À flor da pele
81 O que nos define?
Notas iniciais
Theodor
— O que estou olhando exatamente? — Pergunto a Stuart na cafeteria do hospital.
Diana está dormindo, sedada, e seu pai estava me lançando um olhar duro e condenatório. Julie me pediu para dar um momento a eles. Odiei isso, mas saí.
Não gosto de ficar longe de Diana, essa sensação de queimação na boca do estômago não desaparece. O medo dela desaparecer de novo, de sumir da minha vista e nunca mais voltar. Isso me tem definhando.
Ela não está tão mal quanto todo o sangue fez parecer. Mas precisou levar pontos na mão, coxa e pés. De acordo com os exames que saíram, ela não foi violentada, mas teve o implante anticoncepcional retirado.
Não vá até lá, Theodor.
Não posso sequer começar a imaginar porque ele fez isso. Tenho tanta raiva dentro de mim, mas estou me mantendo firme por ela.
— É a planta de onde ela foi mantida.
Pego a folha, o desenho foi impresso e é praticamente igual ao da casa da Diana.
— A casa foi construída em 1962, durante a Guerra Fria. Era comum naquele tempo...
— Abrigo antibomba. — Completo por ele.
— Sim. Achei essa planta na internet, no site da construtora. Não consegui falar com ninguém ainda, então é um pouco de especulação o que vou dizer. Mas, pelos documentos de compra da casa da Diana, a casa foi construída no ano de 2000, depois que um incêndio destruiu parte das casas daquela rua. Meu palpite é que não sabiam, ou ignoraram o abrigo e fizeram as novas casas sobre ele.
Ele coloca outra folha sobre a mesa.
— Existe mais 4 na área, aparentemente. — Ele aponta um esboço do que seria a casa da Diana com alguns X. — Um deles está do lado de trás da propriedade vizinha a Diana. É um terreno abandonado. Tenho policiais lá agora, e acredito que vamos encontrar uma entrada. O que ficou claro é que o atacante não estava usando a casa vizinha para entrar. Em algum ponto deve haver outra entrada.
— Como ele poderia saber disso tudo? Ele tem que ter morado lá antes.
Stuart concorda.
— Ele não está nos dizendo seu nome. Nada. Recolhemos amostras de DNA e suas digitais, nesse exato momento tem uma equipe tentando descobrir quem ele é e se tem ligação com o caso de assassinato.
Respiro fundo e deixo os papéis sobre a mesa, então me levanto e estendo a mão. O policial se levanta e aceita o cumprimento.
— Vou estar a espera de noticias. — Digo e ele concorda. Então volto para o andar de cima, para estar com minha namorada e sua família.
Em todo o momento em que faço o percurso, só consigo ficar revivendo cada momento do que aconteceu. Eu queria tanto ter matado aquele merda, mas a minha preocupação era com Diana. Vê-la naquele estado... Isso acaba com um homem.
O sentimento de impotência por ter falhado com ela. Tê-la deixado ser pega porque tinha medo de alertá-la sobre o perigo. Eu não sei se poderei me perdoar algum dia. Não culpo John por sentir raiva e me achar culpado. Faço o mesmo.
Quando alcanço a sala de espera, estão todos presentes.
Tyler com uma Jane sonolenta em seus braços, Terry e Amy conversando, John amuado em um canto e Julie tentando controlar seu filho. A mãe de Diana está sentada o mais afastado de todos e não parece aberta a qualquer conversa.
Me aproximo de Amy e Terry.
— Por que não há ninguém com Diana? — Pergunto.
— Tem o Tom, ela acordou e perguntou se ele estava aqui, então pediu para falar a sós com ele.
Isso me magoa. Ela acordou e pediu pelo meu amigo e não por mim. Até Tyler seria aceitável, mas não Thomas.
— Ele é médico, Theo. Nesse momento é o mais útil de todos nós. — Amy me diz ao segurar minha mão. — Ela perguntou por você também, a primeira coisa que disse foi seu nome e quando informei que estava com a polícia, ela pediu pelo Tom. Não deixe o ciúme nublar seu julgamento.
Sábias palavras. Porém mais fácil ouvir do que fazer.
Diana
— Theo? — Foi o primeiro nome que chamei quando senti que conseguia mexer a boca finalmente. Era como se todo meu corpo estivesse anestesiado quando tentava mexer, exceto pela dor, ela continuava presente.
— Oi querida. — Minha mãe se aproxima e toca meu rosto, enviando arrepios pela minha pele.
