À Esquerda
1 Capítulo 1
Notas iniciais
"Oi, querido, tudo bem?
Espero que sim, sinceramente, pois eu estou bem.
É.
Eu estou bem e a Sarada também.
Hoje ela faz três anos, você sabe, não é? E você provavelmente não está aqui com a gente — se você está lendo isso, é por que está longe.
Você não vai mandar um presente porque isso não é de seu feitio, e também não vai responder essa carta por que deve estar muito ocupado, mas ela não se importa com isso, não ainda. Não se preocupe, querido, quando ela começar a se importar eu estarei aqui para te ajudar.
Como sempre, não é?
Ah, me desculpe pela conversa fiada mas eu realmente gostaria de desabafar um pouco com você. Pare com isso, Sasuke-kun! Sei que está pensando que tenho minhas amigas e o Naruto para isso, mas... bem, o que tenho pra falar é somente para você.
(O Nanadaime ainda não precisa saber disso, não é?)
Sasuke-kun, lembra de alguns anos atrás, quando encontrei sua amiga de cabelos ruivos? Karin?
A míope.
É, eu me lembro também, e lembro que ela não ficou muito feliz em me ver pois me olhou daquele jeito superior e logo entrou no esconderijo do Orochimaru que ela era designada a vigiar. Ela me deu as costas dizendo que eu deveria voltar para minha vila, ou viraria uma nukenin.
Bem, eu já havia desertado a missão, não estava muito preocupada com a possibilidade de ser caçada por estar caçando você, mais uma vez.
Entrei naquele lugar escuro, desviando sempre para a direita, sentindo o cheiro de mofo e sangue preenchendo o ar, e sem que eu percebesse já havia ativado o selo do Byakugou.
O primeiro que encontrei foi seu amigo de cabelos laranjas, Juugo, eu acho, e ele não queria problemas com Karin e nem com você, então tentou me impedir.
Ele era sinistro, mas você sabe que sou mais forte. Eu sou Uchiha Sakura, shannaro!
Karin logo nos interrompeu, carregando nas costas uma mochila térmica que cheirava a anko e dango, ela o imobilizou com seu jutsu de correntes.
Ela é impressionante, à sua maneira.
E Juugo quase conseguiu escapar, mas ela elevou a força do jutsu e poof! Você já deve ter visto, mas caramba!
Ela, mais uma vez, ajeitou os óculos de maneira que sua face depreciasse os outros. Não gostei daquela expressão, mas não falei nada.
“Onde está o Sasuke?", foi o que eu perguntei, e ela ergueu uma sobrancelha pronta para me dizer que você não estava lá, mas eu senti seu chakra, senti sua presença mesmo não sendo uma ninja sensor, e eu gritei seu nome. Lembra? Acho que foi assustador, porque Karin arregalou seus olhos e começou a olhar para as paredes de terra como se fossem desabar.
"S-sua louca! Pare com isso! O Sasuke não -"
A voz dela era bem mais grave do que eu imaginei, e de certo modo aquilo remexeu meu estômago. Ela havia passado quanto tempo com você? Meu Deus, Sasuke-kun, tanta coisa passou pela minha cabeça e eu realmente cogitei a ideia de desistir de você.
Aquela mulher era, sem sombras de dúvidas, sensual.
Meu corpo todo se retesou naquele momento, sabia?, e eu recuei alguns passos até atingir a parede, uma tocha em formato de cobra acima de minha cabeça. Meus cabelos estavam um pouco mais compridos, e eu os toquei nas pontas um segundo antes de correr para a direita mais uma vez.
Corri por algumas centenas de metros, mas seus amigos não me seguiram, e eu parei somente quando encontrei um corredor cheios de quartos na direção da esquerda.
Eu parei em uma bifurcação.
Engraçado, não é, querido?
Estava fazendo o possível para não pegar os caminhos que me guiavam à esquerda porque era superticiosa o suficiente para achar que a esquerda era azarenta — bem, você perdeu seu braço esquerdo, lembra?
