À Espada Pelo Sangue
8 Capítulo 8 - Desculpas
Notas iniciais
Provavelmente, você deve estar imaginando que depois do meu lindo desempenho no dia da Caça à Bandeira, passei o resto do verão chateada, brigada com o Michael e desejando imensamente sair daquele lugar. Felizmente não foi assim.
Quando acordei, todos os meus irmãos ainda estavam dormindo. Deduzi que haviam ido dormir tarde comemorando a vitória. Pena que eu não participara. Mesmo assim, era bom saber que pelo menos alguém havia se divertido ontem.
Repassando a noite anterior em minha mente, repreendi a mim mesma por me ter permitido ser tomada pela raiva e feito aquela tempestade em um copo d’água. Digo, acho que não fora tão ruim assim. Eu havia encarado, sozinha, um garoto bem forte e uma filha de Ares. Claro, eles quase me feriram, mas aquele monstro que me atacou no primeiro dia havia feito coisa pior. Talvez o mundo mortal fosse realmente muito perigoso para alguém como eu. Eu perdi o controle. De novo. Isso já estava indo longe demais. Eu precisava reaprender a dominar minhas emoções. Ou podia acabar ficando sozinha.
E isso me lembrava de que eu devia um pedido de desculpas a alguém.
Tomei um banho e me aprontei para o café. Antes de sair, abri a caixa com a corujinha. Eu ainda não havia decidido que nome dar a ela, tampouco sabia se era macho ou fêmea. Jake havia apenas me instruído como alimentá-la, e havia ficado de me ensinar sobre os demais cuidados e treinamentos mais tarde. Coloquei direto no pequeno bico da ave a massa triturado que ele havia me entregado. Segundo o que Jake me dissera, era uma mistura de carne de rato e lagarto que eles preparavam para os filhotes. Mas após alguns dias, eu teria que dar-lhe os pedaços inteiros.
Senti um arrepio ao pensar que teria que pegar um rato.
O filhote deu um pio satisfeito e voltou a encolher-se na caixa. Era dia, e, como corujas têm hábitos noturnos, ela estaria dormindo por um bom tempo.
Cumprido o dever, caminhei para fora do Chalé, em direção à praia.
Não fiquei surpresa quando encontrei Percy sentado na areia.
Cheguei por trás dele e tapei seus olhos.
— Hum... Uma dica? – Ele pediu.
— Sou sua cunhada preferida. – Eu ri.
— Ahn... Eu não sei. Atena muitas filhas, sabia?
— A última que você conheceu.
— May?
Destampei seus olhos.
— Acertou! – Sentei ao seu lado.
— Eu sou o cara. – Ele riu cheio de si – Mas e então? Soube que alguém foi dormir cedo ontem.
— Ah, é. – Eu desviei o olhar.
— Você vai me dizer o motivo ou não?
— Do que é que você já sabe?
— Bom, não consegui arrancar muita coisa do Michael. Ele só disse que estava chateada.
— É. Foi mais ou menos isso mesmo. Eu ainda estou me adaptando a tudo isso, e minha primeira experiência no jogo de ontem não foi das melhores.
— Imagino. – Percy sorriu de canto. – E então?
— Eu meio que tive um probleminha com uma garota de Ares. E um outro garoto. – Confessei.
— Explicado. – Ele respondeu – Todo mundo tem problema com os filhos de Ares no começo. Clarisse, a pior de todas, tentou enfiar minha cabeça na privada no meu primeiro dia.
— Sério?
— É sério. – Enfatizou – Annabeth estava comigo na hora. E o que ela fez? Nada. Ela deixou que eu me virasse sozinho.
— Imaginei. Ela também não me ajudou ontem. E pelo que eu entendi, ela viu tudo.
— Mas isso é para o seu próprio bem. Eu só saquei isso bem depois. A questão é que se você não conquista o respeito deles logo, vira capacho e saco de pancadas. Por isso tem que se virar sozinha. Tem muitas crianças que sofrem nas mãos deles. Quíron faz o que pode, mas não dá pra ajudar todo mundo.
Suspirei.
— Você tem razão. – Falei – Estive pensando nisso e, bem, aposto que os monstros são muito piores que os filhos de Ares.
— Isso eu posso garantir. – Ele apontou para o meu ombro.
O ferimento não estava mais lá, mas eu me recordava da dor horrível que fora no momento. As faixas só estavam aí pelo bem do segredo.
O que me lembrava de que eu ainda precisava falar com Quíron sobre isso.
— Oi, gente. – Alguém falou atrás de nós.
