À flor da pele
31 Deslumbrada
Notas iniciais
Diana
Pego minha bolsa e o tridente e abro a porta, não estou pensando com clareza. Quando fico nervosa, é como se ficasse cega também. Então, para deixar a situação ainda melhor, eu não vejo que tem alguém do lado de fora da porta e dou de encontro.
Dou alguns passos para trás e me seguro na porta para me firmar.
– Desculpe. — Digo, sem olhar em quem bati. O som parece mais baixo aqui, mas não acho que esteja realmente. Acredito que as paredes o abafam.
Tento me desviar de quem está à minha frente, mas então a pessoa dá um passo para onde eu pretendia ir, me bloqueando. Sou obrigada a levantar a cabeça e encarar seja quem for.
Os olhos escuros de Theo encontram os meus. Dessa vez não parecem verdes, não sem a luz do Sol. Ele não tem mais a máscara, o cabelo continua puxado para trás, e tenho vontade de bagunçar. Ou nem tanto agora. Me sinto imunda demais, não quero contaminá-lo.
– Você não parece bem. — Ele diz, tão perto...
– Estou ótima. — Tento sair pelo outro lado e ele dá outro passo, me bloqueando mais uma vez. Isso é irritante.
– Está indo embora?
Desvio de seus olhos, baixo a cabeça e encaro meus pés. Pés bonitos até, com unhas bem esmaltadas, mas imundos. Sujeira invisível, mas ainda sujeira.
Ele não entende...
– Ainda não. — Minto — Só tentando sair do... Banheiro. Mas logo estarei indo, estou tão cansada, o dia de ontem foi... Exaustivo.
Vejo sua mão se levantar, lentamente, e se aproximar. Ele toca meu queixo e me força a olhar em seus olhos de novo.
– Eu me preocupo com você, não posso evitar.
O que isso quer dizer?
Espero uma continuação, mas suas palavras vêm. Não sobre esse tema, pelo menos.
– Quero que veja algo. — Ele diz e solta meu queixo, deixa seus dedos deslizarem pelo meu braço, e arrepiar-me inteirinha, para então segurar minha mão. E compartilhar de toda a minha sujeira.
Sou puxada através do corredor que percorri, mas não voltamos para a festa barulhenta, ele me leva para as escadas. Subimos devagar e isso me dá a chance de dar uma olhada para trás, para a pista de dança. Os tecidos atrapalham um pouco a vista, mas acho que vejo Terry no centro da pista, dançando com um cara. Não tenho certeza. Mas, de qualquer forma, ela deve estar se divertindo, mais do que eu certamente.
Ao fim da escada, sou guiada por um corredor ainda mais largo e longo, eu diria que o andar de baixo da minha casa tem a mesma medida... É um mundo tão diferente...
Há alguns quadros pendurados, imagens de paisagens e vários aparadores com arranjos de flores e porta-retratos em cima. Tem fotos do Theo.
Dou uma leve puxada em minha mão, o fazendo desacelerar. Eu quero ver as imagens, quero ver todos os pedacinhos de Theodor que estão espalhados.
Eu sei que é ele nas fotos pelos olhos e o cabelo. E pela péssima atitude, como se fosse um rei. Cabeça erguida, costas ereta, cara de poucos amigos. Não que ele seja assim. Bem, na verdade sim. Eu o vi desagrado com algo algumas vezes. Ele faz essa mesma cara, até mesmo quando se distrai, como se fosse seu semblante natural. Talvez os sorrisos sejam só para mim...
Mordo o lábio para conter o sorriso bobo que nasce.
Há varias fotos dele criança. Vestido de super-herói, andando de bicicleta, em uma ele está na frente de um bolo, é seu aniversário de 11 anos, ao julgar pela vela. Em outra, tem ele adolescente, mais magro, de aparelho nos dentes. Logo ao lado dessa, tem uma da sua versão adolescente com músculos. Em todas elas, a riqueza e o luxo estão presentes, deixando claro que viemos de lugares bem distintos. Minha família nunca foi pobre, mas não tínhamos tanto assim. Nosso melhor momento passa muito longe disso tudo.
Nós continuamos andando pelo corredor, de mãos dadas, lentamente. Ele não olha para as fotos.