Mas você estava lá, a faixa de pano escuro circulando sua cabeça, seu cabelo me impedindo de ver sua face surpresa por completo. Você estava tão diferente, Sasuke-kun...!
Hesitei em me aproximar, porque você estava encostado no quarto da esquerda, me fitando com choque nos olhos e a boca entreaberta. Eu quase sorri. Você não é muito bom em demonstrar suas emoções, mas seus nervos faciais se moveram sem seu consetimento psicológico, não foi?
Você, primeiramente, me chamou pelo nome.
Todo o meu corpo tremeu ao ouvir sua voz.
Estava mais grave, mais máscula.
E você estava mais alto.
Oh!
Chamei seu nome também, um pouco mais baixo, e me aproximei de você.
Você brigou comigo com o olhar, falou algumas coisas sobre Konoha, sobre missões e sobre o Rokudaime — que na época era o Kakashi-sensei, lembra, não é?
Mas, querido, você não ficou feliz por me ver? Por ver um rosto de infância?
Sem querer eu chorei. Você estava perto mais uma vez, mas estava muito longe também.
E parecia que eu estava à esquerda.
Você me tocou na testa mais uma vez, o cenho relaxado e um sorriso incrédulo no canto de sua boca. Disse que não acreditava que eu estaria fazendo aquilo mais uma vez, queria dizer que eu deveria voltar para a vila mas eu o interrompi com um beijo.
Meu Deus, Sasuke-kun! Foi o nosso primeiro beijo e eu o roubei de você!
Você não me empurrou e eu prossegui, ávida por mais e quase estática por estar te tocando tão intimamente depois de dois anos separados, depois de dois anos daquela maldita guerra.
Te empurrei contra aquela maldita parede de terra, senti sua mão em meu ombro, tentou me afastar para longe de seu corpo mas minha paciência havia acabado, querido, e você percebeu isso no momento em que lhe arranhei na nuca, em um ponto coberto por seu cabelo liso e úmido.
Espero que o banho que você havia tomado tivesse sido por si só, sem ajuda daquela mulher ruiva.
Murmurou meu nome mais uma vez e eu olhei para trás, encontrando Karin me fitando chocada por detrás das lentes.
Ela te amava também?
Nada que eu fiz ali tinha o propósito de magoá-la emocionalmente, você sabe, mas eu já estava sendo magoada emocionalmente desde meus doze anos de idade. Ou foi antes disso?
Karin te olhou nos olhos, esperando que você a desse satisfações, mas você era ignorante o bastante sobre mulheres para imaginar algo assim.
Por Deus, Sasuke-kun, você deveria conversar com seus amigos homens antes de observar o mundo!
Maldito caminho de redenção, querido.
Você me apresentou para Karin, e ela rosnou que já me conhecia, e você deve ter se perguntado o que ela fazia ali se já me conhecia, porque ficou parado fitando a linha reta de olhares que se estendia entre aquela mulher e eu.
Ela me odiava.
Com um suspiro, me afastei de você, explicando sobre os motivos que me levaram até ali e esclarecendo que o seguiria até que os ANBU me encontrassem e me fizessem voltar para a vila.
Há!
Você odiou. Tentou controlar sua paciência mas logo cedeu, estreitou os olhos para mim um momento antes de pedir que Karin me entregasse uma mochila com suprimentos.
Iríamos em uma missão naquela madrugada.
Me empolguei por nada, eu sei, mas Sasuke-kun eu estava com você e dessa vez você não estava me afastando como nas outras três vezes que tentei ir embora com você. Você, pelo o que entendi, estava me puxando para perto de você.
(Prometo que não é uma piadinha sobre seu rinnegan!)
Mais tarde, senti que havia começado a chover, mas era difícil saber quando se está no subterrâneo. Karin havia me arrumado um quarto — era bem longe do seu, e ela me assegurou que uma coisa não tinha nada a ver com a outra -, e me ensinou como ligar a torneira da banheira — mas que diabos, hein?