Virei-me e me deparei com Annabeth vindo em nossa direção.
— Bom dia, maninha. – Falei.
— Bom dia. Acordou cedo hoje, hein?
— Ei! Eu não acordo tarde sempre!
Ela levantou as mão em sinal de rendição.
— Tá certo. – Ela sentou ao lado de Percy e lhe deu um beijo. – E então? Sobre o que estão conversando?
— Nada de especial. – Respondi – Só sobre o seu fabuloso jogo ontem.
— Meu fabuloso jogo? Que eu saiba, foi você que deu um show.
Revirei os olhos.
— Ah, fala sério. Você me deixou numa posição jurada de morte! O que esperava que eu fizesse?
— Eu não esperava nada. – Ela respondeu – Tento não formar nenhuma expectativa sobre os novatos. Alguns deles decepcionam, outros não.
Ela lançou um olhar significativo para Percy, que rolou os olhos.
— Tá. Só me responda uma coisa: Porque você fez isso? – Perguntei.
— Isso o quê?
— Isso! Colocar-me numa posição onde sabia que não seria fácil para mim.
— Eu não fiz isso com você apenas. Faço isso com todos os novatos.
— E por quê?
— Porque eu preciso saber com quem eu estou contando para os próximos jogos. É só um jeito de observar como as pessoas reagem diante de situações difíceis.
Continuei sem entender, mas desisti de tentar. Tudo bem que eu era filha de Atena, mas aquilo era um pouco de mais para mim no momento.
— Certo, então. – conformei-me.
Olhei para minhas mãos, e observei minha pulseira. Meus dedos não estavam mais cortados, para meu desgosto. Aquele mistério estava me tirando do sério, mas eu sabia que a culpa era minha por ficar adiando a conversa com Quíron.
— A propósito – falei – Annabeth, você disse que uma lâmina de Prata Olimpiana nunca fere seu dono uma vez que o julgue digno, não foi?
Ela assentiu.
— Bom, Prostátida me cortou ontem. Isso deve significar que ela ainda não me aceitou, certo?
— Certo.
— O que devo fazer, então? – perguntei – Como convenço uma espada de que sou digna dela?
Annabeth deu um sorriso meio malicioso demais para o meu gosto.
— Isso você deve perguntar a Quíron quando finalmente for falar com ele sobre esse seu corte milagrosamente curado.
Suspirei. Então, era assim que ia ser...
— Só para deixar claro, eu sei que você tem as respostas, viu? – falei – Só não entendi ainda se não conta por diversão ou se realmente há um bom motivo para isso.
Ela riu.
— Como esperado de uma filha de Atena. – falou e então ficou de pé – Já está na hora do café. Vamos?
— Vamos. – Percy concordou, parecendo aliviado pelo fim da conversa complicada – Estou morrendo de fome.
— Eu também. – Disse eu, levantando apesar da frustração.
Fomos até o pavilhão do refeitório, que já estava cheio. Annabeth e eu fomos para a mesa de Atena e Percy sentou-se sozinho na mesa de Poseidon.
De repente, tudo ficou escuro. O medo me invadiu. E eu demorei um pouco para perceber que era apenas alguém tapando os meus olhos.
— Quem é? – perguntei.
— Seu irmão/professor, que eu sei que você adora. – ele disse enquanto tirava as mãos dos meus olhos.
— Oh, Drake! – encenei rindo — Você sabe que eu te amo! – tentei fechar a cara – Só que não.
— Engraçadinha. – Ele me abraçou e sentou-se ao meu lado – Eu soube que está tendo uma primeira semana bastante agitada, hein?
— É... – Respondi enquanto lançava à Annabeth um olhar significativo. Será que ela contou alguma coisa para ele?
— Ouvi dizer por aí que deu um show no jogo ontem. – Drake continuou.
— Annabeth! – Reclamei.
— O quê? – Ela fez cara de inocente.
— Contou para ele?
Ela deu de ombros.
— Drake, – disse eu – eu ficaria muito agradecida se você não contasse isso a ninguém, certo?
— Você que sabe, mana. – ele respondeu – Mas se EU tivesse me saído tão bem no meu primeiro Caça à Bandeira, eu com certeza contaria PRA TODO MUNDO.
Revirei os olhos.
— A propósito – Falei, mudando de assunto – Onde você estava noite passada? Não o vi no jogo, nem no jantar. Na verdade, não o vejo desde o incidente com o Sr. D. Você e Kyle nem se incomodaram em esperar que eu me recuperasse, não é?
Ele ergueu as mãos, desculpando-se.