Jane não aparece em nenhuma das imagens, noto. Mas há duas mulheres que aparecem na maioria. Uma de cabelos loiros, de semblante tão duro quanto o que Eleonor gosta de exibir e, aparentemente, com idade semelhante também. A outra tem cabelos curtos, brancos pela idade. Ela parece ter uns 60 anos, mais ou menos.
Em algumas dessas fotos, há um rapaz que eu não faço ideia de quem seja, mas não acho que tenha parentesco com Theodor. Eles nunca estão perto um do outro e são muito diferentes fisicamente. O rapaz tem cabelos ruivos e ondulados, o rosto sardento me lembra do Junior, embora esse não seja gorducho.
Em uma única foto, um terceiro homem aparece, um mais velho, Theo não está nela. A mulher loira, o homem o ruivo apenas.
Eu não sei como entender isso.
É como um túnel do tempo, cheio de história e... Significado nenhum. Em nenhuma dessas fotos, Theo parece feliz, é como se tivessem sido tiradas por obrigação e exibidas ali pelo mesmo motivo. Até mesmo eu tenho fotos em família que são agradáveis. Nós sempre colocávamos nosso melhor sorriso para isso. Podíamos não ter uma convivência agradável, mas nos amávamos o suficiente para estar feliz pela companhia um do outro. Ao menos no começo.
– Por que você não sorri nas fotos?
– Não sou muito fotogênico. — Diz, como se isso explicasse alguma coisa. Talvez para outras pessoas sim, mas não para mim.
– Não se dá bem com sua família? — Insisto.
Sinto sua mão apertar um pouco mais a minha e então soltá-la de vez. Me coloco em sua frente, para encará-lo. Ele está chateado. O que me faz ter certeza da minha suposição.
Theo desvia o olhar, me deixa sentindo culpa outra vez. Ele dá alguns passos para longe de mim e para em frente a uma porta grande de madeira, gira a maçaneta e a abre.
– Primeiro as damas. — Diz, mas sem me olhar.
Eu precisava mesmo terminar a noite com chave ouro. Me sentir desconfortável não bastava, eu tinha que fazer outra pessoa se sentir igual. Acho que é um mecanismo automático de defesa.
Entro em um cômodo escuro. A luz vinda de trás de mim, do corredor, me deixa ver uma cama, é um quarto. Então a luz se vai. A porta é fechada e sou engolida pelo breu.
– Theo... — Estendo minha mão, a procura de um interruptor, mas o que sinto é um tecido macio sobre uma superfície dura.
– Confia em mim...– Ele sussurra e me puxa para perto, praticamente colando-me junto a ele.
Começamos a nos movimentar, juntos, sem nada enxergar. Fico só a espera de uma parede, na qual baterei meu nariz. Mas ela não chega.
Paramos e então ele me solta.
Não tenho medo de escuro, mas a incapacidade de ver e saber que tem outra pessoa perto, me deixa ansiosa.
Escuto um barulho, como uma tranca e então... Luz. Não de uma lâmpada, mas de várias, vindas de fora. Estou diante de uma varanda, que dá vista para o jardim, onde as tendas foram montadas. Não há muitas pessoas do lado de fora agora, então, não somos notados.
– Olha. — Ele aponta além do jardim, para um campo muito grande e bem iluminado.
– O que é?
Sua mão descansa em minhas costas. Aliás, não descansam, sobem rapidamente para meus ombros, me puxando para perto e me mantendo ali... Abraçada, com a cabeça apoiada em seu ombro.
– É um campo de golfe. Uma longa e estúpida história, te garanto. — Ele diz com uma nota de ansiedade em sua voz. — Um dia vou te contar, mas agora, basta saber que isso tudo se chama ego. A casa, o campo, tudo. No entanto, é uma vista incrível.
E é mesmo. O campo é mais abaixo da propriedade, o que impede que quem esteja no jardim o perceba facilmente. Mas as tantas luzes ali deixam toda sua beleza exposta. Incluindo um lago no centro. Pelo menos parece um. Pode ser um campo de grama mais escura e toda a iluminação, na verdade, crie uma grande ilusão.
– Uma pergunta. — Começo a me sentir mais calma.
– Diga. — Sinto um pouco de apreensão em sua voz. Talvez ele pense que vou perguntar de sua família de novo. Vontade eu tenho, mas já ficou claro que não terei respostas sobre.
