À flor da pele
27 Nós não estamos transando!
Notas iniciais
Diana
– Vocês estão transando! — Terry afirma pela terceira vez ao dia.
Nós estamos no salão de beleza, fazendo as unhas. Ela mudou sua programação para termos um dia de garotas. Claro que, inspirado pelo meu desmoronamento de ontem. Mas, como eu já desejava esse momento, deixei passar.
– Não estamos. — Afirmo, também, pela terceira vez ao dia.
A mulher que pinta minhas unhas me olha e oferece um sorrisinho. Ignoro isso e tento me concentrar em outras coisas. Tipo, que fantasia irei usar. Porque não pensei em nada ainda. Terry conseguiu marcar horário para as unhas e cabelo pela manhã e deixou o horário da tarde para procurarmos algo decente para usar. Ela sugeriu uma loja de fantasias de um conhecido, na verdade, pelo tanto que repetiu sobre, acho que o tal dono é algum ex e ela só quer mesmo é mostrar o que ele perdeu. Bem, eu apoio isso. Terry é um partidão!
– Ele te mandou flores! — Ela volta a afirmar.
De manhã, fomos acordadas por um entregador. Ele deixou um buquê ainda maior que o primeiro, que Theo me trouxe na segunda. Esse continha rosas brancas e amarelas, assim como outros tipos de flores das mesmas cores. Ele também me ligou cedinho. Assustando a Terry e eu, que conversávamos em minha cama. Minha amiga se recusou a me deixar sozinha durante a noite.
Me pergunto se ela pensou que eu atentaria contra a minha própria vida...
– E acho que não foi a primeira vez... — Ela completa.
Coro ao lembrar-me das rosas amarelas que ganhei antes e disse a ela que comprei para enfeitar a casa.
– Nada a declarar. — Digo.
– Você fica boba quando está perto dele.
Me viro para ela.
– Qualquer mulher fica boba na frente daquele homem!
Ela estala os dedos, fazendo a manicure que a atende lhe lançar um olhar feio.
– Ponto para você! — Ela me diz, ignorando a mulher.
– Você estava toda arreganhada para ele ontem. — Comento, tentando não trazer os sentimentos ruins da noite passada à tona de novo.
– Nós estávamos falando de você, só para constar. — Ela conta. — Ele foi atrás de você e como não estava, acabou ficando e jantando comigo. Tudo desculpa para te esperar. Percebi assim que vi que seu convite estava à mão e o meu não.
Ah, o convite!
Sorrio largo, me lembrando de cada palavra lá escrita.
“Por favor, venha dividir esse momento chato e entediante comigo. Distraia-me e faça-me feliz nessa coisa careta, que chamam de “festa” de aniversário.
Estarei te esperando ansiosamente,
Atenciosamente, Theo.”
– Vocês estão, definitivamente, dormindo juntos! E você deveria ter me dito. Ele ficou em choque quando disse que você estava saindo com alguém.
Fecho os olhos por um momento. Ela continua voltando para essa história, o tempo todo, desde ontem.
– É sem fundamento isso! Eu não estou saindo com ninguém e não acho que dei a entender isso em momento algum.
Ela revira os olhos.
– Sua coberta deu!
– O quê?
Ela se inclina um pouco e diz em voz baixa, só para que eu escute.
– Tinha porra na sua coberta, Diana! Não me vem com xixi de gato que eu sei reconhecer muito bem!
– Era xixi de gato, Terry! — Digo agitada. Mas que coisa ridícula! — A menos que Tyler tenha batido uma lá. Porque ele é o único homem que tem estado naquele quarto desde sempre!
Ela não responde, fica me encarando e então morde o lábio.
– E o Theo, né?
Jogo a cabeça para trás. Theo esteve em casa segunda e teve tempo, isso é fato, enquanto eu tomava banho. Mas duvido que ele faria algo assim. Ele é um cavalheiro e se quisesse fazer tal coisa, não duvido que me avisaria. “– Hei, Dia, vou bater uma na sua cama, tudo bem?”.
– Já chega, Terry! Se fosse assim eu te diria.
– Como disse que estava rolando algo? Que ele te dá presentes?
Ela parece um pouco chateada agora. Mas por favor, até segunda à noite nós éramos apenas amigas de bar. Saímos algumas vezes para beber e geralmente Tyler estava junto. E só!
– Sem segredos a partir de hoje, eu prometo! — Digo, na tentativa de reanimar seu ânimo.
Ela está séria, mas logo seu rosto começa a ganhar dobrinhas de um sorriso.
– Ok... Então, vocês transaram?
– Não!
***
Depois de almoçar, em um restaurante relativamente famoso e bem carinho, Terry e eu fomos a tal loja de fantasias que ela falou a manhã toda.
Eu estou tendo um bom dia, embora ainda chateada. Mas a companhia da Terry é muito agradável. Ela me impede de me fechar como uma bola em algum canto e ficar revivendo, lentamente, meu inferno pessoal.
