio e muito tranquilo. Quando chego ao fim do parque paro próximo a um banco e começo a me alongar. Olho o relógio, 9:00. Me encaminho para o vendedor ambulante e tiro uma nota da meia. Bem, eu não tenho bolso...
Observo a entrada do prédio e como sempre, ele sai. Theodor Blake.
Pego minha água e deixo o troco com o vendedor. Volto pro banco, mas meus olhos acompanham o homem sério.
Não que eu esteja aqui para vê-lo, é apenas rotina. Mera coincidência que a minha e a dele se batam. Todos os dias.
Ele é CEO de uma empresa de carros esportivos. Todos os dias ele sai as 9:00 do prédio, para no café da esquina e fica por dez minutos do lado de dentro. Então, se senta do lado de fora e observa o movimento enquanto degusta sua bebida. Mas não é por causa dele que estou aqui. É só rotina. Acabei decorando seus horários sem querer. É apenas rotina. Faz bem pro corpo! Mesmo que ele seja alto, forte, muito bem esculpido, como eu gosto.
É só rotina. Rotina. Rotina.
Meu trajeto e horários nada tem a ver com os cabelos castanhos claros, quase loiros, que caem em volta do seu rosto bem definido. Ou com o par de olhos castanhos que parecem verdes quando estão em ambientes de luz forte. Nada tem a ver com ele. Como eu já disse antes... coincidência! E rotina.
Os dez minutos que ele leva para conseguir seu café passam, mas invés dele sentar no lado de fora, ele pega o caminho da praça, onde eu estou. Desvio o olhar, que é escondido por meus óculos escuros. Como se a lente não cobrisse nada e eu estivesse a ponto de ser descoberta. Apoio a perna no banco e a alongo. Não volto a olhar na direção em que ele estava segundos atrás, mas cada centímetro do meu corpo sente sua presença. Então ele senta no banco em que eu me alongo, não posso mais fingir.
– Hey Theodor, bom dia! — Digo com falsa surpresa e tiro os fones.
– Bom dia, Diana. — Ele me diz com um sorriso sexy dobrando seu rosto. O terno cinza cai perfeitamente em seu corpo e deixa as sombras dos músculos visíveis. A camisa branca por baixo e a gravata azul me prendem por um momento a mais que o esperado.
– Tenho um convite!
Desvio os olhos de seu corpo. Esse homem despertava coisas em mim, desde a primeira vez que nos vimos.
Tyler Becker, um amigo em comum, nos apresentou em sua festa de aniversário. Nos falamos algumas vezes depois disso. Não tantas quanto eu gostaria e nem frequentemente. A última vez foi há mais de uma mês. Nos encontramos com Tyler para um drinque. Mas nunca passou disso.
– Convite...? — Digo tentando não parecer animada demais.
Me sento ao lado dele e tiro os óculos escuros. Abro minha garrafa de água e levo aos lábios, tomando um gole.
– Uma festa de aniversário. Será a fantasia. Achei que pode ser divertido te ter... — Tiro a garrafa dos lábios, quase me engasgando. — ...por perto.
Me viro para ele. Os olhos castanhos a centímetros do meu rosto. Perto demais. A barba está por fazer, lhe dando um ar másculo e apetitoso.
Só rotina, Diana. Só rotina.
– De quem é o aniversário?
– Meu... — Ele me estende um envelope dourado. — É algo... intimo. Apenas para os mais chegados. Espero te ver por lá.
Mais chegados? Quando foi que me tornei isso?
Ele termina seu café e se inclina em minha direção. O que torna tudo totalmente... desconfortável? Talvez excitante seja a palavra mais certa. Mas eu não estou pronta para admitir tal coisa. Então, sinto “desconforto”.
O encaro assustada. Talvez não assustada, mas de novo, não estou pronta pra lidar com mais que isso. Então, o encaro “assustada”. Até entreabro os lábios um pouco, imaginando que ele vá me beijar ali, do nada. Mas, ele leva seus dedos ao meu rosto, o virando vagamente para o lado e depositando um beijo em minha bochecha, pegando dois centímetros dos meus lábios. O formigamento que se segue em meu corpo é de puro desejo. Percorre cada centímetro de mim. E alguns instantes tudo que quero é livrá-lo do terno e...
Volta, Diana! Rotina. Rotina. Concentre-se!
– Te vejo na festa. — Ele diz e se levanta. Caminha calmamente até a lixeira e joga o copo, então parte para frente da cafeteria, onde seu motorista o espera.
Sigo meu caminho. Estou quente. Me sinto diferente. Incomodada. Quebrei uma corrente, meu circulo vicioso. Hoje não foi como todos os dias. Não voltei no horário.
Theodor Blake me fez sair... da rotina.
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