– Esse tamanho todo, que se chama ego... — Ele começa a rir antes mesmo que eu termine. — Teria a ver com o seu? Aquele que você guarda em um cômodo?
Theo me aperta mais e dá um beijo em minha testa.
– Não, Dia, definitivamente não!
– Não custava perguntar. — Ficamos em silêncio. Apenas observando. Aposto que seria lindo ver as estrelas, do meio daquele campo. Com as luzes apagadas, é claro. — Nós podemos ir lá?
– Claro.
A resposta é tão rápida, e tão cheia de notas de ansiedade. Eu não quis dizer agora, será que ele quis?
– Isso é incrível Theo, é uma vista perfeita e a casa é linda. — Verdade. — Menos o banheiro lá de baixo. — Verdade de novo e, ele deve concordar, porque começa a rir com gosto. Seu corpo todo treme ao meu lado e sou pega de surpresa quando sou empurrada, gentilmente, para longe, para então ser envolvida por dois braços fortes e tenho minhas costas coladas a seu peito.
E isso é muito excitante...
– Era o escritório da minha mãe... A Jane e ela tem um longo histórico de desentendimentos e estão no seu pior momento. Tive uma surpresa também ao voltar. Minha mãe estava fora, voltou na quinta. Imagina sua cara ao se deparar com um banheiro...
Isso não pode ser sério.
– É uma piada, certo?
Sinto um peso em meu ombro, onde ele descansou seu queixo...
– o que você acha...?– Sussurra em meu ouvido. Aquele maldito sussurro sexy que me derruba.
Suas mãos estão em minha barriga, sobre o tecido do corpete e do blazer, e se movimentam lentamente, em uma massagem...
Sinto sua respiração fazer cócegas em minha pele do pescoço. E fica mais forte a cada instante... Mais forte... Mais perto...
Fecho os olhos e aproveito cada sensação.
Não sei o porquê deixo Theodor se aproximar tanto. Mas faço isso, desde o dia em que o conheci. Mesmo antes de ficarmos amigos realmente, antes mesmo dele me notar naquele parque, quando eu... O vigiava de longe. Ele tem o poder de me fazer sentir essas tantas coisas confusas e estranhas ao mesmo tempo e de sufocar meus piores medos. Ou vivê-los.
Acho que na verdade, me obrigo a estar bem perto dele, porque não quero que se envergonhe de mim. Ou se afaste. Mas, isso não é certo, eu sei que não. Chegará um momento que terei que afastá-lo e não sei se poderei. Não sei se quero, mas tenho certeza que me arrependei se não o fizer.
Minhas pernas fraquejam quando os lábios quentes dele tocam a minha pele. O formigamento que seus lábios causam se espalha por todo meu corpo. Mas, apenas tocar minha pele com os lábios não é o bastante para ele. Ou para mim.
Sua língua encontra o local que seus lábios estiveram antes e acho que nunca tive algo tão íntimo com um cara antes. Eu dei beijos, mas se limitavam aos lábios e depois de escovarem os dentes. Não consigo imaginar o quão inadequado e sujo isso é. Mas é bom. É diferente, uma sensação única e animadora.
É tão bom...
Seus braços se fecham ainda mais a meu redor, me forçando a encostar nele. Costas, bunda... Tudo. Eu posso senti-lo por inteiro... A firmeza de seu peito e de seu... Membro. É duro, grande...
Será que Theodor pensa que sou fácil? Não deveria deixar... Preciso dizer não.
Diga não Diana! O faça parar!
Os lábios se fecham em meu pescoço, e ele começa a sugar aquele ponto. Ele se esfrega em mim... Oh, não! Não é ele. Sou eu...
Meu corpo parece ganhar vida. Talvez eu tenha sido possuída pelo espirito de uma prostituta. Como eu posso me movimentar dessa forma? É tão vergonhoso!
E não paro... Minha mente sabe que não é certo, mas meu corpo necessita de Theodor. Deixo minha bolsa escorregar de meus dedos e nem mesmo o baque dela batendo no chão me traz algum juízo.
Isso é tão inadequado! Depois dessa noite eu nunca mais vou olhar para ele, será impossível.
A mão de Theo sobe, sorrateiramente, em direção a meu seio esquerdo, que ele cobre, sobre o corpete. Seu polegar encontra o bico duro do meu mamilo e faz círculos sobre ele.