E também, acho que me cansei tanto emocionalmente ontem, que hoje meu cérebro ainda não ligou totalmente. Acho que estou funcionado com apenas 40% dele ligado. Mas, esses 40% são suficientes para saber que nada que eu alugue ou compre hoje ficará seco, depois de levado, para essa noite. E eu me recuso a usar algo sujo.
– Que tal essa? — Ela ergue uma saia cheia de enfeites, nem mesmo sei de que isso é fantasia.
Nego.
– E essa? — Agora é uma roupa minúscula, com uma capa vermelha. Acho que é Chapeuzinho Vermelho, mas não tenho certeza. Falta pano para confirmar!
Nego.
– Não vou usar nada daqui. Sério, as pessoas alugam isso, Terry! — Ando atrás dela, entre os corredores abarrotados de roupas coloridas e apetrechos. — Algumas delas nem tomam banho e muitas dessas peças, nem lavadas foram depois. Você pode pegar até câncer de pele usando isso.
Ela para e me olha, arregala os olhos.
– Você não colabora, mesmo, não é?
Suspiro e nego.
Me sinto confortável com ela. Acho até que me soltei mais. Mas ainda continuo me sentindo pesada, chateada comigo mesma.
Tyler não ligou e duvido que o faça em algum momento. Ele já deve saber que não fui à consulta e vai esperar que eu corra atrás e me explique. Mas o que eu vou explicar? “Eu sou maluca, por isso não fui! Compreende?”.
– O que usaremos então? — Ela pergunta, já começando a concordar comigo.
Olho em volta, tentando ter alguma ideia.
– Podemos aproveitar o que Tyler levou. Só que trocar aquele vestido por um terninho branco? — Sugiro.
– Parece bom. Theo é rico, certo? Será que ele dará uma daquelas festas cheia de pessoas engomadinhas?
– Você sabe que ele é rico. — Digo a ela. — Então, provavelmente. Ele disso que é uma festa de empresa, na verdade.
Ela se apoia em um balcão com acessórios e leva uma das mãos na cintura.
– Ora, e como é que eu saberia que ele é rico? Aliás, você tem razão. Dá pra saber. Aquele perfume gostoso e aqueles ternos que dão vontade de roubar só para se enrolar depois e ficar sentindo o tecido caro e macio na pele. — Ela joga o cabelo ruivo para trás e gargalha com gosto. — E aquelas unhas bem feitas? Eu nunca vi um homem com uma mão tão bonita! Ele usa base. E das boas. Não tinha cutícula alguma também!
Oh, meu deus! Ela reparou até nisso?
– Vocês estão transando? — Pergunto debochada, mas sentindo uma pontadinha de ciúmes por ela ser tão reparadora.
– Só nos meus sonhos, queridinha! — Ela pisca para mim.
– De qualquer forma – Tento mandar minha mente para longe desse caminho de possessividade em que o nome de Theodor me coloca. — Eu estava pensando mais no nome dele. Blake! Acho que isso é mais que suficiente para deixar claro o seu status.
Estico a minha mão e pego um tipo de tridente vermelho. O ergo e estudo por um momento.
– O único Blake que eu consigo me lembrar... — Ela morde o lábio e franze o cenho. — É aquele logo enorme daquela loja de carros importados no centro.
Faço um gesto afirmativo coma cabeça. Ela arregala os olhos e leva a mão ao peito.
– Não... É sério? Ele é o mesmo Blake? — Terry praticamente grita e tudo que posso fazer é concordar e olhar em volta, envergonhada, torcendo para que não nos deem atenção. — Por que não me disse isso antes? Pelo amor, Diana! Eu teria embebedado aquele cara e o estuprado. Engravidado na mesma noite para obrigá-lo a se casar comigo. E então, seriamos felizes para sempre, em um casamento por obrigação, mas que se tornou uma grande história de amor.
Fico a olhando. Ela até olha para o teto enquanto mantém sua melhor cara sonhadora. Então ela suspira e volta ao normal. Se endireita, apoia os cotovelos no balcão e me olha com um grande sorriso nos lábios.
– Mas então, vocês, definitivamente, estão transando!
– Cala a boca, Terry!
***
Estou no meu quarto, olhando para minha fantasia improvisada. Não está tão mal. Dou uma virada e olho para minha bunda. Está bonita. Não como em um jeans, mas acho que a calça do terninho vermelho acentuou um pouco minhas curvas. Volto a ficar de frente, me sentindo um pouco exposta demais. O corpete negro, que Tyler me deu, se ajustou bem ao meu corpo. Bem demais, na verdade. Meus seios parecem prestes a escapar. Não tenho certeza sobre a roupa, mas Terry e eu já estamos atrasadas.