— Nós tivemos uma missãozinha. – Respondeu – E antes que pergunte, Kyle agora está em uma reunião com o Conselho, reportando. Só deve estar livre depois do almoço.
— Qual foi a missão? Mais algum calouro? – Annabeth perguntou.
Ele assentiu.
Eu franzi a testa.
— Kyle é um sátiro Protetor, certo? – Falei – Então é natural que saia em busca de novos semideuses. Mas e quanto a você, Drake? Por que está sempre indo ao mundo mortal com ele?
Ele riu.
— Bom, é o meu segundo trabalho.
Fiz cara de quem não entendeu.
— Drake é um formado – Annabeth explicou – Ele chegou à maioridade e passou a viver no mundo mortal, com seu treinamento já concluído. Ou quase isso. De qualquer jeito, nos verões ele vem e nos ajuda com os alunos novos, as classes e etc. Durante o ano, às vezes pedimos que ele vá a alguma escola por um tempo para ficar de olho em alguém, como no seu caso.
Assenti, compreendendo.
— Então, quer dizer que você é um veterano? – Eu o cutuquei com o cotovelo.
— Ah não – Ele riu – Só damos o título de Veterano aos que se graduam, passam por guerras e se aposentam. Eu sou apenas o cara mais velho mesmo.
Coloquei mais uma garfada de panqueca na boca.
— Então, quem é o novato da vez? – Perguntei.
Mastigando sua própria comida, ele apontou para a mesa de Hermes.
— Um garoto, uns treze anos. Na verdade, nós só fomos busca-lo, Kyle não era seu Protetor. De qualquer jeito, estamos apostando dez dólares que ele é de Ares. Kyle acha que é de Hermes, mas aquele menino é genioso demais para isso. Quer entrar na aposta?
Ergui uma sobrancelha.
— Genioso, é? – Falei, mordendo uma bolacha – O que, ele bateu em Kyle quando ele tirou as calças?
— Como você sabia? – Drake respondeu, rindo e espalhando migalhas de pão na mesa.
— Por que foi o que eu quis fazer quando aconteceu comigo. – Dei de ombros – A propósito, Kyle faz isso com todos os semideuses que resgata?
— Chato, não é?! – Ele exclamou – Já conversamos sobre isso, mas não adianta. Acho que ele sente um prazerzinho em deixar os pobres coitados ainda mais confusos.
— Você também não foi de muita ajuda, com aquela história de “não sou completamente humano”. – acrescentei, apontando para ele – Para um filho de Atena, sua explicação foi muito sábia.
Ele revirou os olhos.
— Aquilo foi um contratempo. – justificou-se – Não esperava que você fosse ser tão direta quanto a isso.
— Como não? Kyle tinha uma bunda de bode! O que acha que eu esperava que tivesse debaixo das suas calças?
Ele me lançou um olhar gelado. Parei de mastigar.
— Calada, irmãzinha. Você é nova demais para pensar nessas coisas.
Engasguei.
— Pervertido! – Acusei.
Annabeth nos olhava como se fossemos dois loucos falando coisas sem sentido.
— Sinceramente... – Ela disse – Vocês não sabem engolir antes de falar?
Nós rimos.
Depois disso, a conversa mudou. Annabeth me falou sobre toda a programação do Acampamento que eu teria como caloura: Aulas de esgrima, arco e flecha, Grego Antigo e mais um monte de coisas, como aprender a voar em pégasus. A cada coisa citada, eu ficava mais animada.
— Quando terminarmos o café, teremos 30 minutos livres – Ela disse – Depois vamos para a aula de arco e flecha. Por enquanto, seus horários são iguais aos meus, exceto pelo Grego Antigo. O meu é o avançado, você vai para o inicial. De qualquer forma, você pode mudar suas aulas depois que se acostumar com tudo.
Quando o café terminou, fui procurar por Michael. Eu estava lhe devendo desculpas e, quanto mais cedo eu pedisse, melhor seria.
— Shayla! – chamei quando a vi passar.
Ela veio até mim saltitando feliz.
— May! – exclamou abraçando-me – Está planejando fazer disso um hábito? Você sumiu de novo ontem à noite?
Fiquei preocupada.
— Eu fui para o chalé. – falei, vagamente.
— Eu sei. Michael disse que você precisava de um tempo. O que aconteceu?
— Depois eu te conto. Onde Michael está?
— Ele disse que ia dar um tempo também. – respondeu – Deve estar na fronteira do Acampamento. No pinheiro de Thalia.
— Obrigada, Shay. Vejo você na aula!