A outra mão vai para trás, encontrando minha bunda e a apertando com força, então vai voltando, lentamente para frente, para a parte proibida e quebrando o encanto.
– Não...
Me afasto dele assim que seus dedos tentam ir para dentro da minha calça. Mas não consigo escapar realmente. O máximo que posso fazer é me afastar o bastante para virar e encará-lo. Mas sem realmente fazê-lo. Está escuro, a única luz que há no cômodo é a que vêm de fora, da festa. Não sei para onde ir.
– Não vou fazer sexo com você, Theodor. — Digo com o máximo de firmeza que meu corpo trêmulo e voz desejosa permitem.
Posso ver vagamente os traços de seu rosto e percebo o sorriso se alargando em meio a respiração descompassada. Ele me puxa para seus braços, colando meus seios ao seu peito duro, e embora eu me repudie pela situação que o deixei criar, estou curiosa para saber como ele é por baixo de todo esse pano.
Eu tenho imaginado isso, secretamente, por todas as manhãs quando o vejo ir para o café. Eu gosto, particularmente, da visão dele de costas. Do movimento que sua bunda faz...
Meu deus, o que eu estou pensando?
Chacoalho a cabeça para mandar esses pensamentos inapropriados para longe e me concentro nele, em escapar dessa situação.
– Tudo bem. Nós não estamos transando, Dia. — Ele diz,simplesmente, como se fosse uma conversa corriqueira. — Estamos apenas... — E então ele me puxa, sem pena alguma, de encontro a seu corpo, deixando-me senti-lo com mais partes além dos seios. E se de costas já era bom... — Nos conhecendo...
Tento contestar suas palavras, mas ele me cala. Com os lábios.
Lábios famintos e mãos abusadas, que seguram minhas nádegas com força, me erguendo e forçando a esfregar-me em seu... Seu... Bem, em suas partes.
Depois do aniversário de Theo, quando nos beijamos, tenho desejado, secretamente, que aquilo viesse a se repetir. Mas não estava pronta para isso hoje, minutos atrás eu estava pirando e agora... Mas, já que está acontecendo, porque não aproveitar apenas um pouco? Depois dessa noite nós nunca mais nos veremos. A nossa amizade está condenada.
Aproveito-me dos lábios famintos dele, aproveito-me de sua língua, embora nojenta, se encontrando com a minha. Eu o abraço de volta. Mas não como no terraço do prédio de Tyler. Sou ousada dessa vez. Digo, ousada nos meus padrões...
O abraço pela cintura, descendo minhas mãos pelas suas costas. Por cima do casaco, é claro. Nossas cinturas, movimentando-se juntas, ritmadas, em busca de prazer.
Esse é o tipo de situação que eu sempre evitei me enfiar. Sou uma mulher racional e preciso me manter fiel a isso. Ter controle. O que não estou tendo nesse momento. Na verdade, sinto esse tal de "controle" escapando por entre meus dedos.
O beijo é tão intenso e só percebo tarde demais que estamos, lentamente, andando.
Ele me vira com precisão e me inclina sobre a cama. Me assusto ao bater no colchão e ainda mais quando consigo ver sua silhueta em pé a minha frente, tirando o casaco.
Rápido demais!
A luz do abajur me distrai quando ele a acende. Posso ver o quarto agora e é diferente do que ele tem no apartamento. Tudo é tão organizado. Cores escuras como imaginei que ele preferiria. Do lado da cama, no criado mudo mais próximo, vejo uma foto dele e da Jane. Eles estão em um barco, eu acho. pelo menos parece ser o mar atrás deles. Ele de camiseta branca a abraçando por trás, com o queixo descansado em seu ombro. E ela está linda. De um jeito diferente. Os cabelos estão alguns centímetros mais compridos e ela usa uma blusinha de alça fina rosa, com algumas flores. ambos sorriem, e duvido que seja fingimento.
Não é fotogênico, hein!
– Olhe para mim. — Ele pede, e eu obedeço.
Ele tirou o colete também, está só com uma camisa branca, larga e com gola em v. É parecida com a de Tom e Patrick, tem as mangas bufantes. Eles definitivamente foram juntos escolher suas fantasias.