Meu corpo todo dói. Minha mente dói. Meu emocional está em frangalhos, mas eu ainda estou lutando e me mantendo sob controle.
Não precisei acordar e me lembrar do ocorrido. Não houve um momento sequer de dúvida. Cada vez que fechava meus olhos, tudo passava como um filme pela minha cabeça. E quando dormia, continuava em forma de pesadelo.
Eu nunca poderei esquecer.
— Ele está falando com os policiais. — Olho para o lado e vejo Amy sentada perto da porta.
— O Thomas ainda está aqui? — Ela concorda com um aceno. — Eu gostaria de falar com ele.
— Vou chamá-lo.
Amy sai da sala e Eleonor se senta no canto da minha cama. Segura minha mão com cuidado, evitando as agulhas espetadas e os fios.
Minha mãe me olha preocupada. Não sei por que agora. Ela quase se iguala a esse homem que me levou.
Alguma parte em mim, no entanto, que consola-la, dizer que estou bem, mas a verdade é que não estou e não sei se algum dia voltarei a ficar. Mas eu fiz uma decisão nas últimas horas: Não ser mais a vítima. Seja de um maluco, de uma doença, da circunstância, do que diabo for. Incluindo, ela.
— Como você está?
Essa é uma pergunta estúpida. Como ela acha que eu estou?
— John é meu pai? — Pergunto e ela me olha chocada. Por essa ela não esperava, e nem eu.
Posso ver quando a fúria começa a queimar nela e se eu não estivesse em uma cama, no hospital, ela poderia deixar se levar e me atacar. É assim que ela é.
Essa noite eu poderia ter morrido se tivesse me rendido aos meus desejos de me encolher e deixar o pânico me levar. Eu teria perdido tudo. Acho que é certo o que dizem sobre você estar a beira de perder alguma coisa para dar valor. Essa coisa foi a minha vida.
Ela respira fundo e se afasta, ficando de frente para a janela.
— Eu estava saindo com Ren quando descobri que estava grávida de você, mas ele sabia que não era dele. Nós éramos amigos e tínhamos começado a namorar a pouco tempo, nem mesmo tínhamos dormido juntos. Então ele me convenceu a fazer a coisa certa e ir atrás do pai do meu bebê. John quis se casar no mesmo instante. Ele é um bom homem, só não era o certo para mim.
Aí está toda a merda.
— Então você me culpou por acabar com meu pai e não com Ren. — Afirmo.
— Eu não queria isso, Diana. — Ela se vira para me olhar. Não tinha percebido antes, mas ela está uma bagunça. Roupas amassadas, cabelo bagunçado e sem maquiagem. Eu acredito que no fundo, ela se importe comigo. Mas, como meu pai não era certo para ela, ela não é para mim também. Me culpar a vida toda, por erros que ela cometeu, não é certo. Ou justo.
E eu não preciso mais disso me afundando.
— Eu tentei ser uma boa mãe, colocar as coisas em perspectiva. Eu juro, tentei ver o lado bom. Mas seu pai e eu não éramos compatíveis. Eu só... Estava tão brava com tudo que aconteceu. Eu tive que abrir mão do homem que amava, da vida que queria. Larguei meus estudos, larguei tudo por você. — Essa última parte sai como uma acusação.
— Eu não quero você aqui.
Ela respira fundo.
— Eu não vou sair, filha.
Esperei tanto para ela me chamar de filha, para se preocupar comigo e quando finalmente acontece, não significa nada.
— Você vai, mãe. Porque se você não fizer isso, eu não acho que possa me tornar alguém saudável algum dia. Nossa relação é tóxica, me faz tão mal quanto o que esse homem fez comigo.
Minhas palavras atingem o algo e seus olhos enchem de lágrimas. Dessa vez são verdadeiras.
— Eu não queria isso.
— Eu acredito em você. Mas agora? Eu preciso ficar em paz para me curar e você não vai ajudar ficando por perto.
Ela concorda. Tem mais a dizer, mas não vai me falar. Ela vai guardar cada uma delas, e isso é exatamente o que eu sempre precisei, que ela guardasse seus problemas e me desse a mãe que eu merecia e nuca tive.
Agora é muito tarde. Eu sei disso. Ela sabe disso.
— Diana? — Thomas está na porta, com Amy sempre em estado impecável. É o mais controlado dos amigos de Theodor.
Olho para Eleonor, esperando que faça a coisa certa.