E corri para a árvore de Thalia, onde o Velocino de ouro (o de verdade, Annabeth me contara) reluzia.
Michael estava sentado, encostado na árvore, como se o dragão que se enroscava nos galhos não o assustasse nem um pouco.
Respirei fundo, tentando desacelerar as batidas do meu coração. Eu não gostava muito daquele dragão. Ele me dava medo.
Com cuidado, eu me aproximei da árvore. Perguntei-me se deveria interromper seu momento, pois ele parecia tão mergulhado em pensamentos que nem me notou chegar. No entanto, eu queria consertar logo aquilo. Detestava estar brigada com ele, principalmente vendo seus olhos gentis com aquela expressão triste. Hesitante, sentei-me ao seu lado.
Mas não consegui obrigar-me a falar. Vários minutos se passaram, antes que ele abrisse a boca:
— Esse é o meu lugar favorito a essa hora. – ele murmurou, com os olhos fixos no horizonte.
Segui seu olhar. O sol ainda não estava muito quente, de modo que o leve calor que batia em meu rosto chegava a ser confortável. Uma leve brisa soprava, fazendo a verde grama ao nosso redor balançar. Eu podia ver a silhueta da cidade mais próxima: tão longe que não se ouvia nem mesmo seus barulhos mais estarrecedores. Algo para escutar? Sim. O balançar das folhas, o cantar dos pássaros, os murmúrios distantes dos campistas ao longe e a respiração pesada do dragão acima de nós.
Contemplando tudo, pude entender porque ele gostava daquele lugar.
— Eu... – comecei.
— Gosto daqui para ver o quanto estamos longe do mundo. – ele falou de repente.
Não o interrompi. Ele parecia imerso em pensamentos. Agia como se já soubesse o que eu diria, mas o primeiro a falar seria ele.
— Não há possibilidade de sermos normais. Os deuses dizem que os meio-sangue estão ligados tanto aos deuses quanto aos mortais. A verdade? Nós provavelmente não pertencemos a nenhum dos dois mundos. Nossa realidade é outra. Distante. Única. – ele fez uma pausa – Não é estranho?
Seus olhos pareciam focados em lugar algum. Os meus estavam focados nele.
Fiquei calada para que continuasse, mas então percebi que ele esperava uma resposta.
— Eu... acho que sim. – balancei a cabeça – Ainda estou tentando entender tudo isso...
— É complicado sim. Mas é a nossa vida, e isso – ele gesticulou indicando o Acampamento – é o que podemos fazer para torna-la melhor. Podemos não entende-la, mas precisamos vive-la. Sempre. Não dá para ignorar. Nós somos diferentes até entre nós mesmos.
Seguiu-se um momento de silêncio inquietante. Eu tentava pensar no que dizer e Michael parecia esperar que eu falasse.
— Eu... acho que era isso que eu não entendia. – comecei novamente — Sabe, acreditar em tudo não foi tão difícil. Eu fui atacada por um mostro, senti o poder de um deus quase me desintegrar, vi o efeito que a Ambrósia teve em mim. Tudo isso me deu motivos para acreditar. Mas viver desse jeito... isso é mais complicado.
Michael apenas ouviu calado.
— Desde criança – continuei – ouvi histórias sobre heróis gregos: Hércules, Perseu, Teseu. Grandes nomes da História. Nos livros, a vida dos semideuses sempre pareceu incrível, cheia de aventuras e recompensas... Só tenho dois dias aqui e já aprendi que essa não é a verdade. E só agora eu entendo os garotos de ontem. Se não aprendo a me defender aqui, lá fora vou ser morta. Eles precisavam agir como se realmente quisessem me matar. Eu preciso aprender a, bem, não morrer, e ajudá-los a fazer o mesmo.
Olhei para Michael. Seus olhos focavam suas mãos, que pareciam não saber onde se meter. Eles a enfiou nos bolsos.
— E eu queria dizer... – hesitei, mas me obriguei a falar: — Eu sinto muito por ter sido tão rude ontem. Acho que se eu tivesse te escutado, não teria passado a noite tão confusa. É que... Tem sido tão difícil não perder o controle – olhei minhas mãos – Tudo é tão intenso, eu simplesmente não consigo ter domínio sobre minhas emoções. E aqui É um bom lugar. Você é um bom amigo. Agora que entendo o real motivo de estar aqui... eu não quero mais ir embora. Desculpe-me por ter te magoado.
Ele sorriu. E finalmente olhou para mim. Eu nunca reparara antes, mas seus olhos tinham um brilho diferente: como se fosse uma fotografia que pegara a luz no ponto exato. Eles pareciam tremular entre o castanho claro e o dourado, dando um efeito fascinante.