Seu cabelo está bagunçado, gosto assim. Mas poderia ficar um pouco mais... Como ontem, quando ele apareceu de manhã para corrermos.
– Ainda não farei sexo com você, Theo. — Digo com ênfase no "não", especialmente para mim mesma.
– Estamos só beijando, Dia. — Ele diz, cheio de malícia, apoia o joelho na cama e se debruça sobre mim. Usa um braço esticado como apoio para seu corpo e o outro, ele procura minha mão com a dele, a leva para seu peito, por cima da camisa. Mantêm os olhos firmes nos meus. — Relaxa... Não vou ultrapassar os limites. Prometo.
Limites... Quais serão os dele? Porque os meus ele já ultrapassou faz tempo.
Respiro fundo e começo a repetir mentalmente "Aproveita", "Confia nele". Mas a grande coisa aqui é que eu não confio nem sequer em mim mesma.
A barriga dele tem gominhos. Eu não vi, mas sinto sob o tecido e isso me distrai. Nunca pensei que iria chegar tão perto de uma dessas. Theodor não é para mim. Ele é perfeito, em todo o sentido que essa palavra representa. Eu sou um acidente ambulante à procura da próxima vítima. No entanto, quero tocá-lo, quero ter uma boa lembrança desse momento. Uma lembrança que não tenha germes, crises e brigas, para variar.
Respiro fundo, juntando coragem e descendo a minha mão até a borda da camisa e então tocando em sua pele, por baixo dela.
Theo geme... Ah, ele geme e eu o correspondo imitando o som. Sem querer. É tão sexy. Sinto sua pele quente, sua barriga durinha e o vejo fechando os olhos, aproveitando... Será que ele se sente da mesma forma que eu?
Será que ele tem pelo no peito?
Sou invadida por uma onda de curiosidade e enquanto massageio sua barriga com uma mão, a outra vai puxando a blusa pra cima, a procura de uma resposta. Meus olhos ficam alternando entre minha mão e o rosto dele. Ele não abre os olhos.
Quando não consigo mais subir a camisa, por meu braço não aguentar ficar tanto tempo erguido, decido apelar. Enfio as duas mãos embaixo da blusa e finalmente chego ao destino que queria.
E ele é peludo. Não parece muito, mas é difícil decidir só com as pontas do dedo, certo?
Certíssimo, e em total acordo, Theo se afasta, fica em pé de novo e tira a camisa.
Seguro a respiração por um momento, deslumbrada com a beleza de Theodor e ele não faz questão de se mover, está se exibindo, com o sorriso mais deslavado na cara.
Me sento na cama, ficando muito perto de sua barriga e outras partes. Estendo minha mão para tocá-lo. A barriga dele é tão durinha. Eu sei que não é o mesmo, mas me sinto um pouco invejosa. Gorda. Talvez eu devesse me exercitar mais, voltar com as caminhadas longas e parar de ficar espiando ele. Aliás, isso certamente vai acontecer. Eu não quero que ele me veja mais depois dessa noite, o que significa que terei de alterar toda a minha rotina para evitar encontros.
A mão quente de Theo encontra minha bochecha, me fazendo voltar a atenção para sua barriga. Seu polegar acaricia meu rosto e me vejo perdendo-me, outra vez, em sua beleza. Agora posso ver seu peito e fazer um julgamento apropriado. Ele tem pelo. Não aquela coisa exagerada... Se bem que eu não sei dizer o que é exagerado, o Tyler depila e não tive muitas experiências com pessoas seminuas, ou nuas, apenas alguns acidentes com Ty e seus... Amigos. Mas evitei olhar. Então...
Percebo alguns desenhos nele, que começam no lado direito da barriga e continuam pela lateral do corpo. Vou aproximando meu rosto, virando-o, seguindo os traços, até que ele se vira, fica de lado, e posso ver uma árvore de galhos secos tatuada em sua pele.
Ela cobre a lateral do corpo e se expande alguns centímetros pela barriga e costas. É uma imagem linda... E perturbadora.
– O que significa? — Pergunto, passando os dedos nos galhos secos.
– É apenas um desenho. — Ele diz, não me convencendo. Por qual motivo as pessoas tatuam coisas em suas peles?
Ah, sim... Por beber demais!
– Você tem mais?
– Mais uma...– Ele sussurra. - Você tem alguma?