Atrasamo-nos enquanto a arrumávamos. Ela não seguiu a minha ideia e acabamos passando a tarde colocando strass dourado em um vestido branco, com renda nas bordas do decote e saia. Já passava das nove quando comecei a me arrumar.
Por sorte, deu tempo de ir ao cabeleireiro antes de voltarmos para casa. Terry optou por longos cachos vermelhos e eu por uma escova com as pontas levemente onduladas, bem levemente, e, o cabelo jogado para o lado. Tá certo que minha opção é quase algo normal, do dia a dia. Mas, não tem muita opção pra esse cabelo. Cachinhos não ficariam bem, os deixariam mais curtos, coque eu já uso quase sempre.
Opção nenhuma para minha pobre cabeleira. Mas, nós aproveitamos a ida ao salão e passamos pelas mãos de uma maquiadora fantástica!
Ela usava luvas e depois de acabar a da Terry trocou-as por novas e usou outros pincéis em mim. Não acho que estivessem limpos, os pincéis, ela só deve trocar e nem mesmo limpar os outros, mas tudo bem. Só o fato de ter feito isso me deixou menos apreensiva.
Estudo meu rosto. Tenho olhos chamativos agora, com sombra escura esfumaçada, blush e batom vermelho. Na orelha uso um brinco negro, com duas pedrinhas brilhantes, meu corpete negro, que revela muito mais do que eu poderia sonhar, combina com ele e minhas unhas, pintadas de preto. Optei por uma sandália preta, de salto agulha.
Visto o blazer vermelho, pego os acessórios que compramos mais cedo, agora limpos – Preciso dizer – Minha bolsa de mão, preta, e meu celular. Então desço, encontro Terry no banheiro do corredor. Ela tem a porta aberta e usa o espelho, retocando a maquiagem clara, quase natural. Ela vestiu as asas por cima do vestido branco que para no meio das coxas e vestiu um salto dourado, então colocou um arco com uma auréola em cima, que veio com a fantasia.
Ela está incrível.
– Vamos? — Pergunto.
Ela passa a mão no vestido, tirando as ondulações.
– Sim, mas eu acho que invertemos de papel, sabe? — Terry apaga a luz do banheiro e me empurra.
– Eu não acho. Você está realmente brilhante hoje. — Lhe conto. — Eu estou vestida de acordo com como estou me sentindo.
– Dramática!
Ela pega a mala de rodinhas perto da porta e sai.
Terry disse que ficaria comigo mais alguns dias antes de se juntar a sua mãe. Mas, eu não podia permitir. Eu sei que tudo que ela fez hoje foi influenciado pelo meu momento de fraqueza de ontem, e não poderia conviver comigo mesma sabendo que estou atrasando ela. Então, eu fiz o meu rosto mais sério e a critiquei por mudar os planos por mim. Mas, no fundo, queria que ela ignorasse e ficasse comigo...
Resultado da minha chatice: Ela vai para casa da mãe quando acabar a festa e ficarei sozinha...
Bem, não posso atrasar a vida de mais ninguém. Minha mente não aguentaria a culpa por algo mais.
Vamos no carro de Terry e é ela quem dirige, enquanto eu vou lhe dizendo como chegar pelo mapa. Eu tenho um GPS no meu carro, mas quem disse que conseguimos tirá-lo para pôr no dela? Têm certas coisas que mulheres não servem para fazer mesmo. Ou talvez só falte paciência.
– O que comprou para o Senhor rico e tremendamente gostoso Blake? — Ela pergunta. O presente dela me tirou muitos risos, é um kit de churrasco. Ela disse que todo homem precisa de um. Até concordo com isso, mas, não consigo ver Theo fazendo churrasco. No mínimo ele iria salgar a carne e a deixar no ponto para ir para o lixo e não para o prato.
– Eu não vou contar. — Digo pela décima vez no dia. Eu guardei tudo em uma caixa vermelha bonita e fiz um laço com uma fita prata que achei. Isso, claro, quando ela estava no banheiro, de forma que ela não viu o que era.
– Eu vou abrir essa caixa assim que chegarmos lá.
– A curiosidade matou o gato! — Digo.
– Matou nada! Isso é coisa de avó malvada para enganar os netos. A curiosidade alertou o gato, isso sim!
– Se você diz... — Fico quieta quando entramos na rua indicada no convite.
– Cacete, Diana! — Terry diz surpresa. A rua só tem uma casa e ela é imensa. Não sei de que cor exatamente, porque há várias lâmpadas que mudam de cor ao longo do lugar. — Se você não estiver transando com ele mesmo, eu gostaria de começar. Ainda hoje!
Dou um tapa no ombro da minha amiga.
Eu não estou transando com Theo, mas se fosse transar com alguém, devo concordar com ela, ele é um bom partido. No entanto, o que, aparentemente, o engrandece aos olhos dela, não me atrai.
O dinheiro do Theo, definitivamente, não é o que me chama atenção a seu respeito.
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