Só de olhar, senti algo estranho vir à tona. Meu coração pareceu dar uma cambalhota. Desviei os olhos e os foquei no horizonte, esperando que minhas batidas cardíacas deixassem de frescura.
— Você não me magoou, May. – Michael falou – Eu sei o que é pensar desse jeito. Acredite, eu já pensei assim. Até que veio a guerra. Eu precisei lutar contra monstros muito mais fortes que eu. Precisei sobreviver.
Ele parou, e de repente seu olhar estava distante outra vez.
— A guerra... – falei – Ela...
— Trouxe muitas baixas. – Ele completou – Levou muita gente. Silena, Charles... Esses são apenas alguns nomes. A guerra quase ME levou. Eu tive sorte.
A curiosidade cresceu dentro de mim. Annabeth já me contara um pouco sobre a guerra, mas ninguém parecia disposto a contar tudo. No entanto, eu tinha a impressão de que Michael tivera sua própria experiência ruim durante o conflito.
— Michael... O que realmente aconteceu lá? Digo, com você?
Ele fez uma careta, como se aquela fosse uma lembrança que ele preferia não ter.
— O chalé de Apolo ficou com uma das pontes. Tínhamos que defendê-la. Nós não éramos exatamente os mais fortes e eu tinha a esperança de que Cronos escolheria outro lugar por onde começar a invasão em Manhattan, mas ele veio direto para nós. Suportamos por pouco tempo, até Percy chegar. Annabeth e ele eram os únicos reforços que tínhamos. Percy ordenou que recuássemos, mas eu fiquei. Os dois lutaram em uma sincronia incrível, porém Annabeth foi gravemente ferida. Eu e ele precisamos nos virar. Sem flechas e sem espada, tudo o que pude fazer foi tentar pensar, até que uma ideia me ocorreu. Bradei-a para Percy e ele executou o plano: a ponte ruiu e o exército de Cronos recuou. – ele suspirou, e seu rosto assumiu uma expressão mais grave — Mas eu caí junto com a ponte. Apaguei, ouvindo Percy gritar o meu nome. Quando acordei, estava no covil de Cronos. Eles me torturaram para que soltasse informações, mas eu resisti. A guerra acabou pouco tempo depois e o lugar foi abandonado. Eles me deixaram lá para apodrecer, mas cosegui escapar e cheguei ao Acampamento. Todos achavam que eu estava morto, já haviam até mesmo queimado minha mortalha.
Ele me olhou.
— Eu só estou vivo por causa deste lugar. Sem o treinamento de Quíron, jamais teria sobrevivido. Eu perdi muitos irmãos na guerra. Alguns amigos próximos. Mas sou grato por ter sobrevivido. Ainda tenho uma família aqui. Uma casa.
Assenti solenemente. Não que eu o entendesse. Eu não fora para uma guerra, não perdera irmãos, não perdera amigos, não fora torturada para dedurá-los e nem mesmo lutara contra monstros terríveis. Mas eu compreendia que lidar com isso não devia ser fácil.
Aparentemente, eu estava com uma cara de choro, pois Michael riu.
— Eu já superei isso, May. Não se sinta mal por essa história. Todos nós, meio-sangues, temos caminhos difíceis pela frente. Não nascemos sabendo ser heróis. E é por isso que esse lugar existe. É por isso que precisamos uns dos outros.
Dei um sorriso tímido.
— Você tem razão. – falei – Precisamos agir como uma família.
Ele sorriu de volta, mas então olhou para o vazio, exatamente como Shayla fazia de vez em quando. Depois, virou-se para mim e disse:
— Quer uma dica? Não se agarre à sua dor. Aprenda com ela e siga em frente.
“De onde saiu isso?” pensei, mas decidi não perguntar. Provavelmente era coisa de Apolo.
Michael se levantou e ajeitou a bermuda.
— E então, espertinha? – disse e eu ri – Vamos para a aula?
Ele estendeu a mão e eu a peguei, ficando de pé.
— Para eu poder acabar com você? Claro que sim!
— HA. HA. HA. Muito engraçado, você dizer que vai me vencer no arco-e-flecha quando mais ninguém nesse Acampamento o faz.
— Não me subestime, filho de Apolo.
— Você é que está me subestimando. Só que dessa vez, eu não vou deixar você ganhar. Até porque eu vou chegar lá PRIMEIRO!
Ele desatou a correr.
“Isso já está virando hábito!” pensei antes de disparar atrás dele.

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