Sugo o ar e fico momentaneamente em pânico com essa pergunta. Esse é um daqueles momentos que sua mãe te pega roubando biscoitos antes do jantar. E isso depois dela repetir mil vezes que não era pra pegar nem mesmo uma migalha!
– Não... — Minto. Ele não a verá de qualquer forma.
Minha tatuagem é uma daquelas lembranças da adolescência, que é nublada com álcool e dou graças por isso. Porque o resultado final foi um desastre e não há maneira de que ele tenha acontecido sem que ao menos eu tenha sido amarrada e obrigada. E não duvido nada que Tyler tenha feito isso. É melhor ficar na ignorância e manter um amigo, não?
– Acho que está mentindo... — Ta vendo, telepata! 100% de certeza.
Seu sorriso safado não me foge à vista.
– Acho que você tem uma... — Ele continua — Em algum lugar... Privado...– Voz rouca de novo, que parece mais um carícia...
Nego com um gesto lento de cabeça, mas o sorriso dele é contagiante e se antes ele não queria acreditar nas minhas palavras, agora então, retribuindo essa malícia, é que não vai mesmo.
– Conte-me...– Ele pede.
– Eu não sei do que está falando.
Theo sorri e se aproxima, mas então os barulhos no andar de baixo, na festa, começam a ficarem mais altos. Gritaria, música alta, risadas... Tudo que incomoda.
Theo se levanta e se aproxima das portas da varanda, as fecha, abafando, assim, o som.
E eu não me movo. Eu deveria, sei que deveria, mas não o faço. Só quero olhar para ele, nessa calça apertada e peito nu... Costas largas.. Ah, a tatuagem! A segunda!
– O que é isso?
Ele não se vira pra mim depois de fechar as portas, fica as encarando. Aposto que só esperando para que eu visse. Exibido!
Me levando e caminho até ele, lentamente. Quando estou próxima, toco as linhas em suas costas.
– É um Kanji. — Ele conta.
Os riscos negros da tatuagem, linhas curtas, formam um simbolo.
– É um caractere japonês. — Ele informa — Esse significa... Desejo.
Sinto-me formigar. O calor que sobe em meu corpo me deixa de boca seca. Percebo que estou arfando, assim como ele. Ansiosos talvez? Bem, talvez eu, mas não ele. Theo é um cara que exala controle. Aquele mesmo que eu não consigo manter. Ele parece calcular tudo antes de fazer alguma coisa. O que me faz temer essa noite. Eu não quero ser mais um nome em uma lista. Não que eu o deixe chegar tão longe a ponto de ir para uma...
Olho sua tatuagem com mais atenção, é bonita. Mas me pergunto se significa isso mesmo. Talvez seja uma mentira o que ele contou, e é uma cantada para pegar mulher...
– O que você deseja? — Pergunto, tentando soar firme.
Theodor se vira para mim e nossos olhos se encontram.
– Nesse momento?– Diz roucamente.
Como se eu precisasse perguntar o que ele deseja "agora". Está mais que evidente.
– Quando... Quando a fez! — Desvio o olhar, tendo certeza que devo estar da cor do meu terninho. Acho que nunca senti tanta vergonha em minha vida e no entanto, eu não quero que acabe. Estes são bons momentos que quero guardar.
– Você conseguiu o que queria, quando a fez? — Tento mudar de assunto. Aliás, conseguir um. Enquanto ele estiver falando, ele não estará me beijando e isso contribui imensamente para minha sanidade mental.
Ele suspira e sorri. Sem malicia dessa vez.
– Eu ainda estou trabalhando para isso.
Aposto que está. Eu não sei como é a vida dele. Não sei como é seu trabalho e se ele realmente tem algum. Talvez ele tenha quem o faça por ele e só sobre horas e mais horas do dia que ele precisa ocupar de alguma forma. O Theodor Blake de verdade pode ser muito diferente do que eu imagino e penso conhecer. As pessoas fazem isso, elas criam personagens. Mas suas palavras, nesse momento, pareceram verdadeiras, importantes.
Talvez a tatuagem não signifique realmente o que ele disse, talvez seja realmente para pegar mulher, mas acho que ele tem, de verdade, um objetivo. Algo maior que simplesmente ter uma transa. Acho que, sem querer, talvez, ele me deixou ver um pedaço do Theodor Blake de verdade, aquele que eu ainda não conheci.