"Lembro de você", ela disse parada na soleira da porta, vestida com um short e uma blusa regata, seus cabelos estavam amarrados em um rabo de cavalo.
Sasuke-kun, mais uma vez senti ciúmes.
"Hm", eu não queria dialogar com ela por ser mal-educada — até porque não sou -, mas simplesmente porque estava com um pouco de raiva pela distância de meu quarto com o seu: "Você me afastou dele de propósito, não foi?"
Ela resmungou, Sasuke-kun, o que entendi como um sim indireto, se aproximou e sentou ao meu lado no colchão.
"Ele não te afasta como faz comigo, Sakura, então faço isso por ele.", ela disse, sincera.
Ela é bem honesta, não é?
"Ele já me afastou por muito tempo, Karin. Se ele parou, é algo bom."
Ela ficou um tempo calada, mas sua expressão era quase como a sua, Sasuke-kun, indiferente e impassível. Mas ela mordeu o lábio e tudo se esclareceu.
Ela era louca por você. Bem mais do que eu imaginei.
"Deve ser. Espero que ele seja feliz", e ela saiu do quarto como se jamais tivesse entrado ali.
Ah, querido, se Karin não tivesse deixado a porta entreaberta — como quem diz "a porta está aberta, cabe a você ultrapassá-la” -, eu jamais teria corrido ao seu quarto vestida do jeito que estava.
Você me disse, na madrugada quando saímos, que Juugo poderia ter me visto daquela maneira.
Shannaro! Quando abri a porta de seu quarto, vi que Karin sabia o que estava fazendo.
Ela era um gênio!
E se aquilo sobre você a afastar fosse verdade, te amo ainda mais, por que ela sabe os momentos mais oportunos para uma conversa sobre relacionamento.
"Karin, me deixe sozinho", você murmurou antes de me olhar, pois estava de costas tentando enrolar aquele seu meio braço estúpido.
Quase te xinguei, Sasuke-kun, shannaro! Não se confunde uma cereja com uma pimenta!
"Que irritante, shannaro!", me aproximei, puxando aquela bandagem com força e senti que ela triscou no machucado mais profundo em seu braço.
Você reclamou, mas não se mexeu, me deixou enrolar seu meio-braço com o cuidado de uma ninja médica — se lembrou de minha profissão naquele momento, não foi?
Quando terminei, você lembra a pergunta que me fez, querido? Você lembra de ter me olhado nos olhos, hesitado três vezes e suspirado quatro? Lembra de ter retesado o corpo e tensionado os membros?
Ah, querido...!
"O... o quanto você me ama, Sakura?"
Você percebeu o quanto que meu corpo se enrijeceu, se arrepiou e cambaleou?
Sei que você percebeu somente naquele momento o quanto tinha poder sobre mim e meu corpo, o quanto tinha — e tem — poder sobre minhas ações.
"Sasuke...kun" sem pensar, querido, comecei a arfar — lembrando agora, isso não te parecesse estranho? -, e precisei me apoiar em seus ombros para não cair: "Você ainda não sabe?"
Você me apertou, e não sei — até hoje! — se foi porque estava tenso ou porque minha pergunta o tinha irritado, mas você apertou meu pulso antes de me olhar nos olhos seriamente.
"Preciso que fale, Sakura"
"Por quê?"
Ah, não me julgue, Sasuke-kun, eu realmente presto muita atenção nos nossos momentos escassos.
"Porque não há motivos para me amar, você sabe, a não ser por, bem, beleza... sou um ex-nukenin, Sakura, como beleza pode ser mais importante que isso?"
Você corou, Sasuke-kun? Desculpe, a luz estava fraca e não tenho certeza se o que vi foi um relance da luminosidade da vela ou se foi o sangue subindo para sua face.
"Porque não é por beleza" assegurei, tirando sua mão de meu pulso para abaixá-la ao lado de meu corpo:"Talvez tenha sido no início, mas logo foi substituído pelo masoquismo e um pouco de desafio, e então foi o sentimento que partiu de nossa amizade, de nosso -"
Querido, você não gosta de ouvir minha voz? Por quê sempre me interrompe, seja com um beijo seja com sua mão?