Ela se aproxima e beija minha testa.
— Eu amo você, apesar de tudo.
Ela troca um olhar com Amy e então se afasta. Elas saem bem devagar, talvez a espera de pegar algo da conversa, mas só abro a boca quando a porta está fechada.
— Preciso de ajuda. — Peço finalmente.
Tom se senta na cadeira que minha mãe ocupou antes, ao lado da cama.
— Como eu posso te ajudar, Diana? — Seu tom e expressão sempre neutra. Ele é um bom exemplo de auto controle.
— Quando eu era mais nova fui diagnosticada com Transtorno de personalidade obsessivo-compulsivo. Meu pai me levou para ter ajuda, mas minha mãe, que tinha minha guarda, se recusou ao tratamento. Eu tinha muito medo dela para ir contra e meu pai apenas acatou. Com o tempo, de tanto ela repetir que eu estava bem, decidi aceitar isso.
— Você não tem exatamente os sintomas, pelo que andei vendo até o momento.
Concordo com ele.
— Eu os suavizei. Minha mania por controle de tudo ainda está lá, como todas as outras coisas. Mudei todos os meus horários, mudei toda a minha vida para fugir de qualquer sintoma que me ligasse a doença. Eu me fiz uma pessoa regrada para não aceitar isso.
Ele concorda com um leve aceno, mas continua quieto.
— Eu quase morri horas mais cedo na mão daquele monstro. E teria se tivesse me desligado. Por melhor que saiba como suavizar tudo, quando as coisas são demais, eu desligo. Me deixo levar pelo desespero e tenho crises de pânico que me têm fora de sintonia. Isso poderia ter custado a minha vida ontem, mas eu lutei.
— Me conte o que aconteceu enquanto esteve com ele.
Tudo que me esforcei para desligar e falar com ele, volta com força com seu pedido. É esmagador.
— Não. Eu preciso de ajuda com os problemas que não resolvi.
— Isso é certo. Mas você também precisa de ajuda com o que aconteceu agora. Falar é o primeiro passo.
Nego, sentindo uma crise a caminho.
— Estou bem com o que aconteceu. Só preciso resolver as outras coisas.
— Negação. — Sua voz tão calma é desesperadora. — Isso não vai apagar o que aconteceu.
— Eu não quero apagar... Eu quero mudar e lembrar a cada dia o que aconteceu e o que poderia ter acontecido.
— Então, você quer melhorar por medo?
Sua voz continua inalterada, sem julgamento.
— Sim.
Ele concorda e fica em silêncio por um momento antes de continuar.
— É um bom incentivo, Diana. O medo leva a mente humana a outros patamares. Porém, ele pode te dominar e te limitar.
— Mais do que eu já sou limitada? — Pergunto com raiva.
— Em todos esses anos, com tudo que você me disse, como o medo da sua mãe influenciou em tudo, você ainda acha que deixar ele tomar as rédeas da sua vida vai funcionar?
Um tapa na cara. No entanto, qual é a resposta? Como deixar de sentir medo? Como viver plenamente sem temer nada? É possível?
— Não entendo onde quer chegar.
— É bom ter medo, ele nos impede de fazer coisas imprudentes e perigosas, mas não é saudável deixar que ele seja o carro chefe da nossa vida.
Paro para pensar por um momento. É o que tenho feito a vida toda. E hoje estou mais assustada do que nunca, mas é também a primeira vez que decidi não me render.
— Eu acho que está no caminho certo. — Ele continua. — Mas vamos falar sobre o que aconteceu com você enquanto esteve em poder do seu sequestrador. Você precisa trabalhar isso, ou será seu ponto cego.
— Me sinto corajosa nesse momento. Com vontade de lutar com o que aconteceu.
Ele concorda.
— Mas até quando esse sentimento vai continuar? Eu vou dizer o que eu penso sobre isso. O que você está sentindo é uma coragem baseada na raiva. Você teve sua vida invadida por alguém que queria te fazer mal. Você está zangada, mas quando isso passar...
— Eu vou me fechar de novo. — Completo.
Ele concorda.
— O que eu faço Thomas?
Ele toca a minha mão de leve, me mostrando seu apoio.
— Exatamente o que está fazendo agora. Você usa sua dor, sua raiva, o seu medo, e você dá um primeiro passo. Mas, precisa aceitar que tem um problema com o que aconteceu e trabalhar isso. Não só o passado. O passado nos molda Diana, mas ele certamente não nos define.
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