– Você vai chegar lá. Eu sei que vai. — Digo. Se ele estiver falando sobre algo sexual, estou lascada e acabei de falar merda. Mas acredito que, assim como a árvore e esse caractere, tudo que rodeia esse homem tem um significado.
– Eu vou... — E sem aviso, ele me captura, segurando minha nuca, enfiando os dedos em meus cabelos e me puxando com força a seu encontro, colando minha boca na sua. Não que ele precise forçar...
O beijo é diferente.
Eu sempre achei que nos livros que lia, os autores exageravam na hora de descrever um beijo. Mas eu estava errada. Eu descobri com Theodor que eles não são iguais e não são simples. São tão complicados e expressivos quanto manter uma conversa.
Seu lado desesperado e faminto de mais cedo, me beijou de uma maneira única e me rendeu a seus pés, me fez prestar atenção a ele e não aos meus problemas. Mas no terraço, na quinta feira, o beijo foi diferente. Calmo, delicado, explorador. E esse? Eu não sei... Ele tem tanto significado que é difícil escolher apenas um.
Ele está me contanto coisas por meio disso. Está me deixando, mais uma vez, ver além da máscara que, aparentemente, usa para mim.
Sou colocada na cama de novo, dessa vez sentada e ele logo está a minha frente, de joelhos. Nossos lábios se separam, para que ele possa me olhar.
Theo leva as mãos aos meus ombros e desliza meu blazer lentamente por eles, então pelos braços...
Me sinto exposta com o corpete a vista. Mas também poderosa. Como se eu pudesse fazer qualquer coisa. Eu não tenho muito desses momentos. Então, preciso saber apreciá-los.
– Eu sabia...– Ele se aproxima e deposita um beijo em meu ombro. Só um selinho e então aprofunda, como se beijasse meus lábios. Até sinto sua língua em minha pele.
– O quê? — Pergunto, para tentar focar a minha mente em algo mais.
– Que ficaria perfeito em você...
– Não... Entendo... – Estou sussurrando também, completamente encantada pelo momento.
– O corpete... Eu sabia que ficaria perfeito.
Para tudo.
Sinto arrepio, um frio se instalar em meu íntimo. É angustiante e assustador. Imagino que fiquei doente de repente. Mas não... É outra coisa.
– Você já viu essa peça antes? — Pergunto, deixando minha racionalidade, tão subitamente chamada, assumir a situação.
– Sim...– Ele tenta beijar-me outra vez, mas retraio-me e ele então me olha. Me estuda.
– Onde?
Theo não parece mais feliz. Parece confuso. Até mesmo assustado. O que não colabora para que me acalme. Sinto meu peito lutar por ar. Tenho que me obrigar a ficar no controle. Uma crise de pânico não é bem-vinda agora.
– Quando o comprei.
Palavras tão simples, capazes de virar o jogo num estalar de dedos.
Fecho meus olhos, me lembrando de Theodor me olhando na frente da minha casa, esperando que eu entrasse no dia que fomos ao Sherazz. Não... Ele não esperava que eu entrasse. Estava esperando que eu pegasse o… Presente...
– Diana? — Há nota de preocupação em sua voz. Mas eu não quero vê-lo. Só por um momento, preciso me concentrar em não pirar aqui.
Fico de olhos fechados, tentando respirar. Me acalmar...
Não é grande coisa, certo? Ele só mentiu para mim. Todo mundo mente!
– Você me acompanhou até em casa, Theodor, fingiu surpresa ao ver onde eu morava.
Abro os olhos finalmente. Ele está agitado, embora esteja parado. São seus olhos que denunciam a confusão em seu interior.
– Eu não menti. Eu nunca menti para você. — Ele diz, como se me convencer fosse questão de vida ou morte. — Eu não sabia. Pedi a Amy para fazer chegar até você. Até aquela noite, eu não fazia ideia de que morasse tão perto. — Ele deixa suas mãos sobre meus joelhos, os apertando levemente enquanto fala. — Eu sabia que era relativamente perto, porque você sempre passava pela praça... Até que começou a parar nela. — Ele sorri. — Você me observava... No começo achei que era bobagem da minha parte, apenas um desejo de que fosse assim. Mas então você veio sem os óculos escuros em um dos dias, quando estava garoando. E eu tive certeza...