Shannaro, daquela vez foi um beijo.
Sasuke-kun quantas mulheres você beijou? Não muitas, não é?
Eu senti sua insegurança e sua inexperiência, senti o quanto hesitou a subir sua mão para meu cabelo, senti que não sabia o que fazer quando você não me beijou de língua e eu tive que iniciar isso.
Não, querido, não beijei mais que você nessa vida, mas assisti muitos filmes e li muitos livros e, se te falha a memória, Ino namorava com Sai — lembra dele, não lembra? — e ele tinha certa obsessão por livros educativos.
Eu te guiei naquela noite, querido, mas não citarei detalhes, te guiei até o ponto principal do que estávamos fazendo. Digo, te guiei metade do caminho.
Shannaro, eu não sabia o que fazer quando já estávamos sem roupa e deitados, e tivemos muita dificuldade nisso. Precisávamos de prática, e você sabe que a partir daquele dia — que iniciamos ambos sem conhecer nada -, jamais daríamos oportunidades para o outro praticar com outra pessoa senão conosco.
Querido, isso ficou bem mais longo do que esperei, mas quero que me responda. Afinal, não é a primeira vez que te escrevo sobre nossas boas memórias.
Ps: Me responda assim que ler. Sarada e eu te amamos!"
O sol já estava alto no céu quando Sakura bocejou irritada, não devia ser mais que sete da manhã e havia um falcão bicando sua janela insistentemente.
— Kuso, xi, xi — tentou expulsar a ave antes mesmo de subir a janela, com medo de que o barulho acordasse Sarada no quarto ao lado — Ah — arfou ao perceber que se tratava da ave de seu marido. A adrenalina tonou conta de todo o seu corpo e ela se enrolou no lençol para abrir a janela e retirar o pergaminho que a ave lhe levava.
Resistiu a tentação de dar beijos naquela ave maravilhosa e apenas retirou o pergaminho com o cuidado de não enforcá-lo — falando do pergaminho e não da ave.
Tirou o pequeno lacre com rapidez, tomando nota de que deveria enviar uma bateria extra para o celular de Sasuke, assim que abriu arquejou ao ver a quantidade de linhas que a letra maravilhosa de seu marido tomava.
"Durante a noite tenho insônia, por que não narra os detalhes daquele dia?
Você é uma boa escritora.
Ps: esqueceu-se de que a porta estava fechada, ou fez de propósito? Diga a Sarada que a amo.
O mesmo vale para você."
Sakura coçou a testa, as bochechas coradas e os olhos estreitos pelo constrangimento. Se não tivesse desenrolado o pergaminho um pouco mais, teria deixado passar a frase discreta que dizia que ele a amava. Releu-a várias vezes seguidas.
Sorriu fraco ao constatar que a ave de Sasuke ainda a esperava.
— Vou pegar a bateria, shannaro!
Se fosse escrever novamente, teria foco e força para detalhar os eventos? Teria que escrever sobre os meses que passou fora da vila também? Ou Sasuke só queria ler sobre sexo?
Uma gota se formou em sua cabeça ao imaginar o marido lendo sua carta debaixo de alguma árvore. O que ele acharia se ela escrevesse de seu desespero daquela época ao perceber que Sarada nasceria no esconderijo e, pior!, nas mãos de Karin?
Sakura sorriu, amarrando junto à bateria um bilhete breve que pedia que o marido voltasse logo, e logo o atou ao falcão.
Mas a ave continuava ali.
Franziu o cenho, procurando algo de errado e sem encontrar nada olhou para ave novamente.
Não era possível...
Sorriu abertamente de olhos arregalados, vendo, através da janela, Uchiha Sasuke se aproximando de sua casa.
Ele estava de volta.
Por pouco tempo, ela sabia, mas estava de volta.
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