Suas mãos capturam meu rosto, mas elas parecem tão frias agora... Mas não deve ser ele, acho que sou eu. Eu estou chateada. Se fosse outra pessoa eu não ligaria, mas é Theodor Blake. Não apenas dizendo que me deu um presente... Íntimo. Mas admitindo que sabia que eu estava lá todas as manhãs, vendo ele, sendo, praticamente, uma perseguidora.
– Achei adorável. — Ele olha para baixo por um instante, com um sorriso tão meigo.
Eu não tenho medo dele, eu tenho vergonha. Imaginar que ele sabia era uma coisa, mas ouvir tão descaradamente e com detalhes... Será que ele pensa que o estou seguindo? Aliás, eu estou?
– Theo?– Uma voz chama. Olho para trás, imaginando que alguém entrou no quarto, mas ainda estamos sozinhos.
– O que é? — Ele responde, parecendo irritado.
– Preciso de você lá embaixo, é a Jane...– Essa voz é da Amy. Será que ela sabe que estou aqui?
– Droga...
Theo se levanta e recupera a camisa, a vestindo. Coloca o casaco por cima, deixando o colete de fora, e passa a mão nos cabelos, tentando os organizar. O que não funciona muito bem. Ele parece que acabou de... Trepar, como diria Tyler.
– Não saia daqui, ok? Eu já volto. — Ele me beija na testa, está preocupado. Agora é sua voz que o entrega. Só não sei se comigo ou pelo motivo que o tira do quarto.
Ele se afasta, abre a porta e sai. Não sei se Amy me vê, não olho. A vergonha não permite.
Fico imóvel, por não sei quanto tempo, então a realidade me estapeia.
Eu não acredito que fiz isso. Que estava com Theodor seminu aqui e não demoraria muito para estar do mesmo jeito.
Theodor Blake. O cara que eu observo como uma maluca obsessiva.
Eu deveria me sentir amedrontada, talvez. Ele acabou de admitir que me observava também e me deu algo muito... Peculiar, por assim dizer, de presente. Acho que em outra situação, eu me assustaria. Entraria em pânico e possivelmente teria uma crise em sua frente por tal declaração.
Mas fica difícil se assustar com alguém que faz exatamente a mesma coisa que você. Embora, eu não tenha passado do limite com um presente. Ou talvez eu só esteja vendo da forma errada. Ele passou do limite ou deu um próximo passo? O que poderia acontecer se apenas continuássemos com esse jogo? Talvez nada.
Acho que não ficaria feliz com nada. Mas agora, é exatamente isso que vai acontecer. Definitivamente esse é o fim dessa relação...
Sinto vontade de procurar Tyler e me jogar nos braços dele. Mas não posso. Não tenho direito de arrastá-lo para o fundo do poço comigo todas às vezes que algo sair errado. Aquela conversa que tivemos era justamente sobre isso. E agora acho que o entendo. Ao menor sinal de fumaça estou o procurando, me lançando sobre ele como um míssil e o deixando cuidar de toda a bagunça que fica depois.
Respiro fundo. Hora de andar sozinha.
Coloco meu blazer e procuro minha bolsa. A encontro caída perto da porta da varanda. Chamo um táxi ainda do quarto.
Espero que Terry esteja bem, não a vi mais desde que chegamos e agora vou abandoná-la aqui. Mas, ficar não é mais possível.
Saio do quarto e passo o corredor correndo. Quando desço as escadas, as pessoas estão dançando e bebendo, nem me percebem. Consigo sair sem problemas, sem interferência. E fico feliz por isso. E triste. E muito envergonhada, torcendo para um buraco abrir e me tragar. E sinto um pouco de raiva também, mas não sei sobre o quê, exatamente.
Isso é ser mulher? Não saber como se sentir? Ou isso é ser eu? Maluca, como diz Tyler.
Eu passo pelo carro da Terry e fico na esquina da rua, até que avisto o carro amarelo se aproximando devagar. Aceno e o motorista para próximo a mim. Confirma se eu que fiz o pedido e então destrava a porta. Acho que nunca me senti tão aliviada por sair de um lugar.
E agora é isso... Hora de fazer um replanejamento de rotina.
Fale com o autor